A Escuridão em Mim
1 Capítulo 1: Alma Morta
Alguém leve embora esses sonhos
Que me apontam para um outro dia
Um duelo de personalidades
Que expandem toda a verdadeira realidade
Eles continuam me chamando
Continuam me chamando
Eles continuam me chamando
Continuam me chamando
Dead Souls, Nine Inch Nails

Celeste. Para fazer jus ao próprio nome, tudo deveria ser de tonalidades azuis: no mesmo dia, a garota tingiu o cabelo de azul marinho em um salão de beleza e passou em uma loja de cosméticos para comprar maquiagens e esmaltes azuis. Muitas de suas roupas já eram pretas e azuis, suas cores favoritas.
E seria exatamente com a cor azul que passaria o Natal e a virada de ano.
Não poderia estar mais feliz: sua família finalmente aceitou seu nome: Celeste, o nome de uma travesti de 23 anos de idade, em uma graduação em matemática e viciada em jogar Magic The Gathering.
Além disso, Celeste estava aproveitando as férias o máximo que lhe fosse possível. No último final de semana antes do natal, ela foi a um evento de RPG de mesa e Magic the Gathering. No evento, reencontrou Raul, um amigo que fizera justamente nos eventos de RPG. Os olhos castanhos do rapaz brilhavam como sempre, mas era o mesmo brilho que disfarçava todas as suas dores. Os cabelos compridos e dourados também tampavam um pouco de sua expressão.
— Oi, Raul, tudo bem?
— Bem demais, e você?
Ele sempre dizia estar bem, e ninguém reparava na tristeza em seus olhos. Como Raul diria alguma frase no estilo: “Oi, tudo bem? Sou Raul, tenho 28 anos de idade e faço museologia na Universidade Federal de Goiás. O mais importante é que não tenho mais uma família e já bati altos papos com a senhora das águas, Iara. Além disso, minha alma já morreu há tempos..."
De qualquer maneira, Raul estava ali para se divertir um pouco, então levou o seu melhor deck de Magic, da edição Voto Carmesin, para participar do campeonato. Além disso, ficou conversando com Celeste até o momento de tudo começar de vez! O rapaz estava empolgado, pois vencia todos os campeonatos em que jogasse. Além disso, ele acreditava que os eventos eram as únicas lembranças boas e recentes dele, porque a maioria das lembranças recentes eram horríveis.
No final do dia, o rapaz despediu-se de todos e foi para a sua casa. Ali, não era exatamente uma boa definição de lar, então sentia-se vazio. Ainda mais que, todas as noites, sempre sonhava com Iara. Mesmo sabendo que ela era a sua maldição, era como se o rio fosse o seu lar...
Naquela noite, os cabelos de Iara estavam com um tom mais esverdeado, fazendo um bonito contraste com a água e as flores vermelhas que flutuavam sobre o rio. Flores vermelhas e azuis sempre estavam ao redor da entidade, pessoalmente ou em sonhos.
Iara também sempre cantava uma mesma canção, que seduzia a todos à sua volta, mesmo outras mulheres. E Raul sempre perguntava sobre a música, mas quando respondia, era um simples:
— É uma antiga canção tupi.
Mesmo que ele ficasse com ódio, ela não explicava. Ela também ficava com ódio: havia algo em Raul que o fazia despertar uma imensa paixão, mas não era hipnotizado da mesma forma que outras pessoas. Raul se apaixonava por Iara, mas algo o protegia de ser sugado para o fundo do rio.
Ao despertar de seu sonho, Raul levantou-se desejando Iara ali, ao seu lado. Nada que pudesse fazer. E sabia que sua paixão o mataria, qualquer dia. Ele simplesmente olhou o celular: dia 23 de dezembro, meio dia. Havia dormido demais, mas estava de férias da faculdade e estágio.
Só seria solitário...
Ele preferia passar dificuldades do que viver com sua família. Até seus decks de Magic foram presentes de outro membro da comunidade, Glenn, ou não poderia sequer se divertir em alguns finais de semana. Todo o seu tratamento de saúde era feito pelo SUS. Não se importava com as demoras para receber resultados de exame, desde que sua saúde prestasse minimamente e conseguisse todas as consultas e todos os medicamentos.
Logo após o natal, Raul completou 2 anos em tratamento psiquiátrico – ao menos, em um tratamento em que ele havia gostado do médico, portanto não desistiu no meio do caminho. Além disso, aceitou a usar os medicamentos, pois não era nada forte demais e que o fizesse se sentir um inútil.
O psiquiatra falava que nunca entenderia tantos medicamentos fortes que Raul havia utilizado anteriormente, pois seu caso não é grave demais. O que piorou foi esse encontro com a Senhora das Águas. Claro, não acreditava que Iara realmente existisse, mas sabia que Raul não era violento e que só precisava dormir bem à noite para não alucinar tanto.
E claro também quem mais atrapalhou seu psicológico: os abusos vindos de sua família. Principalmente psicológicos.
Eram muitas chantagens emocionais e muitas mentiras. O suficiente para surtar qualquer pessoa. Isso além de usarem o transtorno psicológico como desculpa para mandarem Raul qualquer coisa que quisessem. Raul não possui mais nenhum sentimento por sua família.
A grande questão: a sua real família chegou agora, próximo do Natal.
Raul estava imóvel, ainda deitado em sua cama, sem a mínima coragem de levantar, devido ao grande vulto voando do lado de fora de suas janelas. Era um pequeno kitnet, mas com muita claridade graças a essas janelas, que também refrescavam o ambiente. O rapaz acreditava que havia se esquecido de algum medicamento no dia anterior, e os vultos pareciam anjos voando lá fora.
Logo Raul se tocou que tais anjos eram reais, todos avisando sobre vários miados do lado de fora do kitnet. Era difícil distinguir alucinação da realidade, mas de fato tinha três gatinhos miando. Tinham aproximadamente 40 dias, todos abandonados na rua.
Seu psiquiatra sempre reclamava do seu orgulho, que falava alto muitas vezes. Dessa vez, se permitiu ter uma família: escolheu o nome Ragnar para o gato amarelo; Draco para o gato albino e de olhos verdes e Fada para a gata de três cores.
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