A Elfa Escarlate
15 Lembranças guardadas no coração
Notas iniciais
— A resposta é não pra qualquer ideia mirabolante e super divertida que você bolou para o fim de semana. – Ava congelou no ar com boca aberta. Lhe dei um olhar mortal. Ela caiu em sua cadeira com uma cara emburrada.
— Ah ta, até parece que você tem algo melhor pra fazer, pelo menos você iria se divertir! — Pela primeira vez eu tinha de fato algo muito melhor pra fazer. Encontrar com o cara do sorriso mais sensual de todos e trocar beijos quentes a noite toda. Só que eu não podia esfregar isso na sua cara dessa vez.
— Como eu me diverti na cachoeira? – Ela ficou calada e cruzou os braços fazendo um biquinho. Era adorável. – Eu vou me afogar no Ronneys, dormir no balcão, acordar e beber mais. Não estou no clima dessa vez, ok? Preciso de uma pausa. Você quer vir comigo?
— Eca, claro que não. Não sei o que você vê naquele lugar nojento. Nunca tem ninguém bonito lá. Você deveria ir na C.A.V.E comigo. Lá vai ter uma festa super massa. – C.A.V.E era o bar mais frequentado pelo instituto e também praticamente um dos únicos bares mágicos próximos do instituto, então com certeza nós encontrariamos todo mundo que já encontramos nas aulas.
— Passo. – Disse indo direto para o banheiro tirar a nhaca do corpo. Foi definitivamente o banho mais rápido que eu tomei na semana. Coloquei a roupa mais confortável que eu tinha, meu coturno e sai penteando meu cabelo. — Prometo que vou na próxima, tá bem?
— Você não acha que seria legal conhecer alguém novo para te distrair?
— Não, eu não acho. Não tenho cabeça pra isso agora. Hans acabou de morrer e minha vida finalmente começou a ficar movimentada, mas da pior maneira possível. Eu só preciso de um tempo. – Disse enquanto colocava várias coisas na minha mochila. Adaga, garrafa, roupas limpas, essências aromáticas e até mesmo enfiei um pouco de maquiagem escondida. – Próximo final de semana podemos fazer o que você quer, ok? Só me dá uma trégua, por favor. — Supliquei enquanto lhe encarava.
Ava saiu batendo a porta, ela odiava quando as coisas não aconteciam do jeito que ela queria. O importante era que, traduzindo isso em sua linguagem, significava que ela me deixaria em paz. Embora não estivesse feliz com isso. Se ela tivesse suspeitado de algo não deixaria barato, então isso era bom. Eu tinha que correr para sair antes que os portões fossem fechados e eu fosse obrigada fazer mais acordos constrangedores para conseguir o que queria. Meu corpo estava todo dolorido, mas ainda havia um looongo caminho a percorrer.
Dei sorte de não esbarrar com ninguém no caminho e pude respirar aliviada quando entrei na orla da floresta. Senti um leve arrepio de me imaginar esbarrando em outro troll, mas resisti ao medo. Seria melhor encontrar a estrada. Quem sabe eu dê sorte na carona dessa vez. Andando eu levaria cerca de 10 horas para chegar, então eu tinha que dar um jeito de ir mais rápido. Pensei várias vezes em roubar um cavalo do estábulo, mas como eu poderia passar pelos portões com um cavalo? Impossível. O caminho seria muito longo com certeza.
Dei uma corrida leve até a estrada, ignorando a dor que eu estava sentindo na minha panturrilha e comecei a andar em direção à cidade. O sol já não estava tão quente e o céu exibia um colorido particularmente lindo. Lembrei de quando o Hans nos levava para uma aula prática nas montanhas. Depois de um treino e uma corrida vestindo a nossa pesada armadura, sempre terminavamos com uma espécie de meditação a apreciação do pôr do sol. Senti meus olhos se encherem de lágrimas e como não tinha ninguém por perto, me permiti sentir sua falta. Me doía pensar que nunca mais iremos partilhar um pôr do sol. Nunca mais teria um momento de tanta paz assim.
Por sua causa aquele tinha passado a ser o meu horário favorito do dia e agora ele foi embora e me deixou apreciando o céu sozinha. Ele era mesmo meu mestre, veja só como estou seguindo seus passos, até mesmo caminhando com meus próprios pés em direção à morte. Agora eu conseguia entendê-lo, me arrependo das palavras duras que lhe falei da última vez que o encontrei. Queria poder voltar no tempo e abraçá-lo, mas ele se foi pra sempre. Como pude ser tão estúpida. Deveria ter sido mais compreensiva. Fico imaginando como ele conheceu sua humana. Será que ele foi em alguma festa como eu? Estranhamente não consigo imaginá-lo daquela forma. Ninguém nunca saberia, a única pessoa que sabia teve suas memórias roubadas e arrancadas de si. Uma história de amor perdida no espaço vazio que ele deixou.
Já ouvi dizer que ninguém nunca se recupera totalmente depois disso. Eu acho que consigo entender. Nunca poderia esquecê-lo. E mesmo que roubassem minhas memórias o buraco que sua falta deixou nunca seria preenchido. Passei os últimos dias tentando ignorar sua existência, os pensamentos sobre ele. Afinal, o que eu ainda poderia fazer? Ele nunca mais voltaria, não importa o quanto eu quisesse que fosse possível. Nunca mais o ouviria me repreender... como eu sentia falta da sua cara engraçada quando ficava com raiva de mim. Eu não entendo como eu poderia sentir falta de todas as coisas ruins que antes me afetavam. Eu daria tudo para estar em detenção com ele ao invés do professor Will.
Will era bom no que fazia, eu conseguia respeitar seu conhecimento, apesar de não gostar da sua pessoa. Mas ele nunca seria Hans. Mesmo assim eu continuava procurando seus trejeitos e esperando suas respostas inteligentes em outras pessoas, em Will... Será que é mesmo possível evitar se apaixonar por alguém? Não consigo imaginar como poderia evitar amá-lo. Nunca tive um pai, mas Hans era isso pra mim. Eu acredito que ele nunca nem ao menos percebeu, nunca soube. Eu também nunca falei. Ele era tudo o que eu tinha quando pensava em família. E agora estava sozinha. De novo. Conforme o pôr do sol foi embora, notei que a estrada começou a ficar mais movimentada. Fiz sinal para alguns carros pararem, porém não tive sorte.
Se Will estivesse ali ele iria dizer que eu estava morta, visto que não ligava pra estar imersa em pensamentos. Sinceramente eu não estava me importando com aquilo no momento. Tudo o que eu pensava era que eu precisava muito do abraço de Yuri. Só aquilo poderia me fazer sentir um pouco melhor. Limpei as lágrimas e acenei para mais uma leva de carros que passavam. A maioria passou reto, mas um deles começou a diminuir em direção ao acostamento. Será mesmo que eu estava com tanta sorte? Ou caminhava a passos largos para o meu destino?

Lembrança das aulas do Hans
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