A Esposa Perfeita
11 Quando tudo floresce
Capítulo 11
Paris parecia mais silenciosa naquele fim de tarde.
Não porque estivesse vazia, pelo contrário, as ruas ainda estavam cheias, as vozes misturadas em diferentes idiomas, passos apressados, risadas, o som distante de um acordeão perdido em alguma esquina, mas havia algo diferente no ar, como se o tempo tivesse diminuído o ritmo apenas o suficiente para que certos momentos pudessem acontecer do jeito que precisavam acontecer.
Bella não percebeu de imediato, para ela, era apenas mais um dia.
Outro passeio.
Outro cenário impossível.
Outro pedaço de um sonho que ela ainda não tinha decidido se queria acordar.
Ela caminhava ao lado de Alice, ouvindo algo sobre vitrines e coleções, mas sua atenção escapava com frequência, desviando para Edward alguns passos atrás, conversando com Carlisle. Havia algo nele naquele dia… diferente. Não distante, não frio, apenas mais silencioso, como se estivesse carregando um pensamento que não queria dividir.
E, ainda assim os olhos dele sempre voltavam para ela.
Sempre.
— Você está distraída — comentou Alice, estreitando os olhos com um sorriso curioso.
Bella piscou, voltando para o presente.
— Só… cansada.
Alice inclinou levemente a cabeça.
— Mentirosa.
Bella riu baixo, mas não respondeu.
Porque, no fundo não era cansaço , era sensação.
Aquela mesma que vinha crescendo desde o dia anterior.
Aquela que ela não queria nomear.
O caminho mudou sem que Bella percebesse exatamente quando.
As ruas ficaram mais estreitas, mais tranquilas, menos turísticas. O barulho da cidade foi ficando para trás, substituído por um silêncio mais íntimo, interrompido apenas pelo som leve de passos sobre o chão de pedra e o vento suave que carregava o perfume das flores espalhadas ao longo do caminho.
Foi Alice quem parou primeiro.
— Aqui.
Bella franziu a testa, olhando ao redor.
— Aqui… o quê?
Mas ninguém respondeu de imediato.
Porque Edward já não estava mais ao lado de Carlisle.
E, por um segundo…
o mundo pareceu segurar a respiração.
O lugar era aberto, mas escondido.
Um terraço elevado, com vista para a cidade inteira, onde o céu começava a se tingir de tons dourados e rosados, o sol descendo lentamente no horizonte como se estivesse sendo cuidadosamente colocado ali apenas para aquele momento. Havia flores espalhadas pelo chão, discretas, naturais, como se sempre tivessem pertencido àquele espaço.
E então…
a música começou.
Suave.
Quase tímida no início.
Um violino.
Depois outro.
E, aos poucos, algo maior se formando, como se o próprio ar estivesse se preenchendo de som.
Bella virou o rosto lentamente.
— O que…?
E foi quando viu.
Edward.
Ele não estava no centro.
Não imediatamente.
Ele caminhava em direção a ela com passos calmos, firmes, vestindo algo mais simples do que o habitual, mas ainda assim impecável, como se tivesse escolhido cada detalhe com intenção. Em uma das mãos, um buquê de rosas — grande, sim, mas não exagerado, não chamativo… apenas intenso.
Como ele.
Como aquilo tudo.
Bella não se moveu.
Não conseguiu.
Porque algo dentro dela…
já sabia.
— Bella…
A voz dele saiu mais baixa do que o normal.
Mais… verdadeira.
Ele parou a poucos passos dela.
E, por um segundo…
não disse nada.
Apenas olhou.
Como se estivesse tentando guardar cada detalhe daquele momento antes de transformá-lo em palavras.
— Eu pensei em mil formas de fazer isso… — começou ele, passando a mão livre pelos cabelos de forma distraída, algo raro nele — Todas pareciam… planejadas demais.
Ele soltou uma pequena respiração.
— E você nunca foi algo que eu consegui planejar.
Bella sentiu o coração apertar.
Forte.
Descompassado.
— Era pra ser simples… — continuou ele, o olhar fixo nela — Era pra ser só… fácil.
Pausa.
Um passo mais perto.
— Mas você complicou tudo.
O canto dos lábios dela tremeu.
— Porque você não é fácil — disse ele, mais baixo — E eu não quero que seja.
O silêncio ao redor já não existia mais.
A música, o vento, a cidade… tudo parecia distante.
Porque, naquele momento…
era só eles.
— Eu não sei quando isso deixou de ser o que era pra ser… — a voz dele vacilou pela primeira vez, quase imperceptível — Mas eu sei exatamente quando começou a importar.
Ele levantou levemente o buquê.
— Foi quando você entrou na minha vida… e não saiu mais.
Bella prendeu a respiração.
— Eu não sou bom com isso… — continuou ele, um leve sorriso surgindo, quase irônico — Com sentimentos, com palavras… com nada que não possa ser controlado.
Pausa.
Os olhos dele suavizaram.
— E você tirou todo o controle de mim.
Aquela frase…quebrou alguma coisa dentro dela.
Atrás, Esme levou a mão ao peito.
Alice já estava com os olhos brilhando.
Carlisle observava em silêncio, orgulhoso.
E Jasper…
Jasper não estava analisando.
Não naquele momento.
Ele apenas olhava.
E, pela primeira vez…não parecia desconfiado.
Edward deu mais um passo.
Mais perto.
— Eu não sei fazer promessas bonitas… — disse ele — Mas eu sei o que eu sinto quando estou com você.
Pausa.
— E eu sei o que eu não sinto quando você não está.
Bella sentiu os olhos arderem.
— Eu sei que não quero mais dias sem você — continuou ele — Não quero mais momentos em que você não esteja lá… me irritando, me provocando… me fazendo sentir coisas que eu nunca quis sentir.
Um leve riso escapou dela.
Molhado.
Frágil.
— Então… — ele respirou fundo — Fica comigo de verdade...Para o resto da minha vida...
Silêncio.
E então…ele se ajoelhou.
O mundo parou.
De verdade.
A caixa surgiu em sua mão.
O anel brilhava sob a luz do pôr do sol.
Mas não era isso que importava.
Era ele.
Ali.
Diante dela.
Sem controle.
Sem máscaras.
— Casa comigo, Bella.
O tempo não passou.
Ele se esticou.
Se alongou.
Se perdeu.
Bella não respondeu, não com palavras, porque não havia palavras suficientes.
Ela apenas respirou.
Uma vez.
Duas.
E então deu um passo à frente.
As mãos dela tocaram o rosto dele com cuidado, como se ele pudesse desaparecer a qualquer momento.
E antes que ele pudesse entender…
ela o puxou e o beijou.
Não foi um beijo ensaiado.
Não foi delicado.
Não foi controlado.
Foi…sentido, completo, confuso, intenso e , naquele momento…real.
O mundo voltou em aplausos suaves.
Em risadas emocionadas.
Em lágrimas que ninguém tentou esconder.
Esme chorava.
Alice sorria como se tivesse acabado de ganhar o melhor presente do mundo.
Carlisle assentia, satisfeito.
E Jasper…
Jasper soltou um pequeno riso, baixo e quase imperceptível.
Mas verdadeiro, porque, pela primeira vez…Nem ele conseguia negar.
O jantar aconteceu sob uma luz mais suave do que qualquer outro momento daquela viagem.
Era como se Paris, mais uma vez, tivesse decidido conspirar a favor deles.
A mesa estava posicionada em um terraço reservado, cercada por pequenas luzes douradas que piscavam discretamente, como estrelas baixas, enquanto ao fundo a cidade brilhava em silêncio. O som distante de conversas e música se misturava ao tilintar leve de taças sendo erguidas, criando uma atmosfera íntima, apesar da presença de todos.
Bella ainda não tinha conseguido processar completamente o que havia acontecido.
O anel em sua mão parecia pesado.
Não pelo valor, mas pelo significado ou pelo que deveria significar.
E, ainda assim…ela não conseguia tirar os olhos dele.
Edward estava ao seu lado, mais próximo do que o habitual, como se aquele gesto simples de permanecer ali fosse, de alguma forma, necessário. A mão dele repousava sobre a dela com naturalidade, os dedos fazendo movimentos lentos, quase distraídos, como se estivessem acostumados àquele toque há muito mais tempo do que realmente estavam.
— Eu ainda não acredito… — murmurou Alice, levando a taça aos lábios, os olhos brilhando de emoção enquanto olhava de um para o outro — Vocês dois… isso—Ela parou, sorrindo.— Faz sentido.
Esme apertou levemente a mão de Carlisle.
— Faz mais do que sentido...O amor... — completou, a voz carregada de carinho — É… bonito.
Bella desviou o olhar por um segundo.
Porque aquilo…doía.
Não pela situação, mas pela verdade escondida dentro dela.
Edward percebeu, sem que ela precisasse dizer nada.
A mão dele apertou a dela com um pouco mais de firmeza, e quando ela virou o rosto, encontrou o olhar dele já nela.
Silencioso.
Mas presente.
— Você está bem? — perguntou ele, baixo, inclinado levemente na direção dela.
Bella sustentou o olhar.
Por um segundo.
Dois.
E assentiu.
— Estou.
Ele não pareceu completamente convencido, mas não insistiu.
Apenas aproximou mais o corpo e , sem chamar atenção, encostou os lábios na lateral do rosto dela.
Um gesto simples, mas que fez o coração dela acelerar.
O jantar seguiu leve.
Surpreendentemente leve.
Conversas fluíam com naturalidade, Alice dominava metade delas, Jasper participava com comentários pontuais, ainda observador, mas menos rígido, Carlisle mantinha a postura serena, e Esme… Esme parecia genuinamente feliz e Bella percebeu.
Percebeu nos pequenos detalhes.
Na forma como Esme olhava para ela, como sorria..como se já a considerasse parte daquilo.
E aquilo…mexeu com ela mais do que deveria.
Edward a puxou levemente pela cintura em determinado momento, afastando-a um pouco da mesa, levando-a até o parapeito do terraço.
— Está fugindo? — murmurou ele.
Bella soltou um pequeno sorriso.
— Só… respirando.
Ele se posicionou atrás dela, as mãos firmes na cintura dela, o corpo próximo o suficiente para que ela sentisse o calor dele mesmo através do tecido.
— Você foi incrível hoje — disse ele, a voz mais baixa agora, quase no ouvido dela.
Bella virou o rosto de leve.
— Foi atuação.
Ele negou com a cabeça.
— Não foi, Bella...
Pausa.
— Você encantou todo mundo.
Ela desviou o olhar.
— Isso não era difícil...Você preparou tudo...
Ele soltou um pequeno riso.
— Era...Para mim era, porque saiu completamente do meu controle...
E, antes que ela pudesse responder…ele a virou.
De frente para ele.
As mãos subiram levemente, tocando o rosto dela com cuidado e então ele beijou.
O beijo não tinha pressa.
Não precisava.
Era mais lento.
Mais consciente.
Mais… presente.
Como se nenhum dos dois estivesse tentando provar nada.
Apenas sentir.
E, por um instante…foi suficiente para fazer Bella esquecer.
Esquecer do acordo.
Do motivo.
Da mentira.
Mais tarde, quando voltaram para dentro, Edward pegou o celular com naturalidade, ainda com um leve sorriso no rosto, deslizando os dedos pela tela enquanto selecionava algumas fotos.
Bella observou de longe.
Curiosa.
— O que você está fazendo? — perguntou, aproximando-se.
Ele virou a tela na direção dela.
As fotos.
O pôr do sol.
As rosas.
O momento do pedido.
E… o beijo.
Aquele.
— Estou tornando isso oficial — disse ele, com um tom leve, mas firme.
Antes que ela pudesse reagir, ele já havia postado.
Em colaboração com ela.
Bella piscou.
— Edward...
— Agora todo mundo sabe — completou ele, simplesmente.
Ela olhou para a tela e sentiu, mais uma vez…o peso.
O quarto os recebeu diferente daquela noite.
Mais preparado.
Mais… intencional.
Havia flores espalhadas pelo espaço, pétalas sobre a cama, velas acesas criando uma iluminação suave e quente, e uma garrafa de champanhe já aberta sobre a mesa, como se alguém tivesse antecipado exatamente o que aquele momento representava.
Bella parou na porta.
— Isso é…
— Demais? — completou Edward, encostando-se levemente ao lado dela.
Ela soltou uma pequena risada nervosa.
— Um pouco.
Ele a observou por um segundo.
E então…
— Ou suficiente?
Ela não respondeu.
Porque ele já estava se aproximando.
O beijo veio primeiro.
Mais intenso do que antes.
Mais urgente.
Como se todo o controle que haviam mantido até ali estivesse, aos poucos, se desfazendo. As mãos dele deslizaram pela cintura dela, puxando-a para mais perto, enquanto os dedos dela se perderam no tecido da camisa dele, segurando, aproximando, sem pensar muito no que estava fazendo.
O ar pareceu mudar.
Ficar mais quente.
Mais denso.
Mais… perigoso.
— Bella… — murmurou ele contra os lábios dela, a voz mais baixa, carregada de algo que ele já não tentava esconder.
Ela não respondeu com palavras.
Apenas se aproximou mais.
E aquilo…foi resposta suficiente.
O momento se intensificou.
A proximidade aumentou.
Os gestos ficaram mais firmes.
Mais decididos.
E, por um segundo…pareceu inevitável.
Até que...O celular vibrou.
Alto demais.
Fora de hora demais.
Quebrando completamente o silêncio.
Bella parou.
Edward fechou os olhos por um segundo, claramente irritado.
— Ignora — murmurou ele.
Mas o telefone não parou.
Ela se afastou levemente.
— E se for importante?
Ele soltou um suspiro, pegou o celular e atendeu.
A tela iluminou o rosto deles.
E, do outro lado…Emmett.
Sorrindo.
Demais.
— FINALMENTE! — disse ele, alto demais — A gente estava esperando vocês atenderem!
Rosalie apareceu ao lado dele, cruzando os braços.
— Demorou, hein.
O silêncio caiu.
Pesado.
Instantâneo.
Bella desviou o olhar.
Edward passou a mão pelos cabelos.
— O que vocês querem? — perguntou, já mais frio.
Emmett riu.
— Só lembrar vocês que isso tudo ainda é um acordo.
E, naquele instante…tudo voltou como um banho frio.
O quarto ainda estava lindo, as velas ainda estavam acesas.
O champanhe ainda estava ali, mas o clima tinha desaparecido, completamente e Bella abraçou os próprios braços e o olhar distante.
— A gente sabe — murmurou ela, mais baixa.
Edward não disse nada, mas o maxilar travado dizia tudo e eles voltaram a lembrar.
Que, por mais real que parecesse aquilo ainda era uma mentira.
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