A Escuridão

2 Capítulo 2 - Voz


Notas iniciais
Mais um capítulo, EEEEEEEEEEEEEEEEE! Espero que gostem!

De repente, como se o tempo não estivesse passado e eu estivesse ficado inconsciente por um curto período de tempo, meus olhos se abriram, mas não pude distinguir forma alguma naquela completa escuridão, algo frio e intenso que me causava terror. Me sentei e meu corpo doía intensamente e depois de alguns minutos, me coloquei finalmente de pé. Ainda tonta, cambaleando, eu comecei a subir os pequenos degraus que levavam até a porta pela qual eu havia entrado no auditório, que não parecia mais o mesmo. Isso estava, estranhamente, me exigindo um grande esforço físico, meu corpo doía intensamente. Quando cheguei na última fileira de poltronas, no último degrau, me atirei na poltrona de mais fácil acesso, joguei meu pescoço para trás, tentando de alguma forma amenizar a grande dor que sentia em minha cabeça. Ainda confusa, sem entender o que acontecia, um holofote se acendeu no palco e iluminou uma figura vestida de preto, seu rosto era extremamente claro, tão claro, que dava a impressão de que se era possível enxergar através de sua pele e seus cabelos brancos, algo cobria seu rosto, ou poderia ser apenas a sombra que sua cabeça baixa criava sobre grande parte de seu rosto. Desesperada, eu me levantei e saí correndo, tropeçando nos degraus que levavam a saída. Eu me virei novamente para o palco, para checar se a figura me seguia, felizmente não, porém, ela continuava na mesma posição, parado, como uma sinistra estátua. Então ela levantou a cabeça e eu soltei um grito involuntariamente, depois disso, a figura levantou a mão com sua palma virada exatamente para mim, com medo, eu me joguei no chão, atrás de algumas poltronas. Como medo da próxima desventura que iria enfrentar naquele terrível lugar. Não me lembro de nada depois disso, a não ser que havia ficado novamente inconsciente.

Quando acordei, estava no mesmo local em que caí do palco, dessa vez, não sentia dores. Não conseguia decidir se tudo o que aquilo havia realmente acontecido ou apenas fazia parte da minha mente perturbada. Calmamente, um tanto confusa, eu me levantei e me dirigi até a porta, tentei abri-la, mas era inútil, estava trancada. Ótimo. Comecei a bater e balançá-la, até meus punhos doerem e meus braços se cansarem. Então, eu comecei a gritar por ajuda, também não iria funcionar, mas continuei. Deslizei pela porta e cobri meu rosto com os joelhos, ninguém me via ali, naquele auditório, mas mesmo assim eu odiava demonstrar fraqueza. Chorando dessa maneira, como uma criança, eu sentia vergonha alheia de mim mesma. Então, eu sequei minhas lágrimas e apenas continuei a gritar e a bater na porta.

– Ninguém irá te ouvir. – disse a voz masculina mais bela que se possa imaginar, que soava como uma suave brisa que passava pelos meus ouvidos, instantaneamente me acalmando.

Suas palavras continuaram no local, fazendo um eco tenebroso. Eu levei um tempo para me recuperar do som de suas palavras. Eu olhei em volta, buscando o dono da voz misteriosa.

– Quem é você? – eu disse a coisa mais idiota que eu podia dizer naquele momento de desespero, trancada no auditório.

A voz não respondeu.

– Quem é você? – repeti, dessa vez em um tom mais alto.

Depois de um tempo a voz respondeu calmamente:

– Quem é você?

– Não é educado responder uma pergunta com outra pergunta. – eu não respondi a sua pergunta. – Me responda primeiro e eu te darei quantas respostas desejar.

Depois disso, não ouvi mais a voz.

Fiquem lá por muito tempo, talvez horas, talvez dias ou semanas, eu não tinha noção de tempo naquele lugar. Eu me sentava nas poltronas e me encolhia com o frio que o lugar fazia, mas eu não sentia um frio físico, em minha pele. Era como um frio psicológico, um frio espiritual, a sensação só fez com que o local parecesse mais estranho. Com o tempo pude perceber a aura triste que o auditório possuía. Eu andava de um lado para o outro, voltava a bater e balançar a porta, porém o mesmo frio permanecia comigo. Subi no palco e me sentei em sua ponta e de repente mil e um pensamentos vieram à tona em minha mente. Talvez, fosse apenas noite e quando amanhecesse alguém viria e afastaria de mim toda a tristeza que esse lugar possuía e depois disso ficaria um longo tempo longe desse auditório. Ainda havia esperança, não havia razão para desespero. Aonde estariam meus pais durante todo esse tempo?

– Você ainda está aqui!? – eu gritei, em busca de uma resposta daquela voz maravilhosa, talvez o dono dela pudesse me ajudar a sair dali. Ou talvez, tenha ficado preso aqui, assim como eu, e assim ficaria trancado comigo até que uma boa alma viesse nos tirar daqui. – Eu preciso sair daqui! Eu preciso voltar pra casa, voltar pros meus pais, eu sinto frio!

Eu olhei pros lados, para o teto e para baixo e não via ninguém. Tomei coragem e comecei a procurar o dono da voz perfeita que eu escutara, era minha chance de sair de lá o mais rápido possível. Eu me levantei com um salto e fui em direção aos camarins. Achei um interruptor e acendi a luz. Procurei, até nos lugares menos improváveis em que se era impossível alguém se esconder.

– Por favor! Onde você está? — continuei a implorar, desesperadamente por uma resposta. Se havia algo que eu temia mais que tudo, era a solidão. Uma vez, quando criança, me perdi dos meus pais nas ruas de Viena e essa era a lembrança mais desesperadora que tinha até ficar presa nesse auditório. Não era como eu estivesse no mesmo local que entrei a algumas horas, dias, semanas ou seja lá o que fosse. Tudo agora era cinza e escuro, não devido à falta de luz, escuro devido à névoa de tristeza que envolvia tudo e todos no local. A solidão estava apenas me tornando mais desesperada.

Subi as escadas que levavam aos camarotes, procurando atenciosamente pela voz que me respondera duas únicas vezes.

– Quem é você? – a voz finalmente respondeu, no mesmo tom calmo – O que procura?

– Finalmente! – eu parei de procurar e fiquei atenta à voz que ouvira, sentindo um intenso alívio – Não está claro pra você?

A voz não respondeu, que surpresa.

– Escuta, eu preciso sair daqui, se ainda não entendeu. – eu disse.

– Por que quer sair? — o vento soprou pelo meu ouvido novamente – O que te incomoda?

– Não é o que incomoda ou não, é o que irá me incomodar. Prevejo que terei que responder um questionário, quando eu sair daqui.

– Você cometeu algum tipo de crime?

Eu bufei.

– Ah, sim! Eu matei meu pai e irei matar você se não me responder novamente.

O silencio que se seguiu pareceu durar uma eternidade.

– É claro que eu não cometi nenhum tipo de crime. Eu me refiro às mil perguntas que terei que responder sobre meu tempo desaparecida aqui. – eu preenchi o silêncio.

–Ah, claro. – foi apenas o que a voz respondeu.

– Você vai me ajudar a sair daqui ou vai dar uma de fantasma? Seria muito mais fácil se você aparecesse.

Ele não me respondeu, então eu continuei.

– Se não quiser me ajudar, eu posso cavar uma buraco na parede com minhas unhas, ou incendiar uma poltrona, pra chamar atenção para o auditório se incendiando, nós poderíamos morrer asfixiados se preferir.

– Você não entende, creio que não poderia entender, porque eu não entendo. Ou talvez... – a voz se interrompeu.

– Ou talvez o que?

– Quem é você? – ele perguntou, pela terceira vez.

– Não posso sair dizendo meu nome para estranhos, talvez se aparecesse...

– Se eu aparecesse, eu deixaria, de alguma maneira, de ser um estranho para você? – ele me interrompeu.

Dessa vez, fui eu quem não respondi.

Novamente fiquei horas, talvez dias ou semanas, em um silêncio que muito me incomodava . Não havia nada que eu pudesse fazer para preencher o tempo, eu esperava o amanhecer que não chegava. Eu não agüentava o aperto no peito que a solidão me causava. No camarim eu achei um isqueiro e me dirigi a poltrona mais próxima. Eu o acendi e havia uma pequena chama na abertura do isqueiro. Eu a aproximei lentamente da poltrona e havia apenas um centímetro que separava a chama a do tecido incendiável da poltrona. Aqueles podiam ser meus últimos minutos de vida. Eu estava pensando no sorriso bondoso de minha avó, no abraço de meu pai, nas piadas de Nathaniel quando eu novamente o ouvi.

– Pare! – disse ele de uma forma calma e desesperada, inimaginável.

Aquele auditório estava me deixando insana.