A Deusa Mãe
9 Quem, eu? Por que?
Notas iniciais
Mas alguém interrompe a conversa e acelera as coisas. O que acontecerá com a área gelada de Ouros?
Sentei-me em frente a ela, enquanto a mesma se confortava em um trono de prata. Saryel e Yomi se recusaram a sentar no chão, como eu, mas Adeste não ligava para tal rebeldia. Eu abri os lábios... Tomei fôlego para falar e...
– Por que você não estava aqui quando eu te procurei?
Olhei para trás. Era Saryel, que parecia indignada em não ter encontrado nada naquela sala: Nem cetro, nem trono, nem Adeste. Voltei a olhar para a oriana em nossa frente. Seus olhos estavam bem abertos, enquanto nos lábios, um doce sorriso se formava. Adeste disse que Fideles era sua espécie guardiã, mas que não sobrou um único ser que não foi pego por Eisblume e assassinado para provar a todos que seu poder era maior do que os dos sacerdotes. Explicou que para proteger os animais, os sacerdotes se ocultaram seus corpos em salas. O inimigo não vendo quem o animal protege, acharia que era mais um ser selvagem e o deixaria livre.
– Infelizmente, Eisblume descobriu esse nosso truque e continuou com sua matança. Até que sobrou minha Fideles e eu... Pelo menos até chegarem.
– Olha... Me desculpe! Eu interpretei mal! Para mim, Fideles era apenas um monstro que Eisblume criou para impedir nossa passagem! Eu realmente...
Adeste pediu para eu me calar. Ela sabia de tudo, estava ciente de tudo, afinal, era a sacerdotisa de Ouros. Infelizmente, não sabia ler mentes. Pediu, primeiramente, para Saryel fazer as suas perguntas. Primeiramente, ela começou perguntando qual a razão de ser compatível com aquele lugar. O que ela tocava, brilhava. Adeste olhou para ela com olhos curiosos, como se não soubesse sobre esse fato, mas depois abriu um longo sorriso.
– Vocês não foram escolhidos por acaso. Cada um de vocês devem ter nascido com alguma habilidade compatível com determinado templo.
– Somos em 10. Como pode dizer que temos de passar por 10 lugares só para salvar Aljha Rhara? Yomi quase morreu, Adeste! E eu não quero ter que me sacrificar por algo tão pequeno! – Reclamou Saryel, cabisbaixa, sem motivações para continuar. Adeste mudou seu olhar. Estava agora decepcionada.
– Não consigo acreditar que Aiya escolheu tão ruim suas governantas. Se é assim que querem, então vão-se embora. Esqueçam todas as missões por aqui... Voltem para a casa. Tenham suas vidas tolas como deveriam ter.
Após esse discurso depressivo, Adeste e nós três ficamos nos entreolhando, sérias, esperando que alguém tenha um comentário gentil e animado para tirar a decepção da face da sacerdotisa. Entretanto, foi ela a próxima a dizer... “Não precisamos de vocês...” .
A mulher se levantou do trono, bateu com o cetro no chão, fazendo uma pequena onda azulada envolver seu corpo. Começando pelos pés, ela começou a sumir, lentamente. As minhas companheiras encaravam o ocorrido com ar surpreso, mas eu estava mais para desespero. Me joguei contra ela e agarrei-a pelos braços, colocando o queixo em seu ombro esquerdo. Ela interrompeu na mesma hora a camuflagem.
– Ignore-as! Eu quero ajudar! Eu preciso te ajudar!
Adeste ficou surpresa com esse meu ato. Como? Ela soltou o cetro, que caiu num baque surdo sobre o tapete azul que cobria o centro do salão. Ele rodou até chegar ao chão gélido, brilhando num esverdeado melancólico. Enquanto isso, a sacerdotisa me envolveu com os braços.
– Você tem a mesma determinação dela. – A mulher sussurrou, me soltando.
Eu pedi para que as meninas se sentassem novamente, no mesmo momento em que Adeste voltou a ir para o trono. Desta vez, foi Yomi que perguntou. Quis saber por que ela e sua irmã tinham habilidades anormais e só a caçula conseguiu ser guardiã. Adeste olhava para a morena com olhos espantados novamente, e falhou em responder.
–Eu... Não sei.
Ela explicou que havia-se 4 sacerdotes. O conhecimento deles é bem amplo, mas tem limites. Completou falando que possivelmente, a historia passada de Yomi e Lunatus poderia ser conhecida por algum outro sacerdote. Após ver que a morena estava com uma cara decepcionada, voltou a me observar. Meus olhos azuis encontraram suas orbes brancas, até que um sorriso brotou em seus lábios.
– Sua pergunta é: Qual a razão de eu ser tão parecida com os orianos?
Eu não consegui nada dizer. Ela havia adivinhado. Apertei minhas mãos contra a capa branca e semifechei meus olhos, encarando-a curiosamente. Adeste perguntou novamente se era essa a pergunta, e eu apenas concordei com a cabeça. Se ela sabia, por que perguntar novamente? A sacerdotisa pediu para que eu me aproximasse. Fiz, me ajoelhando nos pés do trono, ao que ela tocou meus cabelos com a ponta dos dedos.
– Hyro nunca te contou nada sobre isso? Eu já deveria imaginar. Era a única que proibia o relacionamento deles, pois sabia que o homem não aguentaria.
– Aguentaria? A que?
– A fúria de Zatsu. – Adeste pôde perceber agora que eu realmente não sabia de nada.
A moça contou uma historia.
– Havia uma família muito rica e próspera em Sandriff. O casal teve 4 filhos: Duas meninas e dois meninos. Essas crianças foram divididas, e um casal ficou no planeta, e o outro, num planeta menor. Com casamentos incestos, o casal do planeta menor teve duas menininhas. O outro, uma.
Enquanto ela falava, Yomi parecia anexar aquela historia com outra que ouviu de sua mãe, parecida, mas contada de forma mais obscura. Os olhos verdes estavam arregalados, enquanto observavam os pardos da sacerdotisa. Eu me estirei no chão, cansada de ficar na mesma posição. Apesar de ouvir atentamente a historia, estava observando o salão do tal templo, encontrando, por acaso, o losango que eu vi anteriormente no castelo. Era confirmado... A moça e a princesa eram da mesma tribo.
– O casal de Sandriff assumiu o posto dos pais. Dividiram o reino em 4 e separaram seus melhores conselheiros em cada canto. O homem odiava a irmã poder ter lhe dado uma menina, e tentou matá-la. Essa mulher era...
– Aiya. – Disse, num suspiro. Adeste nem precisava contar o resto da historia. Eu já estava entendendo.
– Ela procurou pelos mundos um planeta de família boa para poder cuidar de sua cria. Mas falhou. Aiya viu que na Terra, os casais não eram tão harmônicos quanto deveriam ser... E entregou a pequena para um rapaz, Hyro, camponês gentil e bonito. Quando ela voltou, encontrou seu amado irmão e parceiro com quatro esposas e filhos... O homem baniu a moça de sua terra.
– E ela reaproveitou uma terra esquecida para criar sua própria civilização.
– Isso. – Adeste completou. Bateu o cetro mais uma vez no chão, fazendo o mesmo diminuir de tamanho, e foi sumindo, até que no fim, só sobrou uma joia branca. – Aiya pediu para os sacerdotes contarem essa historia para sua filha, quando chegasse a hora.
– Eu sou... Filha de Zatsu com Aiya? – Balbuciei, tentando digerir o que eu ouvi. – Então eu sou meia irmã da EISBLUME?!!
O sorriso de Adeste confirmou. Eu abaixei a cabeça e gemi de decepção. Era realmente irmã bastarda da mulher que eu mais odiava. Yomi abriu a boca para dizer algo, mas um estrondo quase ensurdecedor estremeceu as paredes. A mulher pediu para descermos as escadas e sairmos daquele lugar. O resto da historia, iríamos saber depois, com os outros sacerdotes. O estrondo se repetiu. Eu, Yomi e Saryel corremos para fora do salão e demos de cara com alguém que não queríamos encontrar...
– Se não é a mulher que matou meu animalzinho de estimação.
– Eis...Eisblume...
Ela estava no andar inferior, enquanto um felino bípede com uma marreta destruía dos degraus com voracidade. O animal tinha dois chifres, um deles cortado, e continha longos cabelos brancos cobrindo as costas. Quando não havia nem um degrau, o animal parou, me encarando, no mesmo momento em que ela acariciava sua juba. Os olhos dele, penetrantes, com certeza seduziriam se o mesmo fosse um humano, e o seu corpo era musculoso, com uma “saia” encobrindo as pernas e cintura, onde, no meio dos tecidos, havia um losango.
– Esse é Nijou Oudo, outro pre...
– Outro Oudo? – Yomi debochou, com um sorriso aberto.
– Todos os meus animais são chamados de Oudo... Papai que mandou.
Reclamei da conversa chata, vendo o brilho raivoso nos olhos dela. Felizmente, Nijou não podia subir, mas nós também não conseguiríamos descer. Eisblume acenou e deu meia volta, montando sobre o felino como uma criança monta dos ombros do pai. Disse algo como “se vocês não se apressarem, serão engolidos pelo templo.” Sumiu nas trevas e, de alguma forma, conseguiu sair do templo sem dificuldade, o que era difícil, já que não havia escadas.
Eu olhei para as meninas. A escada era alta e com certeza perderíamos alguns ossos se pulássemos dali. Saryel podia fazer uma escada de água, dei a ideia, mas a mesma falou que só sabia moldar a água, mas deixá-la sólida era impossível. Me sentei na beirada, com as pernas soltas, e suspirei, vencida. Ideias não caem do céu.
– Por que não utilizamos o tapete do salão para fazer isso? Eu com certeza acho que se arrastássemos o trono sobre ele, ficaria firme o suficiente para que concluíssemos o trabalho.
Yomi! Você é brilhante! Eu também conseguia ver o tapete pendurado como uma “corda” para que pudéssemos descer até o térreo. Me levantei e juntas voltamos até o interno do salão. Adeste, estava caída sobre o solo, tentando se levantar.
–Adeste!!
Corremos até ela, ao que ajudamos a se sentar no trono. As duas seguravam as pernas e eu a cabeça. A mulher, que já era pálida, ficou transparente. E seus cabelos azuis esbranquiçados. Ela não conseguia dizer direito. Balbuciava algumas palavras, cujas tais não entendemos. Ela estendeu a mão esquerda, com a mesma pedra branca de antes. Pediu para que eu pegasse e após lutar por alguns minutos, peguei. Ele estava amarrado num cordão trançado feito com os fios do próprio cabelo da moça, ainda azuis. Adeste se preocupou em trançá-los com tamanha maestria, que eu puxava e eles não se moviam do lugar que deveriam estar.
– Coloque no pescoço e saia daqui. Se eu morrer antes de vocês abandonarem o templo, perderá seu poder.
– O que houve, Adeste? Eles conseguiram te atacar? COMO!?
Eu me ajoelhei ao pé do trono mais uma vez, acariciando a pele seca da moça. Ela estava com os olhos tão vazios, que senti a vontade de chorar. Adeste explicou, enquanto eu continha as lágrimas, que os sacerdotes são feitos para viver nos templos.
– Eisblume sabia disso, precisava de mim viva, e então transportou consigo o salão, para me dar o lar perfeito em seus domínios. Agora ele está destruído.
Antes de Adeste perder a voz, falou para que corrêssemos contra o tempo. E o fizemos. Pedi para que Yomi e Saryel puxassem as pontas do tapete, enquanto eu pegava o outro lado. Era assustador saber como que aquele pedaço de pano felpudo era pesado. Eu senti meus braços oscilarem. Enquanto isso, as duas trabalhavam firmemente, até chegar na beirada do mezanino. Deixamos que metade dele escorresse entre as pedras, e rapidamente nos jogamos em sua ponta, impedindo que este caísse por completo. Enquanto minhas amigas se agarravam no tapete, eu corri até o trono e empurrei, com toda a minha força, ao que ele lentamente foi sendo arrastado pelo chão. Adeste colocava pressa, disse que não aguentava mais esperar, e eu pedia mais alguns minutos de calma. Para fazer com que o trono pesadíssimo chegasse até a ponta do templo, levei, mais ou menos, 13 minutos. O caminho não tinha nem mais de 15 metros, trajeto que eu faria em menos de um minuto.
Pulamos tapete abaixo, deslizando os dedos por entre os fios do tecido, que como um arame fino, nos agarrava e soltava pouco a pouco. Mesmo assim, ainda estávamos a dois metros do chão. Yomi, a corajosa, foi a primeira a pular. Depois Saryel. Eu fui forçada a soltar o tapete pois senti algo frio e molhado, quase solido, cair sobre minha cabeça. Parecia areia, de tão fino, mas eu sabia que não era. Caída no chão, pode presenciar a cena. Adeste aos poucos ia se transformando em neve e deslizando tapete abaixo, caindo até o chão e fazendo um monte alvo perto de nossos pés. Não consegui aguentar. Deixei que as lágrimas escorressem, e pequenos soluços escapavam dos lábios. Ela havia morrido... E eu repetia em voz alta várias vezes “muito obrigada!” enquanto via o monte se derreter e converter-se em uma poça d’água.
– Chu não morreu de forma tão suave como ela... –Uma observação minha.
– Chu era uma civil. Adeste é uma sacerdotisa.
Mas agora, eu sentia a pedra em meu pescoço cada vez mais leve. O poder! Corremos até as águas... Não havia nenhuma forma de subir. Pelo menos aos meus olhos. Quando eu comecei a lamentar, Yomi grudou suas mãos ainda queimadas nas pedrinhas redondas da parede e foi escalando. Saryel seguiu. E eu fui logo depois.
– MEU DEUS! VAMOS RAPIDO!
Gritei. A pedra havia começado a ficar opaca. Eu, como se estivesse possuída, escalei as pedras rapidamente, chegando na boca do templo, onde começaria o escorregador. Corremos até a saída, até que a onda gélida do jardim congelado nos tomou e nos amontoamos num canto como coelhos filhotes numa gaiola.
Enquanto aquecíamos o corpo, eu observava a pedra, que aos poucos ia ganhando cor. Sorri... Sim, havia dado tempo.
– OLHEM!
Saryel gritou. Era verdade... O jardim estava se transformando em água. As arvores congeladas voltavam a ter a cor castanha, mas continuavam secas. As ovelhas corriam por aí, procurando um lugar para se esconder do fenômeno. Estava tudo... Derretendo.
Eu me levantei do chão e corri pelo labirinto quase intacto. Estava mais baixo, e com alguns pulinhos, dava para saber onde estávamos indo. Até que finalmente encontramos... A mesma placa de outrora, anunciando a chegada ao castelo de gelo.
A estrada havia virado um lado longo. A torre mais alta não expelia mais neve. E o castelo estava sumindo aos poucos. Caía, lentamente, torre após torre, até que escutamos um grito agudo dizendo “MEU LAR! MEU DOCE LAR ESTÁ INDO EMBORA!”.
Após isso, um rugido tão alto quanto o grito.
– Então era Adeste que mantinha tudo isso. – Yomi concluiu.
A placa toda emperiquitada estava com uma longa trinca, mostrando a decadência do jardim de Eisblume. Nos entreolhamos. Para casa agora. Precisávamos de preparação.
Notas finais
Espero colocar novamente uma grande ação no próximo capitulo.
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