A Esposa Perfeita
26 Sangue e Silêncio
Notas iniciais
Capítulo 26 — Sangue e Silêncio
O ar em Milão parecia ter congelado antes mesmo da neve cair. Dentro da cobertura, a tensão era um fio de navalha esticado ao máximo. Edward estava no escritório, os gritos abafados ao telefone enquanto tentava, por meio de contatos escusos, embargar o pouso do jato de Jasper. No corredor, o silêncio foi subitamente estilhaçado por um som surdo, seguido de um arquejo que fez o sangue de Bella parar.
Bella encontrou Alice caída junto à mesa de mármore. O rosto da pequena Cullen era da cor da cera, e suas mãos apertavam o ventre com uma força desesperada.
— Bella... dói. Está doendo muito — sussurrou Alice, os olhos arregalados de puro terror.
O pânico de Bella foi instintivo, mas a lógica cruel da farsa a atingiu como um soco. Ela não podia discar o número de emergência italiano. Se paramédicos públicos entrassem ali e registrassem a gravidez de Alice, a vida de todos estaria acabada antes de Jasper sequer tocar o solo. Ela gritou por Edward, que surgiu no corredor com o rosto desfigurado pela urgência.
— Para a clínica. Agora! — ordenou Edward, pegando Alice nos braços.
A viagem até a unidade clandestina que Edward havia financiado foi um borrão de luzes da cidade e o som da respiração falha de Alice. Bella segurava a mão da amiga, sentindo o calor esvair-se dela. Quando o médico de confiança de Edward as recebeu, a porta da sala de exames se fechou, deixando a verdade do lado de dentro e o medo do lado de fora.
Vinte minutos depois, o médico saiu. Ele não precisou dizer nada; a derrota estava escrita em seus ombros. Alice havia perdido o bebê. O estresse extremo, a fuga e a fragilidade de sua condição haviam cobrado o preço mais alto.
Edward desabou contra a parede do corredor estéril, cobrindo o rosto. Bella entrou no quarto e encontrou Alice em um estado de choque catatônico, olhando para o teto com lágrimas silenciosas escorrendo pelas têmporas. A culpa corroeu Bella por dentro; ela sentia que aquele sangue estava em suas mãos por ter aceitado fazer parte daquele jogo de poder.
Foi então que Edward entrou no quarto. Seus olhos não estavam mais úmidos; eles estavam gélidos, assumindo a faceta do homem que sacrifica qualquer coisa para sobreviver.
— Escutem bem. — A voz dele era um sussurro de comando. — O Jasper está no pátio da clínica. Ele seguiu o rastro do meu carro desde o aeroporto. Se ele entrar aqui e vir a Alice nesse estado, ele vai somar dois mais dois.
— Edward, ela acabou de perder um filho! — Bella protestou, horrorizada.
— E é por isso que, para o mundo, **você** acabou de perder o seu. — Edward segurou os ombros de Bella com força. — Alice não pode ser a mãe enlutada. Ela tem que ser a acompanhante dedicada. Bella, você vai assumir essa dor. Você vai deitar naquela maca e vai ser a mulher que perdeu o herdeiro dos Cullen. É a única forma de salvarmos a Alice do Jasper e de mantermos o contrato vivo.
Bella olhou para Alice, que apenas fechou os olhos e assentiu minimamente, entregando seu luto para a amiga como quem entrega o último resto de dignidade. Bella sentiu-se um monstro. Ela estava prestes a "roubar" a maior dor da vida de sua amiga para alimentar uma mentira corporativa.
Minutos depois, Jasper atravessou as portas da ala privada. Ele não parecia um vilão; parecia um homem movido por uma obsessão que ele chamava de verdade. Ele parou diante da porta de vidro, e o que viu o fez hesitar pela primeira vez.
Bella estava deitada na cama hospitalar, pálida, com os olhos inchados de um choro que era 100% real, embora a causa fosse outra. Alice estava sentada ao lado dela, segurando sua mão, com o rosto escondido nas sombras, desempenhando o papel de irmã e cunhada solidária. O ambiente exalava a melancolia pesada e o cheiro metálico de uma tragédia biológica.
Edward não estava lá; ele havia saído para "lidar com a papelada", deixando as duas sozinhas na encenação. Jasper entrou no quarto devagar. Seu olhar buscou Alice primeiro, mas a visão de Bella — destruída, sem a barriga de silicone, coberta por lençóis brancos — o atingiu.
— Eu sinto muito, Isabella. — A voz de Jasper foi baixa, desprovida do sarcasmo habitual. Pela primeira vez, ele viu o que acreditava ser a vulnerabilidade humana desmascarada. Ele acreditou. A dor de Bella era tão visceral que ele não pôde duvidar da perda do bebê. — Eu vim para resolver as coisas, mas não esperava... isso.
Alice não olhou para ele. Ela apertou a mão de Bella com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Vá embora, Jasper — sussurrou Alice, sem desviar o olhar da cama. — Você já conseguiu o que queria. A farsa da "felicidade perfeita" que você tanto odiava acabou. Deixe a Bella descansar.
Jasper olhou para as duas, sentindo um lampejo incômodo de humanidade. Ele achava que estava caçando uma mentira, mas ali, diante do choro convulsivo de Bella (que chorava pela perda da amiga, pela própria alma e pela teia de mentiras), ele sentiu que havia vencido uma guerra que não queria mais lutar. Sem dizer mais nada, ele recuou e saiu do quarto.
No silêncio que se seguiu, Bella abraçou Alice. As duas choravam juntas, unidas por um segredo que agora era feito de carne e sangue real. A mentira de Edward havia vencido, o império estava seguro e Jasper havia sido neutralizado. Mas o preço fora o luto de Alice, que agora teria que viver o resto da vida vendo o mundo lamentar a perda de um filho que Bella nunca teve, enquanto ela, a verdadeira mãe, permanecia vazia e em silêncio.
O som dos passos de Jasper no corredor de mármore da clínica era como um metrônomo marcando o fim da paciência de Edward. Ele esperou Jasper sair do quarto de Bella, parado nas sombras do pátio externo, onde a chuva de Milão começava a lavar as pedras antigas.
Quando Jasper cruzou a porta de vidro, Edward avançou. Não houve palavras, avisos ou a diplomacia gélida que costumava ditar o relacionamento deles. Edward descarregou meses de fúria represada, medo e o peso da culpa em um soco direto que atingiu o maxilar de Jasper, jogando-o contra a parede de pedra.
— Você não tinha o direito! — rugiu Edward, a voz rouca, partindo para cima dele antes que Jasper pudesse se recuperar.
Edward agarrou o colarinho de Jasper e o arremessou contra um banco de ferro, desferindo outro golpe que abriu o supercílio do primo. O sangue, vermelho e real, contrastava com a limpeza estéril da clínica.
— Ela perdeu o filho, Jasper! — Edward gritou, a mentira saindo de sua boca com uma convicção violenta. — Você veio até aqui, você as caçou como se fossem criminosas, você causou esse estresse! Você matou o meu herdeiro com a sua obsessão doentia por uma verdade que só existe na sua cabeça!
Jasper, com o rosto manchado de sangue e o fôlego curto, tentou se levantar, mas Edward o chutou na costela, derrubando-o novamente na lama do jardim. A ambição de ambos agora se manifestava em sua forma mais primitiva: a violência física.
— Eu só queria... a Alice... — Jasper tossiu, engolindo o próprio sangue, os olhos fixos em Edward. Pela primeira vez, a certeza absoluta de Jasper estava abalada. Ele viu o ódio nos olhos de Edward e, pela dor física e pela cena que acabara de presenciar no quarto, ele acreditou que havia destruído algo sagrado.
Edward o puxou pelo terno caro, agora arruinado, e o prensou contra a grade de ferro.
— Se você chegar perto da minha esposa ou da minha irmã novamente, eu não vou usar advogados ou o conselho. Eu vou acabar com você com as minhas próprias mãos. — Edward desferiu um último golpe, um soco no estômago que deixou Jasper sem ar, caído no chão molhado.
Edward se afastou, limpando o sangue de Jasper de seus próprios nós dos dedos, sua respiração pesada criando nuvens no ar frio. Ele olhou para o primo caído — o homem que buscava a verdade — e sentiu uma satisfação doentia. Ele havia vencido. Jasper fora neutralizado pela própria humanidade ferida.
Edward voltou para dentro, ajeitando o terno e recuperando a máscara de CEO, deixando Jasper para trás, na chuva, sangrando por uma mentira que agora era a única verdade que o mundo conhecia. A surra não fora apenas por Alice ou pela farsa; fora o ato final de um homem que decidiu que, para manter seu império, ele precisava ser o vilão que todos acreditavam que Jasper era.
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