Notas iniciais
Olá. Ninguém perguntou, mas se eu tivesse que escolher uma música para Ivy e Thale seria Take Me To Church (Hozier). Me faz lembrar deles. Enfim, vamos ao penúltimo capítulo.

—Você faria isso?-Ivy perguntou, sentada num canto, enquanto Thale desenhava em sua escrivaninha. -Colocaria sua mente, sua consciência numa nave ou qualquer outra coisa? Eu certamente não. Isso não é viver, você nem tem um corpo.

—Cinthia provou que não precisa de um para causar problemas.

—É verdade. Por que alguém faria isso? Parece a receita pra um filme de terror com ficção científica.

—Talvez ela não quisesse morrer.

—É um jeito estranho de se manter vivo. Parece aquele médico da HYDRA no filme do Capitão América, sua consciência num computador... É bizarro.

—Alguém ainda assiste isso? É muito antigo.

—Ah. É?-Thale riu baixinho. -O que?

—Você não sabe disfarçar bem.

—Sobre o que?-Ergueu o olhar para encará-la.

—Sobre ter vindo do passado. -Ivy não encontrou motivos para mentir.

—Há quanto tempo você sabe?

—Alguns dias.

—Bem, eu não estava tentando esconder, então não vai se achando por isso, Sherlock Holmes.

—Okay, esse eu não faço a menor ideia de quem é. Outro filme antigo?

—Você tá brincando, né?

De repente, as luzes apagaram sem aviso ou algumas piscadas, deixando o quarto completamente escuro.

—Isso é normal?-Ivy perguntou, tentando ignorar um dos medos mais primitivos do mundo e o seu primeiro. Ela não se sentia confortável no escuro, e andando por aí com a Doutora, ela sabia que nem deveria. O escuro era uma vantagem para alguns e o fim para outros.

—Eu realmente não sei. Você está parada?

—Por quê?

—Por que está escuro, não estamos nos vendo e você sabe o que acontece se nos esbarrarmos. -Ivy ficou em silêncio. -A sua mente. Era disso que eu estava falando.

—Eu sei, é, é. Eu sei.

—Droga.

—O que foi?

—Medo. As pessoas estão com medo, o apagão não foi só aqui. Eu consigo sentir. É como... Uma tsunami de medo. Odeio isso.

Ouviram passos. Ivy tentou dizer a si mesma que era apenas alguém, não uma ameaça ou perigo, não um monstro, apenas alguém.

—Vocês estão bem?-Agatha perguntou. Ivy se perguntou como ela sabia que estava ali.

—Sim. -Respondeu. -Estamos. O que aconteceu?

—Eu não sei. Vim direito pra cá. -Uma pequena luz se acendeu, uma lanterna. -Achei que Thale fosse precisar dos supressores.

—Quer que eu saia?

—É melhor ficar para irmos juntas. Os corredores estão completamente escuros.

—Tudo bem. -Se ajeitou, desviando o olhar enquanto Agatha preparava a seringa.

Agulhas não a assustavam, mesmo que não gostasse de injeções. Ela só não sabia se Thale sentia desconfortável ou não com a presença dela durante aquele momento. Parecia uma coisa muito pessoal e íntima.

Se despediu de Thale enquanto ele ia pra cama, recebendo um resmungo que devia ser uma resposta, e saiu com Agatha e a lanterna para o breu lá fora.

—Os supressores machucam ele?-Perguntou, sem saber como se expressar melhor.

—Não. Eles apenas reprimem o dom dele. E lhe dão um pouco de sono. Nada preocupante.

—Como sabia que ele precisava, agora?

—Bem, eu cuido dele, tenho que saber essas coisas. Uma pessoa sentindo alguma coisa? É uma situação. Várias pessoas sentindo a mesma coisa? Isso se torna uma onda que vai direto na direção dele. Thale pode discordar, mas com nosso relacionamento, eu criei um tipo de instinto de mãe. Nossas mães sempre sabem das coisas. E elas sentem quando estamos em perigo. A sua deve sentir...

—Não. Acho que não. Ela parou de se importar há muito tempo.

—Ela não te aceitou?-Ivy olhou para a médica, se perguntando como ela sabia.

—Não. Não aceitou. Como você sabe que eu...

—Intuição.

—Ah. -Assentiu.

—Muitos L-1 são abandonados pelos pais quando descobrem seu dom. Espero que isso mude um dia e que cada pai aceite seus filhos como eles são.

—É. -Encarou o escuro. -Eu também.
***

—Posso dizer uma coisa bem maluca?-Ivy perguntou. A Doutora continuou mexendo em alguns fios.

—Claro que pode. Adoro coisas malucas.

—Acho que Agatha é uma L-1.

—O que?-Desviou o olhar para a garota, recebendo um choque em seguida por não prestar atenção no que fazia. -Ai.

—Cuidado.

—Por que acha que ela é uma L-1?

—Por que ela sempre sabe de tudo. Quando as luzes apagaram, Thale começou a sentir o medo dos outros num nível muito forte. Agatha surgiu pouco depois para dar os supressores.

—Bem, ela deve ter imaginado. Sabe sobre os L-1 e Thale melhor que qualquer um nessa nave.

—Ela sabe que sou bissexual. Os únicos aqui que sabem somos eu, você e Thale, e eu nem contei pra ele. Viu na minha cabeça. Ontem eu estava observando uma das garotas no refeitório e ele perguntou se eu queria uma ajudinha. Thale sabe por que é um telepata. Como a Agatha sabe?

—Talvez Thale tenha contado.

—Ou talvez ela tenha visto na minha cabeça, exatamente como ele.

—Por que não pergunta pra ela?

—Por que acho que ela não quer que saibam. Por que mais esconderia? As pessoas tratam os L-1 como aberrações. Quem iria querer ser tratado assim?

—Tem razão.

—Quanto tempo vamos ficar no escuro?

—Realmente não sei. -Se voltou para os fios. -Estamos trabalhando nisso.

—A nave fica ainda mais assustadora no escuro.

—Eu sei. Vou fazer meu melhor.

—E eu vou parar de te atrapalhar. -Começou a se afastar.

—Fique com Thale. Ele vai precisar de ajuda com esse clima estranho pela nave. Os supressores são uma ajuda, mas uma amiga é bem vinda.

—Pode deixar.
***

A Nightflyer continuava tão escura quanto o lado de fora. A diferença era que a escuridão além das paredes não parecia ameaçadora ou sinistra. O perigo morava ali dentro.

Ivy tentava não pensar nisso enquanto conversava com Thale, uma lanterna sempre ligada num canto, tentando espantar o escuro.

A garota não se lembrava a última vez em que conversou tanto com alguém da sua idade. Foi uma garota popular na época da escola, mas isso não significava que tinha muitos amigos de verdade. Depois de ter que sair de casa, passou a morar numa quitinete com cinco garotas de uma banda de rock falida, as “Lésbicas do 42”, mas ela não era tão próxima delas.

Thale, em poucos dias na nave, tinha passado de garoto esquisito e assustador para amigo. Ivy não fazia ideia de como isso tinha acontecido.

—Como é?-Ele perguntou, sentado ao lado dela, uma almofada entre eles como uma barreira. Thale nunca se arriscava a ficar perto, não depois de deixar Ivy adormecida por três dias ao entrar em sua cabeça naquele dia, com Cinthia atormentando a TARDIS.

—Como é o que?

—Viajar no tempo.

—É legal. Fui à lugares maneiros. Gostei da França nos anos 20. Tem umas festas legais. Se souber onde ir, vai ser divertido e talvez um pouco perigoso. Mas você vai querer evitar algumas épocas e lugares, tipo a Alemanha, na Segunda Guerra Mundial. Foi uma merda.

—Você estava lá?

—É. Foi um erro de rota, mas fomos parar lá. Vi coisas que preferia não ter visto e não vou esquecer. Não é uma coisa tão segura, a viagem pelo tempo e espaço. Porém, não significa que não vai gostar ou que vai querer deixar isso pra trás. Não consigo me imaginar não tendo essa vida. Não quero que acabe. -Parou um momento, então moveu o olhar para Thale. -Aonde iria se fosse viajar no tempo?

—Sei lá. Qualquer lugar onde deixem os L-1 em paz.

—Bem, de onde eu venho... Ninguém nem sabe sobre L-1. Talvez ainda não existam no meu tempo. -Olhou de volta para a garota.

—Sério?

—É. Talvez fosse gostar de lá, se pudesse se acostumar com coisas velhas tipo 3D.

—Acho que eu poderia fazer um esforço. -Ela sorriu.

—Legal. -Um som estranho veio de fora do quarto. Ivy e Thale se moveram ao mesmo tempo, encarando a escuridão como se esperassem algo surgir. -O que foi isso?

—Provavelmente só a nave. Ela faz barulhos, é normal.

—Não tem nada de normal na Nightflyer.

—Não, não tem.

—Não suporto mais essa escuridão toda. -Suspirou, voltando a se encostar na parede. -Parece que alguma coisa vai pular em mim a qualquer momento, ou que tem algo espreitando.

—Tecnicamente... Tem.

—Ah, obrigada por me lembrar, Thale. Muito gentil da sua parte.

—De nada. -Fez uma pausa, enquanto se ajeitava. -Se pudesse escolher estar em qualquer outro lugar... Onde estaria?

—Não sei... Qualquer lugar claro e... Feliz.

—Claro e feliz. Hum.

—O que? Que cara é essa?

—Pode fechar os olhos e não pensar em nada?

—Por quê?

—Apenas faça isso.

—Eu não sei se...

—Bom, se você prefere essa vista maravilhosa da Nightflyer mergulhada em escuridão... -Ivy fechou os olhos, e não viu Thale sorrir.

No segundo seguinte, o escuro tinha se transformado em outra coisa. O céu era azul claro, com poucas nuvens. O sol brilhava muito, mas a temperatura estava agradável. Trigo, ou algo que parecia trigo, se estendia até onde era possível ver, e os ramos eram tão altos que chegavam até a cintura de Ivy.

—Parece muito real. -Comentou, estendendo o braço e passando por cima dos ramos.

—É assim que funciona.

—Como... Como as pessoas podem odiar você? Isso é tão... Olha só isso. -Fez um gesto mostrando ao redor. -Quando você não está sendo assustador, ou esquisito, encarando as pessoas como um maníaco assassino, você é um cara bem legal.

—Alguma coisa nessa frase era um elogio?

—Thale, é sério. Você tem um poder incrível... Nem sempre é como um belo campo ensolarado, eu sei, mas... É alguma coisa. E é legal. -Deu alguns passos na direção dele, com uma expressão curiosa. -Por que agora não dói ou...?

—Por que eu consigo controlar, e não forcei isso na sua mente, eu ofereci. É diferente.

—Entendi. Bom... Obrigada por... Me tirar, mesmo que só uma parte, daquela escuridão toda. Foi gentil da sua parte. Você está fazendo aquela cara.

—A de maníaco assassino?

—Não. -Riu. -A de “ah, droga, estão me elogiando". Isso te deixa desconfortável?

—Você também faz essa cara. Tessia sempre aparece com elogios e você só falta cavar um buraco na Nightflyer e sumir. -Ela deu de ombros.

—Parece que somos dois adolescentes esquisitos que não sabem lidar com elogios.

—Você não é esquisita. Quer dizer... Você é bem... Normal, bem, tem o cabelo de duas cores e a jaqueta de couro com ar de rebelde, mas...

—Nem tenta, eu já aceitei... Sou esquisita, nada pode mudar isso.

—Certo. Então somos esquisitos.

—Somos. Thale, -Deu um passo pra frente. -o que acontece se encostar em mim aqui?

—Eu...

Então o campo ensolarado desapareceu em segundos e eles estavam de volta na escuridão da Nightflyer, com Agatha bem na frente deles, ajuntando uma lanterna caída.

—Desculpa, eu assustei vocês?-Perguntou.

—Não, só achamos que era alguma coisa querendo nos matar. -Thale zombou.

—Muito engraçado. Vim ver se precisa dos supressores.

—Eu acho que vou indo. -Ivy disse, praticamente saltando da cama e pegando sua lanterna. -A gente se vê.

—Você pode fic... -Thale começou.

—Eu tenho que ir mesmo. Tenho que checar a Doutora. Até mais. -Saiu apressadamente do quarto.

—Você espantou ela.

—Eu?-Agatha perguntou, confusa. -O que é que estava acontecendo aqui, exatamente?-Sorriu.

—Não começa. -Estendeu o braço. -Me apaga logo.

—Adolescentes.
***

Basicamente todo mundo na Nightflyer estava saindo de seus quartos apenas quando e se necessário, por causa do apagão, e isso estava deixando os corredores bem vazios.

Ivy não conseguia parar de se perguntar quando conseguiriam ligar todas as luzes de novo, ou se Cinthia os deixaria mergulhados em escuridão permanentemente.

—Ivy.

A garota parou de andar, sentindo o coração acelerar e os pelos da nuca arrepiarem. Ela conhecia aquela voz, e sabia o que significava.

—Ivy

—Você não é real. -Moveu a lanterna, até que a luz iluminasse o falso fantasma da irmã. -É mais um dos truques dessa maldita nave.

—Você me deixou morrer.

—Não ouse falar disso comigo! Não é certo! Você não sabe nada sobre mim ou sobre a minha irmã!

—Sente culpa, Ivy?-A falsa Jessie deu alguns passos na direção dela, o sangue em sua cabeça escorrendo lentamente. -Ou prefere Ivana?

—Você não sabe de nada. É só a droga de uma vadia morta tentando ferrar todo mundo nessa nave! Não sabe nada sobre ninguém aqui! Você sequer está viva!

—Não. -Inclinou a cabeça para o lado, deixando o buraco causado pela bala ainda mais visível. -Mas posso te matar do mesmo jeito.

Ivy começou a correr, evitando o fantasma de mentira. Cinthia não ia mexer com sua cabeça, não ia assustá-la.

Abriu a porta do quarto e entrou, fechando-a em seguida. Tentou se acalmar e respirar fundo, mas parecia cada vez mais difícil.

Franziu a testa quando sentiu um cheiro estranho e olhou em volta, procurando a origem. Não demorou até encontrar. Um tipo de fumaça estava saindo da entrada de ar, inundando o quarto como uma névoa branca e esquisita.

Recuou até a porta, mas o painel exibia apenas “Acesso negado".

—O que está fazendo?-Gritou, girando para encarar a câmera no alto do quarto. -Me deixa sair! Cinthia! Me deixa sair daqui!
***

—É o décimo choque que leva só hoje. -O Capitão Eris avisou, enquanto a Doutora mexia os dedos, como se quisesse espantar alguma coisa. -Deixe alguém cuidar disso agora.

—Eu estou bem. Já levei coisas piores que choques. Estou ótima. Quero apenas continuar trabalhando aqui e nos tirar desse escuro. -Encarou o Capitão. -Falou com a sua mãe?

—Ela não me ouve. Está cada vez mais furiosa. Não é uma mulher fácil.

—Isso está bem claro.

—Não vou parar de tentar, mas convencer Cinthia Eris de alguma coisa é uma tarefa muito difícil.

—Precisa fazer isso, Roy, antes que mais alguém se machuque. O que está acontecendo ali?-Apontou com a cabeça para a porta, onde uma garota falava apressadamente com Auggie, que assentiu e correu até a Eris e a Doutora.

—O que houve?

—Temos um problema. -Respondeu. -Agatha pediu para avisar. É urgente.
***

—Thale, para, você vai se machucar!-Agatha gritou, tentando segurar o garoto, sem sucesso. Ele continuava se jogando contra a porta, tentando abri-la. -Thale, por favor!

—O que houve?-A Doutora perguntou, surgindo com o Capitão Eris e Auggie. -É o quarto da Ivy...

—Ela não está respirando!-Thale gritou, o rosto vermelho de alguém que também não conseguia respirar. -Ela não está...

—Ivy!-Tirou a chave de fenda sônica do bolso, apontando para a porta. -Abre, abre, abre...

Agatha puxou Thale para trás bem quando a porta abriu. Não dava para ver nada além de algo branco flutuando pelo quarto. O Capitão fez um gesto para que todos se afastassem e entrou no meio da névoa, surgindo pouco depois com Ivy. A porta foi fechada logo em seguida por Auggie, para que a fumaça não se espalhasse pelo corredor.

—Não está respirando. -Roy disse.

—Enfermaria. -Agatha sugeriu, abaixada ao lado de Thale, que estava sentado no chão, tentando normalizar a própria respiração. O Capitão começou a se afastar, com Auggie logo atrás dele. A Doutora hesitou.

—O que houve?-Perguntou.

—Thale sentiu que havia algo errado com Ivy. Quando chegamos, a porta estava trancada e estava tudo branco...

—Cinthia. -Olhou para uma câmera no corredor.

—Provavelmente.

—Vou ver a Ivy. Falo com vocês depois. -E saiu correndo.

—Acho que você precisa dos supressores...

—Não. -Thale interrompeu, se afastando um pouco. -Se eu tivesse tomado, ninguém saberia sobre a Ivy antes que...

—Thale, você foi muito afetado pelo que aconteceu, precisa dos supressores...

—Eu estou bem. -Se levantou, usando a parede como apoio. -Cinthia tentou matar a Ivy. Alguém precisa ficar de olho nela.

—Thale...

—Eu vou pra enfermaria. -Começou a se afastar rapidamente, sem olhar para trás.

—Thale!

Notas finais
Estamos chegando no final. Bem, não ficou muito claro, mas Cinthia escolheu "viver" na Nightflyer. E acho que ter uma tripulação vivendo ali dentro não a agradou muito (agora imagine uma tripulação que "invadiu" com sua própria nave). Tem muita coisa que acontece em Nigthflyers, muita coisa causada pela Cinthia, mas acabei não trazendo tudo pra cá, deixando as coisas oficiais da série em segundo plano. Até o último capítulo! ♥