A Destinada
4 Eu Sou o Perigo
Notas iniciais
Encolhi-me na cama, abraçando meus joelhos e me encolhendo contra a parede. Mas o corpo de Judith continuava se destruindo grudado na parede, como é ainda tivesse segurando-a. Custei a acreditar que quase havia a matado, porém não encostei nem a ponta de um dedo nela. O peso de seu corpo voltou a ter controle sobre minha mão, então o joguei diante do vidro, vi os cacos voaram pelo quarto e ouvi ela cair no gramado. Permanecia imóvel, com meus olhos focalizados no além e entregando o pavor que sentia naquele momento, era inexplicável o que havia acontecido. Me esforcei para me recuperar o mais rápido possível, mais músculos trêmulos agora conseguiam se mover, eu saltei da cama e percorri velozmente até o jardim. O corpo de Judith estava retorcido em meio a grama, me aproximei amedrontada e me ajoelhei diante de seu corpo. Seu ar havia se acabado, Judith estava morta. Eu havia feito aquilo, agora eu era o monstro. O sol voltou a brilhar quando dei em conta que eu era a culpada, ela acendeu sua pele dando um destaque na palidez. Quando seus ossos foram se ajeitando em seus lugares, uma respiração ofegante surgiu, os vergões foram suavizando até sumirem e aos poucos e ela voltou a vida. Seu corpo seu um pequeno salto como um choque elétrico, arrastei-me para longe amedrontada que ela não voltasse a ser Judy. Ela levantou o rosto abrindo os olhos lentamente, seu olhar perdido procurando o foco, a mão dela sorrateiramente rastejou até encontrar a minha, ainda estava fria e áspera. A chamei, ela ainda gemendo e choramingando respondeu. Eu a levantei e a apoiei em meu ombro e a guiei até a cozinha onde a sentei á mesa.
– Acho que cai enquanto limpava o vidro – ela se debruçou sobre a mesa – não precisava me ajudar, Kristen.
Peguei um copo de água de joguei algumas gotas de remédio e a entreguei. Sentei-me ao seu lado forçando um sorriso, sentia a necessidade de mentir naquele momento. Mesmo que parecesse que tivesse uma agulha na minha garganta, contei à ela que a encontrei caída e que achava que sua pressão havia caído. Ela assentiu como estivesse convencida de tudo que havia dito, após alguns minutos ela se ergueu e começou os preparos para o almoço. Resolvi que seria melhor espera-los na sala, então me esparramei no sofá esperando que o sono chegasse antes deles, mas isso não aconteceu. Ouvi o barulho do motor e os pés andando pela casa, até sentir os dedos do meu pai tocando meu ombro.
– Querida? – ele riu a me ver abrindo os olhos. – Está na mesa, estamos te esperando.
Saltei do sofá e percorri até a sala de jantar, minha mãe esperava paciente, e via as sombras das pernas de Benjamin pela janela, ela estava no nosso lugar preferido. Me sentei a mesa junto à eles, nos esticamos para dar as mãos e minha mãe guiou a prece: “ Obrigada pelo alimento que está na mesa, peço que proteja os presentes aqui. Peço que proteja nossos pensamentos e que não haja conflitos entre nós. Peço que agora, proteja Ruthie que não está mais conosco, amém!”. Meu pai levantou um olhar enfurecido até minha mamãe, ela fingiu não perceber. Durante parte da conversa eles me excluíram, mas particularmente, não me interesso nenhum pouco com o quanto as ações estão. Após alguns minutos, minha mãe encaminhou a conversa sobre como as pessoas estavam no velório, tentei me excluir novamente. Porém ela insistia que eu participasse.
– Kristen? – ela me chamou novamente, eu continuava revirando os legumes sem dar atenção. — Eu e seu pai queremos falar com você.
Meu pai a fitou intrigado, quase nunca abordamos assuntos desagradáveis à mesa e pelo jeito que minha mãe se dirigia a mim, não parecia ser algo bom. Mesmo assim endireitei a coluna, mostrando que estava disposta a conversar. Judith que estava presente desde que nos servira se retirou após perceber que haveria uma discussão, e tenho certeza de que ela está certa.
– Queríamos discutir sobre...
– Está tudo bem para você falar sobre a morte e Ruthie?- meu pai a interrompeu.
Eu assenti e logo comecei a contar tudo em mínimos detalhes a partir do momento em que saí da mesa. Tentei não expressar meus sentimentos, acho que estava até sendo fria e grosseira demais. Porém eles não sentiram nenhum remorso até o momento em que a encontrei, minha mãe suspirava e olhava distante como se fizesse muito tempo, papai se anestesiava a cada palavra que pronunciava e às vezes me olhava piedoso. Eu mantinha um ar tão corajoso, mesmo que ainda gago. Mas na verdade sentia minha alma chorar, deslizei minhas mãos até as pernas para que não a vissem tremer, e apertei os dentes para que não voltassem a se cerrar. Quando terminei, todos ficaram mais um tempo em silêncio. Percebi que nenhum voltaria a comer depois de tal conversa, então me levantei e cabisbaixa recolho os pratos. A entrar na cozinha Judith se levantou e me ajudou com os pratos, e logo me expulsou para a sala de jantar novamente.
Voltei a sala de jantar e permaneci quieta, enquanto ouvia a discussão que continuava na mesa. Poucas vezes vi papai tão furioso, meu seu olhar semicerrado e respiração ofegante entregava sua fúria, ele me defendia com tudo que podia. Mas não está irritada com ela, sabia que não estava sã de suas palavras, tudo isso estava sendo demais para ela por seu espírito fraco que é uma presa fácil para a tristeza. Por outro lado, comecei a perder a cabeça quando ela comentou minha descendência problemática, ela estava a referindo que poderia ter surtos como o de Darcy e poderia assassinar Ruthie. Eu cerrava os dentes e engolia seco para impedir que qualquer palavra saísse de minha boca. Mas estava a tornando inútil, e quando percebi já estava gritando:
– Se você sabia, por que assim mesmo me adotou? – minha voz estava aguda e mais alta em cada letra – Tem medo dos meus problemas? Por que desconfia tanto de mim?
Todos permaneceram quietos enquanto minha voz ecoava pela casa, estava tão arrependida e minhas palavras que sentia minha garganta queimar, mas já era tarde demais. Lentamente as mãos do meu pai se envolveram com a minha e um sorriso oprimido surgiu em seu rosto.
– Porque precisava criar a ferida que tinha dentro de mim. Achei que alguém que houvesse perdido uma pessoa tão importante como a mãe ou os filhos me entenderia. Mas você é como sua mãe, é como Darcy.
Meus olhos queimaram enquanto segurava a lágrima que insistia em cair, abaixei a cabeça e quieta prometo que não chorarei. Quando pssos quebram o silêncio, rastejo meu olhar até a entrada e vejo que é o Sr. Banks, ele está boquiaberto com a nossa discussão. Mas o ignoro e tento focar novamente. Penso numa resposta perfeita, mas encarando papai percebo que ele não aguenta e nem merece mais. Peço permissão para me retirar e ele concede, viro-me para minha mãe e ela estava com a mão elevada aos olhos e com a outra me espanta como uma mosca, vejo uma lágrima escorrer pelo seu rosto, então me ergo.
Percorro até a sala de aula em silêncio, entro e encosto a porta me sentando no mesmo lugar de sempre. Espero pacientemente ele chegar, a porta range e então se abre e é ele.
– Não deve sair sem me cumprimentar.
Não deve me dar lição de moral, penso. Na permaneço quieta, normalmente penso em ficar só, Mas seria um desperdício não vir a essa aula. Passo a mão por debaixo da mesa a puxo o livro de história. Penso em lhe contar a matéria que paramos, porém não é a minha favorita e, de qualquer forma ele deve saber. Minha história não é algo que mudou o mundo, mas todo mundo estuda a sua. Sua descendência, seus parentescos. Mas não é isso que vivo, sei o quanto amo as pessoas ao meu redor e mesmo assim não sinto o mesmo, meu sangue não corre na veia deles. Ele puxou a cadeira e sentou-se, pegou um livro e acariciou sua capa.
– Sabe o que é uma boa historia? – eu assenti – Não, você não sabe! Sua história é uma boa.
Nesse momento eu poderia discordar dele, contudo estava certo. Por tudo que aconteceu comigo, mas tenho algo a contar da minha vida. Tenho á minha família, mesmo que não seja do meu sangue, eles são eternos.
– Posso te ajudar, se você me contar algo sobre você.
Balancei a cabeça negativamente, por sua ira naquela ação ele e levantou e guardou o livro. Sentou-se á mesa ainda esperançoso que falasse algo, mas estava indisposta a lhe contar sobre minha vida.
– Na verdade, meu nome é Kristen Hallen. – o digo.
Um pequeno sorriso se forma em seu semblante, mas após alguns segundos de raciocínio o sorriso de apaga. Seus olhos se arregalaram e ele se afasta aos poucos com a cadeira. Sem ele me perguntar, eu lhe explico tudo que sei. Quase nada. Após a última palavra, ele se ergue e guarda seus materiais caminha em direção ao corredor e some, me abandonando na sala. Ouço sua voz explicando algo ao meu pai, porém nem me preocupo em entender. É quase sempre a mesma coisa quando encontro alguém que a conheceu, nunca estão dispostos a me contar mais sobre ela. Após ouvir a porta bater eu corro em direção à janela, rastejo passando pela grade e pulo até a janela tocando-o, ele treme de susto, mas logo se acende um sorriso em seu rosto.
– Não deveria ficar aqui durante tanto tempo – o repreendo anos sorrindo.
O vento congelante sopra em nossos rostos, eu esfrego as mãos aquecendo-as e o envolvo em meus braços. Ele se aconchega e boceja, percebo que me esperava durante todo esse tempo. Ele balbucia algumas palavras, pouco consigo entender o quanto confuso está.
– Mamãe brigou com você? – eu balanço a cabeça negativamente – Não precisa de preocupar com isso, cuidarei de você. – ele me aperta com força.
Sorrio para ela e concordo que é meu defensor, aos poucos a escuridão domina o céu e na mesma lentidão ele adormece em meus braços. As folhas das árvores balançam com o forte vento e na medida que piora sinto minhas bochechas congelarem mais. Benjamin se encolhe em meu colo, sei que também está com frio. O aperto contra o peito e saldo para dentro, ele está mais pesado nos últimos tempos, mesmo assim forço uma mão com o seu peso enquanto a outra desenrolo o arame, que meu pai provou mais cedo que não transmitida choque. Seu peso está ficando insuportável, dói frio em pensar que ele caia por cima de mais arames, acelera o processo que espeta minhas mãos, meu dedo esquenta e uma gota de sangue escorre quando finalmente consigo sair. O levo até seu quarto e permaneço até ter certeza que está mesmo dormindo.
Após ter certeza que Ben havia adormecido, vou ao meu quarto encosto a porta despi-me e deito em minha cama. Todos meus pensamentos que evitei durante o dia vêm a tona, e enquanto os evito novamente luto contra a insônia, me debato enquanto os espanto. Quando a porta se abre escandalosamente, me acalmo e fecho os olhos, deve ser somente uma vistoria noturna e Judy. Entreabro os olhos disfarçadamente, percebo os passos calmos e o tom e voz suave. É mamãe. Ela se ajoelha a beira da cama, a tristeza se percebe em seu olhar, mesmo assim ela sorri docemente.
– Oh, minha menina – ela diz tentando conter a voz aguda e trêmula – quero me desculpar com você, Kristen não sabe o quanto é difícil perder alguém que tanto ama desde jeito. Por isso com me desculpar, não quero perder você. – Devagar abro os olhos, e finjo um bocejo — me perdoa?
Sento-me abraçando os joelhos e encaro os seus olhos, luto para dizer “não”. Mas não me permito, eu a amo e seu olhar é quebrantável. Eu assento com a cabeça e um brilho surge em seus olhos e um sorriso se forma em seus lábios. Mesmo assim é impossível esquecer o que ela disse, sei que ela sabe o que sinto no momento. Sua mão passa sobre a minha aquecendo, e a leva até seu peito. Algo repentino vem a minha mente, tão rápido que mal consigo raciocinar, mas vi uma mulher banhada de sangue segurando seu filho nos braços, era minha mãe com certeza. Seu brilho se apaga quando ela percebe o pavor em meus olhos, ela toca meu ombro e eu a espanto com um pequeno tapa, a mulher que vi balança minha mente tento fingir que não é nada, mas a tortura contínua. Dou um gringo estrondoso, o tristeza novamente toma conta do olhar dela. Acredito que ela pense que estou devolvendo tudo que me deu no almoço, ela se levanta enquanto a lágrima escorre pelo seu rosto ela abre a porta e pisa o primeiro pé a fora, a tortura passa e eu somente me encolho. Murmuro baixo o suficiente para nem eu mesma ouvir o seu nome, ela então encolhe e levanta os dedos se despedindo e então sorri da mesma forma doce, ela vai embora e a tortura contínua.
Quando tudo passa, a noite já caiu e ninguém me chamou para o jantar. Olho o relógio na parede que marca meia-noite, pulo da cama me enrolando no cobertor e desço as escadas fazendo menos barulho o possível. Logo avisto meu pai pegando seu relógio de bolso, e deixando um beijo a cada fotografia na cômoda. A ouvir meus passos ele sorri e abre os braços, solto o cobertor e corro até seus braços. Quando o abraço termina ele termina de beijar a última fotografia e então se vira em minha direção:
– Ainda lhe deixei repolho – ele zomba.
– Não se preocupe, jogarei fora.
Seu olhar se fecha como um dia ensolarado a beira de uma tempestade, apoia as mãos em meus ombros e encara o fundo dos meus olhos.
– Não quero confusão enquanto estiver fora, volto amanhã na mesma hora. Não estarei aqui para lhe defender dessa vez, querida. – ele relaxa os ombros – cuide de Ben, sua mãe está em luto profundo.
Ele beija minha testa e eu ajeito sua gravata. Após o ajudar com as três malas pesadas, ele encara a chuva e as coloca no carro, mesmo com a chuva gelada ele me abraça pela última vez, fecha a porta e se escora nela. Passo alguns segundos esperando que desça os degraus, então ele volta á abrir a porta e diz:
– Só lhe peço que a perdoe.
A porta se fecha e ele desce os degraus se banhando novamente na chuva fria e bruta da noite. Eu sempre tive medo que ele não voltasse, mas ele sempre voltou. Vou à cozinha e vejo um copo de água sentada á mesa observada os rachados do teto, a solidão da noite é o que aprecio às vezes. Cruzo a cozinha até a sala, me esparramo no sofá cobrindo-me com seu forro. Seu que Judith ficará frustrada a me ver dormindo aqui pela manhã, mas não me importo. Lembro-me da agenda, e que a coloquei na gaveta da estante, salto do sofá e a pego. Abro a página seguinte, que parece estar mais simples.
27 de Setembro de 2000
Após uma semana voltei ao consultório, ainda me sentia Ruthie mas as pessoas olhavam como se fosse uma psicótica. Sentei-me na cantina dos pacientes perto de uma mulher que me chamou atenção, parecia ser tão sã e serena. Ao conversar com ela percebi que é uma mulher calma, que foi esquecida por seus familiares a dezessete anos. No meio de tanto sofrimento, a perguntei qual foi a pior coisa que havia visto, ela olhou ao além como se lembrasse dos detalhes. Com uma voz desapontada disse: “Eu vi uma mulher que havia acabado de chegar dar a luz, ela era muito calada e somente carregada algo em cima de sua barriga. No dia que a menina nasceu, ela estava no refeitório, quando o sangue começou a escorrer por suas pernas e transparecer por sua veste branca, demoraram a se importar com ela. Ela morreu naquela noite. Ninguém se importa conosco, eles somente nos colocam aqui para sermos um problema a menos para a sociedade. Era Darcy”.
Penso o que acontecerá conosco daqui alguns dias, eles nos jogaram na rua? Alguns de nós somos dependentes dos remédios, com certeza morreremos em algum canto da área mais pobre do estado. Preciso melhorar pela minha família, logo verei meus sobrinhos juntos desde muito tempo. Ah, meus olhos brilham em pensar em Ben, Mohammed e Kristen.
De sua,
Ruthie.
Minha visão embaça com as lágrimas que acumulam, minhas mãos trêmulas derrubam a agenda no chão. Darcy, sim, agora seu onde esteve. De repente vários pensamentos vem a minha mente, sinto que devo ligar para Angela. Porém é tarde e não posso ligar dessa forma, acabaria gritando de tanto entusiasmo. Imagino tudo da mesma forma que a mulher descreveu, deve ter sido doloroso. Meu coração ainda está acelerado e um sorriso marcante em minha face, adormeço aos poucos enquanto crio expectativas para manhã. A luz cobre meu rosto enquanto me encolho mais no sofá, ouço o barulho das cortinas se abrirem e do salto fino de Judith caminhar pela casa, porém a preguiça não me permite levantar. Ela coloca a mão em meu ombro e me balança chamando-me.
– É por isso que eu não gosto de você – comento num tom irônico com os olhos ainda fechados.
– Trabalho para você, não deve gostar de mim – um tom seco e grosseiro em sua voz, ela ajeita a postura e volta a me encarar. – Não deve bem dormir na sala... ainda mais nua.
Abaixo o olhar em meu corpo, não estou nua. Além do mais, é cedo o suficiente para saber que ninguém entrou na sala antes. Mesmo assim puxo mais o forro do sofá a altura dos seios, seu olhar de desprezo me encara dos pés a cabeça, já me acostumei com Judith cuidando de mim. Seu jeito grosseiro não me assusta, é tão frágil quanto as flores que habitam em nosso jardim. Retribuo o seu olhar com um sorriso, que ela ignora e volta a recolher as almofadas no chão.
– Pode deixar, eu recolho – digo dando os ombros antes que ela descubra a agenda. Mesmo assim ela continua a recolher.
– Vá vestir-se antes que sobre para mim.
Me ajoelhei e recolho a agenda, me ergo e caminho em direção às escadas. Quando ela torna a chamar-me, me viro atendendo seu chamado.
– Angela passou por aqui mais cedo, pediu para que alguém lhe levasse para o tal almoço. Te levarei às onze e quarenta.
Assento e dou a volta prosseguindo o meu caminho, após um longo banho me visto e penteio os cabelos. A caixa ainda continua no mesmo lugar, sem fazer mínimo barulho pego-a e a coloco em minha bolsa, quando o grito percorre pela casa alertando que já está na mesa. Corro nas pontas dos pés até a sala e aula e puxo da gaveta um modelo antigo do mapa da cidade, em que o hospital psiquiátrico está presente. O segundo grito ecoa novamente nos chamando, pelas vozes percebo que minha mãe já desceu, o que significa que não preciso ser tão cautelosa em relação a ela. Ouço o assoalho descolado ranger, ergo o olhar e vejo Ben cambalear em minha direção, rapidamente coloco o mapa na bolsa e a jogo para trás do ombro. Ele corta caminho descendo as escadas direto para o corredor, quando novamente um grito agora mais curioso chama-me. Jogo a bolsa para a escada do porão e desço as escadas para a cozinha.
Minha mãe está à mesa redonda e ainda veste sua camisola, os olhos de Ben ainda não estão totalmente abertos e sua cabeça luta para continuar em pé enquanto a preguiça a derruba. Os cumprimento e eles respondem monotonamente em uníssono. Pego uma pequena fatia de bolo e enfio de uma vez na boca, minha mãe me fita agoniada com a ação já Judith balança a cabeça como se fosse sem solução. A gargalhada de Benjamin preenche o vazio sonoro, mas logo ele volta a seu silêncio. Fico por um tempo sentada junto à eles, Judith sai da sala por uma vez como nas refeições anteriores, a mão de mamãe percorre a mesa em direção à minha e a esfria como a sua.
– Poderíamos ficar no jardim no almoço de hoje.
Os olhos de Ben brilham com as palavras dela, com o tempo curto quase nunca comemos fora. Eu sei que ela odeia comer ao redor de formigas e fungos, mas está tentando me convencer. A vontade de nós vermos novamente ao redor das folhas verdes e dos dentes-de-Leão cresce em meu coração, mas uma pontada repentina hesita em passa e tempo com ela é deseja mais que tudo desvendar quem é Darcy. Um curto e cruel “não” sai da minha boca, Benjamim vira o olhar triste a minha mãe, ela toca a ponta de seu nariz e promete que irão comer de forma diferente hoje. Lamento por ele, mas não resisti a tal tentação. Saio da mesa e quando estou a um passo de sair de sua vista dou um passo atrás.
– Peço permissão para sair hoje com Angela.
Ela pensa por alguns segundos e então permite. Subo com pressa as escadas, estou á um passo do porão, a mapa está jogado ao chão e minha bolsa revirada. Resmungo alto enquanto procuro a agenda no chão, tento ignorar as emoções pela mancha de sangue no chão. Quando uma sombra alta surge atrás, ainda de quatro viro-me e encaro o ser detrás dos pés a cabeça. É Judith, ela segura a agenda pela a argola e a balança enquanto contém o riso da minha situação. Oh, não.
– Está procurando a agenda de Ruthie? – ela solta uma gargalhada horrenda – Não deveria pegar as coisas dos outros.
Sento-me no chão e me rastejo no chão, mordo com força para conter a raiva até o gosto do sangue surgir. Ela lentamente se abaixa e passa a mão ao redor do meu rosto parando as pontas dos dedos no lábio inferior.
– Está procurando por isso?
A respiração dela se ofega mais a cada aproximação, seus olhos clareiam diante da luz vejo-a tomar outra postura. Minhas mãos formigam, aperto os olhos desejando com todas as forças que aconteça o mesmo que da vez anterior, preciso que não se lembre disso. Meus dedos queimam e quando sinto a vibração estranha, jogo-os para o lado e ela cai na mesma direção. Me aproximo dela, caiu próximo a possa cega de sangue, o cheiro insuportável entra em meu nariz e toco o seu pescoço, ainda respira. Exprimo com meus dados até suas veias esverdeadas estufarem, passo as unhas em seu pescoço levemente e vejo-o rasgado e o sangue escorrendo por ele.
Após dar de conta com a minha ação tento comandar-me sobre o pânico: Isso não é real, isso não pode ser real. Não serei um monstro como estão pensando. Tento secar o sangue com a blusa, mas é inútil. Pego a agenda dentre seus dedos, tentando me convencer que estava somente defendendo-me, beijo-a a bochecha.
– Me desculpa, mas não me torturará – sussurro suave.
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