A Destinada

7 A Rosa da Esperança


Notas iniciais
Olá meus amores, Sei que queriam saber mais sobre a Angela, acho que nesse capítulo vai dar um pensamento diferente. Boa leitura! Nos encontramos nas Notas Finais?

Assim que minha mente voltou a ter um pouco de clareza, eu subi as escadas nas pontas dos dedos sem cometer qualquer barulho que fosse. Em meu quarto, deitei-me na cama e enterrei a cabeça no travesseiro. Aquele frio estava me matando, queria saber onde eu estava naquele momento. Minha mente ainda me lembrava dos meus momentos de pânico, como poderia esquecer Ruthie que segurei em meus braços na esperança que voltasse a vida? Mas agora me sentia pior, a minha esperança estava morta, Angela que sempre sorria para iluminar tudo e sempre estava a disposição para me ajudar. Não suportaria. Mas antes que uma lágrima de dor voltasse a escorrer pelo meu rosto, as lembranças voltaram – em poucos dias, duas pessoas em meus braços dormiram em sono profundo em rumo á eternidade. Por outro lado, sinto o meu porto seguro habitado por coisas ruins que veem me tirando o sono dos últimos dias. O demônio que Sr. Banks se referia em seus pensamentos, um frio no estômago tomou-me naquele momento em que senti uma mão em meu ombro. Eu preciso ter coragem, preciso virar e encarar. Puxei o ar e lentamente virei-me, diante de mim havia somente uma cadeira, mas ainda havia uma mão apoiada em meu ombro e sentia alguém me encarando. Estiquei o braço passando a mão por cima da cadeira, bem no principio algo me impediu de concluir meu destino.

Uns frios veios em minha direção fazendo que todos os pelos de meu corpo de arrepiassem, e quanto dei em conta meus dentes rangiam e meus olhos percebera que nunca estiveram tão arregalados antes. Apertei o forro da cama e em silêncio voltei á um lugar em que não me lembrava, algo inimaginável, as misturas das lembranças de todos e uma memória minha.

Tudo se mantinha escuro somente com uma brecha de luz, pessoas não paravam de falar e mesmo assim eu estava tão calma. Um coração batia forte e estremecia todo o lugar, foi inevitável não sorrir, quanto luz foi crescendo. Mas cada vez que me aproximava, ficava mais agitada me debatendo mais querendo voltar, quando olho para cima não é mais uma brecha de luz e sim trevas que fazem-me disparar num choro silencioso. Algo toca-me e me puxa para o abismo, meus olhos correm ao redor de toda a sala, pessoas desconhecidas cortam uma parte de mim enquanto ouço mais um grito, percorro o olhar novamente a sala a procura do que emitiu o som e lá está, meu coração disparar e um berro fino e choroso escapou de minha garganta. Eles me levam ao colo de alguém que nunca vi o rosto, porém sinto que sempre conheci, ela sorri tanto que me encanta e logo meus olhos estão grudados somente em seu rosto. Quando sua respiração começa á falhar, ela olha para os lados e vê algo tão escuro que as batidas de seu coração vão ficando mais fracas, ela olha em minha direção com um sorriso tão calmo e sussurra:

— Agora é sua vez, seja forte Kristen. Saiba que eu sempre, sempre, estarei ao seu lado. Eu não consegui conter o demônio, mas filha, sinto que você seja tão forte quanto o pulsar do seu coração. Eu te amo tanto... – ela parou por um segundo e voltou a suspirar – perdoe-o, seu pai o ama tanto quanto eu. Mas tudo que vem em sua mente é o quanto o mundo será melhor sem o abismo, porém é você que vai derrota-lo e não traze-lo á Terra. Seja destemida!

Algo começa apitar mais lentamente, me tomam de seu colo e me entregam ao homem...

Tão fortemente algo me puxa a realidade, arquejo e passo a mão sobre a cadeira e dessa vez nada me impede. Ouço um fino salto bater forte contra o assoalho, o que me lembra de fazer silêncio. Logo reconheço as vozes, mamãe e papai discutem em frente á porta do quarto. Fecho os olhos e respiro fundo, preciso me concentrar.

— Eu só quero lhe dizer que eu não aguento mais isso! Eu vi minha filha coberta de sangue e chorando desesperada porque segurou em seus braços a tia morta, isso não foi á muito tempo... – minha mãe rebate em tom alto.

— Isso não é culpa minha, Esther – a voz do meu pai continua serena. – Só quero te contar que eu não escolho as pessoas que morrem e se pudesse escolher, obviamente, escolheria sempre vê-la sorrindo. Eu sempre escolheria proteger minha menina, Kristen também é minha filha...

Eu suspiro alto, por todo esse tempo meus olhos estiveram tão fechados. Meus pais não querem me fazer sofrer, por outro lado algo insiste em dizer que a culpa é minha.

— Precisamos contar para ela, sabe o quanto Angela era importante na vida dela. Sua única amiga, vai doer muito, mas Kristen já é grande e deve aprender a lidar com as percas, se acostumar – meu pai diz com voz abafada, ele deve estar abraçando-a.

— Não quero que ela se acostume com a morte! Ás vezes me arrependo de ter limitado tanto eles, Ben é tão solitário que a única vez que se sente bem é quanto está balançando as pernas naquela janela. E Kristen com aquele violoncelo tão velho que suas cordas se arrebentam á cada semana, sua única companhia era Angela e agora ela se foi...

— Ela vai ficar bem – meu pai parece rir – não conheço ninguém mais forte que a Kristen.

— Juntos? – minha mãe diz entre suspiros.

— Juntos.

A porta lentamente se abre, enquanto eu fecho os olhos e espero eles adentrarem. Meu pai senta aos meus pés e minha mãe á cadeira em minha frente, sinto sua mão fria e levemente úmida segurar a minha e pousar em seu colo mansamente. As mãos do meu pai deslizam sobre minha coxa, me trazendo á imagem dos dias que os acordava de madrugada porque achava que havia monstros atrás da porta. Eles pegavam em minhas mãos e me levavam até meu quarto e olhavam atrás da porta e não havia nada, e então se sentavam exatamente assim até eu voltar á dormir. Lentamente abro os olhos e me deparo com o sorriso triste de mamãe.

— Oi, querida.

— Mãe? O que aconteceu? – pergunto.

— A mãe da Angela ligou aqui – ela suspirou e fixou o olhar no meu. – Kristen, eu não quero que nos culpe... Assim que Angela saiu daqui ela estava viajando em direção á sua casa, em meio á curva que sempre há acidentes, sabe? – eu assenti – Angela estava numa velocidade muito alta e bateu o carro, ela ainda foi levada para a Emergência, mas acabou sofrendo uma hemorragia interna. Lamento Kristen, mas ela não resistiu.

Permaneci paralisada, Angela havia partido em meus braços mais cedo. Seria impossível ela estar no acidente, não era Angela. Mesmo assim ela havia esfarelado em minhas mãos, algo teria que acontecer depois. Saltei nos braços do papai, que acariciou meus cabelos enquanto chorava silenciosamente em seus ombros, ele dizia palavras de conforto que não funcionavam. Aquela dor continuava ali, não parava nunca. Aquele sorriso que um dia brilhou não estava mais brilhando. Mas com o passar das horas eu fui percebendo que eu ainda amava Angela, e que aquele amor jamais iria se apagar.

Após a janta, que optei por comer só em meu quarto, fui até o quarto de Ben. Eu que estava com medo demais para dormir só naquela noite, além do mais eu não o via desde manhã. Bati na porta de seu quarto e ele logo abriu. Assim que me viu ele saltou em meus braços, aquele abraço realmente era confortante e me fazia esquecer-se de tudo ao redor. Era tão inocente e carinhoso, com tudo ao meu redor acontecendo, as pessoas partindo e me deixando destruída, eu não poderia imaginar um lugar melhor ou imaginar minha vida sem Benjamin.

— Eu fiquei sabendo de Angela, fiquei muito triste. Rezei pedindo que ele cuide dela lá no céu! – ele disse erguendo á cabeça aos céus. – Você acha que ela foi para o céu?

O levei até a cama e o deitei enquanto pensava na resposta certa, Angela me disse sobre as coisas ruins que cometeu. Porém não pensava numa pessoa melhor para morar no céu, tão bondosa e cheia de compaixão que quando deparava que estava pensando nela, suspirava pensando na saudade que já existia. É tão horrível pensar que nunca mais irá ver alguém, que nunca mais vai ouvir a voz ou abraçar. Meus olhos já marejavam quando encontrei a resposta certa.

— Eu nunca conheci alguém assim como Angela, todos temos pecados. Porém quando somos muito bons podemos vencer o mal, você acha que ela era boa?

— Claro, principalmente quando brincava comigo.

Eu sorri para ele que logo me correspondeu, ele poiou a cabeça sobre meu peitoral e logo adormeceu com as batidas do meu coração e segurando minha mão. Eu não dormi, porém relaxei a noite inteira por sentir que ao meu lado estava alguém que realmente me amava, meu irmão. Apertados naquela cama, naquele quarto tão silencioso que podia ouvir nossa respiração. Ali me senti a vontade para colocar tudo para fora, talvez ele não tenha ouvido, porém eu estava feliz por simplesmente estar comigo.

Aos poucos o céu escuro e estrelado deu lugar ao leve rosado, e logo o sol voltou a brilhar contra a janela do quarto. Ben ainda dormia tranquilamente, quando alguém bateu á porta. Assim que permiti a entrada, Judith colocou a cabeça na porta entreaberta e a me ver suspirou aliviada e finalmente adentrou.

— O velório é daqui uma hora e meia, separei seu vestido e sapatos. – ela esticou os braços e ajeitou Benjamin e então o pegou em seus braços. – Seu pai quer conversar com você assim que pronta, se apresse.

Eu assenti, estava tão exausta que meus pés mal se importavam em se levantar a cada passo. Assim cambaleei até meu quarto, um vestido preto estava esticado sobre a cama, não consegui conter um suspiro decepcionado por ter que usa-lo. Despi-me e deslizei os pés na água quente da banheira, encostei a cabeça na beira e repousei ali por alguns minutos. Quando menos percebi minha mente havia voltado a Angela novamente, como ela estava naquele acidente? Segurei em meus braços minha amiga morta, e nada foi tão doloroso ao soltar seu pó ao ar. O pó, senti um frio na barriga ao me lembrar, era algo tão estranho. Abri os olhos e banhei-me com a água acumulada na mão. Após mais alguns minutos a luz alaranjada piscou, me levantei e peguei o roupão. Com o maior sacrifício vesti o vestido que estava na cama, calcei o sapato baixo e preto e parti o cabelo ao meio.

Quando finalmente estava pronta, desci as escadas e encontrei meu pai em frente ao espelho ajeitando a gravata. Meus passos desaceleraram na esperança dele não me ver, mas foi inútil. Porém assim que ele se virou a mim, passos rápidos e barulhentos desceram a escada virei-me e senti uma mão gelada encostar a minha. Benjamin.

— Eu vou ficar com você – ele estrilou. – Vou te proteger, como você me protege quando estou com medo.

Um sorriso triste acendeu meu semblante, realmente me confortava em estar com ele. Talvez seja pelo fato que, eu sei como é ter uma vida sem o Ben e também sei que não é fácil se sentir só. Então ele sempre foi minha melhor companhia, desde o momento em que entrou pela porta da sala enrolado em cobertores.

— Então falo com você depois, Kristen. Sua mãe te espera no jardim – ele avisou me encarando através do espelho.

Ben caminhou na frente enquanto arrastava pela sala e cozinha até o jardim, distante eu vi minha mãe ajoelhada diante das flores. Benjamin soltou minha mão e correu em sua direção se jogando de joelhos ao seu lado, tirei os sapatos e caminhei lentamente sentindo a grama entre os dedos, sem sentir mínima falta dos sapatos pendurados nos dois dedos da mão. Toquei seu ombro e ela logo acariciou os meus, e assim me ajoelhei ao seu lado. Em seu colo havia uma tesoura, no fundo do meu peito senti uma pontada a encarar aquelas rosas brancas.

— Me lembro quando você me pediu para plantar essas flores, realmente não queria olhar para o meu jardim e me lembrar disso. Mas aqueles seus olhinhos brilhantes e seu sorriso levado me convenceram, eu plantei pensando que um dia você iria precisar dessas rosas. Me sentia tão só – ela enxugou as lágrimas com as costas da mão – e quando sabia que teria uma companhia eu passava horas planejando tudo, era tão doloroso perde-las... Querida, Angela era sua única companhia e eu quero que você lhe entregue uma rosa assim que for se despedir.

Antes que pudesse recusar ela cortou o caule da flor e me entregou, eu joguei-a no chão e rapidamente a abracei. Sempre encarei minha mãe como a pessoa que só me criticava, colocava as provas em cima da mesa e me apontava. Mas naquele momento, em seus braços, eu senti o calor em que ela me dava. Era tão difícil pensar que de todos os filhos que gerou – antes de mim — ela nunca pode tê-los, e sua menina que ela cuidava como uma flor tirando seus espinhos e esperando o dia de colher, a via de uma forma tão deplorável. Mas ela nunca desistiu de mim, sempre esteve ali para me podar.

— Acho que estamos atrasados – eu alertei.

Ela recuou e novamente pegou a flor que havia caído e me entregou, levantou-se e me ergueu. Ben logo entrou em nosso meio e segurou nossas mãos em direção á garagem, meu pai estava encostado ao carro rodopiando no dedo indicador uma chave. Percebi que minha mãe negou algo enquanto dizia em silêncio algo á ele, assim que nos aproximamos meu pai lançou um olhar nervoso a Ben que moeu minha mão de tanto medo.

— Kristen, alguém precisa ir buscar Georgia enquanto buscamos as coroas. – ele me entregou a chave e arrancou com força o Benjamin de minha mão. – Vá busca-la, te encontramos no cemitério.

Logo após um acidente de Angela em direção sua casa, ele estava pedindo para ir lá só. Minhas pernas tremeram e eu soltei um frio suspiro de medo. Os olhinhos de Benjamin marejaram enquanto ele lutava para voltar aos meus braços, mas meu pai o segurava com muita força.

— E agora? – ele perguntou em silencio.

— Eu ficar bem, eu te amo. – respondi sussurrando.

Mamãe mandou um beijo ao ar e meu pai arrastou Benjamin pelo o corredor, ele ainda estava com o rosto voltado a mim e a mão esticava a pedido que eu o puxasse, mas não puxei. Assim que estava prestes a entrar no carro ele encolheu os dedos em forma de despedida. Eu bati a porta com brutalidade e liguei o motor, e dei partida. Eu estava na velocidade abaixo do recomendado, mesmo assim me sentia vulnerável á um acidente em meio aquela mata deserta, em beira a curva eu estiquei o pescoço para poder ver o asfalto: a prova que ela havia tentado frear estava no chão, cacos de vidro e algumas gotas de sangue. O volante rapidamente deslizou da minha mão e o carro tomou outro rumo, fechei os olhos automaticamente e tentei domar o volante, o coração estava disparado e meus músculos encolhidos quando finalmente consegui voltar ao controle. A casa de Angela era um pequeno sobrado bem cuidado, assim que estacionei em frente ao portão a porta se abriu. A mãe de Angela parecia bem diferente das vezes que a vi, estava pálida, com pálpebras inchadas e marcas horrendas embaixo dos olhos. Com certeza sua noite foi havia sido muito diferente da minha. Ela carregava uma pequena bolsa, porém parecia pesada por ela se curvar para o lado. Então saltei do carro para ajuda-la, de perto ela lembra mais ainda Angela pelos cabelos e traços.

— Deixa que eu lhe ajudo. – ela apontou para dentro de casa – Tem mais alguma coisa que a senhora quer pegar?

Ela assentiu e entrou, com ela eu também adentrei e segui seus passos. Mas ao passar pela porta rosada e aberta, não pensei duas vezes e entrei. Tinha que haver alguma pista assim como a de Ruthie, não precisou muito para encontrar perto da cabeceira uma pequena agenda.

Pedaço do céu.

Estava escrito na capa, me sentei e abri com cuidado.

“Para mamãe, quando estiver preparada.”

Ergo o olhar com delicadeza, de frente a porta sua mãe está parada secando as lágrimas e puxando a respiração para não voltar a chorar. Ela caminha lentamente e senta-se ao meu lado, me rodeia com seus braços quentes. E pega delicadamente o caderninho da minha mão, colocando-o em suas pernas e então se vira e faz um acaricio breve em minhas bochechas.

— Agora a minha Angela é um pedaço do céu, estou tão orgulhosa da minha menina. – ela levanta os olhos que começam a transbordar de lágrimas, um carinho especial ao falar lentamente as palavras que carregam o maior peso que existe. Ela desliza a ponta do dedo no caderninho. – Eu não entendo o por quê de agora, Angela estava feliz pela surpresa que iria fazer a você. Ah – ela levanta o olhar ao além trazendo a recordação – ela dançava noite e dia, e sempre que iria resolver algo para isso, ela ia cantarolando. Usou todo o dinheiro que tinha para isso...

Não precisava saber muito, todos sabem que a sua família tinha necessidades que só Angela poderia suprir. Por que ela gastaria algo comigo? Tenho de tudo que preciso, ás vezes até um pouco mais do que posso ter. Mas ela só tinha aquele pouco, e não poderia ser alguém mais caridosa do que já era. As palavras de Georgia muito me intrigaram, ela entregava a culpa de Angela em meio o acidente, como se fosse de propósito. Aquilo não poderia ser real, Angela morreu e eu soltei seu pó ao vento... Não foi um acidente.

— Do que a senhora está falando?

— Não poderia estragar a surpresa da minha filha, na hora certa você vai ver. Agora vamos, algumas pessoas precisam de nós.

Ela se levantou e puxou-me pelo braço, trancando a casa e me levando ao carro. Enquanto meus olhos se concentravam na pista, minha mente ainda estava presa a Angela. Em pouco tempo nós iriamos ao cemitério e tentar desvendar a minha morte, mas agora estava indo me despedir dela pela última vez. Mas, quem se despediu de mim? Olhando ao redor algo me intrigou, estavam os carros em frente a mata fechada e pessoas circulavam a todo momento procurando algo olhei ao canto e vi um riacho em que o sol batia e refletia como um espelho. Eu já estive ali.

Saltamos do carro em direção a pessoa que mais servia, uma mulher baixa de cabelos castanhos. Seu semblante entregava espanto e cansaço, como sua coluna corcunda.

— O que houve?

— O cemitério está fechado há muito tempo, não podemos enterra-la nesse local.

O rosto da mãe de Angela se fechou, ela deu um passo atrás e logo soltou um rugido:

— Foi nesse local que Angela escolheu, foi o que ela mais me pediu!

Aquele cemitério, ela não me trouxe aqui para ver meu túmulo e sim para mostrar onde seria o dela. Angela estava com os dias contados, antes mesmo de aparecer para mim.

...

Após algumas horas eu estava de frente ao seu caixão branco e seu corpo estava rodeado de rosas vermelhas. Sua expressão estava serena e me lembrava ela sorrindo para mim, por outro lado não parecia que era Angela: o corpo não estava mais habitado, mas ela não parecia estar em sono tranquilo e profundo e sim ao pesadelo interminável. Dei um último suspiro e beijei sua testa:

— Aqui é o nosso adeus Angela, você esteve ao meu lado desde sempre então não sei como poderei deixa-a ir...

Rapidamente me distanciei e o caixão desceu, e assim que o sol bateu no vidro assim como bateu no riacho um reflexo rápido transpareceu um homem estava parado por cima de outro túmulo, seu rosto eu não conseguia ver, mas estava de terno preto e seu rosto coberto por chapéu formal. Joguei a rosa branca. Um braço me puxou bruscamente e segurou meu pulso, virei-me e vi papai com o semblante pacifico e olhos furiosos.

— Você acabou com ela antes do tempo, você matou Angela. – ele sussurrou apertando os lábios de fúria.

— Eu não matei Angela – choraminguei.

Ele me arrastou em meio a multidão apertando meu braço cada vez mais forte, quando já não conseguíamos ouvir o murmuro e os gritos de ninguém, ele apertou minha nuca e me jogou contra o chão. Não queria chorar, não precisava. Ele soltou o cinto que segurava sua calça, e voltou a exclamar:

— Você matou Angela!

— Eu não a matei.

— Tire o vestido!

Lentamente eu desci o zíper e deslizei a mão sobre minha pele fria, a terra em meus joelhos me incomodava e tinha certeza que os rasgavam. Quando o vestido já cobria somente minhas pernas, o cinto desceu sobre minhas costas tão rapidamente que senti latejar quando voltou a subir, meu grito somente ecoou dentro de mim quando o cinto voltou a subir. Tenho que aguentar. O cinto subiu novamente e despencou sobre minhas costas, é insuportável.

Virei-me e lancei meus olhos nele me arrastando com uma mão, minhas pernas estavam cobertas pelo barro e o vestido apertando minhas coxas e não me deixando levantar-me.

— Papai, pare! – eu suspiro e as lágrimas transbordam – eu não quero te machucar, eu te amo...

Novamente o cinto desce sobre minhas coxas que me fazem tremer de dor, quando olho ao vestido que rasgou, vejo que minha pele rasga a todas as batidas. Antes mesmo dele levantar o braço para preparar a próxima, eu o lanço meu braço e ele caí sobre o outro lado.

Eu machuquei meu pai.

Eu tenho nojo de mim.

Ele se levanta novamente, seu braço se ergue como meu corpo que gruda contra o caule de uma árvore, me mantenho forte mesmo com a respiração quase ao fim quando ele se aproxima e rasga minha coxa do começo ao fim, a árvore se estremece com a minha dor. Sinto uma pontada em meu peito e sinto o sangue descer.

— Papai, por favor –arquejo – eu não quero te machucar, eu te amo... mas não posso deixar que me mate.

— O demônio precisa morrer! – ele berra.

Por todos esses anos eu ouvi o grito do meu pai, alertando que eu caí e preciso de ajuda, que alguém está me machucando e ele vai me proteger, que ele me ama assim que viaja. Esse não é meu pai, esse não é meu pai! Eu exprimo meus olhos e o lanço para longe, até onde não tenha força o suficiente para me manter naquela árvore. Caio no chão batendo a cabeça contra ele, queria pedir ajuda, mas não vou.

Minhas pernas tremem com os calafrios da dor, aperto entre meus dedos a terra e me mantenho parada entre gemidos. Preciso dormir em sono profundo nesse momento, mas quando meu coração ecoa em meus ouvidos eu tenho certeza que ainda estou viva. E não posso desistir, eu não sou o demônio que deve morrer.

Notas finais
Vocês achavam que Judith e o Sr. Banks eram os únicos? O próximo capítulo promete que vocês descobriram a surpresa de Angela. Não prometo qual será a reação, mas acho que irão gostar.