A Escolha Perfeita

6 O Que Não É Dito


Beatrice não aceitou o convite de Lorde Hawthorne movida por expectativa romântica. Aceitou porque precisava entender. Entender o homem, suas intenções e, principalmente, o que ele esperava dela.

A residência do lorde era sóbria, elegante, com jardins bem cuidados e silêncio suficiente para conversas que não desejavam testemunhas. Ao recebê-la, ele fez uma reverência correta, mas o olhar… o olhar não era apenas formal.

— Fico satisfeito que tenha vindo — disse ele, oferecendo-lhe o braço. — Não a imaginei recusando, mas tampouco me permiti criar certeza.

— Eu não gosto de decisões tomadas por suposição — respondeu Beatrice, aceitando o braço. — Prefiro clareza.

Ele arqueou levemente a sobrancelha, interessado.

— Então talvez nos entendamos melhor do que pensei.

Caminharam pelo jardim. O passo dele era lento, calculado para acompanhar o dela. O silêncio entre eles não era desconfortável, era atento.

— Lorde Hawthorne — Beatrice começou, sem rodeios —, não sou ingênua. Sei que seu convite não foi apenas social.

Ele parou. Não por surpresa, mas por escolha. Virou-se para ela, agora de frente.

— Fico aliviado que diga isso — respondeu. — Seria desonesto fingir o contrário.

Ela sustentou o olhar.

— Então diga-me quais são suas intenções.

Por um instante, ele se aproximou mais do que o necessário. Não tocou nela — ainda. Apenas diminuiu a distância, o suficiente para que Beatrice percebesse o calor de sua presença.

— Conhecê-la com profundidade — disse ele, a voz baixa. — Avaliar se o que senti ao vê-la no baile pode se transformar em algo… duradouro.

O coração dela reagiu, mas o rosto permaneceu sereno.

— Sentimentos nascidos de um baile costumam ser precipitados.

— Concordo — ele respondeu, quase sorrindo. — Por isso estou aqui agora. Conversando. Observando. Não tentando possuí-la às pressas.

Enquanto caminhavam novamente, ele deixou os dedos roçarem, de leve, nas costas da mão dela. Um toque rápido, quase acidental — mas não era.

Beatrice percebeu. E, com delicadeza, afastou a mão.

— Aprecio sua franqueza — disse ela. — Mas não confundamos interesse com liberdade.

Ele não se ofendeu. Pelo contrário.

— Gosto de mulheres que impõem limites — respondeu. — Me fazem ter cuidado.

Mais adiante, sentaram-se em um banco de pedra. Ele se inclinou levemente em sua direção enquanto falava, como se cada palavra fosse escolhida para convencê-la.

— Não espero nada hoje — disse. — Mas espero que, quando decidir, seja por vontade… não por pressão social.

Ela o encarou, estudando-o.

— Isso é mais raro do que imagina — respondeu. — E eu respeito.

Por um momento, ele levou a mão até o rosto dela, detendo-se a poucos centímetros da pele. O gesto ficou suspenso no ar. Uma pergunta silenciosa.

Beatrice inclinou levemente a cabeça para trás.

— Não — disse, com suavidade. — Ainda não.

Ele abaixou a mão. Obedeceu.

— Então esperarei — respondeu. — Mas não fingirei que não desejo.

Na despedida, ao ajudá-la a subir na carruagem, seus dedos se demoraram um segundo a mais na cintura dela. Sutil. Calculado. Intencional.

O suficiente para que Beatrice passasse o trajeto inteiro pensando nele.

Pediu que a carruagem parasse próximo a uma confeitaria. O dia pedira algo doce. Enquanto a dama de companhia atravessava a rua, ela avistou, do outro lado, um pequeno objeto numa vitrine estreita, antigo, delicado, belo demais para ignorar.

Seguiu alguns passos além do esperado.

A rua era mais estreita do que parecera à distância. O som da cidade ficou para trás. O ar mudou.

Então, sentiu um puxão brusco no braço.

— Não grite.

O coração disparou. A bolsa escorregou de seus dedos. A sombra diante dela era alta, próxima demais.

Beatrice abriu a boca para reagir. E o mundo pareceu parar ali.