A Droga da Minha Vida
3 3. Unicórnio aleijado
Tava pra nascer lanchonete mais colorida, cheia de purpurina e sem noção do que o Unicórnio Aleijado.
Não foi difícil encontrá-lo no centro com aquela fachada espalhafatosa, era muita informação pra cabeça processar.
As paredes eram de um rosa no estilo algodão doce, com confeitos coloridos grandes salpicados. Do lado da entrada tinha uma vidro que mostrava mesas azuis coladas a parede que sustentava o vidro com bancos estofados brancos. E pra fechar com chave de ouro, no topo, encontrava-se um enorme unicórnio com um pedaço do chifre faltando, exibindo um sorriso gentil.
Absolutamente bizarro.
Entrei relutante.
Era oito da manhã e o Unicórnio Aleijado estava lotado. Homens e mulheres com uniformes coloridos com o mesmo unicórnio com meio chifre estampado no peito andavam apressados pelo estabelecimento com bandejas com cafés, rosquinhas, milk-shakes, pães de queijo e sucos. Grande parte das mesas já estavam ocupadas. Passei os olhos pela centena de rostos a procura da garota enquanto uma música esperançosa ecoava pela lanchonete.
Coisinha mais típica.
Quando encontrei, ela estava olhando pra mim... e sorrindo, de um jeito quente. Definitivamente diferente da forma que a vi pela primeira vez.
— Você veio! — Bianca exclamou, animada.
Franzi a testa, que irônico.
Andei até sua mesa azul, a terceira da fileira lotada de pessoas.
O cabelo castanho dela tava solto. Era bem mais longo do que eu lembrava, destacava o rosto super branco.
— Por que eu não viria? — perguntei, sentando do seu lado.
Ela não se deu o trabalho de responder, invés disso, fechou os olhos, levantou o dedo indicador e começou a mover a boca. Percebi que ela cantava junto com a música que tocava nos auto-falantes.
Franzi a testa pela segunda vez no dia.
— Tá ouvindo? — Bianca perguntou, ainda com os olhos fechados. — Isso é Imagine Dragons. — ela exibiu os olhos castanhos e abaixou o dedo. — Eu fiz essa playlist! — se exibiu, com um sorriso convencido.
Eu não entendi nada. A lanchonete era dela? Dos pais dela, tios? Quis perguntar de primeira, mas resolvi que não importava. Eu não tenho nada a ver com a vida dela.
Bianca Robbie estava me observando com os olhos curiosos... Não. Ela estava olhando, mais especificamente, pro meu cabelo.
Eu quase podia ver sua boquinha formar as palavras:
— Seu cabelo é natural?
Revirei os olhos e balancei a cabeça, abismado. Será que as pessoas não conseguiam entender que certas pessoas nascem ruivas? Isso é tão irritante.
Ouvi a risada dela e tive que olhar. Sorri um pouco, só um pouquinho. Ela era tão bobona.
— Devia deixar crescer — ela me sugeriu. —, ia ficar mais bonito.
— Eu não tenho o costume de deixar crescer muito... — passei a mão automaticamente no cabelo.
Olhei pra ela, esperando por algo. Talvez o celular da Azul, que era o motivo para estamos aqui. Bianca bateu as unhas na madeira azul da mesa antes de virar a cabeça pra mim.
— Com fome?
Hmmmmm, bem que eu tava mas...
— Não trouxe dinheiro. — lamentei.
— Ah, se preocupa com isso não. — ela disse, levantando a mão pra chamar algum garçom. — É por conta da casa.
É o que...?
Bianca Robbie tinha razão.
— Oh, meu Deus! — gritei, sentindo aquela coisa divina na boca. — ESSA É MELHOR COXINHA DO MUNDO!
Grande, morna, perfeitamente delineada, com a porção perfeita de massa e frango. Eu poderia comer aquilo pelo resto da vida.
Encarei a garota com os olhos arregalados enquanto sentia um pedaço daquela maravilha da natureza na minha língua. Ela riu e engasgou ao mesmo tempo.
— Eu falei! — disse de boca cheia, tapando com a mão pra falar.
Ela sorriu e se voltou pro seu prato vazio e depois voltou a olhar para mim, com alguma curiosidade na face.
Puxa, ela era bonita, não dava pra negar isso. A forma do rosto, o jeito todo sedutor que ela me olhava de vez em quando e a forma bonitinha como fechou o punho, apoiou o cotovelo na mesa e deixou o braço sustentar a cabeça, fazendo com o que uma parte do cabelo caísse sobre uma parte do rosto.
Ela está flertando comigo ou será que é sempre assim? Isso tava ficando interessante, e até meio estranho. Uma garota flertando com uma pessoa que mal conhece.
Estranhamente suspeito.
Tentei lembrar da última vez que fizera isso, flertar propriamente dito.
Nada além de algumas encaradas e umas poucas palavras, pelo o que deu pra lembrar. Foi ainda mais difícil lembrar da última vez que tive um relacionamento, mas os que deu pra lembrar foram curtos e conturbados, e tudo parecia acabar por culpa minha. Nunca algo além disso, nunca entendi o porquê, e creio que desde então, só uns beijos no máximo com alguma garota x.
— Me conte sobre você. — Bianca pediu. — Sobre sua vida.
Olhei com desconfiança mas comecei a falar.
— Sou o mais velho de quatro irmãos. As gêmeas são doidas e a mais nova é grudenta. Luísa é casada com um cara legal e só.
Bianca Robbie desatou a rir.
Não entendi, será que fiz careta? Maya sempre dizia que as minhas caretas eram hilárias.
— Qual a graça? — perguntei.
— Ahhhh, tá de brincadeira, Nick! — Bianca Robbie reclamou, batendo com a mão na mesa. — Isso é muito raso, me conte mais sobre você! Detalhes! — ela gesticulou com as mãos. — Tipo: como as suas irmãs são, quais as manias, diferenças de personalidade. E a sua caçula? Se ela se parece com você, ou com a sua mãe ou com o pai. E a sua mãe, porque não está com o seu pai, é ruiva também? É esse tipo de história que gosto de escutar, história detalhada e profunda.
Eu ri, achando graça da situação. Ela fazia parecer minha vida interessante.
Bianca ainda tava esperando, resolvi ceder. Faria alguma diferença contar minha vida infeliz para alguém que eu talvez nunca mais fosse ver?
— Luísa e Tiago trabalham bastante — comecei. A atenção da garota estava totalmente em mim. —, então eu passei quase que a vida toda cuidando das meninas. A Milena, a Mirela e a Maya. — Bianca sorriu mostrando os dentes mas não disse nada. — Milena e a Mirela só são parecidas na aparência. Milena é três minutos mais velha e mil vezes mais madura. Ela é calma, amorosa e faz mais o estilo... indie. Já a Mirela é instável, extravagante e dura apenas na casca, no fundo é tão mole como pudim. — suspirei. — A Maya é grudenta como qualquer criança de sete anos, e ela se parece mais com Tiago.
Depois de processar por um tempo, Bianca voltou as perguntas:
— E a sua mãe?
Olhei pra ela.
— Luísa? — ela assentiu. — Ela é ruiva também e eu não sei porque ela não está com o meu pai, mas considero Tiago meio que uma figura paterna.
— Hummm — ela soltou. —, entendi.
Agora era minha vez.
— E você? — confrontei. — Qual a sua história?
Ela pareceu surpresa.
— Não, não, não! Nós estamos falando de você. — ela não me deixou pensar muito e já foi falando: — E você? Você falou de todos, menos de você, e exatamente isso o que me interessa. Você é feliz? O pretende fazer quando for maior de idade? Qual faculdade quer fazer? Quais suas manias, hobbies?
Bianca Robbie era uma metralhadora de perguntas ambulante. Sorri, zombeteiro para despistar dos questionamentos no estilo Matrix.
— Você não acha isso meio injusto, Bianca Robbie? Você sabe das minhas irmãs, meu nome completo, sobre Luísa e o meu padrasto! Você é uma garota ou uma espiã do governo em sua missão supersecreta?
Bianca primeiro fez uma cara estranha, depois riu. Será que ela cogitou a possibilidade de eu não estar brincando?
Ela colocou a mão no queixo e me fitou com os hipnotizantes olhos castanhos.
— É um pecado estar interessada em uma pessoa? — aquele mesmo sorriso de novo, malicioso.
Fiquei deslumbrado. Ela era boa, ela era definidamente boa. Tentei não mostrar impressionamento.
— Inclusive — ela sacou o celular cinza de Milena debaixo da mesa. —, eu já mencionei que adorei a foto?
Lá estava eu, com a cara amarrada, com Milena, mostrando um sorriso muito grande, com face calada na minha. Era o papel de parede da Azul.
Balancei a cabeça, sorrindo. A foto mostrava muita coisa de nós dois. Milena era sempre tão expressiva, sempre pronta para demonstrações de afeto, como naquele dia e eu, nem preciso falar...
— Obrigado. — agradeci, quando Bianca me entregou o celular.
Ela sorriu. Não aquele sorriso com malícia, mas um sorriso que dizia "disponha". Gostei mais desse, parecia mais natural dela.
Bianca voltou a atenção pro azul da mesa. Suas unhas começaram a bater freneticamente na madeira, como se estivesse ansiosa ou nervosa. De vez em quando, ela me olhava pelo canto do olho, mas quando me via olhando de volta, voltava pra mesa. Bianca passava os dedos pelo cabelo uma vez ou outra, colocava atrás de orelha e depois tirava, os olhos indo e vindo de um ponto ao outro.
Ela queria falar alguma coisa.
Tava me deixando agoniado com tanta agitação.
Parecia ter um conflito nela. Algo escondido. Aquele jeito despojado e direto que tinha demonstrado na maior parte do tempo não parecia natural. Parecia uma máscara, uma casca. Uma forma de defesa talvez... Mas agora, dava pra sentir que aquela era ela de verdade, mesmo que o comportamento fosse estranho de se entender.
O silêncio agora tava constrangedor.
Eu tentava pensar em uma forma de me despedir quando ela olhou pra mim e começou falar:
— Er... — ela fez uma cara engraçada. — será que você, bem... será que você poderia...
— Hora de ir pra casa. — interrompi seu gemido, me sentindo incomodado. — Não acha?
De novo, ela me olhou e se voltou pra mesa azul.
— Claro! — exclamou de novo, animada.
Ou humor melhorou ou ela fingia muito bem. Mais uma vez aquele sorriso simples.
Me levantei primeiro pra ela fazer o mesmo.
Andamos lado a lado até a saída, foi só quando estávamos do lado de fora do Unicórnio Aleijado, que olhei ela de cima a baixo. Bianca usava um daqueles tipos de vestido-blusa, que Milena era doida pra usar mas que não comprava por ser magra demais pra uma roupa dessas, de acordo com a mesma. As mangas cobriam os ombros e gola era redonda. A blusa-vestido ia até um pouco acima do joelho, com duas fendas laterais que iam do quadril até o final do pano, no peito tinha umas palavras em inglês. O short era escuro e o allstar de cano médio tava limpinho.
Eu tava um mendigo perto da arrumação toda de Bianca Robbie.
Calça preta, tênis meio sujo e blusa vermelha com as mangas nos cotovelos.
Ela não era muito mais baixa do que eu, mas ainda sim, com nós dois em pé, eu poderia facilmente repousar meu queixo em sua cabeça sem me abaixar. Reprimi esse pensamento, o que diabos to imaginando?
A gente ficou só se olhando, talvez esperando que alguém tomasse o partido de falar. A palma da mão dela bateu na coxa e a cabeça girou para trás.
— É, eu acho que isso é um adeus.
— Acho que sim. — concordei, com um meio sorriso.
Bianca parecia não querer ir embora.
— Adeus, Nicolas Ahoy. — ela sorriu.
Devolvi um sorriso de mesma intensidade.
— Adeus, Bianca Robbie.
Será que eu que teria que virar as costas e ir andando pra casa primeiro?
Fui pego de surpresa quando a garota enrolou os braços no meu pescoço e chegou mais perto.
Três coisas aconteceram simultaneamente. Primeira: a minha primeira reação foi não devolver o abraço; Achar aquilo desconfortável era absolutamente normal pra mim, como qualquer outra demonstração de afeto de qualquer outra pessoa. Segunda: minha mente foi invadida por um barulho, parecido a um lápis batendo freneticamente contra alguma coisa; Esse barulho pipocou na minha mente por uns instantes. Era tão familiar... Terceira e última: eu acabei gostando e.. devolvi seu abraço. Havia algo diferente no abraço dela, nada que desse apontar mas tinha. Tentei prestar atenção nos mínimos detalhes pra tentar entender.
Ela era quente. Tava um clima fresco até por esses dias, mas ela ainda conseguia ser mais quente, um morno bom. Eu conseguia ouvir e sentir sua respiração lenta conforme seus pulmões se enchiam de oxigênio e os ossos da caixa torácica esticavam de leve. Eu sentia o coração dela bater, um ritmo contínuo e calmo. Era reconfortante. Bianca Robbie tinha um cheiro sútil, não era ácido nem muito doce, era bastante bom.
Enquanto percebia todos esses detalhes, eu passei meus braços sem muito jeito em volta dela e lá os deixei, repousando em suas costas.
Ela foi a primeira a se soltar.
Bianca ficou me encarando por um tempo antes de sorrir e ir embora.
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