A Elfa Reencarnada

2 Capítulo 2 - Um primeiro dia


Notas iniciais
Boa leitura

Adrianta caminhava já há alguns minutos naquela estrada de terra esperando que a levasse para algum lugar. Seus olhos azuis e sua atenção eram na floresta que agora ocupava ambos os lados da estrada, ouvindo um pouco do ruído dos animais e mais um pouco da natureza. Ela parou sua caminhada quando observou a cinco metros de onde estava uma moita se mexendo, de inicio cogitou ser uma ameaça e por essa razão recuou alguns passos, mas aquela pequena tensão foi quebrada quando a criatura por trás da moita foi revelada como sendo um coelho, seu pelo branco como a neve, seu focinho escuro e seus olhos vermelhos. “Existem animais iguais ao do meu mundo” pensou e um sorriso dócil estampou o rosto da jovem que se aproximou do arbusto e levou o braço direito a frente do corpo com a palma bem aberta para que o pequeno animal visse que ela não era uma ameaça. Aquele iria ser o seu primeiro contato com uma criatura daquele mundo. O coelho cheirou seus dedos e depois sua palma e por fim a atacou mordendo sua mão com dentes afiados. Ela imediatamente se afastou e olhou para o ferimento leve com alguns furos em sua mão e depois para o animal a alguns metros que agora não parecia tão fofo quanto antes com um pouco de sangue – dela – escorrendo pelos dentes afiados. Não, não existiam animais iguais ao seu mundo. O coelho cortou um pouco da distância, mas depois de prestar atenção no que vinha logo atrás de Adrianta ele recuou de volta para a moita e adentrou na floresta. Ela olhou para trás e ficou em silêncio quando um cavalo passou puxando uma carroça cuja era ocupada por um senhor com um chapéu de palha, uma camisa branca sem mangas e uma calça escura um pouco mais nova que a sua, o desconhecido manteve a todo o momento um sorriso gentil enquanto segurava as rédeas do animal e parecia avaliar a garota.

—A menina tem coragem em se aproximar de um coelho na época de acasalamento. – O senhor comentou e olhou para a mão ferida. —Poderia ter sido pior. –

—Eu...esqueci que era essa época. – Mentiu. Era certo mentir naquele momento.

—O que a menina faz tão longe de casa? – O senhor perguntou.

—Como? – Adrianta perguntou também. Imaginando se aquele homem descobrirá sobre a reencarnação.

—O que uma elfa faz tão longe. É isso que estou perguntando. – O senhor a respondeu, mas também pareceu aguardar por uma resposta.

“Eu sou uma elfa então” Adrianta pensou e até fazia sentido aquela raça pelo fato de suas orelhas serem um pouco diferente. “Agora me resta saber a relação entre humanos e élficos” pensou e até estava certa sobre aquilo afinal poderia muito bem estar no meio de um confronto entre as duas raças. Somente a ideia de uma guerra causou um arrepio nela e mordiscou seus lábios.

—Eu estava cansada de casa. – A elfa respondeu e continuou. —Já estava cheia deles me dizendo o que fazer, de brigarem comigo e me ofenderem. – Um pouco sobre sua antiga vida não fazia mal a uma mentira. —Por isso estou tão longe. –

—Compreendo. – O senhor alisou o queixo com uma barba rala. —Vamos menina, suba. Em breve vai anoitecer e os coelhos serão seu menor problema. – Ele apontou para a parte de trás da carroça. —A minha senhora faz uma comida deliciosa. –

“Ele é um estranho, mas também é um idoso” pensou enquanto andava para a parte de trás da carroça e olhava para um monte de feno e algumas sacolas de moeda e também para um manto velho e rasgado. Ela subiu na carroça e se acomodou no feno e quase que imediato o movimento recomeçou em um ritmo lento e agradável.

—A menina tem um nome? – O idoso perguntou e virou seu rosto e continuou. —Esse velho aqui se chama Markus, mas se quiser pode me chamar de vovô. –

—Adrianta. – Ela respondeu. Não sentia ameaça naquele senhor. —O senhor vive sozinho com a sua mulher? – Ela se sentou no feno enquanto olhava ao redor.

—Mais ou menos. – Markus respondeu. —Nosso filho é um soldado por isso não tem muitas oportunidades para retornar ao lar. Mas sim, somente este velho e a mulher. – Ele parecia se divertir se chamando de velho.

—Aposto que ele gostaria de voltar para casa. Ele parece ser um soldado de muita sorte. – Ela sussurrou, mas alto o suficiente para Markus ouvir.

O senhor apenas sorriu com um brilho em seus olhos castanhos. Por mais alguns minutos continuaram a viagem até que o momento agradável teve de acabar, o senhor grunhiu algum palavrão enquanto sua expressão tornava-se mais séria, a pouco mais de cinquenta metros um homem de estatura mediana com uma barba rala e um cabelo castanho bagunçado, vestindo roupas que sugeriam que o desconhecido pertencia ao exército, ou seja, um soldado, mas muito sujo. O homem não parecia ser um dos mais agradáveis já que o temperamento de Markus já era completamente o oposto de quando se encontrou com a elfa.

—Menina. – Markus sussurrou. —Faça o possível para aquele homem não ver suas orelhas. Se preferir se esconda neste feno. – Ele a olhou de relance. —Faça depressa. –

Ela obedeceu. Escondeu-se em baixo daquele feno e esperou para ouvir qualquer coisa com relação a sair daquela porcaria de esconderijo, mas em vez disso ouviu a conversa de Markus com o outro homem.

—Olá velho. – O soldado falou. —Movimentada a cidade? Encontrou algo no retorno? – Não havia amizade no tom. Mas sim malicia e ódio.

—Bom dia, Tom. – Markus o respondeu e balançou o rosto. —A cidade não tem grandes novidades quando se vai diariamente. Eu só encontrei um coelho no retorno, mas fui lento em não mata-lo já que sua carne é saborosa. – O idoso comentou e apontou para a floresta. —Faça favor a este velho e procure por aquele coelho. –

—Nós dois sabemos como eles são nessa época. – Tom respondeu. —Tudo bem, então. Desculpe o incomodo no retorno. – E continuou. —Aparentemente algumas crianças virão um elfo na floresta. Estou montando um grupo de caçada se estiver interessado. –

—Elfos? Neste fim de mundo? Não faça este velho se urinar de rir. – Markus comentou. Ansioso para aquela conversa acabar, mas com medo também. —Se encontrar algo me avise. –

—Pode deixar. – Tom respondeu.

O soldado bateu na madeira da carroça e isso foi mais do que o suficiente para o velho agitar as rédeas do cavalo que logo retornou a andar a um passo ritmado agradável. Markus apenas acenou com sua cabeça enquanto se despedia em silêncio. Um silêncio que durou por longos dois minutos até o velho sussurrar.

—Sinto muito por isso. – Ele falou. E parecia sentir mesmo. —Tom é um sujeito difícil de lidar e que consegue atrair qualquer um. Ele não gosta de sua raça depois dos acontecimentos há vinte anos. –

—Todos nós sentimos. – Adrianta sussurrou mesmo não sabendo sobre o que se tratava. —Eu ouvi histórias. Mas poderia refrescar o que aconteceu deste lado? –

—As sobras da guerra minha criança. – Markus a respondeu e continuou. —Elfos superiores e inferiores destruindo as redondezas. “Usando” nossas mulheres e devolvendo-as como se fossem somente entretenimento e nós éramos incapazes de agir. – Ele discretamente olhou para trás, para o soldado distante. —A mulher dele e de muitos outros foram levadas por grupos. Algumas apareciam incontáveis meses depois com um meio elfo no colo e eram abandonadas por seus maridos. Mas a mulher dele nunca retornou. – Markus voltou a olhar para frente. —Outras simplesmente retornavam com correntes em seus braços e pernas e em péssima situação tanto física quanto mental. – Markus continuou. —O ódio de Tom por sua raça é algo incapaz de ser medido. Tenho certeza que se ele fosse capaz, ou seja, tivesse poder e dinheiro, iria atravessar os mares para matar seja lá quantos elfos conseguisse antes de um mata-lo. Mas tenho certeza que não morreria em paz, não até reaver sua Cristina. –

“Ótimo lugar para eu andar” Adrianta pensou e se arrepiou imaginando o que teria acontecido se quem tivesse a encontrado fosse aquele soldado e não o bom velho. E Markus também a entregou ótimas informações; Elfos Superiores e Inferiores. Qual deles seria ela e qual o critério para ser um? Mas ela deixou aquelas ideias de lado enquanto por fim saia de todo aquele feno e apreciava um pouco da paisagem.

—E a esposa do senhor? – Adrianta perguntou.

—Felizmente elfos gostam mais de jovialidade. Minha querida Rusha apenas ofendeu aqueles que a chamaram de velha e os amaldiçoou. – Markus abafou o riso cobrindo a boca com sua mão esquerda. —Já estamos chegando, criança. –

E estavam mesmo. Por fim adentraram em outra estrada de terra, mas não foram longe já que uma construção de tijolo grande o suficiente para ocupar facilmente quatro pessoas, na chaminé da casa um pouco de fumaça e a menina conseguia sentir um cheiro agradável, a elfa olhou para outra construção a pouco menos de quarenta metros; um celeiro com as portas abertas e o relincho de cavalos. Adrianta olhou também para outro lado onde pelo menos dez vacas ocupavam um espaço cercado. Markus e Rusha eram fazendeiros e seu filho desconhecido era um soldado, agora fazia sentido o comentário de Tom sobre a cidade, afinal aquele senhor vendia o que havia em sua fazenda. Ela imaginou se lá teria uma horta. A carroça finalmente parou de se movimentar e Adrianta já estava fora dela antes do primeiro suspiro de alivio de Markus – ou talvez um suspiro de dor por ficar na mesma posição por tanto tempo. A elfa o ajudou a descer da carroça mesmo a contragosto e a atenção deles é para a porta de madeira da casa se abria e por ela passou uma criança, um menino, de cabelo escuro liso e olhos castanhos de pele clara usando uma camisa vermelha e uma bermuda velha, provavelmente era de alguém muito antes dele, o garoto carregava em suas mãos uma torta com um cheiro que atraiu tanto o senhor quanto a elfa ao seu lado. O garoto olhou para a elfa e depois abaixou seu rosto e seguiu caminho enquanto uma segunda pessoa passava pela porta, uma mulher acima do peso com cabelo cinza e uma expressão gentil ao marido, seus olhos expressavam não apenas o cansaço da idade, mas também a experiência de uma vida, nem um pouco discreta olhou para a elfa e a avaliou de cima a baixo e aproximou-se da mesma e bateu nos ombros dela. “Que forte” Adrianta pensou enquanto fitava os olhos castanhos da mulher.

—Você é tão magra que quase a confundi com um pedaço de pau. – Rusha comentou. Havia humor em sua voz. —Quem é a você? –

—Adrianta. – A elfa respondeu. —A minha sorte é que o seu marido não me confundiu com um pedaço de pau. – Ela apontou para o senhor. —Não gostaria de imaginar o que teria acontecido se ele passasse por cima de mim com esse cavalo. –

—Ele apanharia. – Rusha simplesmente respondeu e voltou-se ao marido. —Você foi para a cidade sozinho e retornou com uma elfa jovem. Tem mais alguma surpresa? –

—Nos encontramos no caminho. – Ela respondeu antes de Markus. —Tentei fazer contato com um coelho. –

Ela revelou a mão que tinha sido mordida pelo coelho. Mas a marca não se encontrava mais lá e nem mesmo uma cicatriz. “Regeneração?” pensou e abaixou a mão novamente. Rusha avaliou novamente a elfa e depois olhou para o marido que estava de braços cruzados como se as próximas decisões quem tomaria não era ele.

—Entrem logo. – Rusha comentou. —Fiz uma torta e em breve vou preparar a janta. Adrianta você prefere dormir no celeiro com os cavalos ou em um dos quartos? –

—Em um dos quartos. – A elfa simplesmente respondeu.

—Ótimo. Preciso de uma mão para preparar o jantar. – Ela apontou para Markus. —Ele não sabe esquentar nem uma água. –

Adrianta tentou não rir, mas era demais e gargalhou. Os três entraram na casa e a elfa olhou ao redor avaliando o interior. Havia um espaço com fogão a lenha e uma mesa com algumas cadeiras e uma pia; provavelmente a cozinha. Depois ela olhou para um sofá razoavelmente grande ocupando outro espaço com livros; provavelmente a sala. E depois olhou para um corredor com algumas portas; os quartos. Em alguns minutos a elfa já auxiliava a senhora a preparar uma sopa de carne de porco com batatas e cenouras. E em algumas horas enchiam seus pratos com aquela deliciosa comida. Adrianta mereceu dormir dentro daquela casa.

—Aquele menino que passou por nós. – Adrianta comentou para Markus no fim do jantar. —Ele não contaria para Tom sobre mim? –

—Hugo? – Rusha entrou na conversa. —Provável que não. –

—Eu deixarei sua casa pela manhã. Não quero causar problemas se me descobrirem. – Ela comentou mirando sua atenção na senhora.

—Minha casa é segura, garota. – Rusha falou. Havia algo em sua voz que Adrianta achou que ela falava a verdade. Seus olhos castanho brilhavam de confiança. —Passe o tempo que quiser conosco desde que ajude. – Ela olhou melhor para a elfa. —E qual a sua história? –

—Eu estava cansada de casa. Tinham pessoas que me maltratavam e me obrigavam a fazer coisas das quais eu não gostava. Eu estava sempre sozinha já que meus pais não eram o exemplo do bom entendimento entre casais. Eu estava tão cansada que decidi experimentar este lugar. – Um pouco de verdade com mentiras. Não que morrer e ressuscitar naquele lugar tivessem sido uma decisão. Mas ela falou com uma tranquilidade que qualquer um acharia ser verdade.

—Novas experiências. – Rusha disse simplesmente.

—Sim. Melhor do que minha casa. – Uma verdade com certeza.

Adrianta por fim se entregou a um bocejo que guardava há algum tempo. Aquele dia tinha sido exaustivo em tantos níveis. Rusha bateu suavemente no topo da cabeça da menina e ignorou o olhar de curiosidade da mesma e retirou os pratos sujos enquanto era observada em silêncio pelo marido. Um simples olhar da senhora e a elfa compreendeu que estava liberada para ir dormir e assim foi feito. Ela se afastou do casal e se dirigiu ao segundo quarto e ao avaliar; uma cama de solteiro com várias cobertas e um armário fechado e uma janela ao lado da cama. Ela abriu a janela e ficou confortável na cama e não precisou de muito tempo para dormir em um sono relativamente pesado.

—Ela vai precisar de roupas. – Rusha comentou e olhou para o marido. —Próxima vez que for para a cidade compre algumas, mas nada feminino, não parece ser o estilo dela. – Ela mordiscou os lábios enquanto prosseguia. —Fique atento com Tom. –

—Sim senhora. – Markus disse em resposta não somente as roupas, mas também em sua atenção com Tom. –Eu quero saber o quão capaz numa luta ela é. Mas acho que mal luta já que não tem capacidade de se defender. –

—Então a ensine. – Rusha comentou com um sorriso de canto. —Incorpore sua antiga posição e ensine caso ela não saiba lutar. –

—Com prazer. – O senhor respondeu e sorriu da mesma forma que sua esposa.

Notas finais
Obrigado por lerem. Se possível gostaria que comentassem.