A Encantadora
5 4 - Ravena
Notas iniciais
No ano seguinte da morte de December, November se uniu à filha no mundo dos mortos. Nos quatros anos seguintes, o rei tentou seguir a vida, mesmo com a morte da esposa e da filha, mas bravamente falhou. Então, ele decidiu abdicar ao trono, e quem assumiu foi um parente do rei, Johanne. Ele não era equilibrado como o antigo monarca, era vaidoso, mandão e tinha um gênio complicado, mas não deixava que seus defeitos transparecessem ao governar, o que era o mais importante. Como o resto do reino, tinha pele de pedra, mas ao contrário da maioria da população ele era loiro, com olhos azuis, que continham um padrão de linhas do mais raro. Com certeza, uma das pessoas mais bonitas de seu império.
Assim, nos primeiros meses de seu governo, Johanne decidiu organizar caminhadas diárias na capital de seu Império. Afinal, antes de programar qualquer medida ou começar qualquer projeto, ele precisava conhecer a população a que estava servindo.
Então, ao passar pela primeira vez pelo centro da capital, onde se localizavam as principais lojas e aonde era o coração do comércio daquele reino, ele notou uma aglomeração de pessoas, quase hipnotizadas, principalmente composta de homens e crianças que se amontoavam em volta de um pequeno tablado. O novo monarca, curioso, se juntou à multidão, arranjando um espaçinho para ver o espetáculo que se passava.
E a visão que teria a seguir mudaria o destino de seu império para sempre.
Uma cigana, por volta de seus 19, 20 anos, dançava animadamente uma música entoada por um tocador de acordeom, de origem céltica. Ela tinha cabelos negros e ondulados, com cachos nas pontas. Suas mechas eram brilhantes e bem cuidadas, e seus olhos tinham uma coloração castanha escura. A morena usava um vestido branco brilhante, com moedas de bronze na ponta dos babados da barra do tecido.
E ela dançava, girava, floreava os passos que dava no pequeno tablado, tornando cada movimento único e gracioso. De algum modo, ela conseguia fazer com que as crianças fossem cativadas pela sua energia, e os homens, ficassem encantados com seu jeito diferente de ser.
Seu segredo era seu comportamento exótico. Ela não se comportava como as mulheres de EternalStone. Na maioria dos casos, elas eram frias, desdenhosas e muito vaidosas; sempre tomando o cuidado para não falar com a boca aberta demais, ou para cerrar as sobrancelhas com força, ou seja: fazerem expressões que pudessem deixar a mais mínima marca em suas peles imaculadas.
Já a cigana não tinha esse comportamento. Ela sorria, fazia cara de triste, de má, de brava, encenando uma pequena historinha de acordo com a música que o músico tocava. E, por vezes, arrebatava o coração dos homens que assistiam às suas apresentações. Algumas vezes, ela fazia um sinal para que um ou outro homem subisse ao palco, para ajudá-la a executar a coreografia, mas tais danças em pares não duravam mais do que um minuto, embora arrebatasse os corações dos sortudos no mesmo instante.
O rei, como todos os outros homens, ficou hipnotizado pela cigana. Agindo como o resto da multidão, ele assistiu à coreografia da moça, tão maravilhado quanto uma criança com um brinquedo novo, batendo palmas com a multidão para marcar o ritmo da melodia. Somente com o fim do ato foi que ele notou que estava levemente arrepiado. Durantes as palmas entre um ato e outro, alguém na multidão notou a presença do monarca e se curvou, ajoelhando-se e levando a cabeça quase ao chão, fazendo com que outro homem ao lado deste notasse a presença do rei, e mais outro, e mais outro, até que todos se curvaram para o rei.
Todavia, a cigana não se curvou para Johanne. Ela cumprimentou o imperador como alguém superior, somente segurando o vestido e levemente acenando com a cabeça, gesto que só foi notado pelo monarca, já que todos os outros presentes naquele centro estavam com os rostos virados para o chão, curvados como servos.
A audácia da cigana fez o coração do monarca esquentar, até começar a ferver, chamuscado pelas chamas da paixão. Aquela mulher tinha atitude, e estimulava a curiosidade do imperador.
-Por favor, podem se levantar. Não é necessária tamanha formalidade comigo. Pelo menos, não em situações informais. – disse Johanne, gesticulando para que o povo levantasse, tentando ser simpático com seus novos súditos.
-O que o trás aqui, Vossa Majestade? – perguntou a cigana, servindo de porta-voz dos camponeses usando seus olhos penetrantes. O rei podia sentir os olhos da mulher atravessando seu corpo e ao mesmo tempo, não conseguia sequer imaginar o que se passava pela mente dela. Diferentemente de outras garotas, ela não parecia surpresa com seus cabelos dourados, muito menos curiosa com seus olhos claros, o que o instigou mais a investigar a vida da moça.
-Vim conhecer as ruas da minha capital, conhecer o povo e seus costumes. Creio que não posso ser um bom governante se não conhecer meu povo. – respondeu o rei, da forma mais humilde que sabia. – Mas não interrompam suas atividades por minha causa. Continuem, por favor. – pediu o imperador, louco para ver a morena dançar mais uma vez.
Então, o músico voltou a tocar seu acordeom, e a dançarina, a fazer seus passos graciosos e encantadores. No começo, o público ao redor ficou envergonhado de vibrar na frente de seu rei, mas em poucos minutos, voltou a ficar hipnotizado pela dançarina e ignorou a presença do próprio.
O imperador, embora estivesse acompanhando o espetáculo, estava mais longe do tablado, e foi abordado diversas vezes para ser cumprimentado, e conseqüentemente, era acordado do transe que a dançarina provocava. Em uma dessas vezes, duas madames, passeando pelo centro de sombrinha, notaram os dotes físicos do monarca e puxaram conversa com ele, tentando em vão conquistar o rei.
Ele não estava de fato interessado em conversar com as mulheres, mas elas começaram a fofocar sobre a cigana, deixando o monarca intrigado. Queria descobrir tudo o que pudesse sobre a morena. E elas lhe contaram todos os boatos que rolavam sobre a cigana, inclusive os mais absurdos, como o do que ela tinha um suposto namorado fantasma, com quem se encontrava na calada da noite, planejando e recrutando um exército de mortos-vivos para destruir o império. É claro, era tudo invenção das mulheres, com inveja da dançarina, mas mesmo assim o rei ficou enciumado com a possibilidade de a moça gostar de outro homem que não fosse ele. Ele nem tinha nenhuma relação com ela, mas mesmo assim, já a considerava sua.
Então, nos dias seguintes, o rei visitou novamente a praça, com o pretexto de que, para ir para qualquer lugar da capital, era necessário passar por lá, mas no fundo, esperando ver a misteriosa cigana mais uma vez. Ele notou que ela não aparecia por lá todos os dias, e quando ela estava ausente, a praça era mais triste, e tinha menos cores. Em compensação, quando ela estava por lá, a multidão entrava em rebuliço, com espectadores se empurrando em busca de um espaço para vê-la melhor e fofoqueiras com inveja da moça. Em especial, o imperador sentia-se muito melhor nos dias em que a via, embora seu coração batesse em um ritmo mais elevado, o que normalmente o deixaria cansado, mas no caso, o deixava mais atento e mais atraído pela dançarina.
Assim que, cheio de curiosidade e até com certo ciúme, causado pelos boatos absurdos das madames, decidiu que a seguiria após seu espetáculo. Para passar o tempo, ele até tentou chamar a atenção da cigana, sendo simpático com uma ou outra senhora que passeava pela rua, tentando enciumá-la de algum modo, mas ela nunca olhava para ele, e continuava a encantar seus espectadores naturalmente.
Quando a apresentação dela estava no auge, com o máximo de espectadores possível, ela encerrou as atividades. Os homens quase imploraram por um bis, mas ela foi rígida. Dando tchau para o músico e para as crianças, que assistiam à ela e não incomodavam as mães que trabalhavam no mercado – que, aliás, eram as únicas mulheres que não odiavam a cigana –, ela arrumou suas coisas e se encaminhou para casa.
O monarca, usando a confusão do mercado para se encobrir, começou a seguir a moça. Enquanto os barulhos da capital estavam presentes, o monarca conseguiu seguir com sucesso a dançarina. Porém, quando começaram a se afastar da cidade e começaram a se encaminhar para bairros mais silenciosos, o rei começou a sentir dificuldades para manter a discrição enquanto acompanhava a morena. Quando saíram da cidade, então, ele fez barulho suficiente para mostrar à moça que alguém estava perseguindo-a, e mais ainda, para mostrar que era o próprio rei quem o fazia. A falta de prática do imperador nesse tipo de atividade o deixava em grande desvantagem.
Todavia, a cigana não havia sequer reagido ao perseguidor. De algum modo, ela não havia notado a presença do rei, ou sabia que alguém estava seguindo-a e estava acostumada com o fato. Muitos homens provavelmente pegavam no pé dela após o espetáculo, ou pelo menos, foi o que o monarca deduziu. E, somente de imaginar outros homens ficando com a cigana, sentiu uma pontada no coração, de ciúme.
Quando chegaram à casa da dançarina, uma simples casa com uma pequena horta, o rei esperou alguns minutos. Primeiro, para deixar que a cigana descansasse depois de um dia inteiro de esforço, e segundo, para memorizar o lugar onde ela morava. Passou o tempo admirando a casa, espantado como tanta beleza e encanto poderiam residir num lugar tão pobre e pequeno.
E dessa comparação, ele teve uma idéia.
Bateu na porta de madeira, ansioso. Ouviu um ‘já vai!’ um pouco surpreso, e mesmo já sabendo quem morava naquele lugar, não pode deixar de ficar surpreso quando a garota atendeu à porta, e muito menos de prender a respiração diante de sua presença.
De perto, ela era ainda mais fascinante. Depois de ser encarada por um longo momento, a moça quebrou o silêncio:
-Vossa Majestade, o que o trás para um lugar tão... – ela pensou no adjetivo mais próprio que pôde. – simplório? – perguntou a dançarina, um pouco surpresa.
-Perdoe-me, mas vim aqui atrás de você. Desde que te vi na praça, pela primeira vez, não pude deixar de te notar e de me encantar pela sua beleza. – disse ele, ajoelhando-se. – Confesso que fiquei viciado em tua presença, embora soubesse pouco de ti. Eu poderia ter a honra de saber seu nome? – perguntou o rei, se ajoelhando para a moça, que corou. Embora já tivesse recebido várias abordagens antes, nunca passou por isso com alguém nobre, muito menos com o próprio rei. Era uma situação nova e inusitada para ela.
-Me chamo Ravena, Vossa Alteza. – respondeu a moça, parecendo envergonhada.
-Por favor, não precisa usar a formalidade comigo. – disse o rei, incomodado. – Gostaria de lhe fazer uma proposta. – e ao dizer isso, algo assobiou dentro da casa.
-É o chá. Entre, Johanne, e fique à vontade. – disse Ravena, fazendo a vontade do rei, que ficou nas nuvens ao ouvir a voz dela dizer seu primeiro nome. Ele entrou a casa, pela primeira vez de muitas outras.
A habitação era, em todos os sentidos, modesta e funcional. Era pequena, mas não continha muitos móveis, somente o necessário para uma pessoa e uma possível vista, fazendo com que ficasse relativamente espaçosa. Era, ao seu modo, aconchegante, e o calor que vinha da cozinha esquentava toda a casa.
-Servido? – perguntou a dançarina, sorrindo amavelmente. Ela estava com poucas palavras, mas também, nunca havia sido tagarela.
-Sim, por favor. – disse o rei, pegando uma das duas xícaras na mão de Ravena. No breve momento em que suas peles roçaram, o rei notou que ela tinha uma temperatura mais quente que a dele, ficando ainda mais curioso sobre a garota.
Então, esquecendo sobre a proposta, começou a questionar a cigana sobre seus gostos, desgostos e interesses. A garota, igualmente interessada, também questionou o rei. Johanne descobriu que a garota era filha de um par de ciganos, que corriam o mundo dançando e cantando, e que, justamente por correrem o mundo, tiveram de deixar a filha cuidando de si mesma com 15 anos. Com alguns ciganos locais, ela aprendeu a dançar, cantar e tocar instrumentos, e decidiu conseguir dinheiro com o que havia aprendido. Ela gostava de flores, como toda mulher, e tentava manter uma pequena jardineira em uma das poucas janelas da casa. O rei não tinha perguntado, mas as paredes tinham alguns papéis com figuras lindas da natureza, como árvores em flor e colinas verdejantes, presas de um modo rústico às paredes, algumas com molduras e outras não. Johanne supunha que eram feitas pela própria garota, mas decidiu guardar as deduções.
A garota, por sua vez, também desvendou parte do monarca. Descobriu que ele era filho de nobres, de sangue azul puro, e que foi convidado ao trono por ser o parente mais próximo do antigo rei, já que sua filha e sua esposa tinham ambas morrido. Soube que ele foi treinado desde criança para o caso de ter de tomar posse do reino, e pretendia ser o melhor rei que o reino já tinha visto. Confessou que tinha uma personalidade difícil, que muitas vezes era egoísta e impulsivo, mas que tinha aprendido a controlar sua natureza junto com a política que seus mestres haviam lhe ensinado.
Ambos continuaram conversando durante um longo tempo, interessados um no outro. A cada pergunta, surgiam muitas outras, o que os manteve sintonizados por mais tempo do que planejavam.
Ravena, de tempos em tempos, preparava pequenas refeições para ambos, o que os manteve acordados e satisfeitos madrugada afora. Somente quando o dia começou a raiar, e a cozinha ficou levemente pintada de laranja, que Johanne se deu conta do período excessivamente longo que havia passado lá. Desculpando-se por incomodá-la tanto, Johanne ajudou a garota a limpar a casa e foi se despedindo dela. Quando ela estava fechando a porta, e Johanne admirava a parte de fora da casa mais uma vez, a proposta que o fez primeiramente criar coragem para falar com a moça voltou à sua mente. Pedindo para que esperasse, Johanne segurou a porta e impediu que ela se fechasse. A cigana perguntou qual o problema.
-Queria lhe fazer uma proposta. – começou o imperador, usando toda a sua capacidade para convencer a moça. – Uma garota como você, tão doce e delicada, merece mais do que uma simples casa tão longe da metrópole, muito menos andar tanto todo dia para se apresentar à ralé. Por isso... – disse o rei, acariciando suavemente o rosto da garota, tentando conquistá-la – não gostaria de viver no castelo? Trazendo para os nobres a alma da cidade, a humildade do povo. Acho que, se quem tem poder tivesse um tipo de conexão com o que o povo pensa, nosso reino poderia crescer mais ainda. É o meu grande sonho. Quero ser lembrado como o melhor governante que esse reino já teve. – disse o rei, com um olhar sonhador para o sol que nascia. – Então? O que me diz? – disse Johanne, abaixando a mão que estava no rosto da dançarina, somente para entrelaçar os dedos dele nos dela, brandamente.
A dançarina pensou, olhou para o chão, para o sol nascente, para o rosto do rei. Acariciou a pele da mão dele, fria, mas macia. Respirou fundo e o encarou, com seus olhos escuros e opacos, que não deixavam transparecer nenhum de seus pensamentos.
-Sinto muito. Pode até ser que eu não mereça, mas eu gosto da minha casa. Gosto de andar pela manhã até a cidade, e de dançar o dia todo na praça. Isso é o que eu gosto de fazer. – disse a cigana, muito franca. O rei, decepcionado, já estava soltando sua mão da dela, pronto para ir embora e deixá-la em paz, mas ela o segurou. – Contudo... Acho que não tem problema passar a me apresentar no palácio. Desde que você me diga como devo me portar... – ela disse, rindo.
-Não se preocupe, querida. Você já se porta muito bem. – disse o rei, feliz por Ravena ter concordado em se apresentar no castelo. – A gente se vê amanhã, certo? Você precisa descansar hoje. Desculpe por te incomodar por tanto tempo.
-Não tem problema. Não foi nenhum incômodo. – respondeu a garota.
Se pedras mudassem de cor, Ravena estaria corando naquele momento.
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