A Devoradora de Ecos e o Sol de Espelhos
4 O Primeiro Encontro no Reino das Lembranças
Jack vagava havia dias ou talvez eras. Para quem está perdido, contar o tempo não faz diferença. Depois de deixar o Vale da Honestidade, seu caminho o levou por florestas que cantavam em dialetos esquecidos, por desertos que sussurravam verdades antigas, e por mares com ondas maiores que o desejo.
Foi então que, ao atravessar uma fenda entre dois mundos, ele caiu ali.
O silêncio foi o primeiro a recebê-lo.
Um silêncio espesso, não de ausência, mas de contenção. Um silêncio que parecia conter milhares de vozes presas em suspiros, como se o ar tivesse memórias. O solo sob seus pés não era terra comum, mas uma mistura de musgo luminoso e pétalas ancestrais. O céu acima era azul-violeta, sempre crepuscular, como se ali o tempo estivesse eternamente entre o fim de um sonho e o começo de outro.
Diante de si, o Jardim das Memórias se estendia como uma tapeçaria viva.
Árvores altas, cujos troncos eram escritos com caligrafias cintilantes, formavam uma floresta que não fazia sombra, suas copas filtravam a luz em feixes que projetavam cenas do passado no ar, como projeções holográficas do coração. Havia flores que se abriam ao som de nomes esquecidos, riachos que murmuravam canções de ninar e havia algo no ar, que era quase poético. Jack não via, mas sentia.
Jack caminhou com cautela, os olhos atentos, o coração leve pela primeira vez em muito tempo. Havia algo ali que não o julgava. O jardim não se importava com a forma de seu corpo, com a curva de seu nariz ou com o sangue bastardo que lhe corria nas veias. Era como se aquele lugar respirasse aceitação.
Ao chegar a uma clareira, encontrou uma árvore mais antiga que todas as outras, o tronco largo parecia feito de névoa solidificada, e suas folhas azul-acinzentadas tremulavam como véus em água. Sem ver sinal de vida, e sentindo uma paz adormecida crescer em seu peito, Jack deitou-se sob sua copa.
O chão era macio, levemente perfumado com a essência de memórias felizes.
E ali, pela primeira vez em muito tempo, Jack fechou os olhos sem medo de quem era.
O jardim o embalou como um abraço antigo, e ele adormeceu.
Mas o jardim, embora silencioso, observava. E a guardiã do Reino das Lembranças… já havia sentido sua presença.
Antes de acordá-lo, Julie o observava em silêncio, envolta na bruma suave que sempre pairava sobre as manhãs do Reino das Lembranças. Tinha acabado de descer da sua Casa na Folha, pousada sobre a copa da Árvore Ancestral, a mais antiga e sábia de todas, que sussurrava memórias ao vento desde os primórdios do tempo. Justamente sobre essa Árvore o desconhecido decidira repousar.
A visão de um corpo adormecido sob a árvore ancestral a surpreendeu. Em um primeiro momento, pensou tratar-se de um humano, o que era raríssimo. Em toda sua existência, apenas dois haviam encontrado o caminho até ali. Ambos artistas desesperados, que sabiam da fama da deusa Floris, mãe de Julie, e ousaram procurar auxílio no jardim encantado.
Embora Julie, sem o mesmo poder de sua mãe, pudesse lhes oferecer apenas migalhas de auxílio, aquilo bastou. Voltaram ao mundo carregando pequenas fagulhas de inspiração, o suficiente para reacender o fogo da criação.
A maioria dos visitantes que chegavam ao jardim a cada século ou dois, eram criaturas mágicas, almas criativas atormentadas por bloqueios ou por lembranças que se recusavam a seguir o fluxo do esquecimento.
Com as criaturas mágicas que sofriam de bloqueio, Julie não tinha muito sucesso. Essas criaturas eram mais difíceis de ajudar, normalmente por já possuírem poder ou conhecimento sobre a história de sua mãe, e ao compararem o poder de Julie que era ínfimo e ao se deparar com a pouca serventia que Julie tinha, logo deixavam o Jardim, sem resultados e em busca de auxílio em outros recantos do universo.
Já com as criaturas presas a lembranças, com elas, Julie era acolhedora e paciente. Preparava-lhes chá, escutava com atenção e falava com suavidade sobre o ciclo natural das memórias. Explicava que, às vezes, é preciso abrir mão do que já foi, para que o novo encontre espaço para florescer. Essas visitas duravam dias, às vezes semanas, Julie nunca os apressava, deixava que levassem o tempo que fosse necessário, pois sabia que estavam em sofrimento. E então partiam, mais leves. Julie permanecia. Só, com as criaturas do jardim.
Mas aquele, aquele forasteiro, era diferente.
Havia algo de humano nele… e ainda assim, não completamente. Observando com mais atenção, Julie percebeu uma cintilação sutil, quase imperceptível, envolvendo sua pele como um véu de brilho esquecido. Uma essência etérea. Não era um deus, mas tampouco era inteiramente mortal. Ela reconheceu: era um semideus. Ainda que muito diferente dos outros sobre os quais ouvira sussurros trazidos pelas criaturas vivas do Jardim.
Deitado sob a árvore, seus cabelos estavam cheios de pétalas caídas,como se o próprio jardim já o houvesse acolhido, antes mesmo de Julie decidir fazê-lo.
Ela se aproximou devagar, e com voz suave como água correndo sobre pedra quente, disse:
— “Você sonha alto demais para estar deitado.”
Jack despertou com lentidão. Os olhos castanhos escuros abriram-se como portais silenciosos, revelando um mundo denso e inquieto. Julie se viu, por um instante, presa naquelas íris profundas. Lembravam-lhe algo da Terra, algo doce e acolhedor que certa vez uma humana criara com tanto primor que seu aroma subiu até o Refúgio dos Repertórios, perfumando o ar como incenso. Algo que fez Julie, por um breve segundo, desejar ardentemente ser humana, para saber como aquilo devia ser, em gosto e calor.
Chocolate quente.
Jack a encarou com atenção. Sabia, instintivamente, que ela não era uma criatura comum. Os pés descalços tocavam o chão como se este se curvasse sob eles, em reverência. Vestia azul, o azul que existia antes da criação, antes da forma, antes do tempo. E seus olhos, escuros e profundos, pareciam ler sua vida inteira como se folheassem um livro antigo. E, de fato, liam. Era um dos dons herdados de sua mãe. Mas Julie nunca comentava o que via, por saber que seria invasivo. Preferia apenas saber, em silêncio.
Jack se viu admirado. Ela era bela. Não da forma extravagante das cortes divinas, ela não se parecia nada com qualquer ser que ele já tenha visto no palácio dos deuses ou no Vale da Honestidade, mas era intrinsecamente bela, de um modo delicado e natural. Não havia nada de extravagante nela, embora desse para notar sua áurea mágica à distância. Seu cabelo negro, longo até os quadris, movia-se continuamente como se o próprio vento não resistisse à tentação de tocá-la. Sua pele, quase translúcida, parecia feita de filamentos entrelaçados de bruma e luz. Uma beleza serena, harmoniosa, encantadora. Ele decidiu, silenciosamente, que gostava daquela beleza. Muito.
Ela o olhava sem julgamento, sem espanto, apenas curiosidade calma.
— “Você mora aqui?” — ele perguntou.
Julie demorou-se antes de responder. Pensou na sua conexão com o Jardim, na forma como sentia cada flor, cada raiz, cada criatura sussurrando dentro de si.
— “Eu sou este lugar,” respondeu com simplicidade. E então sorriu.
Jack gostou muito daquele sorriso, mas franziu o cenho. Não compreendia exatamente onde estava, nem o que ela queria dizer. Eles permaneceram em silêncio por mais um instante, apenas se encarando. A brisa balançava os galhos em volta como um coro sutil.
— “No que posso te ajudar?” — perguntou Julie. Todos os que vinham até ali buscavam auxílio. Talvez ele fosse um artista em crise. Ou alguém assombrado por uma lembrança que recusava a partida.
Jack quase sorriu, mas conteve-se. Tinha feridas internas, frustrações que o corroíam. Mas não seria aquela criatura bela e delicada que conseguiria ajudá-lo. Além disso, não queria se mostrar inferior. Não diante dela. Não quando cada instante ao lado daquela criatura despertava nele uma estranha vontade de impressioná-la.
Endireitou os ombros, assumindo uma postura firme. Estava muitos centímetros acima dela, e nem por isso se sentia maior. Decidiu que manteria sua elegância. E usaria de sua inteligência.
Afinal, aquele lugar o acolhera. Dormira ali como há muito não conseguia dormir. Sentira-se tranquilo. Aquela presença, aquela voz… havia algo tranquilizante naquele lugar. E depois de ter andado tanto, por tantos lugares sem rumo, depois de ter escutado tanto, sobre tantas coisas, Jack precisava parar em um ponto e descansar, antes de planejar e sair em rumo da jornada que considerava ser a mais importante de sua vida. E aquela criatura a sua frente, certamente era um colirio para seus olhos cansados.
— “Um abrigo,” disse, por fim. “Preciso de um abrigo.”
Pela primeira vez em toda sua existência, Julie arqueou as sobrancelhas, surpresa.
Ninguém jamais havia pedido aquilo. Nenhuma criatura viera ao Reino das Lembranças em busca de abrigo. Era a primeira vez que aquela palavra abrigo lhe era direcionada.
Ela olhou para Jack. Seu pedido não era trivial. Ele não buscava algo mirabolante, nem respostas, nem mesmo inspiração.
Buscava repouso.
E Julie, sem saber explicar o porquê, quis muito lhe conceder aquilo.
Julie fitou Jack por mais um instante, como se quisesse espiar através de suas palavras, decifrar a verdade oculta atrás de sua calma postura.
— “Por que você precisa de abrigo?” — ela perguntou com gentileza. Não era desconfiança, era interesse sincero.
Jack hesitou. Parte dele queria inventar algo heroico, outra parte queria fugir da pergunta. Mas algo no tom dela, suave como o vento do entardecer, o fez ser mais honesto do que estava acostumado a ser.
— “Estou cansado,” ele respondeu. “Tenho percorrido um longo caminho, sem direção, apenas buscando algo que me faça suficiente. Preciso… de um lugar para descansar, onde eu possa ser apenas eu mesmo, antes de sair em rumo da jornada da minha vida, aquela que vai me tornar o que tenho que ser.”
Julie o observou em silêncio, e depois assentiu. Com um gesto delicado da mão, convidou-o a caminhar com ela pelo jardim.
Andaram lado a lado entre flores que pareciam ter cores que ainda não haviam sido inventadas. Borboletas de vidro e luz flutuavam entre as pétalas, e o ar estava impregnado de um perfume doce e nostálgico, como o cheiro de um livro muito antigo sendo aberto pela primeira vez.
Enquanto caminhavam, uma criatura miúda surgiu do meio dos arbustos: um ser feito de névoa e musgo, com olhos de orvalho e asas de folhas secas. Aproximou-se flutuando, emitindo um leve som tilintante, como sinos muito distantes.
— “Mnémis… já é hora de regar a flor das Três Partidas,” murmurou a criatura em voz líquida, como quem sussurra segredos.
Julie assentiu com um sorriso. Tocou de leve a cabeça da criatura, que ronronou como se fosse feita de vento satisfeito, e desapareceu por entre os galhos.
Jack franziu o cenho, curioso.
— “Mnémis?”
— “É como algumas criaturas daqui me chamam,” explicou Julie. “Mnémis, como na canção antiga de Mnemosyne, a mãe das musas e da memória. Elas me deram esse apelido porque sou quem as escuta, quem guarda seus fragmentos e cuida de suas lembranças.”
Jack sentiu um gosto agridoce na boca. “Mnémis.” Um nome íntimo, uma ternura. Pensou, com um fio de amargura, que ninguém jamais o chamara por apelido algum. Nunca tivera amigos o bastante para isso. Nunca foi próximo o suficiente de alguém para ser apelidado.
Mas então olhou para Julie, tão serena, tão envolta em harmonia com aquele lugar, e pensou que talvez ela pudesse ser sua amiga.
Julie também o observava. A forma como ele olhava ao redor, como se absorvesse tudo com sede. O modo como sua voz soava cansada, mas não irritada. Sua presença não feria o jardim, ao contrário, havia nele uma quietude honesta, uma espécie de tristeza gentil. Ela não sentia nenhum perigo vindo dele.
Julie caminhava à frente com passos serenos, como quem conhece cada folha do jardim. Jack a seguia em silêncio, absorvendo o lugar com olhos de quem, pela primeira vez em muito tempo, permitia-se ver além de si.
— “Aonde estamos indo?” — ele perguntou, com uma curiosidade cautelosa.
Julie voltou-se ligeiramente, o rosto ainda voltado para o caminho.
— “Ao Lago do Reflexo Velado. Fica próximo da Flor das Três Partidas. Preciso regá-la hoje.”
Jack arqueou uma sobrancelha.
— “Só ela? E as outras flores? Não precisam de água? ”
Julie sorriu como quem guarda segredos antigos.
— “Não. O Jardim vive com a minha presença, meu cuidado, minha escuta. É um jardim de memórias, e aqui a magia se alimenta de atenção, afeto e permanência. As flores crescem com o fluxo das lembranças. Mas a Flor das Três Partidas… ela é diferente.”
Ela fez uma breve pausa, escolhendo as palavras com o mesmo cuidado com que guiava seus passos.
— “Ela só floresce quando recebe água do Lago do Reflexo Velado. E precisa disso sempre que alguém, em algum canto do universo, está pronto para deixar algo ir. É uma flor rara. Vive entre o fim e o recomeço.”
Jack pareceu mais atento, e Julie continuou, com a voz macia como vento em folhas úmidas:
— “Ela nasce com o adeus. E não qualquer adeus, mas três em específico: o adeus àquilo que nos feriu, o adeus àquilo que não podemos controlar, e o adeus àquilo que desejamos, mas que não nos pertence.”
Jack não disse nada. Mas as palavras dela caíram dentro dele como chuva em solo rachado.
Três partidas.
Ele pensou em sua origem bastarda, no desprezo dos deuses, em seus próprios olhos no espelho. Três dores que ele ainda não soubera enterrar.
Chegaram ao lago.
Era diferente de tudo o que ele já tinha visto. A superfície da água era escura, mas não opaca, um espelho profundo onde o céu não se refletia. Nada do mundo externo era devolvido por ele. Apenas o íntimo.
Jack se aproximou e olhou. A princípio, viu apenas sombras e ondulações. Mas aos poucos, algo emergiu. Seu próprio rosto, sim, mas não como os espelhos do palácio mostravam. Ali, seu reflexo não destacava imperfeições nem enfeitava com vaidades, ele via a alma. A inquietação, o desejo de ascensão, a fome por validação. Viu a mágoa que carregava no peito como armadura.
Deu um passo para trás.
— “Esse lago… mostra…”
— “Aquilo que ainda não conseguimos nomear,” completou Julie, com suavidade.
Jack olhou para ela, finalmente vendo com clareza quem era.
— “Eu… já ouvi falar de você,” disse ele, hesitante. “Ou melhor, da filha da Deusa da Inspiração. A Mnemófila. Mas só de ouvir falar por alto. Estava ocupado demais… com meu... Com… outras coisas.” -A verdade é que Jack sempre estivera ocupado demais com seu próprio reflexo e história, para dar atenção às histórias de outros seres.
— “Você sabe pouco sobre este lugar, não é?” — ela perguntou, com delicadeza.
Jack assentiu, os olhos fixos nela.
— “Só ouvi histórias. Diziam que aqui se ouvem os ecos do passado. Que algumas criaturas vêm em busca de inspiração… ou consolo. Que sua mãe era poderosa e atendia artistas, sejam eles humanos ou deuses, como se fossem todos iguais. Mas sobre você… quase nada se fala.”
Julie sorriu, com um misto de humildade e melancolia.
— “É que eu escuto mais do que falo.”
Abaixou-se e, com todo o cuidado do mundo, retirou uma pequena concha trançada em folhas secas e a mergulhou no lago. Com delicadeza ancestral, despejou gotas sobre a flor. A cada rega, uma pétala parecia se abrir mais.
Era ela, a Flor das Três Partidas.
Jack ainda estava de pé, próximo, observando. As pétalas vibravam em três tons: branco perola, rosa pálido e azul acinzentado, como se tivessem emoções próprias. Julie fazia aquilo com tanta delicadeza, como se fosse algo extremamente precioso e ao mesmo tempo comum, fixo em sua rotina. E provavelmente era mesmo, embora Jack ainda não entendesse completamente a necessidade de dar tanta importância a uma flor, por mais especial que ela fosse.
De toda maneira, a cena que se desenrolava aos seus olhos era linda e tinha seu total interesse. Jack finalmente se agachou ao lado, rendendo-se a beleza e simplicidade.
— “É… bonita,” disse. E por um instante, não se sabia se falava da flor ou de Julie.
Ela ergueu-se, batendo levemente a saia contra as pernas para sacudir a terra. Jack continuava a observá-la, hipnotizado.
— “Amanhã te mostro o resto do Reino,” disse ela. “Por hoje, o Jardim já contou muitas verdades.”
Jack sorriu, um sorriso pequeno, mas genuíno. Seus olhos escuros brilharam, quentes e doces como chocolate quente no inverno.
Julie sentiu algo dentro dela derreter suavemente. Era raro ser vista, de verdade. Não como a filha de Floris. Não como a guardiã do jardim. Mas como Julie.
E foi por isso que, após um breve instante de silêncio compartilhado, ela completou, com a voz feita de névoa e ternura:
— “Pode ficar. O Jardim também gosta de você.”
Sem saber que ali mesmo, em um gesto de bondade impensada, começaria a perder-se.
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