A Elfa Reencarnada

1 Capítulo 1 - O Começo


Notas iniciais
Boa leitura.

Tudo começou enquanto Adrianta, de dezesseis anos de olhos azuis claros e cabelos negros de pele clara, vestindo uma camisa branca com um lenço vermelho e uma saia algumas tonalidades mais escura que a cor de seus olhos, nossa garota dirigia-se para o colégio assim como muitas outras pessoas que passavam por ela e nem ao menos a cumprimentavam, não que ela sequer se importasse com aquele detalhe afinal já estava mais do que acostumada com aquela sensação de solidão.

—Não é aquela primeiranista que teve seu cabelo cortado por três garotas? –

—Eu soube que ela levou uma surra. É verdade? –

—Quietas, ela pode nos ouvir. –

E Adrianta podia mesmo escutar a conversa a pouco mais de sete metros dela. Aqueles comentários eram verdadeiros e aparentemente tudo acontecia porque não concordou com uma simples brincadeira do primeiro dia e desde então era caçada por três garotas. Ela não precisou tocar em seu cabelo para saber que levaria ainda algum tempo para aquele dano ser reparado. Seu celular tocou e ela o retirou de sua mochila e visualizou a mensagem de sua mãe.

“Hoje vou sair e volto bem tarde. Deixarei dinheiro na mesa para que compre alguma coisa para comer.”

“Ok.”

Não havia nada que ela pudesse fazer a respeito daquilo. Seus pais estavam a mais de anos separados e enquanto seu pai se casou mais uma vez e manteve uma relação estável, sua mãe era o completo oposto. Ela guardou novamente o celular em sua mochila e apressou seus passos e virou uma esquina e abaixou seu rosto ao passar por uma das garotas que a caçavam há algum tempo, com uma olhada rápida para o outro lado da rua confirmou que as outras duas andavam juntas e atravessam para aquele lado, as três em questões de minutos estavam atrás dela.

—Que cabelo bonito. –

—Seria uma pena se acontecesse alguma coisa com ele. Não é mesmo? –

Ela sabia até onde aquela conversa ia. Por um momento cogitou correr com o máximo de velocidade que conseguia, mas por experiência já tinha conhecimento de que aquelas garotas eram mais rápidas e que o que fosse acontecer pioraria caso tentasse uma fuga. Apertou as alças de sua mochila e levantou um pouco seu rosto e mirou seus olhos azuis para a esquina que ficava a dez metros. Ela poderia até tentar fugir, mas por quanto tempo conseguiria isso até que alguma delas alcançasse-a. Em sua mente conseguia escutar vários sussurros. “Fuja, você consegue ser mais rápida se tentar” e “Fique, se fugir você sabe que vai ser pior”. Ela odiava sua consciência naqueles momentos em que havia apenas sua coragem discutia com sua razão. Mordiscou seu lábio inferior e cogitou a ideia da fuga quando não passava de cinco metros para a próxima esquina. No entanto aquele fogo de coragem se apagou quando mãos se apoiaram em seus ombros e discretamente olhou para o lado esquerdo, a garota de cabelo escuro e olhos castanhos tinha um sorriso malicioso, e depois olhou para o lado direito, a garota de cabelo loiro e olhos azuis tinha um sorriso felino. Imaginou se eram capazes de sentir que ela realmente cogitava aquela fuga.

—Oi, Adrianta. – A de sorriso felino falou com ela.

—Seu cabelo está se recuperando bem depois daquele acidente. – A de sorriso malicioso falou assim que a colega terminou. —Foi mesmo trágico aquilo. –

Ela sentia seu coração acelerar com toda aquela calmaria em suas vozes. Não precisou de muito tempo para saber que a terceira garota estava bem atrás dela ao rir baixo do comentário da colega em seu lado esquerdo. Finalmente passaram pela esquina e por um breve momento sentiu as mãos se apertarem em seus ombros. Elas sabiam de uma tentativa de fuga e a evitaram. Logo após colocaram-na de joelho e a terceira – do meio – que esteve quieta levou as mãos ao seu cabelo e o puxou e Adrianta ergueu sua cabeça e olhou para a garota que agarrava seu cabelo, seus olhos castanhos e cabelo ruivo com mechas loiras e um sorriso sombrio formado nos lábios.

—Olá. – Sua voz era calma, mas havia malicia nela. —Será que você estava querendo correr depois de passar pela esquina? –

—Não. – Adrianta respondeu.

—Ela está mentindo. – A do lado direito sussurrou. Havia graça em sua voz.

—Mostrem para ela o que acontece quando alguém mente para nós. – A do meio ordenou depois de dirigir sua atenção para as duas.

A líder – do meio – segurou o cabelo com mais força e o puxou rendendo um resmungo de dor de Adrianta enquanto as outras ocupavam a sua frente e sem demonstrar piedade estapeavam o seu rosto, suas bochechas recebiam as marcas exatas das mãos usadas que também estavam avermelhadas, as tapas eram acompanhadas por um som que parecia agradar a garota que segurava o cabelo de Adrianta.

—Sabe por que fazemos isso, Adrianta? – A líder perguntou com seus lábios próximos da orelha esquerda da garota. Ela não esperou uma resposta. —Para que aprenda a sempre concordar conosco e não desviar seus olhos quando vê a gente nos corredores. –

—Ou seja. – Adrianta falou pela primeira vez. —Sou possivelmente o bichinho de estimação das três. –

Com uma olhada discreta para o outro lado da rua ela percebeu outros estudantes e diferente dela não mantinham a discrição em assistir aquela cena, alguns com celulares filmavam então sua certeza é que quando chegasse ao colégio a grande maioria já estaria sabendo daquele encontro. A garota da esquerda foi a única que a atacou depois daquele comentário, ela fechou a mão e sem demonstração alguma de fraqueza a socou, a cabeça de Adrianta se virou para o lado direito e ela sorriu em seguida cuspiu um pouco de sangue. Ao mesmo tempo as quatro se assustaram quando uma bola bateu na rua que separava os dois lados, somente Adrianta olhou para a construção mais próxima e entendeu que lá era uma residência e que alguma criança foi a responsável por aquilo. “Uma babá ou uma mãe virá buscar essa bola” pensou e momentos depois uma criança saiu da casa com uma expressão encantadora em seu rosto jovial, seu cabelo era escuro e curto e seus olhos um castanho evidente, na bochecha esquerda o menino tinha um curativo e ele se dirigiu para a bola perdida sem nem ao menos perceber as quatro garotas as pouco mais de cinco metros. Adrianta olhou mais a frente e viu um carro indo naquela direção. Seu coração acelerou ainda mais e depois de olhar para a garota que segurava seu cabelo olhou para as duas a sua frente e o mais rápida que conseguia ser segurou o rosto de cada uma com apenas uma das mãos e levou a testa de uma ao encontro de outra, um golpe rápido e desesperado. Depois ela tentou se afastar enquanto sentia dores de cabeça, seu cabelo se partindo e ficando mechas e mais mechas nas mãos da garota atrás dela, Adrianta finalmente conseguiu o que queria e imediatamente correu em direção ao garoto, cada movimento sendo visto pelas três garotas e por outros estudantes do outro lado da rua, cada um deles viu quando ela empurrou o menino já com a bola em suas mãos evitando que ele fosse atropelado, mas não ela. O carro se chocou com a garota que foi jogada a pouco mais de sete metros e rolou um pouco mais no chão enquanto sangue escorria por sua cabeça e suas roupas estavam sujas, enquanto seus olhos azuis perdiam aquela cor natural e pouco a pouco era substituída por cinza. Adrianta morreu em questão de segundos.

—Abra seus olhos. –

Adrianta lentamente obedeceu a aquela voz gentil e suave e protetora. Seus olhos percorreram o estranho ambiente que a colegial estava, era um lugar escuro, mas não sentia medo de estar ali, em vez disso sentia tranquilidade, ela ergueu uma das sobrancelhas ao abaixar suavemente seus olhos e fitar o chão que seus pés nus pisavam, era tão escuro quanto o lugar, no entanto era como se ela estivesse olhando para um céu noturno, um sorriso brotou em seus lábios e finalmente ergueu seu olhar e observou a única pessoa além dela naquele lugar. Para a mulher de um cabelo castanho longo e olhos violeta vestindo nada mais que um vestido branco de seda. Sua presença parecia protetora e encantadora, mas também temível e ameaçadora e poderosa.

—Você salvou uma vida. – A mulher falou com aquele toque suave em sua voz. —Dando a sua no processo. –

—O menino está bem? – Adrianta perguntou.

—Sim. Ele tem apenas um machucado devido à queda. – A mulher respondeu e exibiu um sorriso encantador. —Não se importa pelo fato de ter morrido? –

—Um pouco. – Adrianta respondeu. —Mas fiz o que achei certo e não me arrependo. Além disso, já estou intima da morte. – Avós paternos mortos há alguns anos e tios há algumas semanas durante um acidente de carro. —Onde estamos? – Adrianta perguntou. Aquele lugar não dava muitos indícios de onde estariam.

—Nem céu e nem inferno se é isso que quer saber, criança. – A mulher respondeu e diminuiu um pouco a distância que as separava. —Um lugar que poucos têm a chance de conhecer. –

—E esse lugar teria um nome? – Adrianta perguntou e ergueu uma das sobrancelhas. —Se esse será onde passarei minha morte então eu gostaria de saber o nome. – Se tinha sido ignorante ou sequer rude ela não sentiu.

Mas ela percebeu que a mulher diminuía a distância que as separava. No entanto preferia não comentar sobre aquilo. Aquele era seu território e não gostaria de imaginar o que aconteceria se tentasse se afastar.

—Não, não tem um nome. – A mulher respondeu e continuou. —Normalmente aqueles que chegam não ficam por tempo o suficiente para dar um nome. Eu mesma nunca me importei em nomear este lugar. – Ela parou de se aproximar quando faltavam apenas dois metros.

—Como eles partem? – Adrianta perguntou. Ela não tinha visto nenhuma saída daquele lugar.

—Eles reencarnam. – A mulher respondeu. —Partem para uma segunda chance. É isto que eu estou dizendo e propondo a você, minha criança. Estou dando a você a oportunidade de reviver. –

—No mesmo mundo? – Adrianta perguntou. Caso seu coração ainda batesse ela imaginaria que o mesmo estaria mais rápido devido sua empolgação.

—Não, minha jovem. – A mulher esticou os braços. —Um mundo mais glorioso e vivido. Um lugar onde a magia existe e é usada. Um mundo mais belo do que aquele que você partiu. Um lugar de incontáveis aventuras. – Alegria era evidente no tom de voz da mulher. —Estou oferecendo a você este mundo, criança. E a ofereço a aquele mundo. –

—É algo incrível. Mas... – Adrianta esboçou um sorriso de canto e mirou seus olhos azuis nos violeta da mulher. —Por ser uma reencarnação terei que literalmente nascer e perder todas as minhas memórias. Ou estou enganada? –

—Não. Você está certa. – Um brilho naqueles olhos encantadores. —Dá para contar em meus dedos quantas pessoas entenderam assim tão depressa. –

—Eu aceito esta segunda chance. No entanto não planejo começar minha vida do zero e se possível gostaria de manter minhas memórias. – Adrianta comentou. Suor escorria por seu rosto ao fim de seu comentário.

—Estou lhe dando a oportunidade de reviver e você me pede isso? – A mulher coçou seus olhos, mas não tinha abandonado aquele tom alegre e amistoso em sua voz. —Importa-se de me responder o motivo de manter suas memórias? –

—Sim. – Adrianta respondeu. Ela não sabia se a mulher aceitaria aqueles pedidos. —Para me lembrar de como fui fraca e inútil, mas corajosa no final. – Um rubor em suas bochechas. As palavras eram melhores em sua imaginação.

—Compreendo. – A mulher respondeu. —De acordo também. Isso será o nosso segredo, minha criança. – Ela levou o indicador da mão esquerda aos lábios. Um gesto que Adrianta entendeu muito bem.

Ela ia perguntar como aquilo iria acontecer. Ia se aquela mulher não diminuísse ainda mais a distância que as separava e a confortasse em um abraço. Adrianta sentiu um calor quase humano naquele gesto, um pouco de proteção e carinho. Lentamente fechou seus olhos enquanto as palavras “Aproveite sua segunda chance, minha criança” eram sussurradas em sua orelha, um tom ainda mais gentil que aquela mulher tinha usado ao iniciar a conversa, mas também sentia que lá havia humor. Sentia seu corpo se esvair no conforto daquele abraço. Adrianta novamente abriu os olhos e observou nada mais que um teto de madeira e sentiu a palha na qual deitava e pela primeira vez inspirou e expirou aquele ar purificado. Devagar se sentou de pernas cruzadas e prestou atenção no próprio corpo e poderia dizer que era humana se não tocasse suas orelhas e ficasse surpresa com a mudança e com a sensibilidade. Então naquele mundo havia raças e sem dúvida ela não era humana. Depois de verificar o próprio corpo ela prestou atenção ao lugar e reparou que não uma construção grande, mas também não era pequena e duas pessoas poderiam muito bem viver lá, não tinham objetos próximos para que ela soubesse o que poderia ser aquele lugar. E suas roupas não passavam de uma camisa bege e uma calça escura rasgada com um cheiro podre e velho. Devagar ficou em pé e caminhou para a única porta e a empurrou e vislumbrou o pedaço muito pequeno daquele mundo com a vista de uma floresta e um caminho de terra e intocado pelo que deixou em outra vida.

Notas finais
Obrigado por lerem. Se possível gostaria que comentassem.