O Porsche conversível de Eloise parecia uma nave espacial estacionada na frente da casa de Derick, em uma rua estreita e barulhenta da Zona Leste. O contraste era gritante: o brilho da pintura alemã contra o reboco aparente das casas vizinhas.

​Eloise desceu do carro, sentindo-se vulnerável pela primeira vez na vida. Ela ainda usava suas roupas de grife, mas o olhar curioso dos vizinhos a fazia querer se esconder atrás dos óculos escuros.


​Derick abriu um portão de ferro que rangia.

​— Bem-vinda ao meu laboratório, Lâfrer. Cuidado com o degrau.

​Ao atravessar o corredor estreito lateral da casa, Eloise parou, sem fôlego. O quintal não era grande, mas era uma explosão de vida. Não havia prateleiras de aço ou sensores de umidade. Havia vasos de barro, latas de tinta reaproveitadas e canteiros feitos de pneus, todos transbordando ervas, flores silvestres e raízes que exalavam um perfume denso e terroso.

​— Minha avó chamava isso de "Jardim da Cura" — disse Derick, agachando-se perto de um arbusto de flores miúdas e brancas. — É aqui que está a nota de fundo que a sua "Linha Aurora" precisa. O Patchouli do Mato.

​Eloise aproximou-se, esquecendo-se da poeira em seus sapatos caros. Ela se ajoelhou ao lado dele. Derick esfregou uma folha entre os dedos e a levou ao nariz dela.

​— Sente isso? Não é apenas amadeirado. É úmido, tem cheiro de chuva que acabou de cair na terra quente. É o que dá fixação sem ser pesado.

​Eloise fechou os olhos, absorvendo o aroma. Era visceral. Era a peça que faltava no quebra-cabeça.

​— É... primitivo — sussurrou ela, abrindo os olhos e encontrando os dele. — Por que você nunca levou isso para a empresa? Você teria sido contratado na hora, sem precisar de bolsa.

​Derick deu um sorriso amargo, desviando o olhar para as plantas.

​— Porque na sua empresa, eles querem o resultado puro em um frasco de cristal. Eles não querem a terra sob as unhas, Eloise. Eles não querem saber que essa planta cresceu ouvindo o barulho do ônibus e sendo regada com água da chuva guardada em balde. Eles querem a estética, não a raiz.

​Eloise sentiu uma pontada de culpa. Ela olhou para a própria vida, para as salas com ar-condicionado e para os relatórios de lucro. Ela percebeu que, por mais que estudasse, ela era uma observadora. Derick era parte do processo.

​— Eu quero a raiz — disse ela, a voz firme. — Eu quero que a "Linha Aurora" conte essa história.

​Derick olhou para ela, surpreso pela sinceridade na voz da "Princesinha do Gelo". Houve um silêncio carregado entre eles, interrompido apenas pelo som de rádio vindo da casa vizinha.

​— Você está falando sério? Seu pai vai odiar. Ele quer algo comercial, algo que cheire a "luxo sustentável", não a "quintal de vó".

​— Meu pai respeita o que funciona — retrucou Eloise, levantando-se e limpando os joelhos. — E isso aqui... isso funciona melhor do que qualquer sintético que tenhamos no estoque. Vamos levar uma muda. Vamos provar para eles.

​Derick sorriu, mas desta vez não foi um sorriso de deboche. Foi um sorriso de cumplicidade.

​— Você é teimosa, Lâfrer. Igualzinha ao Velho Richard.

​— E você é insolente, Deverro. Mas... você tem razão sobre a terra.

​Eles passaram a tarde ali, colhendo amostras e conversando. Eloise ouviu histórias sobre como Derick passava as noites estudando sob a luz de um abajur velho para conseguir a bolsa, enquanto ele ouvia sobre a pressão de ser a herdeira de um legado perfeito. Pela primeira vez, a inveja de Eloise se transformou em algo diferente: um desejo de que o mundo visse o talento de Derick tanto quanto ela agora via.

​Ao voltarem para o carro, o sol estava se pondo. A tensão entre eles não era mais apenas competitiva; era algo que fazia o ar dentro do Porsche parecer rarefeito.

​— Sexta-feira é a apresentação — disse Derick, enquanto ela ligava o motor. — Se a gente falhar, eu perco a bolsa e você perde a sua primeira chance de liderar.

​— Nós não vamos falhar — Eloise olhou para ele, os olhos castanhos brilhando com a determinação dos Lâfrer Jones. — Porque agora, nós temos a essência.