Otávia quando no auge da sua carreira lotava semanalmente as casas de shows que a contratavam e foi também a primeira Drag Queen a aparecer em capas de revistas e programas de auditório das redes nacionais, naquele tempo esse era um grande feito.

Ela nunca gostou de passar despercebida; quando alguém estava falando alto, provocando gargalhadas ou aplausos nas casas em que ela estava, não demorava para iniciar uma performance, voltando a ser o centro das atenções. Sua arma infalível era a voz potente, seu canto era hipnótico aos ouvidos sensíveis e aos rebeldes também, se orgulhava de cantar as músicas francesas de Edith Piaf que escutava na casa da mãe quando era criança.

Quando os anos de glória passaram se deparou com as sequelas do seu canto sem estudos e técnicas para preservar a bela voz, se viu obrigada a achar uma nova forma de sustento, foi ao banco para contabilizar o que os longos anos de trabalho lhe renderam, e não era muito.
Mas o que lhe confortava era que aquele dinheiro tinha vindo do seu próprio suor e do seu esforço como um homem gay de peruca, aquilo ninguém poderia lhe tirar.

Voltou para casa com aqueles digitos limitados grafados em um pedaço de papel, e ainda iria pensar no que fazer pra que aquilo lhe rendesse mais alguns anos de conforto mínimo.

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Giovani não lembrava da última noite que fizera tanto frio em São Paulo. Apesar de ser uma cidade vertical com inúmeros metros de altura o frio nas ruas cinzas lá embaixo era penetrante. Gio sabia que teria que encontar um lugar para passar a noite; naquele mês já tinha dormido na garagem de um super mercado, em um cantinho do viaduto e no teto da merceria do seu João, aquele era um homem bom que vendia o cigarro por um preço mais em conta para o jovem recém expulso de casa.
Passando por uma viela para descer até a avenida Gio se deparou com uma sacada em uma casa de altos e baixos, expremida entre dois outros imóveis da mesma forma e tamanho. Observou que as luzes estavam apagadas e as portas fechadas, olhou em volta, ficou parado por uns 2 minutos e decidiu que iria passar a noite alí. Naqueles minutos já tinha reparado que não havia muito movimento, e que em uma distância boa com o impulso correto conseguiria alcançar a varandinha.

Na primeira tentativa a mão direita escorregou e o jogou perto da lixeira da padaria ao lado, na segunda, de forma mais inteligente subiu na lixeira e conseguiu segurar-se com força na coluna dos altos e se pôs para o lado de dentro. Tirou da mochila uma manta azul com que se embrulhava há pelo menos 2 meses e colocou a mochila onde guardava duas mudas de roupa embaixo da cabeça e dormiu.

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— Você sabe que não é fácil pra mim entender o que você está me falando, mas eu vou tentar. Você também sabe que o seu pai não vai gostar nada de saber isso não é?

— Eu sei mãe, mas ele não tem que gostar ou deixar de gostar de nada, eu estou sendo honesto, eu não quero mentir pra vocês nem pra ninguém, não mais.

— Vamos fazer assim, você espera mais um pouco, e eu vou preparando o caminho pra você se abrir com ele, esse não é um bom momento pois ele está passando muitas coisas lá na igreja.

— Certo, vou fazer isso por você mãe

— Eu sei, eu te amo meu filho.

Gio naquele momento não estava realmente sendo beijado no rosto pelos lábios da sua mãe, a brisa da manhã balançava as cortinas de linho da pequena varanda.

Em um sobressalto lembrou que estava em um lugar que não deveria, pegou rapidamente sua coberta, enfiou na mochila e se preparava para descer quando uma voz calejada disparou:

— Não vai nem agradecer a hospedagem?

De costas Gio ainda com frio de susto e fome na barriga congelou, respirou e se virou com um sorriso amarelo.

A figura estava sentada na cadeira com as pernas cruzadas, uma xicara de café sob a mesa e um cigarro entre os dedos, deu um sorriso sarcástico ao rapaz e perguntou; quem é você?

No primeiro momento de confusão Gio não identificou se apessoa que lhe falava era homem ou mulher, mas logo desatou...

— Ahh, me desculpe por favor, eu só precisava de um lugar pra dormir, não sou ladrão nem nada, eu já vou descer.

— Não perguntei isso, eu quero saber qual o seu nome.

— Giovani.

— Quantos anos você tem Giovani?

— Tenho 19... faço 20 no próximo mês. Respondeu nervoso.

— Então você é Giovani, 19 anos, nasceu em Fevereiro,... Temos algo em comum, disse depois de um breve silêncio.

Gio olhou a figura com um olhar ainda mais confuso...

— Não não, eu não invado residências à noite para dormir... eu também sou de Aquário.

Gio esboçou um sorriso e Otávia deu uma gargalhada.

Giovani sentia muitas coisas naquele momento além de fome e do leve calor do sol batendo novamente na sua pele ele sentiu que aquela gargalhada estrondosa só poderia vir de uma pessoa boa.

Notas finais
Se você curtir, ou não, comenta algo aí que está bom ou que precisa ser melhorado, me chamem pra ler as histórias de vocês também, vai ser um prazer. Abraços, semana que vem posto o capítulo 2.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.