A Domadora - O Fragmento da Profecia
14 Capítulo 13 - A Aliança de Pale
Notas iniciais

Sentia o meu corpo quente, era uma sensação quase que aconchegante. Nada doía, mas ainda lembrava-me de cada golpe que recebera. Virei-me, notando que estava sob cobertores, o local era abrasador, e me fazia querer ficar de olhos fechados e dormir mais um pouco.
Mas...
Eu apanhara, vira aquela mulher, aquele homem...
Notei que o local onde estava era iluminado e, acabei obrigando-me a abrir os olhos para finalmente ver onde estava. Olhei para o teto, olhei ao redor, era uma espécie de tenda? Mas e a floresta? Virei-me, estava envolvida por cobertores pesados, eram de pele de ovelhas.
Olhei ao redor, havia uma porta aberta, e entrava a claridade do sol.
Já amanheceu? Arcano, onde estou?
Sei tanto quanto você, Sora.
Sentei-me na cama, aparentemente, improvisada no chão, notando os lampiões apagados que estavam perto de mim. Assim como, pude ver também que minhas coisas estavam organizadas em um canto. A bolça, a bainha das espadas e minha capa estava sobre ela. Só então percebi que não estava sozinha.
Denzel estava a minha frente, ele dormia, sentado no chão, estava totalmente desajeitado.
Pensei em levantar-me e ir até ele, porém, também notei que vestia outras roupas. Era um vestido, de cor cinzenta com um colete vermelho, tinha ligeiro decote e mangas curtas. Aquilo fazia-me pensar que, não lembrava a última vez que usara vestido. Mas, quem havia o colocado em mim? Suspirei e coloquei as cobertas para o lado, aquilo não era importante.
Iria chamar por Denzel, porém, antes que fizesse isso, vi uma mulher entrar na tenda. Não era a que eu vira antes de desmaiar, ela tinha a pele morena. Vestia roupas de cor verde, marrom e branco. Com uma espécie de saia sobre uma calça, seus cabelos eram lisos e de cor castanha e seus olhos verdes. Pude notar que suas orelhas eram pontudas. Não era algo muito comum de se ver...
Iria articular algo, porém, ela apenas olhou ao redor e saiu novamente, sem dizer uma sequer palavra e então, vi Denzel se mexer. Estava acordando-se.
— Onde estamos? — Perguntei, sem deixa-lo pensar muito.
Denzel coçou os cabelos e me observou com os olhos de dragão, analisando-me. Ele bocejou e em seguida falou:
— Ontem à noite... — piscava enquanto acostumava-se coma luz. — Você lutou com um Desultor, procuramos por você, então nos encontramos com a Aliança de Pale...
— Aliança? — Estreitei meus olhos e perguntei calma.
— Sim... Eles são mercenários. Estavam atrás dos Búfalos Abissais que acabamos matando no lugar eles.
O que está exatamente acontecendo?
Acho que é exatamente o que Denzel diz, Sora.
— Explique-me melhor... — Além do fato de que eu acordava em um local totalmente estranho, meus ferimentos não estavam mais ali, meu corpo não doía. E ainda conseguia lembrar-me claramente do que acontecera antes. Precisava saber exatamente o que ocorria.
— Namish me avisou que você havia acordado, Domadora. — Olhei para a abertura da tenta, havia uma mulher entrando onde estávamos. Ela tinha cabelos lisos e de cor branca, porém, aparentava ter no máximo uns trinta anos. Sua pele era negra, e seus olhos, contrastavam de cor amarela. Era uma mistura diferente, porém, ela era muito bonita. E a reconheci, era quem eu vira antes de apagar completamente. Segurava o cajado de cor prateada, azul e roxo com sua mão direita. E vestia as mesmas roupas que a vira antes. — Meu nome é Solace Dreward. É um prazer poder falar com você, Sora Maarten Hill. — Ela mexeu-se, de tal forma que ouvi o som dos adornos de ouro e prata de suas roupas baterem-se.
—Você... —Estreitei meus olhos, estranhamente, ela não representava ameaça, mas ainda assim...
—Sim, fui eu quem encontrou você ontem à noite. — Ela era calma, porém, séria. — Aliás, também curei seus ferimentos, você quebrou um braço e algumas das costelas.
—E onde estamos?
—Não muito afastado de onde encontravam-se antes, creio eu. Mas para se você quer saber o local exatamente, estamos perto de um dos portais. Ainda está na região de Eamorn.
Denzel estava em silêncio, ele parecia mais interessado em analisar o pingente em forma de aliança que tinha em seu colar.
Solace adentrou a tenda e caminhou até onde espadas estavam, ela agachou-se e pegou a que me pertencia, desembainhou e a analisou a lâmina. Apenas a segui com o olhar.
—Interessante... Vocês têm armas de Lâmina Bendita. Onde conseguiram?
—Ganhamos de presente, das Anciãs do Tempo. —Denzel pronunciou-se pela primeira vez após a chegada dela.
—Achei que haviam passado por Gladius... Se bem que, é um local bem difícil de se encontrar — Solace guardou a lâmina e levantou-se, voltando sua atenção a mim. —Preciso pedir desculpas a você. A nossa Aliança, a Aliança de Pale, viajou até a Terra para matar um bando de Búfalos Abissais que vieram das Trevas, eles haviam atravessado um dos portais. Agradeço-lhe por ter ajudado a mata-los, mas ainda desculpo-me por Dafar ter atacando-a.
—Quem é Dafar?
—O desultor, ele a viu e achou que seria uma ameaça. Mas consegui intervir.
—E o que você é?
—Sou uma Summoner.
Quase arregalei os olhos e engasguei naquele momento. Já havia ouvido falar dos Summoners. Eles eram a ponte de ligação com os Deuses na Luz. Havia um para cada reino, que era o braço direito do rei. Eram poderosos e concediam permissão para a manipulação da magia livre, assim como eles também tinham uma extraordinária habilidade sobre ela.
—Você deveria estar ao lado de um Reino e não caçando Búfalos com mercenários.
Vi Solace dar um sorriso vazio em resposta.
—E não é? Mas digamos que na Luz as coisas não estão muito boas. Era a Summoner braço direito do Reino de Etenesis, porém, há dois anos minha irmã tomou meu lugar e fui banida, o reino agora está em guerra com Edésia e Cássia. Formar uma aliança de mercenários não era uma má ideia.
Realmente, eu não fazia a menor ideia sobre daquilo.
Ela foi traída pela própria irmã...
Por ganancia e poder as pessoas fazem o que for preciso, Sora.
A cada momento vejo que os mundos estão cada vez mais cheios disso.
— Acho que seria uma boa ideia você sair daí, o dia está bem bonito. E a Aliança quer conhecer à domadora que encontrou os quatro elementos. —Ela se dirigiu até a saída da tenda, porém, parou ao colocar o primeiro pé para fora. —É uma honra conhecer a domadora que encontrou os quatro elementos. E o mortal que recebeu o coração de um dragão — Após isso, Solace finalmente saiu.
—É uma honra me conhecer? —Falei, embora acabasse sendo um pensamento alto. Denzel ergueu os olhos e me observou.
—Acho que seu nome deve ter ficado bem famoso, não? —Ele riu. —Mas apenas o nome, pelo que percebi a maioria não faz ideia de quem exatamente você é.
—E o mortal com o coração de dragão? —Arqueei uma sobrancelha.
—Também faço parte de toda essa história. —Denzel bateu no peito fechando os olhos enquanto sorria, apenas balancei minha cabeça e levantei.
Então, até onde havia entendido, estávamos em solo amigo. Uma aliança de mercenários, não é algo que se vê todos os dias. Peguei minha capa e a vesti, havia chovido e eu a molhara, mas por sorte, já havia secado. Vi Denzel levantar-se e se dirigir até a saída da tenda, ele ainda me esperou na porta e por fim o segui.
E realmente, precisava concordar com Solace, o dia estava realmente bonito. Não havia sinal de chuva, só então me lembrei de que estávamos próximos de Hibernyan e, o dia 31 se aproximava. O ano iria terminar logo. O céu era azul, estávamos em uma clareira extensa, parte dela alcançava a beira de um rio. Mais ao longe havia as montanhas, que estavam entre nós e as arvores. Ao nosso redor havia outras cinco tendas montadas, nossos cavalos estavam amarrados mais a frente, junto de outros quatro cavalos e outro animal... Que realmente, eu não sabia de que tipo de espécie se tratava e naquele momento, desejei poder ver mais detalhes, porém, não pude.
—Hey, então você é a tal domadora que a Solace falou tanto? —Fui puxada, ele passou o braço ao redor de meus ombros em um meio abraço enquanto caminhava. —Meu nome é Deron Ealric. Sou um invocador, e se você não sabe o que é depois irei lhe explicar. Antes disso, pretendo lhe apresentar a Aliança de Pale. —E mais uma vez ele me puxou quase me sufocando e desta vez, para outro lado enquanto descíamos até a beira do rio. Analisei-o, aparentava ter uns vinte e poucos anos, tinha cabelos castanhos avermelhados e barba por fazer, usava um chapéu, de cor azul, suas roupas também eram basicamente destas cores: azul e vermelho, com marrom preto e branco. Ele tinha pele clara e seus olhos eram castanhos.
Vislumbrei ao longe a mesma mulher que entrara na tenda que eu estava antes, reconheci-a como sendo Namish, que Solace citara. Ela estava sentada na beira do rio, de costas, outro homem falava com ela de pé. Ele era alto, moreno e com os cabelos raspados, tinha um porte forte, músculos visíveis. Vestia partes de armaduras, botas de ferro, ombreiras, cota de placa, e em suas costas carregava uma espada junto de um escudo. Não pude ver muito bem seu rosto de onde estava. Porém, perto deles também estava Yume e Yoru. Fallen e Benjamin não estavam ali, nem Solace, e nem o homem que havia me atacado.
— Otolon! —Deron exclamou enquanto ainda me arrastava, estava começando a me irritar com aquilo, porém, ele parecia animado de mais para perceber. —Essa bela moça usando roupas que pertencem a Solace, é Sora, a domadora que o Dafar atacou ontem quando estava chovendo. — Ele apontou para mim e o homem moreno se aproximou.
Olhei ao redor procurando por Denzel, ele caminhava um pouco mais atrás, encarei-o quase que suplicando para que ele fizesse com que Deron me soltasse. Porém, ele riu e balançou a cabeça e não disse nada.
—É um prazer conhece-la, Sora. —Estendeu-me a mão para cumprimentar-me, Deron finalmente me soltou e agradeci aos deuses por aquilo.
—Ele é um bélico, um dos poderosos guerreiros da Luz que usam a magia livre concedida por um Summoner. —Deron respondeu e então observei Otolon. Ele aparentava ter uns trinta e poucos anos, deveria ser um pouco mais velho do que Solace e seus olhos eram escuros. — E onde está Dafar?
—Foi caçar algum animal para o almoço.
— Apesar de ser esquisito, Dafar nos ajuda a não passar fome. —Como se ele fosse normal. Se eu ainda não conseguira me acostumar com as esquisitices de Benjamin... Imagine Deron, quem eu nem conhecia. —E a outra estranha lá, é a Namish, — Ele apontou para a mulher que preferia observar o rio. —Ela é uma selvagem, uma das poucas que restam nas Trevas. —Observei-a de onde estava, ignorando o que Deron dizia em seguida.
Selvagens... Já ouvi falar sobre isso alguma vez...
Eles têm a habilidade de se transformar em animais. Não são exatamente humanos, a origem de sua raça é tão misteriosa quando a de um domador.
Então parece que você sabe bastante, não é, Arcano?
Talvez... Ao que entendi Deron e Namish, vieram das Trevas. Otolon, Solace e Dafar vieram da Luz.
Como chegou a essa conclusão?
Por que apenas nas Trevas ainda é praticada a invocação e é nas Trevas que está à origem das primeiras aparições dos selvagens. Apenas na Luz há bélicos, desultores e summoners.
Como na Terra há os domadores e paladinos? —Perguntei a Arcano.
Sim. E os elementos, eles vem de todos os três mundos, é como se quisessem que eles impulsionassem uma ligação entre os mundos novamente.
Isso faz sentido... Mas é algo imprevisível.
—Sora, o que acha de um jogo de cartas antes de almoçarmos?
—Hã? —Encarei Deron.
—Nunca jogou cartas?
—Chame Denzel. —Cortei o assunto e segui mais a frente, não que eu quisesse ser grossa, mas fora inevitável.
Havia uma descida para chegar até a beira do rio, Namish continuava afastada e concluí facilmente que ela não estava nem um pouco a fim de se misturar. E eu também, então, sentei na grama, ainda estando distante dela. Olhei ao redor, Yume e Yoru estavam mais afastados, eles conversavam algo, vi-os correr em direção aos cavalos que estavam.
Resolvi ignorar aquilo por um instante e observei o rio. Porém, notei que havia alguém se aproximando.
—Estão indo para onde? —Era Solace.
—Eternal. —Fui direta.
—Havia mais um integrante em nosso grupo, ele também era um domador. Genesis Noir é seu nome, ele se separou já faz algumas semanas, estávamos na Luz e iriamos para as Trevas, ele preferiu vir diretamente para Terra. Disse que iria para Eternal.
Esse nome... —Arcano comentou, porém, se calou. Sua voz soava abismada?
O que tem ele?
Nada. — Não parecia estar muito a fim de receber mais perguntas...
Permaneci calada. Não que Solace parecesse ser uma companhia ruim, mas eu não a conhecia. E estávamos em meio a estranhos, não sabia quem eram. E esses motivos me faziam chegar à conclusão que, não poderia dar tanta confiança. Não, no estado em que nos encontrávamos. Fallen havia dito que alguém me queria morta, ainda havia os demônios uma hora outra tinha a sensação de que voltariam a aparecer. Havia também o quinto elemento, embora nesta parte, acho que a noticia não havia se alastrado tanto... Mas ainda assim...
—Sei que isso pode parecer estranho para se perguntar, mas... Sabe de onde aquele rapaz, com o coração de dragão, veio? —Solace sentou-se ao meu lado.
—Denzel? — Encarei-a com uma sobrancelha erguida e ela assentiu— Não, não sei de onde ele veio.
—É que bem... A fisionomia dele me lembra de alguém que conheci, porém, não me recordo exatamente quem.
—Pode ser apenas impressão.
—Eu não erro, Sora. —Ela observou-me com um meio sorriso, Solace era enigmática, mas não tão sombria como Aghata. —E queria lhes fazer um convite.
—Então o faça. —Não custaria nada ouvir o que ela tinha a dizer, afinal.
—Benjamin, acho que é esse o nome do elemento fogo. Ele comentou mais cedo que vocês iriam passar por Hibernyan, nós estamos indo para Arcádia, ficam na mesma rota. Queria perguntar se gostariam de se juntar nós até mudarmos nosso caminho.
—E como vou saber se vocês realmente são de confiança?
—Por que salvei sua vida, Sora. Dafar não iria lhe poupar, ele não tem o costume de fazer isso. Mas consegui impedi-lo.
Fiquei em silencio, por um instante.
Mas ainda assim, resolvi que não era o momento certo para lhe dar uma resposta concreta.
—E o que querem em Arcádia? Não sei se estão sabendo disso, mas a cidade foi tomada por rebeldes há uns trinta anos. A lei é praticamente ninguém sai e ninguém entra. —Arcádia era a cidade natal de Arcádio – chegava a ser uma ironia os nomes. Até onde sabia, como ele era um domador, havia conseguido fugir quando a cidade fora tomada, embora na época deveria ter um pouco mais do que dez anos. É, acho que havia motivos de sobra para ele ser o domador mais forte.
—Por que certo domador pediu para que ajudássemos a acabar com quem quer que esteja comandando a cidade. E, se ele mandasse um grupo dos seus, não conseguiria manter isso em completo sigilo.
Aquilo fazia muito sentido, por incrível que poderia parecer.
—Foi Arcádio. — Constatei o que me parecia óbvio. — Não entendo, por que está confiando em mim?
—Por que você parece ser uma pessoa honesta, Sora.
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