A Escultura Carmesim
1 Capítulo único
Enclausurado às mãos que antes me acariciavam. O gosto do ferro fervente transpassava de seu corpo para minhas mãos. Os olhos quentes de paixão me mostravam a saída. “Poderemos algum dia ser salvos?” perguntei a mim mesmo. Resposta alguma recebi. Os olhos, agora, de mel, atravessavam meu corpo me despindo aos poucos.
A cada sabor, mais sensações. Seus lábios frios tocavam os meus. Frios, duros. Buscava em mim o complemento. Queria manter-se quente, mais quente. Eram seus últimos suspiros, a cada suspiro parecia enaltecido por cada detalhe. Os olhos, inebriados, embebidos em sensações diversas e adversas atravessando-lhe o corpo que perdia mais e mais do ferro que antes a mantinha viva.
Buscava em mim, um último suspiro. Uma última chance. Prendia meu corpo ao seu, como nunca havia feito. Tocava-me o corpo como nunca havia tocado, e olhava-me com olhos que nunca havia olhado.
O fim, dos justos e dos injustos. Carmesim. Porém inerte de justiça. Desejava ter morrido com dignidade, e agora permanecia jogada ao colo de seu infrator. Prisioneira de seus próprios e mais profundos desejos. Desejaria agora nunca ter desejado. Desejava a morte muito antes do conhecimento.
– Consegue sentir? Estou em você, com você... – As mãos que antes eram carícias em sua pele, agora acariciavam deliciosamente seus fígados. A mão passeava pelas curvas, as veias, detalhes que nem mesmo o maior dos conhecedores, conheceria. Ah, a sensação, era como atravessar-lhe a alma, conhecer-lhe em seu máximo. Não haveria mais barreiras. Unir-nos-íamos.
Seus últimos sopros, inaudíveis, atravessavam a grande sala vazia, silenciosa, fria como o gelo de seu coração que preenchia meu corpo sedento pelo seu. A língua lhe fora cortada. Eu só queria saber de seu mais puro suspiro.
– Finalmente seu coração, é meu! – Uma risada, pude ouvir, uma risada, um sorriso prazeroso, quase que esperando por isso. Talvez fosse sua alma sorrindo para mim, já que lhe foi cortada a língua, mas minhas maçãs do rosto ainda brincavam entre si em alegria. Esperávamos pela união inquebrável. Ansiávamos. Sabia que sorria comigo, acompanhava a música que atravessava meus ouvidos! Ela repercutia apenas para nós. Nossa valsa final. Tomei o corpo, vazio e um tanto pesado, em meus braços e acompanhei a música lentamente levando-o para a maca.
Ainda respirava, era resistente. Queria trazer um pouco de justiça ao seu epílogo. Mas seu epílogo final já havia sido contado há muito tempo. Cortei-lhe mais um pedaço de pele e carne, não sabia mais diferenciar o quê era o quê. Não queria diferenciar. Segurei o coração em mãos, ainda firme em sua perfeita estrutura, e o apertei fortemente. Ela agonizava, os braços balançavam, as pernas estavam cambaleantes. Como em nossa primeira vez.
Os braços ainda se mexiam, aos poucos foi alcançando-me. Os olhos, fumegantes, me chamavam para mais perto de si. Peguei a primeira faca da maleta de ferramentas. Era dessa forma que isso acabaria. Enclausurado às mãos que antes afagava meus cabelos displicentes.
Uma obra de arte havia sido feita, paredes e todo meu corpo coberto com o quê lhe fazia viver. Sinto sua vida escorrendo por entre meus dedos, estes dedos que agora entrelaçavam a faca que lhe perfurou o coração. Lá se encontrava a chave, que há muito havia sido guardada. Ela reluzia em prata, gozando de nossa inocência vã. Peguei-a entre os restos de seu coração, que agora se recusava a continuar batendo.
Caminhei um tanto decomposto, abri a caixa que estava ao canto do quarto escuro em que estávamos trancados. No canto mais escuro escondia-se um baú que trazia muito mais segredos do que toda nossa motivação. Histórias que ainda seriam contadas, ou talvez não. Abri com a chave, que havia me sido dada pelo coração, que um dia me completou, mas que já não mais completava.
– E agora... O reencontro! – Lá jazia meu coração, que a tanto havia sido perdido, esquecido, ignorado por aquela que agora era minha maior escultura carmesim.
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