Amy

Entro dentro de casa e o silêncio reina, suspiro profundamente e pisco os olhos com força, tentando entender se aquilo é real, até que sinto a raiva tomar conta de mim e começo a chorar, olho pro vaso que fica em cima da mesinha onde colocamos as chaves quando entramos e pego o mesmo tacando-o com força no chão, vejo ele quebrando em pedaços, minha raiva ainda não passou e provavelmente não ia passar, nem que eu quebrasse a casa inteira iria adiantar, não é como se eu fosse quebrar mais um vaso e ela sai-se de dentro linda como sempre foi. Encosto na porta atrás de mim e sinto o gelado da madeira em minhas costas, começo a descer devagar até chegar ao chão, com nenhuma força pra querer continuar ali, oque há de errado comigo?- pensei- sempre tentei fazer o meu máximo para tudo dar certo, é assim que você me retribui? Matando a pessoa que eu amo? Me levanto do chão ignorando os pedaços de vidro e jogo minha bolsa no sofá, subo as escadas e entro no meu quarto indo em direção ao banheiro. Fico me olhando no espelho, apoio meus braços na pia e abaixo a cabeça.

—Que merda!- bato as mãos na pia.

Procuro algum calmante no armário, acabo me estressando e jogo tudo no chão. Volto a olhar pro espelho do banheiro e o soco, quebrando-o em pedaços.

—Droga!- sangue começa a escorrer pela minha mão. Abro a torneira e coloco minha mão em baixo.

Escorre bastante sangue, procuro uma toalha e a enrolo na minha mão.

—Ótimo, esse com certeza é meu dia- falo num tom de sarcasmo.

Vou até a cama e me sento, paro pra pensar em tudo oque aconteceu, todas as coisas ruins e todas as coisas boas, choro ao olhar o nosso rosto desenhado e enquadrado na parede do quarto, minha vida seria a pior, sem ela, sem meu mundo. Levanto e volto ao banheiro, minha mão havia parado de sangrar e precisava colocar um curativo, pego a caixa de primeiros socorros em cima da pia e procuro algum curativo, o coloco e saio novamente do banheiro. Os pedaços quebrados do espelho ainda se encontravam no chão do banheiro, não ia adiantar quebrar mais coisas, não posso quebrar mais nada. Estava muito mal, talvez dormir fosse uma boa opção.

~~~~~~

Acordo com alguém batendo na minha porta, me levanto da cama e olho no relógio, são 10:15, desço e vou até a porta, abro vendo Henrique na minha frente.

—Henry?

—Oi, eu trouxe algo pra gente comer- ele fala levantando uma sacola.

—Claro, entre.

Dou espaço e ele entra. Ele vai em direção a cozinha, o sigo e me sento na mesa.

—Então, tudo bem?- eu pergunto.

—Iremos fazer o enterro dela amanhã.

—Hum....talvez seja bom ela ter ido, não sofrer aqui- eu falo.

—Eu também me sinto mal, acabei de perder uma filha.

—Eu sei....Henry- faço uma pausa.- Eu queria pedir ela em casamento.

—Sério?

—Sim, no mesmo dia do acidente eu tinha comprado uma aliança.

Vou até o quarto e pego a caixinha com a aliança, volto a cozinha.

—Aqui- lhe entrego a caixinha.

—Ela é linda.

—Sim- dou meio sorriso.

—O que acha de colocar nela quando formos a enterrar?

—Eu adoraria.

Me levanto e ele também, damos um abraço, terminamos de comer e vamos até a sala. Ficamos assistindo filmes, séries e desenhos. Henrique vai embora me deixando sozinha, precisava ocupar minha mente com alguma coisa, começo a lavar a louça, em seguida começo a arrumar o resto das coisas, dês do andar de baixo até o de cima. Limpo todos os vidros do chão da sala e do banheiro.

Ouço meu celular tocando e vou atender.

—Amy.

—Oi Rafa.

—Queria saber como esta, tudo bem?

—Estou bem, eu acho.

—Posso te visitar?

—Sim, sempre.

—Obrigado, você pode abrir a porta?

—O que?

—Abre a porta, eu to aqui em baixo.

—Você é louco- dou uma pequena risada e vou abrir a porta.

—Sério? Muito obrigado- ele diz desligando o telefone.

—O que faz aqui?

—Vim te dar apoio.

—Ah, obrigado.

Ele me abraça e entra.

—Você falou com seus pais?- ele pergunta sentando no sofá.

—Não, estava pensando em ir a casa deles hoje- respondo colocando algumas flores em um jarro.

—Posso ir com você?

—Hum, acho que sim- falo o olhando.

—Quer ir agora?- ele se levanta.

—Sim, vou só tomar um banho- falo abaixando o olhar.

Subo as escadas e vou até o quarto. Tomo um banho, me visto e desço.

—Vamos?- pergunto pegando o casaco e minha bolsa.

—Vamos.

Ele veio de carro desta vez, ele abre a porta pra mim e eu entro, logo em seguida ele entra.

—O que você acha de......

—Rafa, pode parecer que está tudo bem mas, não está- falo o interrompendo.- Quantas vezes você já não fez isso? Escondeu seus problemas atrás de um sorriso e saiu na rua, falando com todos como se estivesse tudo bem mesmo com seu coração em pedaços, a nossa máscara, a máscara da felicidade, é ela que usamos quando queremos esconder nossos problemas e nossas dores, pessoas fazem isso todos os dias, passam os dias sorrindo sabendo que está tudo desabando. Acham que você é uma pessoa positiva, só que você é o contrário, você mente, você se esconde para todos acharem que está tudo bem, você se cala mesmo com sua mente gritando, isso é tão horrível, fingir a felicidade.

—Amy......

—Isso me torna uma mentirosa?- pergunto quando ele para em um sinal vermelho.

—Não, você não quer que as pessoas vejam sua dor, não quer que elas sintam pena de você mesmo precisando de ajuda, você fala que sim quando perguntam se está tudo bem, só que você quer dizer que não, quer ter a ajuda de alguém, só que você não faz isso, talvez por medo, medo que julguem seus problemas e piorem as coisas.

—Você fez muito isso, não é?- pergunto me referindo a sua mulher e seu filho.

—Sim, demorei pra superar, me sentia fraco todos os dias, não queria sair da cama, uma única coisa me fez continuar viver, melhor, duas pequenas coisas.

—O que?

—Você e a Juli, pareciam que iam quebrar tudo quando entravam na minha casa, o ar de felicidade que vocês traziam me dava vontade de viver, de continuar em pé e seguir em frente, foi isso que eu fiz, fiz isso com a ajuda de vocês- ele diz olhando pro outro lado dando um sorriso, parecia lembrar das coisas.

—Era engraçado praticamente obrigar você a ir tomar banho para irmos ao parque, lembro de quando levamos aquele brinquedo que faz bolhas de sabão e a Juli corria atrás das bolhas, como se fosse uma pequena criança- o sinal abre.

—Ver o por do sol no parque com vocês duas era tão divertido.

—Era- abaixo a cabeça e dou um pequeno sorriso.

—Mais momentos felizes virão.

—Sim, eu sei que sim.

—Quero estar presente em todos eles- ele tira um pouco os olhos da estrada e olha pra mim.

—Vou fazer questão- sorrio.- Obrigado, por estar comigo e ser essa pessoa.

—Não agradeça a mim, agradeça ao universo, não se esqueça de pedir boas vibrações.

—Ta.

Fecho os olhos e levanto a cabeça, faço meus pedidos em silêncio, logo em seguida abro os olhos.

—Pediu?

—Uhum.

—Oque pediu?

—Só posso contar depois que se realizar.

—Hum, ta bom- ele para o carro.- Chegamos.

Descemos, paro em frente a casa dos meus pais, minha antiga casa, era a hora. Toco a campainha.