Notas iniciais
Em busca de respostas, Bya e mais dois amigos vão atrás do segundo sacerdote escutar um pouco mais sobre seus passados. Há ainda muita coisa a ser descoberto, entretanto... A surpresa não foi muito agradável.

O retorno até Conchita foi sombrio. As ruas estavam vazias e as casas com luzes apagadas. Em determinado momento, senti a curiosidade de parar na frente de um barril lacrado cuja superfície continha um pequeno lampião. A chama estava morrendo aos poucos e o uivo de um vento gélido correu por nós, ceifando de vez o calor do fogo. O mesmo uivo pareceu sussurrar “fujam” em nossos ouvidos e não fui a única a ouvir.

– Byakushi... O que está acontecendo?

Eu mal ouvi a voz de Saryel. Eu olhava para cima, encontrando estrelas e o que vi foram 3 luas grandes. Não sei se sempre estiveram ali, mas eu nunca tinha prestado a atenção nos céus noturnos de Aljha Rhara. Eu estava bem desperta mas não conseguia responder nada. Yomi me olhou e logo depois encarou as luas, grunhindo. “Essa cidade... Pode até ser chamada de cidade fantasma.” Sussurrou Saryel enquanto tentava entender o que via.

– Vamos para casa. Podemos contar às guardiãs sobre o ocorrido. Alguma delas, possivelmente Acalântis saberá nos dizer o que está havendo.

Seguimos tranquilamente pelas ruas, se isso for possível. Pelo menos nenhuma de nós acelerou o passo para cruzar a rua fantasma. Eu parei junto de Yomi quando reconhecemos a casa de Chu. Como todas, estava intacta, mas sem um sinal de vida. Me senti impulsionada a entrar ali, mas Yomi segurou meu pulso para que eu não fizesse besteira. O único lugar que iríamos era Conchita.

Foram longas horas de caminhada, e as muralhas pareciam nunca aparecer. O jardim não era tão longe das muralhas, eu sabia, então por que? Por um momento, pensei que estávamos perdidas, mas finalmente vimos o farol negro.

A grande lâmpada circulava o chão e sempre evitávamos seu brilho. Ao contrario da cidadezinha, a torre estava bem animada e iluminada. Aquilo não era de forma alguma natural. Depois de mais alguns minutos, finalmente chegamos nas muralhas.

Saryel deu um pulinho alegre, mas eu e Yomi apenas encarávamos os portões. Tinha algo errado e só nós duas conseguimos ver. Colocamos as mãos em ambas as abas do grandioso portão e como sempre, empurramos, esperando ter como resposta a abertura de um vão para podermos passar. Mas em resposta, ouvimos um grandioso tremor e muita poeira caiu sobre nós, enquanto víamos as chapas de aço desabarem para dentro. Quando se chocou contra o solo, o chão tremeu e nós fomos forçadas a agarrarmos no solo para não cair. Saryel que foi pega desprevenida, caiu sentada.

– Ele foi arrombado! – Yomi gritou, se recompondo e seguindo para cima das chapas de aço com uma expressão mista de preocupação, raiva e medo. Eu fui logo atrás, e Saryel demorou alguns momentos para fazer o mesmo.

Era exatamente como imaginávamos. Todos os ambientes estavam protegidos por uma espécie de campo de força criada pelos guardiões, que possivelmente estavam dentro dos seus respectivos lares, tentando se concentrar em proteger seus governantes. Eu olhava aos arredores. Nenhum sinal do invasor, pelo menos até encontrar uma mancha escura vindo de encontro. Era uma mulher de cabelos vermelhos como o fogo, curtos, pele morena, quase acinzentada, roupas vermelhas e armadura negra. Ela tinha uma enorme espada, que brilhou vermelho, enquanto a Orologio brilhou azul. Era alta, de ombros um pouco mais largos e braços mais fortes que o de uma mulher comum. Com certeza teve um treinamento especializado.

Ao seu lado, havia um equino muito parecido com uma Buartha, mas que em vez das cores azuis e amistosas, continha cores escuras e crina vermelha, além de ter uma espécie de armadura sobre seu corpo, que imitava o esqueleto de outra quimera morta. Eu disse imitava? Eu acho que na verdade... É o esqueleto de uma quimera morta.

– Governanta da Harmonia...

Sua voz era extremamente grave, como a voz de um moço jovem. Apesar de bem ciente do ocorrido, eu estava em choque. Yomi se colocou na minha frente, cobrindo-me com seu corpo delgado, que eu tinha certeza que se a mulher quisesse destroçar, não demoraria nada.

– Eu só quero conversar.

– Quem é você?

– Me chame de Ghanida. – Ela fez uma reverencia rápida, e nada polida. Parecia mais estar de brincadeira conosco. – Lider do exército vermelho. E esse é Nigel, a quimera do fogo. Lindo, não é? Existem apenas 5 exemplares. Três fêmeas de dois machos. O meu é macho e...

– O que quer aqui?

Ghanida não gostou de ser interrompida. Os olhos vermelhos da mulher fitaram Yomi como se fitasse o seu maior inimigo. Se aproximou mais alguns passos de nós e ameaçou tocar no rosto de Yomi, ao que ela recuou, me empurrando para trás.

– Vocês tem algo que Zatsu quer. E eu vou pegar por bem ou por mal. É meu trabalho como filha dele.

– Mais uma irmã bastarda minha. – Eu suspirei. Aquilo já estava enrolado demais. Ghanida me olhou com nojo, não acreditando no fato de eu ser sua meia irmã.

– Eu vou ser direta. Vamos lhe dar um prazo de sete dias. Queremos a governanta da lua até lá. Se não nos der, voltarei aqui com Nigel e os exércitos de Mirabilia. Poderia arrancar-lhe a governanta a força, mas não pensei que Conchita era tão bem protegida assim.

Após dizer suas palavras, a ruiva montou em seu cavalo e partiu para cima de nós. Saryel rapidamente correu para um lado, mas eu, ainda formulando o que estava ouvindo, não movi um único dedo, até que fui puxada por Yomi. O movimento brusco fez com que eu sentisse minhas costas esfoladas ainda mais esfoladas. Eu desabei nos braços da morena, que me segurou acima dos ombros para não me ferir, enquanto suportava meu choro sofrido.

Os campos de força só foram cessados quando o som dos cascos da quimera foram escutados por cima das chapas de aço, o que significava que ela já havia saído dos portões de Conchita. Saryel comentou do quanto era engraçado vê-las estourando brilhantes, como bolas de sabão.

Apesar de praticamente bem, nós três não conseguíamos nos mover. Yomi por que me segurava, e Saryel por que nos esperava. Ficamos assim por dez minutos, tempo o suficiente para que Kenji fosse até nós, nervoso.

– Ah, meu deus... Só sai para se machucar!

Ele me pegou no colo com uma das mãos na minha nuca e a outra abaixo dos meus joelhos. Correu para dentro de sua própria torre e passou a cuidar de meus ferimentos.

...

Passaram-se aproximadamente cinco horas até que eu acordasse. Novamente, me deparei com Kenji em meus domínios, mas dessa vez o rapaz estava inquieto. Permaneci com os olhos semiabertos vendo o que ele fazia, mas sempre que sua atenção era voltada para mim, eu fingia dormir. Só pude escutar uma conversa entre ele e Acalântis, cujo tal reclamava sobre minha teimosia. Ela sempre respondia com palavras severas, como “Você não manda nela) ou “Nunca será tão forte quanto ela”.

Me lembrando de uma cena passada, vi em forma de flashback o dia em que um bardo muito bonito, de cavanhaque e cabelos castanhos invadiu a casa que eu dividia com Leona e Danya. Elas estavam acordadas e como era um antigo conhecido da Dan, ela deixou que ele ficasse a vontade. Eu acordei com o estalar da porta do meu quarto se abrindo, mas fingi dormir, da mesma forma que estava fingindo agora. Ele subiu em minha cama e escutei botões sendo abertos, até que senti sua respiração em meu pescoço. Ia ser estuprada, se não tivesse usado do teatro para fingir estar começando a acordar, ao que ele recuou na mesma hora.

Eu estava prestes a fazer a mesma coisa. Me contorci na cama e soltei um gemidinho, ao que os dois ficaram quietos. Kenji foi até mim, se sentando ao meu lado e perguntando se estava tudo bem.

– Claro, seu bobo. Eu sou invencível...

– É. Estou vendo o invencível em suas costas.

A conversa se estendeu por longos minutos, até que Kenji, sem mais nem menos, me beijou da forma mais deliciosa possível, reclamando novamente da minha teimosia e que na próxima viagem, não importava o quanto eu falasse, iria comigo. Eu precisava mesmo de uns mimos masculinos na próxima viagem. Elas são sempre estressantes.

Apesar de estar ciente do quanto eu estava frágil, Kenji continuou com as caricias até me levar a um transe erótico. Mesmo assim, enquanto me tocava, tinha ciência de que eu não poderia perder minha virgindade.

Fomos interrompidos por Acalântis, que disse que a viagem seria mais calma se fossemos de noite. Faltava pouco tempo para amanhecer, mas mesmo assim, não haveria nenhum tipo de movimentação, de acordo com o relatório de Yomi.

– Ela não vem conosco?

– Não. A mulher está frágil, Byakushi. Apesar de não parecer, ela se feriu mais que ti. Foi parar dentro do estomago de um animal, e não um animal qualquer, um ser de Orion. Não sabemos quais toxinas estão presentes em seu corpo agora.

– Eu sei, mas Yomi é minha guardiã! Ela...

– Não confunda trabalho com amizade, albina. Yomi não é tua guardiã. Sua guardiã é a Danya, Elion, ou como queira chamá-la, apesar dela não fazer um bom trabalho. E se sua pergunta seria “Ela está sendo tratada por quem?” fique tranquila em saber que ela está com sua irmã.

– Ok...

Acalântis me obrigou a vestir algo que protegesse braços e costa. Uma armadura feita de prata, que no meu ponto de vista, não era nada forte. Já Kenji se vestiu com uma bela armadura completa de ferro e ouro. Meu amado me colocou nas costas de uma daquelas aves da loira mal humorada, e ele foi na frente, guiando o pássaro. Já a sua guardiã pegou montou no segundo. Atravessando os portões, começamos a correr.

Mas correr para onde? Tudo o que sabíamos era que coseguiríamos mais respostas se encontrássemos o segundo sacerdote, ou... Bem, eu não sabia se havia uma hierarquia entre eles, mas nas nossas contas, era o segundo. Conversamos pouco durante o trajeto. Só pude responder “Sim, eu estou bem” quando o loiro me perguntava.

Diminuímos os passos quando chegamos perto do farol, para não chamar atenção. Entretanto, algo afiado atravessou as plumas das aves, que caíram no chão, desmaiadas. Logo depois, tentando levantar debaixo de seus corpos pesados, vi um vulto e tudo ficou escuro.

...

– Bem vindos ao centro de Aljha Rhara. O lugar que Aiya não conseguiu tocar, mas nós... Somos mais poderosos.

– Centro...?

A voz era masculina. Isso eu sabia muito bem. E o lugar era quente... EXTREMAMENTE QUENTE. Era o inferno? Abri um dos meus olhos e me surpreendi ao estar dentro de uma gaiola enorme sobre um finíssimo suporte de pedra, que mais parecia uma alta estalagmite erguida sobre um mar de lava. A primeira coisa que fiz foi procurar meus amigos, desmaiados em dois cantos da gaiola triangular. Me movi para ir até eles, mas a gaiola ameaçou cair. Foi uma técnica de nos manter separados.

– Quem... Quem é você?

– Sou servo de Zatsu, e esse será o tumulo de vocês. Tenho três opções para você escolher. Quer morrer de fome, queimada num banho de lava ou intoxicada pelos gazes desse vulcão amaldiçoado?

– Que tal... – Sim, eu estava com medo. Medo não nos faz raciocinar rápido. Aquela minha pausa parecia querer dizer “vá que eu morro por conta própria”, mas... – Que tal me tirar daqui para resolvermos isso? Imagine só... Morrer nas mãos do servo de Zatsu! Você seria famoso!

– Fama e fortuna não atraem meus olhos.

– E... Que tal... A confiança de Zatsu?

Aquilo o fez calar a boca. O homem tinha a pele tão escura e tão acinzentada quanto as de Ghanida. Levando em consideração que os Orianos eram divididos em raças, ele era da mesma que a da ruiva. Os cabelos eram castanhos, e estavam presos num belo rabo de cavalo que caía pelo ombro e deslizava sobre o peitoral nu e bem definido cujo tal eu encarava com água na boca. Ele vestia a metade inferior da armadura negra, cobrindo uma calça vermelha, e tinha os pés descalços. No peito havia um enorme naipe de espadas em preto e logo acima dele um belo colar de aço escrito em sua placa “Genitun”. Ah, tinham também dois chifres... Curvados como os de um demônio.

Eu estava mesmo precisando de homem. Olhava para o rapaz com total luxuria, e minha mente cheia de malicia funcionava perfeitamente. Pisquei algumas vezes, colocando as mãos na cabeça. Não, não era meu normal desejar alguém. É o vapor do vulcão. Sim... É isso!

Olhei para ele quando o mesmo jogou uma pedra mediana amarrada numa corda por um buraco, e a outra extremidade contendo um gancho subiu rapidamente, agarrando no nó da gaiola e erguendo-a da superfície estreita.

No mesmo instante que ela subiu, desceu. Caiu sobre a lava e boiou até a margem, fazendo com que todos nós acordássemos. Corremos até o canto mais próximo da superfície enquanto víamos a parte traseira da gaiola ser derretida. A porta foi aberta e rolamos no solo, ao mesmo tempo que um tridente foi cravado contra as mãos de Kenji e Acalântis, os prendendo no solo.

– O que... DEIXE-OS EM PAZ!

– Eles iriam atrapalhar.

Eu não ia conseguir me concentrar com ambos os loiros gemendo em meio ao solo. A afirmação correta seria que eu sentia a dor deles, e aquilo me fazia ficar com as pernas frágeis.

Estava encarando aquele ser diretamente na tatuagem, suando frio por estar realmente desejando tocá-lo. Por que...?

Estiquei minha mão inconscientemente em direção à tatuagem, até que toquei a pele com o indicador. Eu deslizei o dedo sobre a pele e era quente. Muito quente, mesmo. Eu poderia ter ido em frente, mas o próprio rapaz me despertou sacudindo outro tridente idêntico ao usado anteriormente, fazendo um terrível som metálico contra minha armadura. Eu recuei. Estava ofegante, assustada e excitada numa droga única.

– Bya-chan... Eu amo você.

Não... Isso foi maior que qualquer outro sentimento que eu poderia estar sentindo naquele segundo. Quando Kenji disse aquilo, eu acordei imediatamente, me colocando em posição defensiva, com as espada firme em minhas mãos, enquanto ela brilhava azul.

O moreno sensual sacudiu seu tridente novamente, rodeando-o em volta do corpo, se mostrando. Ele voou até a mim, me atacando em horizontal com o tridente. Defendi com a espada, rebatendo as armas e fazendo nossos corpos ficarem bem perto, perfeito para uma rasteira. Eu o fiz, ao que ele caiu, mas usou a mão para saltar para trás e me olhar novamente.

Dessa vez, em quem ataquei. Analisando-o bem, o peitoral, onde a tatuagem foi feita, era mais sensível que o resto do corpo. Movi meu braço da esquerda para a direita, num golpe horizontal ali, mas ele defendeu com o braço. A arma penetrou na carne, e mesmo assim ele não esboçou reação. O moço ergueu seu braço para o alto da cabeça, fazendo a espada subir e me fazendo esticar o corpo para cima para não soltá-la. Ele era uns 50 centímetros mais alto que eu. Com a mesma força do Oudo enfrentado por mim, ele me lançou para trás, ao que a espada veio junto. Eu derrapei no solo até que senti algo quente atrás de mim.

– CUIDADO!

Nos últimos cinco segundos, o som da espada sendo arrastada pelo solo foi escutado e eu, quase caindo para trás, me pendurei na margem que separava a terra da lava. O inimigo não perdeu tempo. Se aproximou e apontou o tridente para mim, escolhendo o melhor local para golpear. Eu estava tremendo... Não poderia soltar dali ou morreria queimada.

– Hey, não se esqueça que somos em três aqui!

Acalântis! A loira estava sem nenhum arranhão, assim como Kenji, que segurava o tridente gêmeo em mãos. Não era a toa que o rapaz era governante amarelo... Ele tinha poderes regenerativos. Num estalar de dedos, três bolinhas aladas e douradas circularam o corpo da loira. Eles tinham bicos afiados e asas cheias de plumas. Eram pássaros orianos que, em meio à leitura do manual de Aiya, conseguiu invocar . As aves voaram em direção ao moreno, que os atacava com sua arma de difícil mira, e eles escapavam, dando uma brecha para mim. Eu gritei, simulando uma queda, e tirei um dos meus sapatos para que o som dele na lava imitasse o som de algum corpo afundando no mar de fogo.

Sua risada que muito lembrava o som robótico afirmava que ele havia caído no truque. Conseguindo perfurar os pássaros, ele correu atrás de Acalântis, que também estava armada. Usava uma espada de lamina transparente, cuja tal só dava para ver se reparar com atenção as ondulações que ela causava, como um diamante polido. As armas se chocaram, e eu pude ver as costas nuas do grandalhão. Golpeei com fúria três vezes, perfurando em rasos e longas feridas, vendo o sangue completamente rubro, humano até demais escorrer pelos rasgos. Ele se virou e me rebateu com o cabo do tridente, ao que Acalântis ergueu sua espada e cerrou um dos chifres.

Ele rugiu. Colocando as mãos ali e cambaleando graças a dor. Kenji viu isso como um convite, e sem pensar duas vezes perfurou-o na altura dos pulmões, acertando-os. O oponente gemeu novamente, caindo de joelhos e cuspindo sangue.

– PARA! Não o mate!

Corri até a fera, deixando Orologio cair em meio ao trajeto. Circulei o inimigo, dando voltas atrás de voltas, até que ele agarrou-me pelo pé. Deu um forte puxão, ao que me desequilibrei e caí para trás, protegendo minha cabeça com os braços. Com as garras da outra mão, tentou me atacar, mas Kenji golpeou-o com o tridente, prendendo o braço no solo, ao que ele rugiu mais uma vez.

– Como assim?! Ele nos atacou! Devemos matá-lo! – Meu amado retrucou.

– Não! Pense um pouco...

Eu tentava me soltar da sua mão livre, mas ele estava agarrando e torcendo, querendo quebrar meu pé.

– Ce...Cerre o outro...Argh!

– Solte-a agora! Ou seu outro braço vai embora também! – Ele respondeu mais uma vez.

Ele não queria soltar. Passou a puxar minha perna para cima, me deixando quase de cabeça para baixo. Enquanto isso tentava liberar o outro braço, que estava cravado firmemente no chão. Os olhos nutridos de um brilho furioso arregalaram-se quando o outro chifre foi cerrado pela espada invisível de Acalântis.

Sua voz agora não era mais a tenebrosa de antes. Eram gritos de dor que qualquer homem humano soltaria. Ele puxou o corpo para cima, em desespero, no mesmo momento em que me soltou.

– Solta ele! Solta, Kenji!

O meu namorado não soltava o cabo do tridente, encarando o sangue jorrando pelo ferimento com gosto e um sorriso maligno. Quanto mais o moreno puxava o braço, maior os rasgos ficavam. Eu, nervosa, me levantei e fiquei ao lado do loiro segurando em seu braço.

– Solta, seu idiota!

– Ele tentou nos matar!

– SOLTA!

O som mais doloroso para mim foi o que eu escutei agora. Kenji cobria o lugar do tapa com a mão, enquanto seus olhos lacrimejavam e ele soltava a arma. Acalântis também não percebeu o que eu vi, e então ficava ao lado do loiro. Se colocou atrás dele, acariciando o local ferido, enquanto me xingava de nomes que eu nunca havia ouvido.

– Vamos deixar nossa fúria para verdadeiros inimigos... – Sussurrei, soltando o monstro que caía para trás, chorando aos berros. Ou melhor... Só berrando. – Ele não é inimigo.

Eu puxei o colar de seu pescoço, ao que ele suspirou. Os músculos exagerados se resumiram a uma musculatura bem definida, mas normal. Ele não estava mais bombado como antes. Estava só musculoso.

– Você... É o sacerdote do reino vermelho, não é? – Eu sussurrei, olhando no fundo de seus olhos.

Ele não conseguiu me falar nada. Apenas gemeu, me puxando para cima de seu corpo e agarrando com o braço ainda bom. Os chifres se desprenderam de sua testa, fazendo com que suas poças de sangue se formassem no local e escorressem pela lateral da face.

Eu acariciei seu peito, enquanto ele se acalmava e via que nós não éramos perigosos. Kenji estava com o orgulho ferido e cheio de ciúmes, coisa que percebi quando ele se afastou com passos duros. A espada invisível de Acalântis foi parar na bainha novamente, enquanto ela me observava, surpresa.

– Eu não... Consigo... Respirar.

– Ah meu Deus!

Me levantei de seu peito, percebendo agora a poça que seu sangue fazia abaixo do corpo. O golpe foi mesmo poderoso. Kenji, após inúmeros pedidos de desculpas, veio até nós e cuidou dos ferimentos do nosso novo amigo.

...

– Pode dizer o que aconteceu, agora?

– Está tudo muito confuso. Lembro-me de participar duma reunião entre os sacerdotes e depois fomos trancafiados em caixas pelo rei e suas concubinas. Acordei dentro de meu território, mesmo, só que em um lugar diferente do de origem.

– Igual aconteceu com Adeste... Eisblume transportou o salão do templo até um determinado local para ela não morrer.

– Exato. Diferente dela, eu posso sim sair do templo, pois quem deveria ser o sacerdote de Espadas era minha irmã Marilay. Ah, a propósito, meu nome é Carmaux.

– Prazer, Maux, eu sou Byakushi, ela é Acalântis e ele é o Kenji. – Eu disse ao apontar para os dois, que simplesmente acenaram com a cabeça.

– Mas prossiga. – A loira falou.

Carmaux contou que após Genitum ter colocado o colar em seu pescoço, não se lembrava mais de nada, mas agora que estava em sã consciência, disse que ouviu de Aiya uma lenda que falava sobre os amuletos amaldiçoados que a irmã do planeta secundário deu aos fundadores do exército Mirabilia. Quatro colares, que foram concebidos aos sacerdotes, e quatro espadas.

– Eu... Não entendo.

– Deixe que eu explique com detalhes, querida filha de Aiya.


Notas finais
Confesso que a luta ficou uma bagunça. Mesmo quando você coloca uma musica excelente para inspirar, quando a TV ao lado faz barulho e você não pode mandar desligar suas ideias ficam um pouco confusas.
Mas mesmo assim, espero que gostem.
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