A Escolha
9 Capítulo 9
Veneza estava fria.
E isso a tornava bela, porque entre a brisa fresca e o cheiro das paredes úmidas e envelhecidas, havia o doce mistério de uma cidade histórica.
Mary subiu a uma gôndola com Ada e enquanto o velho de aspecto carontino afastava-as lentamente da margem, o jovem ascensorista acenou.
- Tome cuidado, senhora. Mesmo os animais mais belos escondem um perigo mortal. – Alertou-a com uma voz macia.
Mary não questionou seu aviso, por mais surpresa que tenha ficado. Permaneceu em sua postura imponente, reservada e defensiva.
Ada olhou para os olhos do rapaz uma última vez antes de ele lhe dar as costas e voltou-se para a tutora, que lhe respondeu com um olhar apreensivo.
Joseph era um fantasma do passado, cujo o cadáver havia apodrecido nas entranhas mais profundas do mistério.
O que ele pretendia agora voltando para o mundo dos vivos?
O gondoleiro continuava a remar em movimentos lentos e rítmicos. Até que em meio ao nevoeiro, uma tênue silhueta começou a se destacar.
Um jovem garoto arqueava-se sobre uma grade, rente às vias do esgoto veneziano. Tinha nos olhos azulados uma marca tranqüila e apaziguadora.
Quando a gôndola estacionou ao lado da pequena plataforma de madeira entre uma porta e o rio, o garoto se aproximou de Mary, ajudando-a a desce, e depois à Ada.
Em silêncio, pagou ao gondoleiro e seguiu pela única porta do pequeno prédio de três andares.
Mary e Ada se viram dentro dos fundos de um Baccaro apertado, porém convencional. Um grupo de velhos espalhava-se entre as mesas tomando o desjejum e comentando em sussurros os pequenos fatos de seu dia-a-dia.
O jovem, então, as guiou para dentro de outra porta, onde em meio à penumbra se destacava uma pequena janela, de onde raios de luz brotavam iluminando o perfil de um velho sobre uma cadeira de balanço.
Visivelmente exausto pelos pesos dos anos, Joseph ergueu os olhos para Mary.
Sua primeira discípula.
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