A manhã seguinte ao enterro de Marianne nasceu com uma névoa fria que parecia esconder os pecados da noite anterior. O jardim, antes palco de um beijo desesperado e de uma humilhação cruel, agora era apenas um cenário silencioso para a desintegração final da família Lâfrer.


​O táxi aguardava com o motor ligado em frente à imponente fachada da mansão. Eloise, vestida com um terno cinza impecável e óculos escuros que escondiam os olhos inchados, abraçou Elara com força.

​— Cuida do papai, mãe. Eu volto no Natal... ou talvez nem isso — sussurrou ela, a voz carregada de uma fadiga emocional profunda.

​Richard apertou a mão da filha, um gesto contido, mas carregado de uma tristeza que ele não conseguia mais ocultar. Ele sentia que, ao deixar Eloise partir novamente, estava deixando escapar a última gota de alegria daquela casa.

​Antes de entrar no carro, Eloise parou. Como se um fio invisível a puxasse, ela olhou para cima. Na sacada do segundo andar, Derick estava parado. Ele não usava mais o terno do funeral; parecia um homem em ruínas, a silhueta emoldurada pela luz pálida da manhã.

​Eles se encararam à distância. O beijo da noite anterior ainda queimava nos lábios de ambos, mas o abismo entre eles agora era intransponível. Eloise sentiu uma onda de raiva misturada com desprezo — raiva dele por não ter coragem, raiva de si mesma por ainda se importar. Ela respirou fundo, soltou o ar com força e entrou no táxi sem olhar para trás. O carro arrancou, deixando para trás o rastro de fumaça e o cheiro de asfalto molhado.

​Dentro da Mansão

​Enquanto o táxi sumia no horizonte, o caos reinava no quarto de Derick. O som de cabides batendo e zíperes fechando ecoava pelo ambiente. Suzana, com o ventre de sete meses pesando, jogava suas roupas dentro de malas de forma desordenada.

​— Suzana, pare com isso! Você não pode sair daqui nesse estado! — Derick implorava, tentando segurar as mãos dela.

​— Não encoste em mim, Derick! — ela gritou, a voz embargada pelo ódio e pela humilhação. — Eu ouvi cada palavra daquela garota ontem! "Intrusa", "funcionária que engravidou do patrão"... E o pior de tudo foi ver que você não abriu a boca para me defender! Você ficou ali, parado, olhando para ela como se ela fosse uma deusa e eu um lixo no seu caminho!

​— Eu estava em choque, eu...

​— Você estava em transe! — ela o interrompeu, fechando a última mala com um solavanco. — Eu não vou criar meu filho num lugar onde o pai deseja a própria sobrinha. Eu não vou ser a sombra de um amor incestuoso e doentio. Eu quero o divórcio, Derick. Agora.

​— Suzana, pense no bebê... Richard nunca vai permitir que um Lâfrer nasça longe dessa casa!

​— Richard que se dane! O império de vocês está podre, cheira a mofo e segredos sujos! — Suzana caminhou até a porta, arrastando a mala com dificuldade. — Eu vou para a casa dos meus pais. Meus advogados entrarão em contato. E se a Eloise acha que é a dona da sua alma, que fique com ela. Mas do meu filho, vocês não terão nada além do sobrenome no papel.

​Ela saiu do quarto, deixando Derick sozinho no silêncio ensurdecedor de uma casa que, em menos de 24 horas, havia perdido sua matriarca, sua herdeira e, agora, o futuro de sua linhagem. O perfume da vitória que Richard tanto almejara havia se transformado na essência mais amarga de todas: a da solidão absoluta.