A Escolha Perfeita
10 Entre o Que Brilha e o Que Permanece

O salão estava exatamente como Beatrice imaginara — e ainda assim, melhor.
Velas espalhadas em alturas diferentes criavam jogos de luz e sombra, refletidos por espelhos estrategicamente posicionados. Tecidos claros dançavam com os escuros. Cada detalhe parecia ter escapado das páginas dos livros de Henry.
E, ainda assim, ele não estava ali.
Beatrice desceu a escadaria com o coração inquieto, o olhar sempre buscando o mesmo rosto entre a multidão. Cumprimentou convidados, sorriu, fez o que se esperava de uma anfitriã impecável. Mas esperava.
Foi quando anunciaram mais uma chegada. Lorde Hawthorne entrou no salão com presença impossível de ignorar. Trajava um conjunto impecável, a postura firme, o olhar seguro. Era belo — perigosamente belo. O tipo de homem que fazia a sociedade prender o fôlego.
Ele se aproximou, inclinando-se levemente.
— O baile está… extraordinário — disse. — Superou qualquer expectativa.
— Fico feliz que tenha vindo — respondeu Beatrice, sincera.
Ele estendeu uma pequena caixa, forrada por veludo escuro.
— Permita-me — disse. — Um gesto de apreço. Pelo que perdeu… e pelo que representa.
Ela abriu a caixa. O brilho dos diamantes quase ofuscou a luz das velas.
— Lorde Hawthorne… — começou, surpresa. — Isso é demais.
— Não para mim — respondeu. — Gostaria que aceitasse.
Houve um breve silêncio antes de ela assentir. Ele mesmo colocou o colar em seu pescoço, os dedos roçando a pele com cuidado calculado.
— Venha — disse ele. — Quero lhe mostrar algo.
Diante de um dos grandes espelhos do salão, ele posicionou-se atrás dela.
— Veja — murmurou. — Combina com você.
Foi então que Beatrice o viu.
Não diretamente. Mas pelo reflexo.
Henry estava parado próximo a uma das colunas, parcialmente à sombra. O olhar fixo nela. A expressão… indecifrável. Não havia sorriso. Não havia reprovação explícita. Apenas algo contido demais para ser ignorado.
— Com licença — disse Beatrice, afastando-se suavemente do lorde. — Preciso cumprimentar alguns convidados.
Aproximou-se de Henry e de sua família. As apresentações foram formais, corretas. Henry manteve as mãos nos bolsos o tempo todo.
— A decoração está belíssima — disse Beatrice, tentando puxar conversa. — A fonte, os espelhos… tudo—
— Ficou muito bem — respondeu ele, breve.
Frio demais.
O Lorde Hawthorne se aproximou, cumprimentando a família Calloway com educação, mas ao mesmo tempo uma certa cautela, e então estendeu a mão a Beatrice.
— Posso ter essa dança?
Ela aceitou.
Enquanto dançavam, os olhares se voltavam para eles — e, inevitavelmente, para o colar.
— Imagino que saiba — disse ele, em tom baixo — que este gesto não passa despercebido.
— Imagino — respondeu Beatrice, honesta.
— Não o fiz por obrigação — continuou. — Mas por intenção.
Ela engoliu em seco. Dançaram mais alguns passos, mas sua atenção insistia em fugir para outro ponto do salão.
A chegada da Rainha interrompeu o momento. O alívio de Beatrice foi imediato. O foco se desviou.
Foi então que ela percebeu.
Henry se afastava.
Sem pensar, Beatrice seguiu-o até o jardim mais afastado. Encontrou-o perto da fonte, de costas, respirando fundo.
— Vai embora sem se despedir? — perguntou.
Ele virou-se devagar.
— Não queria atrapalhar.
— Atrapalhar o quê?
— Tudo — respondeu, vago.
Ela se aproximou.
— Algo o incomodou?
— Não — disse rápido demais.
— Henry…
Ele desviou o olhar. E então ela percebeu: ele encarava o colar.
— Foi exagero — disse ela, tocando a joia. — O antigo era simples. Discreto. Tinha valor por memória, não por brilho.
Isso pareceu mudar algo nele.
Henry retirou lentamente algo do bolso.
— Eu encontrei isto — disse, abrindo a mão.
Era um colar. Delicado com uma pedra verde. Muito parecido com o que ela descrevera.
— Eu mandei restaurar — continuou. — Não achei que teria coragem de lhe dar.
Beatrice levou a mão ao peito, emocionada.
— Posso? — perguntou, já tirando o colar de diamantes e colocando em cima da fonte.
Ele assentiu.
Henry colocou o colar nela. O toque foi breve — mas suficiente. Ambos sentiram.
Afastaram-se mais do salão, sentando-se perto dos arbustros.
— O Lorde Hawthorne tem intenções claras — disse Henry. — E o mundo aprova.
— E você? — ela perguntou. — O que sente?
Ele hesitou.
— Sinto que não deveria dizer.
— E eu sinto que não saber é pior.
O silêncio pesou.
— Tenho medo de manchar sua imagem — confessou. — Medo de ser… insuficiente.
— Henry — ela disse, segurando o rosto dele —, eu só não sei se a decisão que esperam de mim é a certa.
Isso foi tudo o que ele precisava.
Eles se aproximaram devagar. Houve hesitação. Um último segundo de escolha.
Então, o beijo aconteceu.
Não foi apressado. Foi profundo. Necessário. Era o seu primeiro beijo e nunca imaginara que seria daquela forma. Nunca pensará que seria tão certo e tão mágico.
Eles permaneceram juntos no jardim por boa parte da noite, conversando.
Quando Beatrice voltou ao salão, o colar de diamantes já não estava em seu pescoço.
O Lorde Hawthorne aproximou-se. Ele notou a troca, mas não disse nada.
— Onde esteve a noite toda? — perguntou.
— Onde era necessario estar, lorde.
Ela sorriu, enigmática, e deixou-o ali, com mais perguntas do que respostas.
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