Capítulo 3 — A Donzela

Ele olhou para trás, ao ouvir a doce voz da Donzela do Inferno, que estava ali no seu quarto. Não pôde acreditar que aquilo realmente estava acontecendo.

De repente, os dois se transportaram para a margem do rio, onde a donzela sempre falava com seus clientes.

— Eu sou Enma Ai — ela esticou o braço direito, segurando um boneco de palha com um laço vermelho no pescoço. — Pegue.

Ele obedeceu.

— Se realmente deseja se vingar de seu inimigo, deve desfazer esse laço vermelho. Se o fizer, será um contrato oficial comigo. Aquele de quem deseja se vingar, será imediatamente mandado ao Inferno — ela fez uma pausa e ele esperou. — No entanto... se eu realizar a vingança, você terá que pagar um preço. Quando uma pessoa é amaldiçoada, dois túmulos são cavados. Quando morrer, sua alma cairá no abismo do Inferno. Seu espírito vagará entre a dor e o sofrimento, sem jamais conhecer o Paraíso.

Kaito olhava atentamente para ela.

— O resto é você quem decide.

Terminando o que tinha para dizer, ela foi embora e Kaito voltou ao seu quarto.

Ele guardou o boneco de palha e foi pra cama.

***

Ele não conseguiu dormir direito. Estava sonhando com a Naomi, mas sempre quem aparecia depois era o Daisuke, que beijava sua namorada e etc. Então, ele acordava e ficava sentado na cama, apenas esperando o tempo passar.

***

O outro dia na escola foi o mais torturante de todos. Olhar para o lugar vazio ao seu lado, olhando para a porta toda vez que ela abria, esperando que Naomi entrasse. Mesmo que ela tivesse traído ele por sabe-se lá quanto tempo, ele a perdoaria. Apenas queria que ela estivesse ali, com ele. Não foi um dia muito produtivo na escola, não escutou nada que os professores falavam, apenas pensava na Naomi. Tudo na sua mente era Naomi, apenas ela.

A parte mais dolorosa do dia foi ver Daisuke passar com seus amigos na maior diversão. Estava bem claro que, para ele, a Naomi não significava nada, e isso o encheu de fúria.

Durante o intervalo, ele estava sentado num canto, deixando sua mente divagar nas suas lembranças com a Naomi. Era até difícil achar uma em que ela não estivesse.

Viu o Daisuke de longe, como sempre com seus amigos em volta. Provavelmente essa foi a pior ideia que ele poderia ter, mas se levantou e andou em direção a ele.

— Você é o Daisuke, certo?

— Ele é — um dos amigos respondeu.

— Eu perguntei a ele, não a você.

— O que você vai fazer em relação a isso? — dessa foi quem falou foi o próprio Daisuke.

Kaito não respondeu. Apenas acertou o punho no meio do rosto do Daisuke, fazendo-o cambalear um pouco.

Menos de um segundo depois, recebeu o troco e desmaiou.

***

No outro dia, antes de sair para a escola, sua mãe o abraçou e disse:

— Não gosto de ver você triste, bebê. Mas, tudo vai ficar bem.

— Espero que sim.

— Seu olho está melhor — ela disse sem parecer convincente.

Ele se despediu e saiu de casa, para mais um dia agonizante na escola. Fez o possível para não olhar para a cadeira vazia que teimava em chamar sua atenção. Então, uns 20 minutos após o início da primeira aula, uma menina abriu a porta.

A luz do sol a envolvia. Kaito apenas podia ver um pedaço de seu cabelo preto, que caía perfeitamente abaixo dos ombros.

É ela. Ela voltou pra mim.

Naomi.

Venha, meu amor.

Ela fechou a porta, bloqueando o sol, e permitindo que os outros vissem seu rosto.

Não era ela.

Era apenas uma nova aluna.

— Desculpe o atraso, professor — ela disse, meio envergonhada.

— Tudo bem, apenas não torne isso um hábito. Venha cá — ele esperou até que ela estivesse do seu lado. — Essa é a nova aluna da escola, Kathy. Deixe-me ver um lugar pra você. Ali, do lado do Kaito — ele disse, apontando para mim.

Ela estava a caminho da cadeira, quando Kaito se levantou:

— NÃO! Esse lugar é da Naomi, você não pode sentar aqui.

— Err... esse é o único lugar livre da sala, eu tenho que me sentar.

— Assista a aula em pé.

— Eu acho que não.

— Só um minuto, espere.

Ele saiu da sala e voltou em menos de um minuto com uma cadeira nas mãos, que ele colocou em um lugar qualquer da sala.

— Aqui, pode se sentar.

A menina olhou, constrangida, para o professor, que apenas murmurou "vá", então ela foi.

Durante toda a aula, a menina ficou olhando esquisitamente pra Kaito.

O dia se seguiu de modo entediante, até as aulas terminarem e ele ir para casa, onde ficou deitado na cama, abraçado com o travesseiro. Mas pelo menos já tinha parado de chorar.

— Filho? — sua mãe o chamou, batendo na porta.

— Oi mãe.

— Vem jantar?

— Não quero descer.

— Quer que eu traga seu prato aqui?

— Pode ser.

Ela desceu e subiu alguns minutos depois. Entrou no quarto, acendeu a luz e viu seu filho deitado na cama e segurando o travesseiro. Colocou o prato no criado-mudo e se sentou ao lado dele.

— Você não pode ficar assim, Kaito. Tudo bem, eu entendo que é muito triste perder alguém que a gente ama, mas você tem que seguir em frente com a sua vida.

— Mãe... eu sinto muita falta dela. Sei que, provavelmente, com o tempo vai passar, mas sempre irei sentir um vazio dentro de mim quando lembrar dela. Sem ela, eu não tenho esperanças de que um dia voltarei a namorar. Ela era única pra mim.

— Eu sinto muito, Kaito — ela o abraçou e saiu do quarto.

Ele comeu e deixou o prato em cima do criado-mudo. Quando o colocou lá, ele viu o boneco de palha que a Donzela o entregou e pensou no que deveria fazer.

Se puxasse o fio vermelho, o Daisuke iria para o Inferno. Kaito viveria sua vida normalmente — se é que seria normal sem a Naomi —, e quando morresse naturalmente seguindo o curso da vida ou não, a Donzela voltaria para levá-lo, então ele iria passar o resto da eternidade vagando no Inferno.

Pensou sobre isso por um momento e acabou dormindo em meio a tantos pensamentos.

***

No dia seguinte, enquanto se arrumava para a escola, Kaito recebeu outra visita da donzela. Tinha terminado de vestir sua calça e estava procurando pela camisa, dentro do guarda-roupa, quando ela chegou.

— Hoje é o terceiro dia, desde que você fez o pedido. Você vai puxar ou não?

Ele levou um susto, mas não deixou transparecer. Virou-se e disse:

— Eu quero puxar. Realmente quero. E o odeio, mas eu não quero ter que ir ao Inferno quando morrer. Não fui eu que fiz algo errado, foi ele. Eu não quero cair no abismo do Inferno, nem vagar entre a dor e o sofrimento. Já não basta o tanto disso que eu estou passando aqui? Eu quero conhecer o Paraíso quando morrer. Isso não é justo.

— Infelizmente, as regras não foram criadas por mim. Não posso mudar isso. Se você puxar, você também irá ao Inferno. O resto é você quem decide. E sua camisa está debaixo da cama.

E ela sumiu.

— Donzela? — ele perguntou, confirmando que ela não estava mais lá.

***

Estava sentado em seu lugar de sempre, quando a nova aluna chegou e deu um olhar fulminante para ele, enquanto ia para a sua cadeira, que Kaito havia trazido no dia anterior.

Kaito nem se importou.

***

Durante o intervalo, ele saiu da sala e se dirigiu a parte superior da escola. Escolheu esse lugar, porque lá era bastante calmo, já que não havia ninguém lá.

Enquanto andava pelos corredores, se deparou novamente com Daisuke e seus amigos (dessa vez tinha mais alguns).

— Eu tô falando sério — Kaito escutou o Daisuke falar —, ela traia o namorado comigo.

Kaito apressou o passo, para sair logo dali. Não queria ter que ficar inconsciente de novo. Mas só de ver que tinha deixado um olho roxo no Daisuke já era suficiente.

Chegando onde pretendia, viu a nova aluna.

— Oi — ela disse, sorrindo.

— Oi — ele disse, achando aquilo tudo muito estranho. — Desculpa por ontem, eu não estava pensando direito e fiz aquilo.

— Ah, tudo bem. Sem problemas. E esse olho roxo aí?

— Me meti numa briga — ele tentou desviar.

— Perdeu?

— Ele também está com um olho roxo.

— Ah tá bom — ela deu uma risadinha. — Então, agora que já somos meio amigos, eu posso sentar ao seu lado?

— Não. O lugar ainda pertence a Naomi.

— Eu não estou entendendo bem. Quem é Naomi? Uma amiga sua que se mudou? Eu perguntei a uma menina que senta perto de mim, mas ela não falou nada.

— Não é isso. A Naomi era... é a minha namorada.

— O que houve com ela?

— Suicidou-se.

— Ah... eu... — ela não achava as palavras certas para dizer. — Eu sinto muito por isso. Seus olhos estão vermelhos, você estava chorando?

Ele apenas confirmou com a cabeça.

Ela se levantou e o abraçou.

— Tudo vai melhorar, você vai ver.

Ele já tinha escutado esta frase (e derivadas da mesma) diversas vezes, mas pela primeira vez, desde a morte da Naomi, ele sentiu como se realmente fosse se sentir bem novamente.

O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. Os dois rapidamente se colocaram em seu caminho de volta a sala de aula.

Enquanto andavam, Kaito disse:

— Kathy... — ela olhou para ele —, se quiser sentar ao meu lado, tudo bem.

— Não tem problema mesmo?

— Não.

***

Kaito chegou em casa, depois de mais um dia na escola. Dessa vez não foi tão angustiante como estava sendo. Kathy o fazia se sentir bem. Ele se sentia arrependido por ter sido tão grosseiro com ela quando se conheceram.

Lembrou-se das coisas que o Daisuke falava sempre que ele estava por perto, e se decidiu de uma vez por todas: iria puxar o fio vermelho. Não importava se ele teria que ir ao Inferno quando morresse, contando que fizesse o Daisuke pagar por todo o sofrimento que ele passou. Procurou pelo boneco de palha pelas gavetas e quando o achou, ficou de pé, segurando a ponta do fio e olhando fixamente para o boneco.