A revelação de Eloise caiu como um silêncio ensurdecedor no pequeno apartamento em que ela vivia durante a faculdade. Elara, que esperava encontrar uma filha rebelde ou meramente orgulhosa, deparou-se com uma mulher fragmentada pelo peso de um sentimento que a biologia e a moral transformaram em uma prisão.


​Elara segurou as mãos da filha, sentindo-as geladas. O olhar de Eloise não tinha mais o brilho desafiador das reuniões de diretoria; tinha a opacidade de quem desistiu de lutar contra a própria natureza.

​— Eloise... meu amor, você tem consciência do que está dizendo? — Elara sussurrou, a voz embargada pela preocupação.

​— Eu tentei, mãe. Eu juro que tentei odiá-lo por ser "invasivo", por ser pobre, por ser diferente... Mas toda vez que a gente entrava naquela estufa, não era sobre o império do papai. Era sobre como ele me enxergava. Ele foi o único que viu a Eloise botânica, não a "herdeira Lâfrer Jones".

​Eloise levantou-se e caminhou até a janela, observando o movimento da rua.

​— Quando descobrimos que ele era irmão do papai... que ele era meu tio... o mundo desabou. Eu me senti suja por sentir o que sentia. E vê-lo com a Suzana, vendo ele dar a ela o lugar que era o nosso lugar... eu não aguento, mãe. Cada foto, cada notícia do casamento foi como uma dose de veneno.

​— É por isso que você o tratou tão mal? As mensagens, o gelo... — Elara começou a entender a mecânica da dor da filha.

​— O ódio foi a única ferramenta que sobrou para eu não me declarar e destruir a nossa família — confessou Eloise, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos olhos castanhos. — Por isso, eu já decidi. Assim que eu pegar o meu diploma, vou para a filial de Nova York. Vou me enterrar no trabalho lá. O papai sempre quis expandir a linha de orgânicos nos Estados Unidos. Eu serei a CEO de lá. Mas eu não volto para o Brasil enquanto ele estiver naquela casa. Não aguentaria ver o amor dele com outra sem gritar que deveria ser eu.

​Elara sentiu um aperto no coração. Ela conhecia a intensidade dos Lâfrer; vira Richard lutar contra fantasmas por anos. Agora, sua filha estava se autoexilando para salvar a integridade do clã.

​— Nova York é longe, Eloise. Você vai se isolar de nós também? Da sua avó Marianne?

​— É o preço da minha sanidade, mãe. Peça ao papai para organizar a transferência. Diga a ele que eu quero um desafio maior. Não conte a verdade para ele... ele nunca entenderia. Ele veria isso como uma falha de caráter, e eu prefiro que ele me ache arrogante do que pecadora.

​Elara abraçou a filha com uma força que tentava curar o que a genética e o destino haviam quebrado. Ela sabia que, a partir daquele dia, o perfume da família teria uma nota de saudade eterna.

​A "Essência do Amor" havia se tornado, para Eloise, a essência do sacrifício.