A Essência do Amor
4 A Reação Química
O clima na Lâfrer Essences estava tenso. Um lote inteiro da nova linha de fragrâncias de verão, que seria lançada em um evento exclusivo na próxima semana, apresentava um erro catastrófico: a nota de fundo estava oxidando rápido demais, transformando o perfume sofisticado em algo ácido e desagradável.
No laboratório privativo de Richard, que ficava anexo ao seu escritório, o químico-chefe parecia suar frio sob o olhar gélido do patrão.
— Eu não pago vocês para me darem desculpas, Dr. Arantes — disse Richard, a voz baixa e perigosa. — Eu pago por soluções. O lançamento é em cinco dias. Se esse lote for descartado, perderemos milhões.
— Senhor Lâfrer, a estabilização do polímero sintético está reagindo com o extrato de bergamota. Não conseguimos neutralizar a acidez sem perder a fixação — explicou o químico, com as mãos trêmulas.
Richard socou a mesa de metal, o som ecoando pelo andar.
— Saiam todos. Quero silêncio para pensar.
Lá fora, na copa, Elara ouvia os gritos abafados. Ela estava limpando o balcão quando viu os químicos saírem apressados, derrotados. Curiosa e movida por aquele instinto que a fizera amar a faculdade, ela se aproximou da porta entreaberta do laboratório.
Richard estava de costas, as mãos apoiadas na bancada, a cabeça baixa. Ele parecia, pela primeira vez, vulnerável diante de um problema que o dinheiro não podia resolver imediatamente.
Elara hesitou, mas viu o frasco da amostra sobre a bancada. O cheiro de oxidação era forte, mas ela conhecia aquela estrutura química. Ela já tinha estudado reações de esterificação em casos de oxidação cítrica antes de trancar o curso.
— Senhor Lâfrer? — chamou ela, a voz suave mas firme.
Richard virou-se bruscamente, os olhos injetados de irritação.
— Eu disse que queria silêncio, Srta. Jones! O que faz aqui?
— Eu... eu ouvi sobre o lote de verão. Se o problema é a oxidação da bergamota com o polímero... o senhor já tentou adicionar um agente quelante orgânico? — perguntou ela, dando um passo para dentro da sala sagrada dele.
Richard franziu o cenho, surpreso com o vocabulário técnico vindo da moça que, minutos antes, estava apenas lavando xícaras.
— O que você entende de agentes quelantes?
— O polímero está "sequestrando" os íons metálicos da essência cítrica — explicou Elara, aproximando-se da bancada com cautela. — Se o senhor usar uma base de extrato de semente de uva em baixa concentração, ela vai estabilizar a mistura sem alterar o aroma final. É química básica de preservação orgânica.
Richard a observou em silêncio por um longo minuto. A lógica dela fazia sentido. Era uma solução simples que seus especialistas, focados em sintéticos caros, haviam ignorado.
— Mostre-me — ordenou ele, apontando para o conjunto de béqueres e pipetas.
Elara sentiu o coração disparar. Ela vestiu um par de luvas descartáveis e, com movimentos precisos e elegantes, começou a manipular as substâncias. Richard observava cada gesto. Ele notou como as mãos dela, que antes serviam café com tanta humildade, agora se moviam com a autoridade de uma mestra.
Após alguns minutos, ela estendeu um novo frasco de teste para ele. Richard levou-o ao nariz. O cheiro ácido sumira. O que restava era a pureza do verão, exatamente como ele havia idealizado.
— Como você sabia a proporção exata? — perguntou ele, a voz agora num sussurro, quase sem fôlego.
— Eu passava as noites estudando isso enquanto cuidava da minha mãe no hospital — respondeu ela, retirando as luvas. — A química é como a vida, Sr. Lâfrer. Às vezes, você só precisa do elemento certo para equilibrar o que está estragado.
Richard olhou para o frasco e depois para Elara. Pela primeira vez em 32 anos, ele sentiu um impulso que não era calculado: ele queria saber tudo sobre aquela garota.
— Você não vai mais trabalhar na copa, Elara — disse ele, usando o nome dela pela primeira vez sem o sobrenome. — A partir de amanhã, você será minha assistente técnica pessoal aqui no laboratório.
Elara arregalou os olhos, a alegria brilhando intensamente.
— Mas... e o meu salário? Eu preciso ajudar minha mãe...
Richard deu um passo à frente, encurtando a distância entre eles. O perfume dele agora parecia mais quente, menos agressivo.
— Seu salário será triplicado. Considere isso um investimento em um talento que eu quase deixei escapar.
Os olhos deles se cruzaram. O ar entre os dois parecia carregado de uma eletricidade nova, uma reação química que nenhum dos dois conseguia explicar ou controlar.
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