A Elfa Escarlate

12 Enfim trégua?


Notas iniciais
Parece que a Luna finalmente vai ter algum descanso! Ou será que vai?

— Você tá aí! – Disse Ava pulando em cima de mim. Levei um baita susto. – Nossa tá assustada hein?

— A detenção tem sido assustadora. Aquele homem é um completo maluco. Ele até já ameaçou me matar! – Falei séria. Ava parecia incrédula. Os últimos dias de detenção foram meio estranhos. Eu estava totalmente sem clima e sem forças para antagoniza-lo. A tristeza me dominava. Sem contar que eu passava o dia tentando lutar contra os pensamentos sobre Yuri.

Era difícil conter os flashes de memoria ocasionais e o quanto eu sentia falta de seu beijo. De noite eu acordava assustada como se ainda estivesse dormindo em seus braços e tivesse que voltar para o instituto. Mas é claro que ele não estava por perto. Cada vez que eu fechava os olhos encontrava aquele sorriso torto perigoso. Não saberia dizer de quem eu sentia mais falta. De Yuri ou do Hans. A solidão era esmagadora e nem mesmo a energia borbulhante de Ava era capaz de me animar.

— Olha até eu tenho vontade de te matar as vezes. Você é tão teimosa! – ela estava rindo e despreocupada. Segurou meus ombros e me balançou. – ele devia estar te zoando ou só falou da boca pra fora, relaxa garota. – tentei espantar aquele sentimento balançando a cabeça. Ela está certo, talvez tenha sido um feitiço pra me deixar assustada.

— É, com certeza. – Falei sem muita energia

— Agora coloca sua roupa de banho, nós estamos saindo.

—Claro... Espera aí, o que? – falei confusa. Ava era mestra em se aproveitar das minhas distrações pra me fazer concordar com as coisas.

— Você já concordou não vale voltar atrás.

— Estou cansada.

— Luna, você não acha que está precisando dar uma relaxada? Marquei com a íris pra nos levar até uma cachoeira próxima. Podemos banhar e ficar longe do Instituto por algumas horas... vai ser divertido!

— Divertido? Com a Iris?! – Revirei os olhos. — Você sempre fala isso e eu sempre me ferro! – disse irritada

— Pensei que você gostasse de cachoeiras – Disse ela fazendo boquinha

— Certo, vamos antes que eu mude de ideia. — Coloquei uma roupa de banho enquanto Ava me encarava impaciente. Ela me arrastou para fora com tanta pressa que mal deu tempo de calçar as chinelas. Tive que sair pulando em um só pé e amarrando as tiras ao mesmo tempo.

Íris e sua amiga Liz já estavam nos esperando no final do corredor completamente maquiadas e vestidas como se fossem para um evento aquático muito chique. Os garotos que passavam ali faltavam bater com a cara na parede de tanto encarar. Contive a vontade de revirar os olhos.

— Ora ora, veja quem se juntou a nós, se não é a estraga prazeres. – Disse Íris me encarando com um pouco de desprezo. – Você não espera que eu me misture com alguém como ela né Ava?

— Ah qual é Íris dá uma trégua, estamos saindo pra nos divertir. Porque não deixamos as intrigas no instituto e aproveitamos a tarde?

— Por mim tudo bem – falei dando de ombros. Uma cachoeira não seria nada mal. Eu não aguentava mais aquela melancolia sufocante. Sentia como se as paredes do instituto fossem me esmagar.

— ok, eu faço esse IMENSO sacrifício. Afinal, ainda não fiz nenhuma obra de caridade esse mês – Disse jogando seu cabelo pra trás de modo que quase atingiu a minha cara. Pensamentos zen Luna, pensamentos zen. Cachoeira, banho, vamos mentalizar positivo. Se você arrancar os cabelos da cabeça dela, vai ter que aturar horas e horas na diretoria e talvez ainda mais detenção com aquele idiota.

Ava começou a tagarelar sobre suas ideias de abrir o jornal da escola e Íris que, claro, amou a ideia, começou a vender seu peixe de como seria de grande ajuda em descobrir todas as fofocas. O que se transformou em uma grande sessão de fofocas sobre quem estava com quem, fazendo o que e porquê. Eu tentei me distrair e aproveitar as vistas da floresta, mas era difícil ignorar suas vozes estridentes.

— Aí nossa, falando nisso, não aguento mais olhar para a cara daquela fingida da Stella. Ela se acha tão pura e superior- Não consegui evitar deixar escapar uma risada.

— Não parecia muito pura da última vez que eu a vi. – Eu juro, escapou dos meus lábios sem querer, bem baixinho. Eu apenas não havia conseguido tirar aquela imagem do banheiro da minha mente. Mas é claro que as três escutaram e se viraram pra mim como falcões cercando sua presa, me encurralando contra uma árvore

— Como assim? Que história é essa?

— Não é nada eu nem devia ter dito nada. Ela é uma fingida total. – Falei tentando imita-las. Mas fui totalmente ignorada. Eu devia ter ficado calada, eu e minha boca gigantesca. Não é à toa que Ava consegue tirar tudo de mim. Eu entrego de bandeja. – Não vou falar, prometi que não ia contar. – Bem eu não tinha exatamente prometido, mas tenho certeza de que Gildar não ia gostar se eu saísse fofocando. Elas se aproximaram mais um pouco.

— Sabe meninas, talvez eu tenha algo a contar pra vocês... – Disse Ava me encarando ameaçadoramente. Nossa, eu fiquei da cor de papel. Imagina se minha briguinha com o professor se espalhasse por ai.

— Eu a peguei transando no banheiro no horário das aulas ok?! – Depois disso íris ignorou completamente o que Ava havia dito. As três começaram a rir e então voltamos a caminhar. Respirei aliviada.

— Eu sabia que tudo não passava de teatro. Se ela pensa que me engana está errada – Liz confirmou com a cabeça.

— É verdade e ainda tem a audácia de tentar colocar os outros pra baixo como se fosse superior. Transando no banheiro que baixaria. Ela não presta.

Soltei um longo suspiro quando finalmente chegamos a cachoeira. Seu barulho tranquilizador e seu cheiro refrescante me deram um novo ânimo. Acho que eu estava mesmo precisando disso. Tirei o vestido rapidamente e pulei na água fazendo-a respingar pra todos os lados. Escutei os gritos de revolta das ninfas mas dentro da água elas estavam lá ao longe e eu não estava nem aí.

Só queria ficar ali no fundo onde era gelado e silencioso. Meu corpo dolorido estava em êxtase. Era como estar que nem uma múmia cheia de atadura de ervas medicinais. Abri os olhos e fiquei apreciando a beleza dos peixes e das pedras até meu pulmão não aguentar mais a falta de oxigênio, então irrompi da água fazendo as ninfas reclamarem novamente.

— Do que estão reclamando? Não vão entrar?

— Claro que não, eu só vim pegar uma cor – Disse Liz tentando secar a água que eu espirre nas suas pernas.

— Depois eu sou a chata. — Disse revirando os olhos

— Não somos selvagens como você Luna. – Disse Íris. Cadê a trégua hein?

— E você Ava? – Disse ignorando sua existência.

— vou ficar só sentada na água como se fosse minha banheira gigante – Disse ela entrando elegantemente na água. Fiz uma careta e comecei a boiar. Era tão bom sentir meus músculos relaxando e poder esquecer de tudo.

— Falando em fofocas, e aquela mordida hein Luna? – Perguntou Liz com um olhar maldoso. Claro, esquecer de tudo, até parece que eu teria tanta sorte.

— Ava fez isso pra deixarmos meu ex com ciúmes, não é Ava? – Lancei lhe um olhar mortal. Estava cansada das coisas só piorarem.

— C-Claro, uma técnica clássica do namorado falso. – Ela disfarçou o sorriso sem graça. As meninas sorriram.

— Até que não é a pior das ideias – Riu Íris. Claro que ela gostaria desse tipo de tática. Era a cara dela. Ufa. Sai da cachoeira, corri até uma pedra mais alta e saltei de volta. Como eu amava cachoeiras. A água tão gelada e pura.

— Aposto que você não consegue pular lá de cima. – Disse Ava desafiadoramente.

— É mesmo? Vamos ver. – Sai novamente da cachoeira e comecei a escalar pela lateral até chegar no topo. Sorri triunfante quando minha mão alcançou a borda. Puxei meu corpo pra cima com toda força e senti uma dor aguda e uma ardência na minha mão direita. Falhei em notar que a parte em que me apoiei era muito pontiaguda e abri um rasgo na minha mão. – Ai!

— Você tá bem? – Gritou minha colega de quarto lá de baixo.

— Tudo bem! – Gritei lá de cima. – Só um pequeno corte na mão, nada demais. – Disse agitando minha mão suja de sangue no ar. Dei alguns passos para trás para pegar impulso e saltei para a água. Fiquei em queda livre alguns segundo, agitando os braços no ar até atingir a água gelada. O corte na minha mão latejou e logo pulei para fora da água molhando Ava inteira que protestou irritada. Vingança pelas furadas que ela me mete. – O que tem pra comer? Quero minha recompensa

— Comer? Não trouxemos nada desse tipo. – Disse Íris espantando o pensamento com a mão. Claro que as esqueléticas não iriam comer. Meu estômago roncou de forma constrangedora, afinal fui direto da detenção e estava morrendo de fome ainda mais depois de todo aquele esforço inútil. Fiz algumas caretas.

— Porque você não come isso? Eu acho gostoso, é picante – Disse Liz, que era uma ninfa da floresta, apontando para uma planta próxima cheia de flores amarelas e laranja. Fácil pra você dizer isso. – É toda comestível. Tem alguns cogumelos logo antes daqui também. São marrons, se vir algum vermelho não coma. – Fiz mais caretas. Queria recusar, mas meu estômago não permitia.

Comecei a mastigar as flores coloridas a contra gosto e não era tão ruim, mas com certeza não encheria minha barriga. Resolvi ir atrás dos cogumelos que tem um pouco mais de substancia. Andei pelo caminho de volta olhando pelo chão até que encontrei vários cogumelos espalhados em uma parte onde o terreno estava mais úmido. Olhei com atenção.

Não tinha nenhum vermelho, apenas cogumelos marrons, mas cada um era de um jeito. Cocei a cabeça. Bom, se ela não especificou o tipo de marrom então qualquer um deve servir. Comecei a comer seus chapéus já que os talos estavam um pouco sujos de terra. Não era agradável, mas também não era horrível. Na verdade não tinha muito gosto. Minha boca também ainda estava ardendo um pouco das flores. Sentei no chão, encostada em uma árvore, e comi um pouco ate que o desconforto no estômago amenizou. Isso deveria ser o suficiente para enganar a fome ate eu retornar certo?

Continuei sentada observando minha mão que ainda não tinha parado de sangrar totalmente e aproveitei para dar um tempo de toda aquela sessão de fofocas. Eu realmente não conseguia me encaixar ali, ou em qualquer lugar para ser sincera. Eu precisava de um pouco de paz. Fechei os olhos por alguns instantes e devo ter cochilado de tanto cansaço.

Notas finais
Estão gostando?