Notas iniciais
Quando aparece algumas frases, tipo, uma em sima da outra como se fosse uma conversa só que em letras itálicas, é quando o Arcano fala com a Sora, entenderam?

Havia uma fumaça cinzenta que cobria boa parte da praça e, agora era possível sentir a presença do outro youkai que Arcano falara.

Eu disse.

Não é preciso repetir.

Arcano se calou em minha mente, tenho um youkai realmente teimoso. Se bem, que também não ajudo muito...

As pessoas pareciam desesperadas e corriam sem rumo, não demorou muito e a praça ficou deserta. A festa que fora feita em comemoração ao dia de Risteys, bem, ela tornara-se um verdadeiro caos. Voltei a correr em direção a fumaça. Ela era densa e acinzentada, isso fazia com que fosse difícil enxergar ao redor.

Parei ofegante, eu precisava me acalmar e tentar sentir melhor a presença do outro youkai, talvez eu soubesse quem era, poderia ser alguém conhecido. Fechei meus olhos e tentei me concentrar ao máximo no que se passava ao meu redor, para ser mais especifica, no youkai.

Era um domador de youkai ambicioso, não tinha boas intenções. De certa forma, lembrava alguém conhecido, mas não consigo definir exatamente quem...

Abra seus olhos, Sora.

Fiz o que Arcano dissera e, ao fazer isso pude ver quem estava ali, alias, encarando-me no fundo de meus olhos.

Igualmente como ele. Encarei os seus olhos negros.

–Não imaginei que você poderia estar aqui... Sora. — Era Luke, eu já deveria ter identificado o youkai com a forma de uma hiena dele.

Luke tornara-se um domador no mesmo ano que eu. Treinávamos e estudávamos juntos, mas nunca fomos amigos, pelo contrario, nunca nos falamos. Então não posso dizer muito sobre ele. Ele tinha cabelos preto-azulados e olhos negros, e em certos momentos, Luke me parecia um tanto que psicótico. Vestia-se com uma túnica branca de mangas compridas e largas, e um cachecol cina escuro bastante comprido enrolado em seu pescoço, sendo que as pontas balançavam devido ao pouco de vento que soprava. Usava calças largas pretas, calçava botas de couro marrom de cano baixo que ficavam sobre a calça e, na cintura usava um cinto no qual prendia o coldrede sua espada. Alias, no coldre estava gravada a letra “A” maiúscula, era o símbolo de Argos. A maior parte dos domadores carrega ou o brasão de Argos em um pingente – assim como eu –, ou gravado em alguma arma que use, deixando o brasão mais a mostra possível, enfim, em qualquer lugar que fosse fácil de identificar.

–O que está fazendo aqui?

–Estava de passada... — Luke fingiu-se pensativo e começou a caminhar ao meu redor calmamente, como se ele fosse formar um circulo, porém, parou ao estar de costa para mim.

Coloquei minhas mãos dentro de minha capa, para que elas não ficassem à mostra. Espero que você me ajude agora, Arcano...Fiz com que uma lamina de gelo formasse em minhas mãos. Arcano é um lobo da neve e, seus poderes – obviamente — estão sempre ligados ao gelo.

Ouvi Luke sacar sua espada, não consigo acreditar que ele seja é tão sujo a ponto de me atacar de costas. Virei rapidamente, enquanto ele fazia o mesmo, ficamos um de frente para o outro. Ele estava com a espada em mãos, como se estivesse pronto para atacar alguém e esse alguém seria eu. Ao seu redor, era possível ver a aura de seu youkai, Era tão cinzenta e densa quando a fumaça que estava ao nosso redor. E, podia-se ver claramente a imagem de seu youkai, parado atrás dele, uma enorme hiena de pelagem cinza e olhos verdes, que brilhavam entre as sombras cinzentas, tinha um sorriso estampado em seu rosto, parecia rir debochadamente ao olhar na minha direção. Pessoas normais, que não são domadores, não podem ver a imagem de um youkai ou da aura que ele tem, entretanto, domadores podem ver. E a de Luke, definitivamente, não era confiável.

A fumaça cinzenta aumentou e ele sumiu entre ela, agora sei quem foi que causou todo esse tumulto. Provavelmente, ao chegar aqui, Luke deveria ter criado essa nuvem de fumaça e feito com que as pessoas achassem que algo poderia estar pegando fogo, mas não havia cheiro de algo queimado, apenas a fumaça que tomava conta do local. Mas em horas desesperadoras, as pessoas nunca pensam direito e isso, faz com que as coisas deem errado. Todavia, aparentemente para Luke deu certo.

Corri meus olhos e fitei tudo ao meu redor, não era possível ver nada e de certa forma, deixava minha cabeça embaralhada. Coloquei o capuz de minha capa e fiz com que uma luz azulada brilhasse em minhas mãos, desfazendo a lamina de gelo e formando assim, uma espada totalmente feita de gelo. De fato, Arcano já me dissera que tem mais poderes além disso, mas para eu conseguir desperta-los, será somente em um momento que eu realmente precise e tenha a absoluta certeza do que estou fazendo, então só assim eu poderei conseguir invocar um poder maior, mas nunca consegui fazer isso. Apertei com força seu cabo, uma pessoa normal provavelmente não conseguiria segurar esta espada por muito tempo, já que é feita de gelo e pode fazer com que os seus dedos congelem. Contudo, sou uma domadora e esta espada faz parte dos poderes de Arcano – desconheço muitos deles, alias -, então, mesmo que eu não esteja usando luvas, não faria diferença.

–Um conhecido meu disse que esses tais elementos poderiam ter uma grande força – olhei ao redor procurando de que lado vinha a voz de Luke, mas não encontrei. — Achamos que nos seria útil.

Senti o seu bafo quente falar no pé do meu ouvido, virei rapidamente na sua direção e tentei acerta-lo com a espada, porem, ele já havia sumido.

Maldito!

–Você poderia me ajudar... — senti-me ridícula ao voltar a procurar o som de sua voz entre as sombras, contudo aquela fumaça era densa demais e não era possível ver nada que estivesse ao meu redor. — Já imaginou como seria bom ter essas crianças, com poderes, ao nosso lado? — Luke terminou a frase com uma risada longa e debochada, a legítima risada de uma hiena ou de um louco.

O que pretende fazer, Sora?

Não sei, não faço a menor ideia...

Arcano sempre sabia o que fazer, mas nunca me dizia o que era o certo.

–Ok... — comecei calmamente, não irei repetir novamente o que vou dizer: — Eu posso ajudar você. Mas para isso, terá que mostrar o seu rosto e lutar comigo como uma pessoa digna. Como um domador digno. — Não, não irei ajuda-lo, falei isto somente para ver o que ele fará.

A fumaça cinzenta cessou, fazendo com que aumentasse o meu campo de visão e agora era possível ver as coisas a mais ou menos uns seis metros de distancia, depois disso, continuava tudo do mesmo jeito. Mas ainda era um espaço curto e continuava tudo muito escuro.

–Não sou um domador digno, mas meu mestre sim. — Ele disse enquanto vinha em minha direção, saindo finalmente de dentro da nuvem de fumaça. — Só espero que não mi pergunte quem é.

Mestre? Então tem mais alguém por trás disso? Não estou acreditando que Argos tem traidores. Mas a verdade, é que sempre teve traidores, só não imagina que um dia veria assim, à minha frente...

Já deveria ter imaginado nessas possibilidades.

–Não irei perguntar – arqueei uma sobrancelha e voltei a falar: — Não me importo. — Isso não é mentira, realmente não me importo.

Luke não esperou eu dizer mais alguma coisa e, sacou sua espada enquanto corria na minha direção. Desviei correndo para o outro lado e fazendo com que ele acertasse o nada. De fato, ele atacou-me pensando em matar. Luke olhou para os lados, certamente deixei-o confuso, eu poderia rir de sua expressão perdida, mas não é hora para isto. Praticamente correndo, ele veio novamente na minha direção, com a espada pronta para atacar. Porem defendi-me com minha espada de gelo, fazendo com que elas se chocassem e, em seguida aproveitei seu momento de distração e tentei acertar minha espada nele, em minha primeira tentativa de ataque. Contudo, Luke desviou, mas consegui fazer um pequeno corte em seu rosto. É desta vez que atacou para matar fui eu.

Ele resmungou algo inaldivel em resposta e passou à mão em sua bochecha direita, ela sangrava e provavelmente aquilo deixaria uma cicatriz. Luke encarou-me, seus olhos demonstravam raiva, raiva de mim. Mas isso não era importante.

Novamente ele veio na minha direção, desta vez com mais raiva e parecia estar realmente certo em acertar aquela maldita espada em mim. Girei rapidamente, nossas espadas novamente se chocaram. Tentei ataca-lo mais uma vez – quero terminar com essas briga ridícula logo. Luke desviou, o que foi um grande erro dele alias, pois isto fez com que eu acertasse a sua mão direita que segurava a espada.

Ouvi o barulho do metal chocando-se no chão e, em seguida Luke ajoelhou-se à minha frente, segurando com a outra mão o pulso da outra que fora arrancada. Dei dois passos para trás em uma tentativa de me afastar, não era uma cena muito bonita de se ver, ainda mais, com a ferida aberta e o sangue escorrendo, onde deveria ter uma mão antes.

Você arrancou a mais dele fora?! Sora... Você pode ter problemas por causa disso.

Sei disso... Mas de certa forma, ele merecia.

Isso não deixa de ser verdade.

Sim, de fato eu poderia ter grandes problemas por causa disso, até porque, em uma das leis de Argos, é bastante especifica que não devemos atentar com a vida de outro domador que seja do mesmo lugar que nós, devemos ter respeito aos outros domadores. Porem, ele não veio aqui com boas intenções, acredito que Luke não hesitaria em tentar acabar com a vida de um dos elementos e com a minha. E também, ele quebrara as regras antes de mim, fazendo o que fez. Eu apenas me defendi..

A fumaça aos poucos foi se desfazendo, Luke deveria ter perdido o controle sobre seu youkai, juntamente disso, acredito que suas forças também. Ainda com minha espada em mãos, caminhei até onde ele estava, apontando minha espada na direção de seu pescoço e fazendo com que ele me encarasse.

–Faça-me o favor... — comecei – Suma daqui! Não faça mais uma besteira como essa.

Ele não respondeu, apenas fitou-me com os olhos frios, enquanto uma pequena poça de sangue formava-se ao seu redor.

–Estanque o sangue, você pode morrer de hemorragia. — abaixei minha espada. — É somente um aviso, não faça mais isso. Irei lhe poupar, desta vez.

E então, sai caminhando, deixando finalmente Luke para trás enquanto minha espada se desfazia em uma luz azulada. O lado bom de ser um domador é que, nem sempre precisamos carregar armas, na maioria das vezes é preciso apenas invoca-las com os poderes de nosso youkai.

O que vai fazer agora?

Irei para a hospedaria.

Irá deixar ele assim? Desse jeito...

Arcano... Coisas piores podem acontecer e eu não matei ele. Não me importo, realmente... — Nunca fui alguém que arrumasse briga, na verdade, normalmente tento evitar ao máximo. Também nunca ataco outra pessoa, sempre espero ser atacada antes, é uma espécie de regra que resolvi impor a mim mesma. E normalmente meus oponentes não ficam em bom estados, eu também não fico as vezes... Lembro-me que ouve uma vez em que briguei com uma garota da cidade de Temesia, na época eu deveria ter uns oito ou nove anos, ela havia me chamado de órfã porque perdi meus pais, meu sangue ferveu e comecei a bater nela por causa disso. Claro, apanhei também e paramos somente quando caímos em um barranco que ficava próximo do lugar que estávamos. Os resultados: acabei quebrando um braço por cair de uma altura deveras alta e ela saiu praticamente ilesa, apenas com alguns arranhões. Dei bastante trabalho para Terence por causa disso e, ganhei muitos sermões dele.

–Ei! — Parei de caminhar e procurei com o olhar quem mi chamara.

Era Denzel. Mas o que ele estava fazendo aqui?

–O que você... — Comecei a falar, porem, ele correu na minha direção e derrubou-me no chão. Fazendo com que caíssemos sobre o chão de pedra e outras coisas que estavam espalhadas na praça, porem, não me importei em saber quais. Senti o peso de seu corpo sobre o meu, tentei empurra-lo, entretanto ele levantou-se antes que eu fizesse isso e estendeu a mão para que eu segurasse.

Ele é louco?!

–O que você está fazendo?! — Perguntei enquanto segurava a sua mão e ele ajudava-me a levantar.

–Desculpe, mas olhe ao seu redor.

Fiz o que Denzel dissera.

Olhei ao redor e entendi o que ele quis dizer. Luke estava de pé, ainda saia bastante sangue de sua ferida – alias, iria demorar um tempo para parar – e há alguns metros de distancia dele, no exato lugar onde eu estava, havia uma pequena faca cravada no chão. Isso significa que mesmo sem uma mão, o maldito ainda tentou me matar. Mas no fim das contas, ele estava em um péssimo estado.

Bufei e caminhei até onde ele estava porem senti uma mão segurar meu braço e impedir-me de ir até lá. Novamente era Denzel.

–Me solte. — Falei enquanto permanecia no mesmo lugar.

–Se você ir até ele, você vai fazer alguma besteira. — Denzel disse calmamente, mas ao mesmo tempo firme.

Sora, ele tem razão.

Respirei fundo e dei-me como vencida. Até mesmo Arcano havia impedindo-me.

Denzel soltou meu braço e em seguida fiquei de frente para ele.

–Já comeu alguma coisa? — Perguntou.

Encarei-o confusa.

–Hã.?

–Estou perguntando se você já comeu alguma coisa ou se já jantou... — Murmurou.

Olhei ao redor e procurei por Luke antes de responder, mas ele já havia ido embora.

–Não... por quê?

–Me espere aqui, eu já volto. — E com isso, ele saiu correndo em direção à rua que eu viera.

E sobrara apenas eu. Respirei fundo e caminhei em direção à um banco que não estava caído no chão, sujo ou quebrado, sentei no banco e fitei o que havia ao meu redor. Um verdadeiro desastre. Ao menos acredito que ninguém se machucara seriamente. Sei que pode parecer um tanto egoísta pensar assim, mas espero nunca mais ter que olhar para Luke novamente. Não sei o que irei fazer caso isso aconteça. Oras, ele estava atrás dos elementos, oras ele iria me matar caso eu hesitasse... Oras, eu arranquei a mão dele fora... Suspirei. Isso não terá boas consequências. Fitei a barra de minha capa, estava manchado de sangue, sangue de Luke, provavelmente não ira sair tão fácil, mas isso não é problema.

Retirei o capuz de minha capa, enquanto Denzel finalmente chegava correndo e segurando uma sacola branca nas mãos. Ele parou ofegante à minha frente e em seguida sentou ao meu lado no banco de madeira.

–E então... — ele começou a falar, enquanto retirava dois sanduíches de frango de dentro da sacola – Qual é o seu nome?

–Sora — peguei o sanduíche que ele me oferecera. — Obrigada.

–Você veio aqui por cauda da profecia dos Quatro Elementos?

Respirei fundo antes de responder, todos devem saber da profecia.

–Sim... Disseram-me que dois dos quatro elementos deveriam estar aqui. — Mordi um pedaço do sanduíche, estava bom e eu com fome.

–Hm... Eles são terra e ar, certo? — Desta vez quem mordeu um pedaço do sanduíche, fora ele.

Assenti.

–Sim, por quê?

–Acho que sei quem são eles. — Isso é brincadeira? Se ele realmente sabe quem é, isso irá realmente facilitar o meu trabalho.

–Como sabe?

–Eles moram na casa de uma velha conhecida minha, desde que me intendo por gente ela cuida de crianças de rua. A casa dela é cheia de crianças e gatos, mas não me pergunte o porquê dos gatos.

–Hm... Você poderia me levar até lá?

Notas finais
Não reparem, mas inicialmente a Sora vai ser meio fria e/ou talvez seria demais, só que isso vai mudar no decorrer da historia.
Duvidas? Criticas? Elogios?