A Domadora - O Fragmento da Profecia
27 Capítulo 26 - Pillar
Notas iniciais
―Sabem que isso é uma injustiça, não sabem?! ―Benjamin exclamou ao fecharem as grades a sua frente, rapidamente segurou-as e as sacudiu. ―Vocês nem sabem quem nós somos!
O homem do outro lado da cela apenas observou-o, era o paladino que havia trombado mais cedo. E, o mesmo os trouxera para Pillar, em uma das cinco grandes construções, onde se encontrava a prisão subterrânea.
―Então, quem é você? ―Cruzou os braços, e observou-o, com os olhos de cor clara.
Benjamin tomou um semblante mais sério, deu um passo para trás, fazendo com que relativa sombra tapasse seu rosto.
―Meu nome é Benjamin Break. Sou um dos elementos da profecia. ―Foi mais sério.
No entanto, o homem do outro lado da sela acabou rindo.
―E você quer que eu acredite? ―Resolveu virar as costas e se afastar.
―Mas eu não estou mentindo... Por Névoa! ― Voltou a exclamar.
Entretanto, o paladino parou, virou-se e encarou Benjamin.
―Por Névoa? Garoto, de onde você veio, exatamente? — Foi mais sério, embora aparentemente calmo, ainda era perceptível sua desconfiança.
— De Temesia. Mas nasci nas Trevas.
— Então você realmente é o elemento... O que veio fazer aqui?
Benjamin suspirou, deveria ou não contar?
— A profecia estava incompleta, há um quinto elemento. Por isso viemos para Eternal.
O homem a sua frente pareceu ponderar, ficando mais sério. Então, lançou um rápido olhar para os guardas no fim do corredor.
— Tragam os outros, e chame Ethel Acker. — Afastou-se, ignorando completamente a presença de Benjamin.
O ruivo bufou, voltou-se a cela e sentou-se no chão, com as costas escoradas na parede. Sua situação tinha como ser pior? Ou melhor, tinha como todos eles estarem em uma situação pior?
— Não adianta, Benjamin. — Era Denzel, ele também havia sido pego pelos paladinos, levado até a prisão, e quando Benjamin e Yume disseram que o conhecia, os levaram diretamente para a mesma cela. Benjamin analisou-o, Denzel estava machucado. Parecia ter levado uma surra... Teria sido um dos paladinos? Pensou em perguntar, mas desistiu.
— Mas eu sou mais forte, poderia colocar fogo nesse lugar, derreter essas grades. — Bufava.
— Mas você não tem nome o suficiente. Acha que é alguma coisa em Eternal? — Quem o respondeu foi Yume. Não era ríspido, apenas explicava a realidade.
Benjamin não respondeu, resolveu virar a cara e encarar outro canto.
— E Denzel, onde está Sora? — o elemento terra voltou a falar.
— Ela preferiu resolver outras coisas. — Se soara meio arrogante? Bom, talvez sim, mas não se importou se Yume percebera. Sora dissera que ele não era útil. E gostava dela, e muito, o que acontecera em Hibernyan então, os dias que se seguiram... E por ela ter dito o que dissera, fizera as palavras doerem mais ainda.
— Briga de casal? Que meigo... De bem que, quando se trata de um relacionamento com a Sora... — Benjamin ironizou. Denzel não respondeu.
E então silenciaram-se, ouvindo novamente os sons de pessoas se aproximando. Viram o mesmo homem que os trouxera. Era seguido por outros guardas, porém, estes traziam Yoru e Fallen. Abriram a cela que estava a frente, elas entraram silenciosamente enquanto trancavam novamente as grades.
Benjamin bufou outra vez, sentindo duas mãos soarem. Não iria se descontrolar, mas resolveu levantar. Segurou as grades com força e as sacudiu.
— Pelos Deuses! Vocês nos trancam aqui sem sequer saber quem somos? As pessoas deveriam perguntar, antes de tirar qualquer conclusão.
— Eu realmente gostaria de falar um pouco mais com você. Mas há outros problemas para resolver no momento. — O homem se afastou, Benjamin sentia seu sangue queimar.
***
Acordou somente com o som de chaves batendo. Yoru sentia seu corpo dolorido, dormir no chão de pedra, em uma noite fria, era uma péssima combinação. Abriu seus olhos silenciosamente, Fallen ainda dormia, e estava do outro lado da cela. Só então, notou a mulher que abria as grades a sua frente.
Era a mesma paladina que os trouxera até ali. Vestia apenas parte da armadura dourada no momento, e em seu ombro esquerdo... Havia um pássaro. Um estranho pássaro de penas azuis claras, mas que mesclavam com branco e tons mais escuros de azul. Os olhos do animal, eram de um ciano brilhante.
— Vocês tiveram sorte... — Ela começou calmamente. Notara a presença da garota acordada, enquanto procurava as chaves da cela. Yoru sentou-se no chão, a prisão era silenciosa no momento.
— Por quê? — Ousou perguntar. Viu Fallen se mexer, porém, não acordou.
— Irei explicar a situação logo mais. — Por fim abriu a passagem.
Yoru levantou-se, e se dirigiu até Fallen, sacudiu seus ombros, enquanto chamava-a.
— O que foi? — Coçou os olhos azuis ao se sentar, Yoru afastou-se novamente.
— Ela está nos soltando, veja — Maneou a cabeça na direção da outra cela, a paladina abria-a calmamente.
Fallen coçou os olhos e levantou-se. Benjamin já acordara-se e começara a protestar, Denzel e Yume seguiram a paladina em silêncio. E só então, seguiram pelo corredor de celas. De fato, não eram os únicos, haviam mais prisioneiros e, estes, preferiam ficar calados. Observavam silenciosamente a cada passo, talvez apenas ladrões, encrenqueiros como eles, ou coisa pior. Seguiram por mais algum tempo, a paladina ainda sem dizer nada abriu uma porta de ferro. Rangendo, deu passagem para outro corredor, este no entanto, não havia mais prisioneiros.
— E você não vai sequer se apresentar? — Não pedia, Benjamin estava mais é debochando.
No entanto, a paladina de cabelos loiros parou de caminhar, em frente a eles, ainda com o pássaro parado em seu ombro. Virou-se, ficando de frente para Benjamin, e com os olhos ambares amarelados o afrontou, era alta, praticamente da mesma altura.
— Realmente? Sei que estou perdendo meu tempo ao dizer isso, mas chamo-me Ethel Acker. E não estou dizendo isto por que você está pedindo, talvez seja mais uma questão de educação. — Desceu os olhos dos pés à cabeça de Benjamin, era séria ao falar. E os olhos penetrantes da ave que estava sobre seu ombro, afrontava o ruivo — Mas creio que educação seja algo que lhe falte.
Isso bastou para fazê-lo ficar em silêncio. A paladina então, voltou novamente a caminhar. Seguiram por mais algumas celas, até o momento em que, Yume sentiu que algo segurava seu braço.
Por um instante pensou em gritar, mas então, viu a silhueta de um velho do outro lado das grades. Segurava seu braço com força, e o encarava, com profundos olhos negros, friamente vazios. Notou que os outros cinco haviam parado de caminhar, mas mesmo assim, ficara um pouco mais para trás.
— As Torres irão se alçar. —sussurrou. Yume tentou se soltar, porém, o velho era mais forte. O local era sombrio e isso, fez o garoto por um instante temer — A cidade imêmore será encontrada. — Falava rapidamente, mas ainda era possível distinguir o que proferia — O sortilégio livre será solto. E então, assombrosos monstros irão desolar os mundos. Os Deuses são falsos. Os Deuses irão embora. Os Deuses... Eles... Eles — Após isso o prisioneiro soltou o garoto. Afastou-se e repetindo as mesmas palavras passou a coçar o que lhe restava de cabelos. Então gritou exibindo os dentes podres, ajoelhou-se no chão em frente as grades e sacudiu-as. — Os Deuses...! Eles! Eles!
— Já chega. — Ethel resmungou, embora o som de sua voz fosse abafado pelo som dos gritos. Aproximou-se das grades e as chutou, fazendo um barulho irritante das botas de ferro se chocando. O velho, no entanto, deitou-se no chão, agora sussurrando palavras desconexas. — Não deem ouvidos para o que ele fala. — Após isso, voltou a caminhar em linha reta, não ousou olhar para trás.
Yume pensou em responder, olhou para Denzel, porém, este também não tinha ideia do que fazer. Após isso, voltaram a seguir a paladina.
— Ele é um Clérigo Negro, fazia parte da ordem dos Guerreiros Caídos. Em um ataque a Eternal, ele foi capturado. Isso já faz alguns meses, pensamos que poderia nos dar algumas informações sobre os reais planos dessa ordem, porém, enlouqueceu após colocarmos atrás das grades.
— Um Clérigo Negro? — Denzel deu um passo à frente, não poderia deixar de transparecer curiosidade. A paladina assentiu séria.
— Sim. Desde os tempos mais antigos existem aqueles que traíram a Ordem de Pillar, os Mandamentos de Secula, e foram contra o grande Códex. E assim, formando o Clérigo Negro. Um dia aquele velho já foi um paladino, se tornou um guerreiro caído e, hoje, é um louco.
— Não consegui entender o significado daquelas palavras...
— Acredite, é melhor nem querer. — Fez uma pausa. — Agora andem, há algumas pessoas que querem falar com vocês. — Maneou sua cabeça e após isso chegou ao fim do corredor, pegou as chaves que trazia e abriu a porta de ferro. Denzel não poderiam ter certeza se já era dia, ou se ainda era noite.
A paladina os levou para outra sala, onde haviam guardado suas coisas. Devolveu as bolças, as mochilas, e até mesmo as armas que as Anciãs do Tempo haviam dado de presente. Avisou também que os cavalos estavam no estábulo da Catedral de Pillar. Porém, não citou o ordhere em momento algum.
Após isso seguiram subindo por alguns lances de escada, em formato de caracol feita de pedra. O que levou alguns longos minutos de silêncio. Só então chegaram a outro corredor, Ethel seguiu em frente novamente e abriu outra porta, e para variar: mais um corredor. Este, no entanto, tinha paredes mais claras, e haviam várias janelas douradas, nos quais, o vidro transparente mostrava o céu cinzento de inverno. E a cidade de Eternal, parecia minúscula da altura e distância que estavam. De um lado, haviam janelas, e do outro, portas. Ao final, o corredor exibia a passagem aberta, que indicava uma extensa ponte – extensa talvez fosse pouco, era demasiadamente longa.
— Por que nos soltou? — Denzel indagou, com visível desconfiança.
— Eles são os quatro elementos da profecia, apesar de terem se juntando aos Guerreiros Demoníacos, fazem parte de algum plano dos deuses. Então nós, paladinos, respeitamos.
— Faz sentido...
— Aliás, o que você é exatamente? Seus olhos são tão estranhos...
Denzel suspirou, agradecia o fato de estar vivo, então, tinha de aceitar o fato de que seus olhos eram de dragão. A besta que também havia o matado.
— Temesia foi atacada por um dragão, e eu morri. — Ethel encarou-o pelo canto do olho. — Mas me trouxeram de volta a vida, trocaram o meu coração por um de dragão.
— Dragões deveriam estar extintos. — Denzel notou um tom diferente em sua voz. Não conseguiu decifrar o que significava. Era pena? Aversão? Ou talvez estivesse o vendo como um monstro? Naquele momento, sentiu saudade da indiferença de Sora, afinal, ela não se importava.
Sua frieza tinha um lado bom, e além de tudo, ele conseguira transpassar a armadura de gelo que a domadora tinha. Embora o desentendimento, no último momento em que haviam se visto...
— Não me diga que aquela coisa parada na ponte nos encarando é o Randy? — Benjamin foi o primeiro a se pronunciar quando colocaram os pés na ponde de pedra, que se erguia sobre a cidade. Era extremamente alta, e com uma estrutura reforçada de calhau, e o final levava a construção principal de Pillar, deveria estar a uns duzentos metros à frente. E do centro da enorme torre, erguia-se a árvore milenar, cuja os galhos cobriam parte da cidade.
Ethel não respondeu.
— Pelos deuses, aquele desgraçado está me devendo cem moedas de ouro. — Apontava para a figura mais à frente. Cabelos loiros, e o casaco branco e comprido. Era Randy, definitivamente.
E então ele resolveu aproximar-se, o grupo seguiu
Pararam somente ao estarem frente a frente.
— Parece que já conheceram a minha irmã. — Disse, com um sorriso crápula.
— A paladina mal humorada é sua irmã? Faz sentido ela ser tão esquisita. — Benjamin resolveu ser mais rápido.
Porém, nem tanto.
Ethel rapidamente desembainhou a espada que carregava em sua cintura, apontou-a na direção do pescoço do ruivo, e o afrontou com os olhos de cor amarela.
— Eu ainda irei arramar sua língua fora. Deveria agradecer a Randy, se não fosse por ele explicar quem vocês são, poderiam ter mofado por mais um tempo em uma cela.
— Você só pode estar caçoando de mim, esse loiro sem cor tem voz na “Grande Catedral Pillar”?
Ethel revirou os olhos, e abaixou a espada, dando de ombros e seguindo em frente. Randy deu um passo na direção de Benjamin.
— É bom ver você também, seu infeliz. Mas falando sério, como se fossemos pessoas normais. Ethel é uma paladina de grande nome aqui dentro e somente não sou um deles, pois me tornei um domador.
Meus pais eram paladinos...
Mas tornar-se um domador não é uma condição ruim, Randy. — A voz grossa do youkai ecoou em sua mente.
Eu sei disso, e gosto muito dela. Alean.
— E acredito que Ethel tenha falado sobre quererem conhecer vocês, certo? — Apontou para a paladina, porém, esta já estava distante na ponte, sendo seguida pelo pássaro de olhos cianos.
— Sim. — Denzel respondeu, antes que Benjamin o fizesse.
— Então, me sigam.
— Desculpa perguntar isso, mas... — Fallen finalmente pronunciava-se. — Randy, desde quando você é tão conhecido em Pillar? — Não debochava, sua pergunta era séria.
— É verdade, também estou em dúvida... — Yoru comentou.
Randy suspirou.
— Posso contar isso a vocês durante o caminho? Acreditem, é uma história longa... — Disse enquanto começava a caminhar. — E ainda tenho mais alguns recados... Me sinto um pombo mensageiro. — Dez uma careta, porém, ninguém resolveu questionar.
Denzel o seguiu e, por fim, o resto do grupo.
A ponte era extensa, e alta. Ao longe, era possível ver as sombras das outras construções de Pillar. E a cidade que se espalhava ao redor. Eternal era demasiadamente grande em sua extensão de terras, iniciava-se perto de uma floresta, cobria parte do que antes deveria ter sido um pântano – seu lado inundado− e, por fim, terminava na costa do continente. Pillar encontrava-se em seu centro. Denzel olhou ao redor, onde Sora estaria naquele momento?
Ele então, cravou seus olhos em dois paladinos que se aproximavam. Traziam junto um terceiro homem, este, encarava o chão e seguia em passos tortos, como se estivesse bêbado. Ou, então, havia tomado uma surra.
Esperou que se aproximassem e passassem ao seu lado, e, só então, viu quem de fato se tratava.
Encarou-o por um instante, com os olhos de dragão semicerrados.
E então bufou, por impulso deu meia volta e se dirigiu aos dois guardas. Puxou a túnica do prisioneiro e o afastou, bruscamente o derrubou no chão. Agora segurando a gola de sua blusa, reconhecia aquela face...
— O que faz aqui, espadachim? — Foi sério. Viu os dois guardas se aproximarem, porém, Ethel os impediu, coma a desculpa de que “queria ver o que iria se seguir”.
— Isso só pode ser uma praga. — O espadachim de cabelos e olhos prateados resmungou.
Denzel sentiu seu sangue ferver.
— Por que estava nos perseguindo?
— Talvez seja por que é meu trabalho?
— Então... Quem mandou?
— Talvez isso não seja do seu interesse.
Denzel pensou em dizer algo, porém, foi interrompido pelo som de uma corneta.
Era um estrondo melancólico, que se seguiu por alguns instantes.
— Corram! Agora. — Ethel exclamou, e somente após isso Denzel realmente entendeu o que aquilo significava.
A Catedral Pillar, ela estava sendo atacada.
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