A Encantadora

7 6 - Renascimento


Notas iniciais
Finalmente, o desfecho. Aproveitem o desenrolar dos mistérios e a decodificação das discretas pistas!~

January fechou os olhos por um momento, arrumando os fatos em sua mente. Abriu-os, e com uma voz potente e alta, começou a narrar.

-Todos sabemos que, há dez anos, tivemos o enterro de December, herdeira do trono real de EternalStone e a última de nós, salvadores. E, se digo enterro, é porque quero dizer que ouve apenas a cerimônia, e não sua morte. – disse a líder, os olhos castanhos focados e sérios.

Choque geral. Não, não era possível. A maioria dos soldados havia até feito a escolta do caixão da garota, sentido o peso do corpo dela.

-Com licença, — começou um soldado, o mesmo que havia achado December morta na floresta naquele dia. – desculpe interromper, mas com todo o respeito, eu a vi sangrando. Morta. Sem pulsação, nem nada. Como então, ela podia estar viva? – perguntou o soldado, incrédulo.

-Ah, então vocês querem prova de que ela ainda vive? – perguntou January. Fez um movimento com as mãos, de onde saiu um fluído brilhante, e o jogou para a cara da desacordada Ravena, fazendo sua face brilhar. – Olhem para aquela garota ali, e me digam se agora não a reconhecem.

A face de Ravena parou de brilhar, e nela surgiu uma pele clara, pálida, ainda pouco corada e com feições finas.

Uma face conhecida. Antes amada, antes servida por guardas do palácio.

Ravena era, de fato, December. Que apenas se cobria, de algum modo, com uma pele de pedra falsa.

Choque completo. Principalmente para Johanne, que nunca havia sequer cogitado a possibilidade, reconhecido a voz, os traços, nada. Ele, que havia convivido, ainda que pouco, com a pequena December.

Aliás, choque quase completo. Havia uma pessoa, dentre eles, que não parecia surpreso, mas não se atrevia a falar: Evanar. Seus olhos negros apenas olhavam, como se já estivessem acostumados àquela cena. E como estavam.

-Como... Por que...? – murmurava Johanne, ainda com a garota em mãos, com os dedos em sua face, ainda incrédulo com o reconhecimento.

-Tudo ao seu tempo. Contaremos tudo. – disse January. – Alguém gostaria de dar continuação aqui? – perguntou, e visto que August já se levantava, passou a vez à ela.

-Pode deixar comigo. Acho que a dúvida geral aqui é, ‘como ela estava no funeral, mas não no enterro’? – disse a garota, sem escrúpulos. Todos assentiram com a cabeça, sem coragem de levantar a voz sobre aquele clima tenso. – Acontece que, no processo entre o funeral e o enterro, tinham de trancar o caixão. E com a ajuda de alguns parceiros, ela trocou seu corpo por algumas pedras, fugindo em seguida. – explicou August, um pouco mais séria que de costume.

-Esqueceu de dizer por que ela fez isso. – completou October, que era naturalmente observadora.

-Pode completar então?

-Com prazer. – disse October, colocando-se a frente. – É importante lembrar que ela não fez isso apenas para poder fugir e evitar as obrigações da realeza. Desde que descobriu que era uma das Salvadoras, ela tinha em suas mãos uma difícil decisão. – ela colocou uma mão de cada lado, e acima delas, surgiram duas formas: uma, vermelha, parecida com um coração, e outra, azul, que parecia com duas pessoas de mãos dadas. – Ou ficar com quem a amava, embora sozinha na maioria do tempo e dependendo da sorte, com mais chances de ter sucesso, ou ficar com a família, sempre acompanhada e segura, embora com menos chances de conseguir quebrar a maldição.

Ela deixou que a figura azul sumisse, abaixando esse braço, dando a entender que a garota seguiu o caminho de seu coração.

-E como devem ter percebido, ela preferiu a incerta liberdade. – completou October.

-Vale lembrar também que ela não fez isso antes de descobrir a fórmula para quebrar a maldição. – ressaltou November, defendendo a filha.

-Não muda o fato de que ela fugiu de casa, deixando muitas pessoas sem olhar para trás. – disse June, com um sorriso malicioso, querendo provocar a mãe de December.

November ficou furiosa, quase avançando no ilusionista. Quando ia atacar, March e January a impediram, visto que elas eram as que mais conversavam e entendiam a ex-rainha.

-Acalme-se, November. E sim, June, ela fugiu, mas você não pode afirmar se ela realmente não olhou para trás. Não temos como saber, e é realmente improvável que ela não tenha sentido saudades, nem que por uma vez só. – disse January, apaziguando os ânimos.

-E... que fórmula é essa? – atreveu-se Johanne, interrompendo a discussão e fazendo com que todos os meses se entreolhassem.

Houve uma pequena discussão entre eles, decidindo se deveriam ou não revelar. Eles, que sacrificaram todas as suas vidas para chegar naquela pequena conclusão, poderiam se dar ao luxo de dizer a um ‘simples’ príncipe aquele conhecimento tão sagrado?

September, que estava mais afastada, julgou que sim. E antes que chegassem a qualquer veredicto, ela ergueu a voz:

-Vencer a vaidade e o orgulho que essa carapaça que vocês têm provoca, e fazer com que, mesmo semelhantes a estátuas de pedra sem vida, provem que ainda sabem amar e sorrir. – disse ela, séria.

E para quebrar com todo aquele clima, a extrovertida August decidiu se meter.

-Falou bonito, September! E ainda fica com essa de dizer que não serve pra nada. Para quem não entendeu a linguagem difícil da nossa pequena poeta, basta que vocês chorem e riam, a despeito de tudo e todos. – disse August, se apoiando na cabeça da menor, e roubando a atenção de volta para o seu rosto emoldurado por cachos.

-E como se faz com que milhares de pessoas sintam, juntas, um sentimento forte o suficiente para fazê-las chorar e, em seguida, sorrir de novo, ao invés de desistirem da própria vida? – perguntou o monarca, tentando unir os pontos.

-Era essa a pergunta que todos nós fizemos, e sacrificamos nossas vidas pela resposta. – respondeu April, mais solene. – E a única que sabe isso é essa garota aí. – disse, apontando para a desmaiada December.

-Se bem que... – começou October, com uma expressão pensativa, enquanto ajeitava os óculos que pendiam pelo nariz. – pensando agora, a resposta é até óbvia.

-O que quer dizer com isso, October? – perguntou January, curiosa, enquanto os outros meses também se viravam para ver as conclusões da garota.

-Pensem na população em geral. O que acha que elas estão sentindo, com essa guerra perdida? As mulheres sem seus maridos, os filhos sem seus pais, os velhos sem seus filhos? Teriam eles morrido? Sobrevivido? Estão inteiros? – jogou October, olhando nos olhos de cada um dos soldados, que por sua vez, tinham marcas notáveis em suas faces, resultantes do stress da guerra.

Todos pararam por um momento. Os soldados, lembrando de sua família, seus filhos, pais e esposas, que tinham deixado em casa. Johanne, refletindo com mais calma, pensou em tudo que havia causado, por motivos particulares, à população que o respeitava e que deveria ser defendida sob a direção dele. E se arrependeu, num raro momento de altruísmo, de ter começado tudo aquilo por motivos próprios.

Contudo, ele não se arrependia nem um pouco de ter feito isso pela cigana.

E foi pensando nela, e juntando os fatos, que ele se viu como peça crucial de toda aquela história. Afinal, apenas ele poderia começar e comandar uma guerra. Apenas ele poderia pará-la. E, sem ele, December não teria alcançado com suas danças nem metade da capital, quando mais do Império.

Abaixando os olhos, incapaz de sentir raiva da princesa que jazia em seus braços, perguntou, numa voz sem vida:

-E desde quando eu estou no plano dela?

-Você nunca esteve nos planos dela. – respondeu Evanar, de supetão, finalmente reagindo após quase ter sido assassinado pelo imperador.

-Quer explicar a história dela, Evanar? – perguntou January, desafiadora, tentando evitar a tensão entre os dois.

-Não, pode continuar. – disse o líder da rebelião, abaixando os olhos, claramente envergonhado diante da figura da salvadora.

-Como eu ia dizendo, ela fugiu de casa, atrás de seu objetivo. Primeiro, precisava conquistar o povo. E decidiu se tornar uma dançarina, colocar sorrisos nos rostos dos que trabalhavam, mesmo que por poucos momentos. Entretanto, ela precisava montar as coreografias, as roupas, as músicas e a divulgação, e não conseguiria sozinha. Foi quando, durante uma de suas apresentações, ela reconheceu aquele que ela esperava nunca mais ver, visto que ele fazia parte de sua outra vida, aquela de princesa.

“Disfarçou o espanto, e entre um passo e outro, deixou que um de seus acessórios caísse nas mãos dele, fazendo-o esperar por ela até o final da apresentação. Chegando mais perto, longe da multidão e do movimento, e olhando fundo nos olhos da dançarina, ele reconheceu o brilho dos olhos de sua falecida amada. E ela reconheceu Evanar, seu melhor amigo na cidade. O motivo da rebeldia de December e a razão por freqüentar tão assiduamente a cidade.

“Aliás, ali mesmo aconteceu o primeiro milagre de December: com a volta da amada, Evanar não pode deixar de sorrir, e seu rosto antes marcado se quebrou, revelando a pele macia e verdadeira do garoto.

“Ele prontamente se dispôs a ajudá-la. Começou a ajudá-la em tudo o que precisava, e ainda ficava discretamente de segurança durante as apresentações, apenas para o caso de algum engraçadinho tentar se aproximar mais do que deveria da cigana. É claro que a antiga paixão não demorou a aparecer, e sem os antigos obstáculos, não demorou a crescer e se concretizar. Compraram uma casa juntos, e enquanto ela saía para completar sua missão, ele cuidava da casa, do jardim, e nas horas vagas espantava os homens que seguiam December, até se passando por seu ‘namorado fantasma’, como chamavam”.

-Então os boatos eram verdade... – murmurou Johanne, cheio de raiva e ciúme. Um silêncio se seguiu, enquanto todos esperavam por alguma reação explosiva por parte do monarca, mas ele apenas encarou Evanar e perguntou: — e desde quando vocês pretendiam me usar?

-Nós nunca pretendemos. Não era pra você sequer ter entrado na nossa casa. – começou Evanar, munido do ódio contido durante todo o envolvimento dele com sua amada. — Contudo, você me pegou despreparado, num dia de febre, sem que Ravena – digo, December – estivesse ciente disso. É por isso que havia chá o suficiente para duas pessoas. Ou você acha que ela estava esperando ansiosa pela sua majestosa presença? – terminou o ataque, usando todo o sarcasmo que tinha na última frase.

Extremamente provocado, Johanne se zangou. Contudo, se conteve, preferindo provocar o outro de volta.

-Ela não pareceu recusar nenhum dos meus beijos. E, quem sabe? – provocou o monarca, pegando o rosto de pedra de Ravena – Se o príncipe beijar a princesa, talvez ela acorde...

Johanne inclinou o rosto da garota em direção ao seu, e para irritar mais ainda o outro, abriu a própria boca perto da dela enquanto olhava para ele. Evanar se levantou, em fúria, avançando no monarca, fazendo-o derrubar a garota. Antes, contudo, que pudessem realmente brigar, January abriu as mãos para o alto e separou os dois através de uma força invisível.

-Chega. Não cabe a vocês decidir quem vai ficar com ela, o coração é dela, a escolha é dela. – disse, irritada com a briga infantil dos dois homens. – Já interferimos demais. Apenas viemos pois não é destino dela morrer antes de salvar esse império. Vamos fazer o que nos trouxe aqui, já está na hora de ir. – disse ela, convidando todos os salvadores a se aproximar, formando um círculo ao redor de December.

Depois de retirarem a flecha ainda atravessada no seu corpo, cada um deles estendeu as mãos em direção para a garota, e um fluido transparente e brilhante saiu do corpo dos salvadores direto para a ferida da garota. Ela começou a fechar e cicatrizar, mas antes que pudesse ser totalmente curada, o fluido enfraqueceu e acabou.

-Nós viemos para curá-la, e só. Retirem a pele de pedra dela, e enfaixem o resto da ferida. – recomendou January, antes de começar a sumir, até evaporar completamente no ar.

Os salvadores, então, começaram a desaparecer em ordem. Alguns simplesmente ficaram parados até sumirem, outros, fizeram uma pose, ou até disseram alguma frase curta. Por último, ficou November, que apenas caminhou até a filha, colocou suas mãos pálidas no rosto da mesma, e com um sorriso, desapareceu.

Os soldados postaram-se em seus devidos lugares, mas seus líderes ainda estavam jogados no chão, digerindo a enorme quantidade de informações que lhes fora jogada. Por fim, Evanar se levantou primeiro, carregou o corpo de December, e o entregou para Johanne, ainda atordoado. Quando se virava para partir marchando, Johanne o interrompeu.

-Vai deixá-la comigo? Por quê? – perguntou o monarca, confuso, mas aliviado por sentir os batimentos da garota mais fortes.

-Por mais que eu te odeie, tenho que admitir que seu reino tem melhores condições para cuidar dela. Além disso, ter ou não o coração dela não depende mais de nós; a escolha agora é dela – então, ele ficou de costas, desta vez, preparado para qualquer emboscada que o outro pudesse tentar, e perguntou. – Então? Finalmente estamos em paz?

Sem bandeira branca, sinal, aperto de mãos ou qualquer tratado assinado, Johanne respondeu:

-Oficialmente, sim. Pessoalmente, nunca.

-Foi o que pensei. – respondeu Evanar. E partiu.

Notas finais
Ah, estava na cara que a Ravena era a December, não? Tentei escondê-la o máximo possível, mas acho que acabei entregando o ouro mais cedo do que pretendia. Agora, quem ela escolherá? Johanne ou Evanar? Façam suas camisas e suas apostas. #teamJohanne x #teamEvanar -nnn E não se esqueçam da review~