A Deusa Perdida

34 Acho que o lema da minha vida devia ser 'vive la mèrde', porque né


Notas iniciais
Olá pessoal? Como vão todos? Então, vou admitir que foi difícil pra caramba escrever esse, mas no final deu certo! E esse é dedicado à marcellemenezes, Girl of Hades, ComoAgridoce, JuuSmile, Dessa e à todas que leram e tiveram vontade de torcer o pescoço do Muke s2 Boa leitura!

34. Acho que o lema da minha vida devia ser 'viva la mèrde', porque né

Point of View — Hannah

Sabe quando você tem um pesadelo muito, mas muito ruim e acorda sobressaltado, respirando rápido e dizendo amém que acabou? Então. Morrer foi mais ou menos assim pra mim. Só que eu não entendi logo de cara que tinha morrido. Foi algo bem de repente. Num momento tudo à minha volta se escurece e logo depois abro os olhos, assustada, de cara num chão de pedra xadrez.

Me coloco de pé com dificuldade e observo ao meu redor. Estou parada numa sala comprida, repleta de portas grandes e de paredes negras cheia de pinturas de pessoas famosas no passado. Reconheço algumas figuras da história, da música, da literatura e do cinema, mas outras não faço ideia de quem sejam. No centro da sala estão posicionadas três tronos de madeira, com os assentos em vermelho. Parecem os tronos dos reis de filmes de Hollywood.

Levanto minha mão para ajeitar o cabelo, mas quando faço isso, ela está translúcida e vejo o que há atrás dela. Olho então para mim mesma. Estou descalça, usando um vestidinho grego, também conhecido como toga, e minha pele está de um azulado quase transparente. Eu esperava sentir meu coração batendo descontroladamente, mas então me lembro de que ele não bate mais.

Eu morri.

Ah meu Zeus.

Ouço uma das portas de madeira de aspecto antigo se abrir, e três homens passam por ela em fila indiana. O primeiro é alto e de certa forma idoso, de cabelos brancos e uma barba comprida da mesma cor, e também usa uma toga, como eu. O senhor se dirige ao trono do meio, que é um pouco mais alto que os outros, logo quando o segundo entra com as botas fazendo barulho no chão de pedra. Ele é mais novo que o primeiro, na meia-idade, e rapidamente o reconheço por ter mais ou menos minha altura. Um metro e cinquenta e seis!, a voz de Niké veio em minha memória. Não foi culpa dele o pai não ser alto!

Uma palavra: sorte. Muita sorte, é o que tenho.

Napoleão usa um uniforme muito parecido com aqueles que eu via muitas vezes nos livros de história; botas pretas altas, calça branca apertadinha, casaco escuro cheio de medalhas e afins, chapéu engraçado na cabeça. Ele se joga no trono à esquerda do senhor idoso sem nem ao menos olhar pra minha cara, o rosto apoiado no punho fechado com uma expressão entediada enquanto o terceiro entra a passos descontraídos. É um homem magro ainda mais novo que Napoleão, talvez em seus trinta, de pele negra e cabelo rastafari comprido. Ele anda quase que num gingado, e assim que se senta largado no último trono, acena para mim.

Acalma o fangirl, Hannah. Acalma.

— E aí, novinha? — diz ele sorridente, e minha voz some ao perceber que a voz dele era realmente a mesma que eu adorava escutar.

— Você.. você é.. — arregalo os olhos e coloco as mãos na frente da boca, chocada. Não era possível.

— Robert Marley, também conhecido como Bob, muito prazer — ele faz uma reverência — Cantor quando vivo, juiz quando morto. Mas só nas segundas, quartas e sextas, que no resto da semana é meu colega Lennon, e nos sábados, domingos e feriados é meu xará Bob Dylan.

O fato de estar de pé na frente do rei do Reggae e ainda escutar ele falando de outros dois dos meus artistas mortos preferidos provavelmente me faria infartar, mas coisa boa que não se pode morrer duas vezes. A não ser que você seja um dos capangas de Niké, porque aí é possível sim.

— Nós somos os Juízes dessa noite, menina — diz o senhor do trono do meio, e ele tem uma voz rouca, antiga — Eu sou Platão, filho de Atena. À minha direita é Napoleão Bonaparte, filho de Niké; e à minha esquerda, embora você pareça já o conhecer, é Bob Marley, filho de Dionísio e neto de Irene, a nem tão conhecida deusa da paz. Nós estamos aqui para julgar toda sua vida e eu, como Juiz chefe de hoje, tomarei a decisão final de seu caminho aqui no Mundo Inferior — ele me encara com os olhos cinza, idênticos aos de Annabeth. O estranho pensamento de que eles são irmãos me ocorre — Dúvidas?

Faço que sim com a cabeça timidamente.

— Você é aquele cara grego dos livros de filosofia?

O cara grego dos livros de filosofia começa a responder, mas é cortado pela risada alta do cantor jamaicano.

— Ela dá pra nois porque nois é Platão — ele cutuca o mais velho —, só pensada violenta!

Franzo as sobrancelhas, cruzando os braços.

— Espero que esse 'ela' não tenha sido dirigido a mim.

— Não foi — Platão suspira — Desde que um brasileiro citou isso a alguns anos, tenho sido relembrado do momento todo santo dia que trabalho com o Robert.

— Você tinha que ter visto, novinha — Marley agora tem lágrimas nos olhos de tanto rir — Chegou um cara do Rio--

Platão lança um olhar carrancudo ao colega.

— Não é hora disso, Bob. Temos mais trinta e sete almas para julgar hoje, lembra?

— Tá legal, tá legal — ele tenta segurar o riso, e quando consegue, diz — Prefiro perder a guerra e ganhar a paz, colega, minha mãe já dizia. Continue.

Platão estende as mãos e fecha os olhos, concentrado. Sinto uma corda invisível me puxando para frente, mas permaneço parada onde estou. É como se ele estivesse fuçando os confins da minha mente e desenterrando memórias que nem mesmo eu lembrava. Quando a sensação de ser puxada termina, o grego olha para mim estupefato e toca a testa do jamaicano.

— Caramba, novinha — Bob Marley diz com o rosto sério — É uma alma bem transtornada, essa que você tem.

— É verdade — Platão parece pensativo — Mas não acho que você saiba por que, sabe, deusa das nuvens?

Assim que escuta a frase do colega, Napoleão, que encarava as pinturas nas paredes com desinteresse, se enrijece. Ele se vira pra mim, incrédulo, não acreditando no que vê.

— Você — sussurra, com aquele sotaque meio bichoso na voz. Encolho os ombros.

— Eu?

— Você! — seu rosto fica vermelho ao me reconhecer — A garrrota sem o que fazerrr que quaz mató Napoleón!

Suspiro. Eu sabia que isso ia acontecer em algum momento.

— Com licença seu Bom nas parte, mas sua mãe já me xingou a beça hoje. Na verdade, foi ela que fez isso — aponto para meu próprio corpo transparente — só porque eu chutei sua bunda a uns trezentos séculos atrás.

Vive la France — ele semicerra os olhos castanhos — Bien feito, se non fosse por vous eu terrria conquistado toda Eurrrropa.

Gente, como que sotaque francês é tão sexy em alguns homens e tão brega em outros? Dúvida da minha vida.

— Não é hora pros seus melodramas, Bonaparte — Platão diz com a melhor voz de autoridade — Um julgamento deve ser imparcial a partir da vida da pessoa, não do impacto da vida dela na sua.

— Non son melodrrrramas! — o grego toca a testa do francês, que imagino ser a forma dele ver tudo que ocorreu em minha vida, e Napoleão faz cara feia — Non prrrecisava saber nada dessa rrrrapariga na minha frrrent parrra dizer que ela merrrece os Campos de Puniçón. Ela congelô todo meu exérrrrcito em 1812. Absurde!

E aqui está a primeira coisa que aprendi no Mundo Inferior: nunca mexa com franceses, ainda mais se eles forem baixinhos invocados. Eles vão te odiar para sempre, mesmo duzentos anos depois de morrerem.

Bob Marley suspira.

— É, bem que nós devíamos ter trocado a escala de hoje. Júlio César teria sido muito mais útil.

Pisco algumas vezes. É desconcertante o quanto eles falam dessas pessoas mortas famosas como se todos fossem colegas de trabalho. Quero dizer, o imperador romano com o rei do Reggae? Normal, normal, saem juntos pra buteco todo santo sábado.

Platão pigarreia.

— Já que nosso colega parisiense não quer ajudar--

— Je suis pas parisiense!

— Já que nosso colega francês não quer ajudar, preciso que responda a uma pergunta, Hannah. É a única coisa que você tem que fazer.

Dou de ombros.

— Vá em frente.

— Do que você se lembra? — pergunta, me pegando de surpresa.

— Do que eu.. o quê?

— Sobre tudo, desde o começo. Do que você se lembra?

Cerro os olhos, ressabiada.

— Vocês acabaram de ver toda minha vida. Sabem muito bem qual é a resposta.

— Sabemos, mas precisamos ouvi-la de você.

Parecia uma pergunta bem simples. E realmente era, já que a resposta que eu normalmente daria seria nada. Mas por algum motivo, eu não conseguia mentir para aqueles homens à minha frente. As palavras foram arrancadas de mim antes que eu pudesse socar a própria cara para ficar calada.

— Eu me lembro de acordar num orfanato, sendo apresentada aos outros órfãos como uma transferida. De saber meu primeiro nome e ter certeza das coisas que gostava ou não, mas não fazer ideia de onde eu estivera antes como se.. como se algo tivesse sido bloqueado na minha mente. Me lembro de no primeiro dia apanhar da diretora por algo que não fiz, e que o único dos órfãos que fez alguma coisa pra me ajudar não foi um cara baixinho que realmente era culpado, mas sim um loiro que acabou levando o resto da surra, e continuou a assumir as culpas das outras coisas erradas que fiz, ou não, diversas outras vezes.

Me pergunto internamente porque diabo estava falando dessa época, mas não consigo me impedir de continuar. Ah, la mèrde.

— Lembro-me de ficar instantaneamente próxima desse loiro tarado que passava a mão em todas as garotas da redondeza e de até mesmo ter uma pequena queda por ele, que durou só até o infeliz sumir do mapa de um dia pro outro. De ter fugido daquele orfanato infernal antes que ele acabasse comigo, de brigar com grupos barra-pesada, quase ser morta por uns bandidos esquisitos, de viver por mim mesma um ano e quebrado num beco da rua Presidente Eisenhower entre os números 473 e 474, na periferia de Los Angeles, até um garoto branquelo com uma obsessão pouco saudável por preto aparecer.

“Lembro-me de ele me mostrar o Acampamento e, sem querer, acabar me trazendo de volta a um mundo ao qual eu nem ao menos sabia pertencer. De conhecer um filho de Poseidon e uma filha de Atena que são como irmãos mais velhos pra mim; encontrar de volta o loiro tarado que me salvava de apanhar e descobrir que todo esse tempo ele era um semideus filho de Apolo; ficar amiga de uma mortal ruiva que me faz rir todo santo dia pela obsessão que tem homens, embora não possa namorar por ser o Oráculo; e criar apreço por um filho de Deméter caipira que é como um irmãozinho metade mexicano pra mim, agora. De.. de me apaixonar por aquele mesmo garoto branquelo que me salvou da vida miserável que eu tinha nas ruas, que me chamava de leggiadra, que me beijou algumas horas antes de segurar minha mão enquanto eu morria.”

Dou uma pausa, mordendo o lábio. Eu realmente tinha falado que estava apaixonada pelo Nico? Isso era algo que nem eu mesma sabia direito.

— E o mais importante, me lembro de me sentir em casa com todos eles quando nós saímos em busca da minha Clave, e de ver tudo ser levado por água abaixo por eu agora estar falando com vocês e não com os Olimpianos — respiro fundo, abalada por soltar tudo isso de uma vez — Pronto. Isso é tudo que eu lembro. Tudo antes disso é apenas história pra mim.

Os juízes me encaram num silêncio desconfortável, absorvendo todo meu discurso. Exceto Napoleão, lógico, que continuava com aquela cara de tédio habitual, como se tivesse apertado um botão de 'entender apenas francês'.

— Você é uma menina de coragem, novinha — diz Bob Marley, finalmente — Muita gente não conseguiria dizer tudo isso com firmeza.

— Eu tenho que ir em frente — digo —, e enquanto estiver indo, tudo ficará bem.

O jamaicano sorri ao perceber que minha resposta, que de inicio soa sem sentido, era apenas a letra modificada de uma de suas músicas.

— Também admiro sua força, menina. Acho.. — Platão alisa a barba grisalha — Acho que você merece saber.

Se meu coração estivesse funcionando agora, ele estaria acelerado. Mas como não está, eu apenas arregalei meus olhos.

— Saber o quê?

O grego e Marley se entreolham, como se tivessem uma conversa mental. O cantor faz que sim com a cabeça.

— Vá em frente. Eu apoio.

— Non! Ela non merrrece saber nada — Napoleão bate o punho fechado no braço do trono — Merrrece a Puniçón ao que fez ao comigo!

— Calado, Bonaparte! Deixe suas mágoas para Aristóteles. Ele é mais sentimental que eu — Platão pigarreia após levantar a voz para o francês mimado, e vira-se a mim novamente — Aproxime-se, menina.

Permaneço parada alguns instantes. ‘Você merece saber’, disse ele. Pode significar muita coisa. Pode ser que ele diga ‘olha, você merece saber que vai levar o resto dos séculos fervendo em óleo quente nos Campos de Punição, escutando a risada HON HON HON de Napoleão como música de fundo’. Quem sabe.

Me aproximo dos tronos, hesitante.

— Por quê?

— Você merece ao menos saber quem realmente é — ele estica a mão e toca minha testa, assim como fez com os outros juízes.

Quando as manchas brancas desaparecem da minha visão, eu não estava mais na frente dos juízes, naquela sala de paredes negras e chão xadrez. Estava num cômodo que tinha uma mesinha no centro e paredes bege com algumas panelas e utensílios bem velhos dependurados perto de um desenho de um vale bonitinho com nuvenzinhas no céu azul.

Eu conhecia esse lugar. Ele aparecera no meu sonho, na mesma noite que fui ao cemitério e dei de cara com Tânatos, mas logo percebi que não era o sonho novamente. Naquele dia eu não havia compreendido a frase em outra língua escrita no desenho e agora, cerrando os olhos e encarando-o com atenção, a resposta veio na minha mente.

Старайся стоять твёрдо на земле если твои мысли витают в облаках. “Mantenha seus pés no chão enquanto sua cabeça estiver nas nuvens”.

Ah meu Zeus. Não era pra eu ter entendido isso. Por que eu entendi isso!?

Enquanto eu permanecia parada com as mãos cobrindo a boca, encarando as letras estranhas que pareciam tão normais pro meu cérebro mas não para mim exatamente, o barulho de passos chegou aos meus ouvidos e chamou minha atenção. Uma mulher entrou no cômodo e levei menos de um segundo para reconhecê-la como a mesma moça que morreu no mesmo sonho. Como a via pessoalmente (ou quase), podia enxergá-la nitidamente.

Era alta e tinha os cabelos loiros no tom platinado, aquele que chega a ser branco, presos numa trança até a cintura; sua pele era muito clara e os olhos eram de um azul ainda menos escuros que os meus. Ela poderia facilmente ser confundida com uma modelo se não fosse o cenário e o vestido simples surrado. A mulher, que não devia ter mais de trinta, veio na minha direção e por um segundo achei que pudesse me ver, mas então apenas me atravessou como se eu não estivesse ali.

Ouço barulho de passos novamente. Giro meu corpo a ponto de ver uma garota entrar na sala, e meus olhos se arregalam.

— Oh meu.. — começo a falar, mas então me lembro da fala de Platão: “você merece ao menos saber quem realmente é”.

A garota era exatamente igual ao que vejo todos os dias em frente ao espelho, mas o cabelo era mais comprido, os olhos não tinham nenhum resquício de lápis preto e o vestido, assim como o da mulher mais velha, era estilo camponesa de filme medieval.

Mas não era filme. Era minha vida. Platão estava me mostrando parte de minha própria vida.

Mat? — disse a Hannah-pré-histórica, e fico surpresa ao entender que ela (eu?) havia dito 'mãe?'.

Zdes, Nana — 'aqui, Nana'. Oh meu Zeus. Oh mEU ZEUS.

— Por que me chamou? — perguntou a Hannah pré histórica, na mesma língua. Era estranho ver aquelas palavras bizarras saindo da minha boca, ainda mais entender essas mesmas palavras bizarras.

AR. AR. PRECISO DE AR. Droga, mortos não respiram.

A mulher (agora me ocorreu o pensamento estranho de que é minha... mãe?) se sentou numa das cadeirinhas velhas e apoiou as mãos entrelaçadas na mesa. Minha eu antiga fez o mesmo.

— Eu falei com Leonov hoje — disse a moça. O nome não surtiu nenhum efeito em mim, que apenas o achei engraçado, mas a Hannah antiga pareceu ressabiada.

— O que ele queria dessa vez? — perguntou.

Minha mãe (?) parecia querer evitar o tópico o máximo o possível, mas sabia que não poderia.

— Ele me pediu em casamento, Nana.

O quê? — a outra eu arregalou os olhos azuis sem maquiagem — Ele te o quê?

— Isso mesmo que escutou — suspirou.

— E você.. disse não. Certo?

Silêncio. Eu (a eu de agora, levemente fantasmagórica e transparente) tentei me sentar numa das outras cadeiras porque não estava conseguindo me manter de pé direito, mas acabei atravessando-a e caindo no chão.

— Mãe. Você disse não, não disse?

— Nana, nossa vida é miserável, você é atacada por monstros todo santo dia. Você tem que entender que isso ajudaria, que não é uma escolha..

— Mas é lógico que é uma escolha!

Há um som de trovão ao longe, mas parece que eu, apenas assistindo a cena, sou a única que o noto.

— Não é — a mulher balançou a cabeça tristemente — É mais que isso.

A eu antiga se levantou, exasperada.

— Mais que sim ou não? — me perguntei se minha voz soa tão fina assim quando brava — Santos deuses, eu não me importo com a porcaria dos monstros! Estou viva até agora, não estou?

— Sim, mas só por algum tipo de milagre — a mãe balança a cabaça — Eles farejam seu cheiro a feudos de distância.

— Mas mas.. é o Leonov, mãe! Com tantos homens na Rússia! — os olhos da outra Hannah começaram a se umedecer — Como pôde fazer isso comigo? E com meu pai?

— Seu pai não tem nada a ver com isso — minha (nossa?) mãe encarou a Hannah pré-histórica com uma expressão severa e percebi levemente assombrada que ficou muito parecida comigo quando brava. Ou eu que parecia com ela. Não sei.

— Papai te amava. Ainda te ama! — minha eu passada continuava com o rosto vermelho, enquanto eu observava tudo calada (elas, nós, enfim, ninguém poderia me escutar de qualquer forma), parada ao lado da mesa e me perguntando como tudo isso foi apagado da minha memória.

Eu não me lembrava quem era Leonov, nem porque minha mãe dissera sim para se casar com ele e muito menos porque eu ficara tão indignada por isso; e o fato de não saber nada me deixava indignada novamente.

O rosto de minha mãe ficou vermelho, e eu, tanto morta quanto no passado, percebi que ela havia chegado no limite.

— Assim como ele ama Hera e as mães de todos os seus irmãos! — bate o punho na mesa — Depois de você nascer, Zeus nunca mais fez nada de útil pras nossas vidas!

— Porque você não deixou!

— Não, porque ele é um deus! Se não liga nem para a filha, quanto mais para mim!

A eu antiga respirou fundo, se acalmando.

— Eu sei que ele não é muito presente, mãe. Mas.. — sua voz vacila — papai já tentou se aproximar várias vezes e você sempre bateu a porta na cara dele, dizendo que nossa vida não é fácil com o trabalho, os impostos, com todo mundo inventando história por você ter me criado sozinha.. Deixar que ele ajudasse a gente uma vez, só uma vez, seria tão ruim?

Pausa.

— Você não vai mudar minha opinião, Hannah. Aceitei ser a esposa de Leonov — disse, finalmente, com o rosto sem expressão — Daqui a duas semanas você será enteada do senhor feudal e nada vai mudar isso.

A Hannah pré-histórica encarou a mãe com raiva, até que deu as costas e saiu pela porta da frente. Enquanto a mãe enterrava o rosto nas mãos, eu atravessei a janela atrás de mim mesma. Passei por uma pracinha de chão de tijolinhos, com várias casinhas simples em volta e reparei que havia um castelo ao fundo. Pelo pouco que eu me lembrava das minhas aulas de história, os senhores feudais moravam em grandes castelos enquanto seus servos se matavam trabalhando pra ele seis dias por semana.

E pelo que eu tinha entendido dessa visão, eu era filha de uma serva que iria se casar com um desses senhores feudais. Por que isso era tão preocupante? Eu nem sabia que senhores feudais se casavam com servas, afinal. Se o tal Leonov tinha decidido fazer algo do tipo, devia ser uma notícia ótima.

Continuei me seguindo até uma floresta de pinheiros, pairando a alguns centímetros do chão com minha fantasmacidade enquanto a outra eu quase tropeçava nos galhos e era arranhada por eles no meio do caminho. Ela finalmente parou no fim das árvores, na praia de um lago.

Dei alguns passos para trás, sentindo o coração disparado mesmo sabendo que isso era impossível. Lago. Ah deuses, isso não é bom para alguém com fobia de água. Minhas mãos tremeram e o pânico tomou conta de mim, o medo de que eu iria ser puxada por uma força maligna até o fundo e morrer afogada.

Ok, sei que isso não faz sentido. Mas nada na minha vida faz sentido.

De qualquer forma, minha eu do passado não teve nenhum problema com o lago, pois se sentou bastante próxima da margem. Percebi então que eu não tinha nada contra água antes.

— Pai? Pai! Eu sei que você está ai! — gritou com raiva para o céu — Eu preciso falar com você, é importante — ela estreitou os lábios, parecendo ponderar se falava mais alguma coisa ou não — Eu.. aceito sua proposta. Eu aceito me tornar imortal.

Estou de frente para Platão outra vez, e é como se tudo tivesse passado pela minha cabeça no exato momento que ele tocou minha testa. Bob Marley continua me encarando com atenção, Napoleão continua com a cara de desprezo habitual.

A única coisa que mudou é o barulho da minha respiração desnecessária.

— Isso.. isso foi.. — começo, mas minha voz não funciona muito bem. O cara grego dos livros de filosofia alisa a barba.

— Você vai se lembrar de tudo aos poucos, menina. Quando passar pelos portões do Campo que for direcionada já saberá de tudo que o rio Lete apagou.

A simples menção de um rio me faz ter calafrios. Mas também me faz ter uma ideia.

— Rio Lete..? É por isso que eu, hm..

— Tem fobia de água? É, sim — Platão responde — Uma gota do rio do esquecimento faz de você um bebê recém-nascido, e acredito que se afogar nele tenha te traumatizado de tal forma...

Uma das portas de madeira antiga se abre, me fazendo pular onde estou. Estava muito concentrada nas memórias que iam pipocando em minha mente. Como por exemplo, que eu costumava escapulir de madrugada para passeios noturnos na floresta de pinheiros ao lado de casa.

Um garoto entra na sala aos tropeços, ofegante. Ele está com o cabelo castanho desgrenhado e as bochechas rosadas por correr.

— Nico? — arqueio as sobrancelhas, surpresa, e de certa forma aliviada — O que você--

— Mini Hades, quanto tempo irmão! — Bob Marley dá um pulo no seu trono. O dito cujo não responde a nenhum de nós dois, apenas faz uma reverência educada aos juízes.

— Venho em nome de Hades — diz apressadamente — Ele ordena a suspensão do julgamento.

Napoleão bufa.

— Vous ment muito mal, di Angel. Hadès nunca poupou ninguén na histórrrria, porque pouparrria essa rrrrapariga.

Nico fuzila-o com os olhos, irritado. Nunca fiquei tão feliz em ver ele tão pouco feliz.

— Depois de meu pai eu sou a autoridade, então cuidado com o que fala comigo, boiola — se ele tivesse dado um tapa na cara do imperador não teria o ofendido de tal forma como ofendeu. Acho que o sotaque é um tópico bastante delicado para os franceses.

— Não recebemos nenhuma ordem direta de Hades — reconhece Platão, desconfiado, parecendo incomodado com o boiola no fim da frase — Não estou chamando-o de mentiroso, di Angelo, mas não posso deixar de suspeitar que seu pai não está envolvido nessa escolha levando em conta a... proximidade que você tem com a réu.

Nico fecha os punhos, uma expressão mortal no rosto. Eu já havia o visto bravo muitas vezes, mas desta vez parecia diferente. Era como... não sei. Não tive muito tempo pra pensar nisso. Minha mente estava uma casa da mãe Joana, de forma que enquanto ele discutia algo com os juízes metade do meu cérebro pensava em inglês e metade pensava em outra língua. Também, cada hora eu ia me lembrando um pouco mais da minha vida antes, o trabalho diário, as guerras alguns séculos depois de me tornar imortal, porque eu ficara tão preocupada com minha mãe me casar com o tal Leonov. Pelo que as imagens na minha cabeça mostravam, ele era um fanfarrão que não fazia nada além de beber e dar de Don Juan com as moças das redondezas, e ela achava que se morássemos com ele o cheiro insuportável de vodka do sujeito me deixaria livre dos monstros que me rondavam. E então aceitei me tornar deusa para livrar ela disso.

— Certo, filho dos mortos. Nós seguiremos suas ordens — diz Platão, sem estar completamente convencido — Mas saiba que qualquer problema com seu pai, você será quem acertará as contas com ele. Sozinho.

— Com prazer, senhores. Não tenho medo de meu pai, ele que faça comigo o que bem entender quando descobrir — foi por um segundo, um milésimo de segundo, que vi um dos cantos da boca dele se levantar discretamente. Foi extremamente rápido, mas estranhei. Eu via aquele sorriso bastante, mas não no seu rosto.

— Está agora por sua própria conta e risco, di Angelo. Espero, que saiba o que está fazendo.

Nico faz um aceno com a cabeça.

— Passar bem, Sócrates.

— Eu sou Platão!

— Que seja. São todos gregos.

Mando a mensagem mental de o que cê tá fazendo? ao Nico, mas (poxa vida) ele não parece captá-la. ‘Afeminado’? ’Ele que faça comigo o que bem entender’? ‘Que seja, são todos gregos’? Eu não estava entendendo porque mudara tão de repente seu comportamento. Não que Nico fosse um cara extremamente educado, mas isso tudo não era muito a cara dele.

Ele agarra meu pulso e me arrasta pela sala, a passos largos. Posso escutar Napoleão reclamando de algo em francês (ao menos parecia uma reclamação, pelo seu tom de voz), Platão mandando a próxima alma entrar e Bob Marley gritando ‘não se preocupe com nada, novinha! Vai ficar tudo bem!’

Isso me parecia bastante a letra de Three Little Birds, mas não tenho tempo de voltar pra mandar um obrigada.

— O que está fazendo aqui? — pergunto num sussurro apreensivo, num tom quase que ingrato. Nico me olha com o canto do olho.

— Preferia que Napoleão a jogasse nos Campos de Punição?

Hm, não falei que soou ingrato?

— Não estou reclamando, só.. Ah, deixa pra lá. Obrigada.

Ele ri sem humor.

— E pela primeira vez na vida, você me agradece por alguma coisa — murmura baixo, e quase não consigo ouvir. Eu queria perguntar o porquê de sua frase, mas no momento ele abriu uma das portas de madeira do salão que levava até o lado de fora e o ar do Mundo Inferior me encobriu.

Um detalhe engraçado: eu não respirava mais, ou ao menos, não precisava. Mas eu continuava inspirando e expirando por costume, então quando aquele ar encheu meus pulmões, o fedor nauseante da morte fez meus olhos arderem e me deu a mesma sensação de asfixia que tenho na fobia, mas trezentas vezes pior. É difícil de explicar com detalhes porque não há qualquer perfume francês na Terra que dê a sensação tão real de que você está encurralado pela morte, mas a única coisa que consegui me impedir de perceber foi que era o mesmo cheiro do Nico.

Tusso algumas vezes, tirando o ar quente e abafado de meus pulmões. Depois disso, prendo a respiração, o que meu corpo não protesta contra. Eu simplesmente paro de respirar e não faz diferença nenhuma pro meu organismo, porque ele não funciona mais.

— Como você consegue fazer isso? — pergunto. Nico para de me arrastar e franze sobrancelhas pra mim.

— O quê?

— Isso — aponto minha mão livre levemente translúcida para a que ele segura — Achei que apenas os juízes não me atravessavam.

Ele parece tenso por um segundo, e me solta.

— Filhos de Hades. Nada demais.

Ele continua a andar pela grama preta em silêncio, enquanto eu o sigo com meus pés pairando a alguns centímetros do chão. Além das lembranças chegando a mil na minha mente, eu estava confusa com a distância com a qual ele estava me tratando, e também o que exatamente estava fazendo. Ele vai me levar pro Elíseo? Me trazer de volta? Por que não faz questão de olhar na minha cara?

SENHOR DI ANGELO EXPLIQUE-SE.

— Só tem um jeito de trazer você de volta — ele diz quando chegamos numa área afastada do Mundo Inferior, onde tudo que posso ver é um chão negro interminável — E temos que ir rápido. Se alguém nos achar.. teremos problemas.

— É algo proibido, pra não podemos ser vistos? — pergunto ressabiada.

— Quanto menos perguntas você fizer, melhor. Acredite em mim.

Escuto o som de uma correnteza, e logo percebo com horror que parte do chão negro interminável ao meu redor era na verdade um rio de águas escuras como piche. O rio Lete. Ferrou-se.

No momento que coloquei os olhos nele, a lembrança de me afogar naquelas águas voltou à minha mente com uma força tão grande que tento correr em disparada para longe dele, mas Nico me segura antes. Depois de perceber que é inútil tentar me afastar, me agarro a ele e enterro meu rosto em seu peito, em prantos.

Acabo fungando contra minha vontade, e a única coisa que me deixa um pouco mais calma é perceber que ele não está com o mesmo cheiro nauseante do Mundo Inferior. Sua pele está com aroma de canela, o que no momento meu pânico não fez questão de estranhar.

— Hannah, por favor, calma — ele segura meu rosto entre as mãos, secando as lágrimas com os polegares — Respira, fica calma.

Eu tentei explicar meu desespero, mas minha voz não estava muito afim de funcionar.

— Eu sei que você está com medo, tá legal? Eu sei — os olhos escuros dele me encaram apreensivamente — Mas essa é a única forma de trazer você de volta, o único jeito de fazer tudo voltar ao que era antes.

Nico me levanta e me carrega, o que em qualquer outro momento seria completamente bem vindo mas agora me faz lutar para longe dele.

— Me deixa no chão! — consigo voltar com minha voz, mas ela sai um pouco mais aguda que o normal. Ele se aproxima perigosamente perto demais da correnteza, meu pânico aumentando com a visão das águas negras batendo com violência nas pedras da margem.

— Você precisa entrar no rio — revela, o que me faz voltar aos prantos. Entrar no rio? Do esquecimento? A garota que tem medo de piscininhas de criança?

Nyet! — minha língua materna sai sem que eu perceba — Me larga, seu.. seu monstro! Você não é o Nico, eu nem quem você é!

Ele não se abala com a violência que uso para tentar (inutilmente) chegar ao chão. Quando desvia o olhar pra mim, com uma expressão que pode ser de qualquer emoção no rosto, vejo seus olhos se parecerem mais claros numa questão de segundos.

— Me desculpa, Punk — ele suspira — Mas te fazer esquecer é o único jeito de deixar você ir embora.

Notas finais
Quem adivinhar o que aconteceu com o (pseudo) Nico ganha uma bala Chita, vamo que vamo! E sem querer dar spoiler mas dando, próximo capítulo é pov Nicolau... Até lá!