Nos dez dias que se seguiram, a rotina na mansão Lâfrer mudou drasticamente. Richard e Elara, acostumados a ver a filha descer para o café da manhã com cada fio de cabelo loiro no lugar e conjuntos de alfaiataria impecáveis, agora observavam uma estranha transformação.

​Eloise passava correndo pela cozinha às cinco da manhã, vestindo jeans práticos, botas sujas de terra e o cabelo preso em um coque desordenado.

​— Ela nem olhou no espelho hoje — comentou Richard, segurando sua xícara de café enquanto observava o carro da filha partir. — E notei manchas de clorofila nas mãos dela ontem à noite. Ela não quis ir à manicure.

​Elara sorriu, um brilho de reconhecimento nos olhos.

​— Ela está com o olhar faminto, Richard. O mesmo olhar que eu tinha quando ficava madrugadas no laboratório tentando provar que você estava errado. Ela não está mais preocupada em parecer uma herdeira... ela está se tornando uma criadora.


​O auditório da diretoria estava silencioso. Richard e Elara ocupavam as poltronas centrais, cercados pelos chefes de departamento. Na bancada de apresentação, Eloise e Derick estavam lado a lado.

​Eloise não usava joias. Suas unhas estavam curtas e limpas, mas sem esmalte. Ela exalava uma confiança que não vinha do sobrenome, mas do conhecimento. Ao lado dela, Derick mantinha a postura ereta, segurando o frasco de cristal que continha a amostra final da "Linha Aurora".

​— O briefing pedia "Luxo Sustentável" — começou Eloise, sua voz ecoando com clareza. — Mas nós decidimos que o luxo não está na raridade sintética, mas na verdade da terra.

​Ela fez um sinal para Derick, que abriu o frasco. O sistema de ventilação do auditório espalhou a fragrância.

​O impacto foi imediato. Richard fechou os olhos. Elara inclinou o corpo para frente, inspirando profundamente. Não era um perfume comum. Era uma jornada: começava com a pureza gelada da orquídea ao amanhecer e terminava com o abraço quente, úmido e ancestral do Patchouli do Mato que Eloise trouxera do quintal de Derick.

​— Esta nota de fundo... — Elara murmurou, os olhos brilhando de emoção. — Ela tem "pulsação". Ela não é estéril. Onde vocês conseguiram esse extrato?

​— Em um jardim que não consta nos catálogos de luxo, mãe — respondeu Eloise, olhando brevemente para Derick. — Um jardim que sobrevive ao asfalto.

​Richard levantou-se, caminhando até a bancada. Ele analisou o frasco e depois olhou para o rapaz ao lado da filha. Ele viu a cumplicidade silenciosa entre os dois — a forma como Eloise confiava no instinto de Derick e como Derick protegia a visão de Eloise.

​— É ousado — sentenciou Richard, a voz grave. — É arriscado colocar um aroma tão "terroso" em uma linha de alto padrão. Pode ser um fracasso retumbante ou a maior revolução da nossa história.

​Houve um silêncio tenso. Derick apertou a borda da bancada, sentindo que sua bolsa de estudos dependia do próximo segundo.

​— No entanto — continuou Richard, um lampejo de orgulho cruzando seu rosto — é a primeira vez em anos que eu sinto que um perfume da nossa empresa tem vida.

​Elara levantou-se e aplaudiu, sendo seguida pelo restante da diretoria.

​— Parabéns, Eloise. Parabéns, Derick. A Linha Aurora está aprovada para produção imediata. E Derick... a sua bolsa acaba de ser convertida em um contrato de pesquisador júnior. Não podemos deixar um talento desses escapar para a concorrência.

​No meio da comemoração, Eloise e Derick se olharam. A inveja que começara no primeiro capítulo havia morrido, dando lugar a algo muito mais potente.

​— Eu te disse que a gente conseguiria — sussurrou Eloise, sentindo o coração bater acelerado.

​— Você quem mandou bem, Lâfrer — Derick sorriu, aproximando-se um pouco mais do que o protocolo profissional exigia. — A "Princesinha do Gelo" acabou de descobrir que gosta de se sujar de terra.

​— Só se for com você, Deverro — ela rebateu, com um brilho desafiador nos olhos.

​Eles não sabiam, mas no fundo da sala, Richard e Elara se entreolharam. Eles já tinham visto aquele filme antes. A história estava se repetindo, mas com uma nova e vibrante fragrância.