A Escuridão
1 Capítulo 1 - Escuridão
Notas iniciais
Eu abri o livro, devagar, sentindo a capa e as folhas passarem pelos meus dedos. “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”. Meu querido amigo Shakespeare dizia isso na primeira página. O que me fez questionar novamente o que é o amor. Alguns negam sua existência, alegando que o amor não se passa de interesse. Mesmo com esses argumentos, eu não consigo pensar como isso é possível se o próprio mundo é feito a partir do amor. As próprias pessoas tornam o mundo escasso dele quando alegam sua inexistência. E a partir dessa frase o mundo se tornou o que ele é. O amor é nosso início e nosso talvez nosso fim. Negando sua existência as pessoas param de fazer uso dele. Eu estava sentada no banco do metrô e pela primeira vez eu olhei pra frente. Um senhor calvo de óculos examinava as paredes que passavam numa velocidade inimaginável. Ele perdido em seus pensamentos e eu perdida nos meus. De repente ele olhou para mim e sorriu. Foi inevitável sorrir de volta. Uma vez ouvi de alguém que um sorriso pode transformar um dia e torná-lo feliz, talvez porque o sorriso seja um gesto de amor. Nossa vida é muito curta para desperdiçarmos nosso curto tempo em dias tristes.
O metrô parou e eu desci. Estava chovendo, eu já estava atrasada, então eu tive que correr para a escola. Eu abri meu armário e um pequeno panfleto flutuou e caiu sobre meus pés. “Romeu e Julieta” nele estava escrito em letras grandes. Droga. Eu havia me esquecido disso. Minha escola estava dando a alguns alunos oportunidades de estudar teatro em um grande compania no exterior, uma espécie de concurso. Eu não estava tão animada para isso, teatro nunca foi meu sonho para a vida, mas no final, acabei fazendo o teste e sendo cotado para uma das figurantes nessa maldita peça. Talvez eu o tenha feito na esperança de sair da cidade e deixar pra trás minha comum vida. Pode parecer uma peça idiota, mas a escola virou um caos, aconteceram coisas horríveis. Uma garota do último ano que eu não conhecia foi envenenada, não para morrer, mas teve que ir urgentemente para o hospital. Tudo porque essa pessoa que a envenenou viu nela uma concorrente em um patamar acima do dela e ela se encontrava agora ligada a tubos e no desconforto do hospital porque quem a envenenou não foi forte o suficiente para ultrapassá-la. Sem falar nas inúmeras brigas que aconteceram, relacionados à concorrência pelos principais papeis. Acho que quem faz coisas desse tipo, realmente não merece ter uma oportunidade grande e única como essa.
O sinal tocou, despertando-me de meus pensamentos e eu corri para a sala de aula. Sentei-me em minha carteira e pousei minha cabeça sob a mesa, era aula de matemática. Não lembro quantas vezes já havia dito isso, mas eu odeio matemática. Números são uma coisa que odeio, porque atualmente tudo envolve números. Quantos dias faltam, quantos anos ela tem, em que ano estamos, quanto dinheiro você tem, quantos amigos ele tem. A todo momento as pessoas são julgadas a partir de números idiotas, números não fazem uma pessoa, nunca irão fazer. As pessoas deveriam parar de contar números e avaliar o caráter, a personalidade, porque isso são coisas que fazem uma pessoa.
Quando me levantei, um papel caiu no chão e eu me abaixei para pegar. Felizmente, a professora estava ocupada escrevendo inúmeros exercícios aos quais mais tarde eu seria obrigada a fazer. Eu me abaixei e peguei o papel. “O que houve com você?” eu o dobrei novamente e li o nome de Nathaniel escrito nele. Então respondi uma espécie de “Hã?”, mas nem mesmo eu entendi o que eu quis dizer com minha horrível caligrafia. “Você está com uma cara péssima”, no mesmo momento em que li isso, toquei imediatamente a região abaixo de meus olhos então me virei para a carteira de Nathaniel, logo ao lado da minha e ele tirou uma mecha loira dos olhos e balançou a cabeça, então eu devolvi o papel para ele.
Algumas semanas atrás, minha avó havia falecido. Nós nunca fomos próximas, minha mãe havia passado por uma terrível briga com ela anos atrás, minha mãe nunca me falou porque de tal briga, mas depois disso nunca voltaram a ser falar com frequência. De vez em quando eu não recebesse um telefonema dela e podia ouvir sua amável voz. Mas depois de seu velório eu não conseguia mais dormir bem. Foram tantos anos perdidos, por brigas, que é tão bobo, tão sem sentido relacionado as coisas maravilhosas que poderíamos fazer se ela nunca tivesse acontecido. Então procuro não desperdiçar minha vida, com dias tristes, dias de distância de amores, dias nublados. No final de tudo, quando eu olhasse para trás e visse tudo o que eu havia construído por meio de ações e palavras, eu não queria me decepcionar.
“Preciso que faça um favor para mim, eu tenho um trabalho enorme para entregar amanhã, eu sei que devia ter feito antes, mas eu estava extremamente ocupado planejando e organizando a peça e o dia da visitação. Será que você poderia organizar as fichas de reclamações e sugestões pra mim esta noite? Você faz parte do grêmio também, afinal”. Eu apenas balancei a cabeça para Nathaniel e ele sorriu e se virou para frente.
Nathaniel é meu amigo de infância. Quando eu era criança ele era meu vizinho e brincávamos juntos no parque em frente a minha casa. Os anos se passaram e ele cresceu bem mais que o restante dos meninos da turma. Coisa que é vantagem para ele hoje em dia. Ao redor de nós tudo mudou, acredite. A classe, as pessoas, a escola e até mesmo as condições climáticas. Mas nós permanecêssemos parados no tempo. A mesma Catherine e o mesmo Nathaniel. Fico feliz em saber disso, ele sempre me ajudou. Quando minha avó faleceu, ele ia todos os dias a minha casa e nós ficávamos lá, sentados no sofá em baixo das cobertas, assistindo a um filme de ação e comendo brigadeiro. Nathaniel é meu melhor amigo.
O sinal que indicava o fim do último horário tocou e Nathaniel foi até a minha carteira para me entregar uma pilha de reclamações e sugestões, depois disso eu corri para pegar o metrô novamente. Infelizmente, o gentil senhor calvo não estava lá para sorrir para mim e alegrar o meu dia. Então eu fui para casa.
Minha mãe cantarolava na cozinha. Meu pai ainda não havia chegada do trabalho. Eu fui até a cozinha e dei um beijo na minha mãe e subi para o quarto. Eu também havia deixado para fazer o trabalho na última hora, mas eu não disse nada para Nathaniel, eu devia isso a ele. Então, depois de ter almoçado, eu corri para meu quarto e comecei a fazê-lo. Quando o terminei já era tarde da noite e eu ainda tinha a pilha de fichas de reclamações e sugestões para responder e organizar. Eu não havia dormido nesta noite.
O despertador do meu celular tocou e eu ainda estava acordada, então apenas troquei de roupa, escovei os dentes, penteei o cabelo, comi uma torrada e fui para a escola. Quando entreguei a pilha para Nathaniel ele me deu um forte a abraço e sorriu para mim.
Eu havia chegado muito cedo na escola, enquanto o sinal não tocava , resolvi fazer um passeio pelos corredores. Quando eu cheguei no final de um dos corredores, me deparei com uma porta entreaberta. Eu observei entre a fresta aberta. Era o recém inaugurado auditório. Ninguém da escola o havia visto ainda, seria aonde aconteceria o tão aguardado teatro. Então eu abri a porta de modo que eu pudesse passar, então comecei a andar pelo corredor daquele imenso e belo auditório. As poltronas eram de um vermelho vivo e eram inúmeras, não pude contá-las. O palco possuía uma grande altura, de forma que quem sentasse nas últimas cadeiras pudesse ver o que se passava por lá. Seu chão brilhava intensamente. O carpete que cobria o chão era de um cinza claro, dava a impressão de ser confortável deitar sobre ele. Eu andava meio desorientada por aquela imensidão. Então me sentei em uma das poltronas e esperei até que o sinal tocasse.Depois de ter esperado muito tempo eu chequei meu relógio, ainda faltavam meia-hora. Acho que ficar parada por tanto tempo me deixou com sono pois minhas pálpebras já começavam a pesar. Eu segui pelo corredor e cheguei na pequena escada que levava para cima do palco e subi seus degraus. Do alto do palco eu via tudo, as poltronas, a porta dos fundos, a saída de emergência. Sinto que quem faria a protagonista, não se sentiria tão a vontade de dizer todas as suas falam, enquanto pode ver todos daqui de cima. Então, uma vertigem começou a tomar conta de mim, então eu me sentei.
Depois de algum tempo, a vertigem não havia passado então, eu resolvi me levantar e sair do auditório e ir até a enfermaria da escola, mas antes que isso acontecesse, meus pés bambearam e eu não podia mais sentir o chão abaixo deles. Um momento depois eu senti uma forte dor em minha cabeça, parecia que algo extremamente pesado havia caído sobre ela. Eu havia caído do palco. Agora me encontrava imóvel e não conseguia me mexer. Tentava com muito esforço, resistir as minhas pesadas pálpebras que se fechavam, tentava abrir meus olhos e eu não conseguia ver nada além de uma grande névoa negra que bloqueava minha visão. Minhas pálpebras se fecharam novamente e eu lutei com mais força para que se abrissem e quando se abriram pareciam ter se passado horas, eu não consegui ver nada além da névoa e então elas se fecharam novamente. Na terceira vez que as abri, pude ver algo a mais. Alguém estava inclinado sobre mim e me observava atentamente. Provavelmente um aluno que me achara, deitada naquele carpete, que agora não parecia mais tão confortável. Não tive tempo para pensar mais nada, porque um segundo depois, minhas pálpebras se fecharam e eu me entreguei a completa escuridão.
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