A Escolhida

15 Capítulo 14


Notas iniciais
O próximo é o epílogo (DA PRIMEIRA TEMPORADA, CALMA AÍ). Achooo que vocês vão gostar, especialmente você, Lah. Acho não, ou vocês amam o epílogo ou... Vou deixar a ameaça no ar (neste caso, nas notas). Boa leitura.

O dia passou como um borrão. Lembro de ter sido trazida para minha casa, onde Josh e meus pais conversaram. Ele provavelmente contou o motivo de eu estar daquele jeito. Quero dizer, ele contou o real motivo. As lutas, os demônios, meu poder, também falou sobre os deuses. Meu pai se mostrou completamente confuso, mas mamãe aparentou ter entendido tudo e ainda falou que já sabia, o que me deixou confusa. Se ela sabia, por quê ocultou?

E ainda tinha Valentine. Meus pais cuidavam de mim com zelo, mas ela estava tão preocupada comigo que voltou muito mais cedo da escola para poder ficar no meu quarto, medindo minha temperatura e me dando alguns goles de sangue divino quando achava necessário. Minha mãe precisou puxá-la pelo cabelo para ela desgrudar de mim. Eu não estava completamente “lúcida”, mas consegui entender que ela se sentia culpada. Tentei perguntar por que ela estava se culpando, mas não conseguia abrir a boca.

A última a me visitar, quando eu já estava melhor e conseguia mexer meu corpo, foi Rebeca. Tirando as olheiras, a palidez e o fato de estar um pouco mais magra do que quando havia lhe visto pela última vez, duas semanas atrás – tudo causado pela infecção intestinal combinada com a gripe que veio logo em seguida – ela parecia estar bem. Cansada, sim, extremamente. E envergonhada também. Mas estava bem.

— Oi...

Sorri levemente e murmurei um oi quase inaudível em resposta.

— Olha, Sav... Me desculpe por não ter atendido seus telefonemas, por ter ignorado seus torpedos e por não ter respondido seus e-mails e mensagens no MSN. — ela começou a falar, e eu nem pensei em interromper. Estava um pouco ocupada pensando em como contaria que seu namorado (ou quase isso) tinha sido exilado. Por mim. — É que eu fiquei com ciúmes, sabe? Era tão óbvio que Cristopher estava comendo na sua mão. E eu queria tanto que ele sentisse isso por mim. Deixei que o ciúmes me cegasse e acabei perdendo os dois. Ele e você.

Franzi o cenho, fazendo uma força extra para que minha voz saísse.

— Como assim? Perdendo... O Cristopher?

— É. — ela deu de ombros, ainda extremamente envergonhada. — Ele brigou comigo por causa desse ciúmes. Jogou na minha cara que não tínhamos nada, e que eu não deveria ter brigado com você por causa dele. Cris falou que não queria interferir na nossa amizade, e disse que se eu fosse imatura a ponto de aceitar perder minha melhor amiga por causa de um garoto novo que eu mal conhecia, então não estava pronta para ter um namorado.

— Ele falou isso mesmo? Que estúpido.

— Falou, Sav. E ele estava certo, sabia? Em tudo. Mas eu estava doente então não podia vir conversar com você... Você me desculpa?

— Mas é claro que sim! — eu ri e lhe abracei. — Ou você acha que eu gostei de perder minha melhor amiga, mesmo que fosse por apenas duas semanas?

Rebeca ficou aliviada, e eu decidi que não lhe contaria sobre Cristopher. Ao menos, não ainda. Em parte porque não queria estragar o momento, mas também porque não sabia como contar a ela. O que eu diria, afinal? “Rebeca, eu exilei o Cristopher numa batalha que tivemos enquanto eu dormia. Desculpa, tá bom?”. Não.

Mas também não tive muito tempo para pensar nisso, porque assim que ela foi embora, meus pais e minha irmã entraram no quarto ainda mais preocupados do que estavam mais cedo, quando apareci no colo de Josh desacordada.

— Você não precisa fazer isso se quiser. — Valentine se adiantou, completamente desesperada. — Você não precisa ir lutar. Pode ficar aqui até se recuperar, Sav! E o Josh vai...

— Valentine, por favor. Deixe que sua mãe fale com ela, ok? Nem eu nem você sabemos tanto sobre o assunto quanto as duas. — papai pegou na mão de minha irmã e a levou o mais longe possível.

Mamãe sentou-se na beirada da minha cama, a preocupação quase vazando pelos ouvidos.

— Josh nos contou que está tendo outra batalha, Savanna. — ela mandou logo a bomba. — Com muitos demônios. Os deuses estão fazendo o possível e o impossível, mas estão tendo tantas lutas em Nostrae que seus poderes estão gastos demais para que consigam lutar sozinhos. Josh já foi ajudar, mas precisam de você. Você tem o dom da bondade e da luz, minha filha. E como Onum não está forte o suficiente para salvar a dimensão inteira, você fará isso.

Você fará isso. As palavras ecoaram em minha cabeça. Os deuses não conseguiam, mas eu conseguiria?

— Como você sabe tanto, mãe? — perguntei. — Sobre os deuses e...

— Eu fiquei sabendo quando Onum te escolheu, é claro. — mas ela desviou o olhar, e isso entregou que estava mentindo. Mesmo querendo saber mais, não pressionei. Mamãe parecia estar prestes a explodir. — E é como a Valentine falou, certo? Você não precisa fazer isso.

— É claro que preciso! — tomei mais um gole do Sangue Divino, sentindo minha energia se reestabelecer completamente. Depois de passar o dia inteiro dormindo, estava descansada o suficiente para entrar numa batalha. — Meus amigos estão lá, mãe. E se eu não ajudar a salvar Nostrae, não vou conseguir impedir outro ataque de Alexei e ele vai usar a Terra como depósito de bombas.

— Como assim?

— Vai explodir o planeta. Achei que fosse óbvio.

Minha mãe suspirou.

— Boa sorte, meu amor. Estaremos rezando por você.

— Eu também estarei.

E, ali mesmo, no meu quarto, criei um portal. Não tinha como correr até a floresta no escuro. Era longe demais, eu perderia muito tempo.

Quando passei pela luz amarelada e encarei Nostrae, pensei que ia chorar. Caos era pouco para definir como a dimensão estava. Os deuses estavam no tamanho de humanos, e lutavam junto aos Electis contra magos e demônios. Porém, eu consegui perceber que todos demonstravam sinais de cansaço, enquanto que o exército inimigo parecia ficar ainda mais forte. Os Luditors vestiam mantos negros com reflexos em roxo que emanavam todos os sentimentos horríveis que alimentavam os demônios. E que provavelmente alimentavam a eles também.

A fúria que eu senti foi tão grande que esqueci de todos os meus poderes e saquei minha adaga, correndo em direção á um amontoado de Luditors. Eles possuíam três espadas apontadas para duas garotinhas que não tinham mais de seis anos. Eram tão pequenas e frágeis, mas ao mesmo tempo tão fortes e corajosas. Me perguntei que tipo de ser sujo e horroroso poderia ameaçar crianças tão novas, mas aí me lembrei que, quando se tratando dos amigos de Alexei Lound, tudo é possível.

Antes que eles pudessem ver, apunhalei o primeiro Luditor pelas costas. Ele caiu no chão sem gritar ou demonstrar dor. Morreu no exato momento em que enfiei minha adaga em sua pele. Os outros dois magos das trevas, exatamente como eu imaginava, se abaixaram para verificar o colega, quando eu fiz um golpe rápido sem nem mesmo reparar e acabei com os dois quase que ao mesmo tempo. As menininhas me encararam assustadas, sem proferirem uma única palavra.

— Não há de quê. — falei sem nem esperar que elas me agradecessem.

Respirei fundo e me concentrei em produzir aquela mesma energia de mais cedo. Não sabia se funcionaria num exército tão grande, mas toda ajuda era pouca naquela hora. Senti alguma coisa pinicando nas palmas de minhas mãos, mas não me preocupei. Usava tanto os meus poderes que a dor já não me incomodava mais.

Abri os olhos apenas para poder ver que estava envolta numa luz extremamente brilhante que me abraçava como um escudo. Não sabia o que fazer até ver dois demônios se aproximando. Abaixei-me para onde estavam os corpos dos Luditors, mas eles não estavam mais lá. Havia deixado a adaga nas costas do terceiro, e agora estava completamente desarmada.

A não ser... Pela minha varinha.

Porém, antes que pudesse puxar a varinha, os demônios foram reduzidos a cinzas. Senti minha energia diminuindo, mas não queria desistir agora que eu já sabia o que fazer.

Comecei a correr pelo campo de batalha. Assim, que nem uma idiota envolta em luz. E cada inimigo que chegava perto da minha proteção luminosa desaparecia completamente, me deixando mais cansada. Quando percebi que era mais do que eu poderia surportar e que metade deles ainda estava de pé e lutando bravamente, fiz um último esforço e expandi o escudo. As luzes viajaram por toda Nostrae até que só sobrassem deuses e Electis extremamente cansados. Exaustos, para falar a verdade. E meu poder não conseguiu curá-los.

Num dèjá vu, observei Josh vindo em minha direção e me segurando antes que eu caísse no chão. Dessa vez, eu não sabia se acordaria novamente.

Mas você salvou Nostrae. Já não é o suficiente?, falou uma voz em minha mente.

É. Talvez seja, eu respondi, sendo seguida pela escuridão.

Notas finais
Caros leitores. Ou vocês me fazem o favor de apressar-me com a segunda temporada pelos reviews, ou só terão ela na última semana de férias quando eu estiver arrumando minhas coisas e resolver reler A Escolhida. Aposto que não querem isso. Minha última semana inicia-se no dia 27. Falta pouco, I know, mas ah. Só comentem.