A Despedida

1 A despedida


A polícia quase nos pegara e havíamos corrido para que ele não fosse flagrado negociando. Alejandro segurava minha mão, ao meu lado, enquanto eu ligava para papai. Só depois de ter gritado ao telefone, ele concluiu que realmente precisava me buscar.

Após quinze minutos, chegou. Desceu do carro, berrou pra mim outra fez, xingou meu namorado e o fez ir embora. Entrei no veículo sem dizer muito além de um “vá se ferrar”, e fomos para casa.

Levei um sermão sobre como as drogas poderiam estragar minha vida, e como eu já estava debilitada. Depois, ele falou sobre a forma com que Alejandro estava se aproveitando do meu frágil coração para me fazer uma cliente mais assídua, e concluiu dizendo que me colocaria em uma clínica de reabilitação a força se eu não parasse com isso.

Eu já ouvira isso muitas vezes antes. Já estava acostumada com respondê-los com xingamentos, a levar tapas na cara de minha mãe indignada, e de correr como uma mocinha inocente a Alejandro quando isso acontecia.

– Papai, não quero seus conselhos. Estou melhor assim do que quando você me criava como sua filha.

Ele freou o carro num cruzamento, e ao parar sob o sinal vermelho, olhou para mim com os olhos marejados. Pobre e desprezível homem.

– Ah, filha, nós só queremos que você volte saudável e feliz para nós. – disse, agora chorando com mais desespero.

Ignorei-o e seguimos até casa. Mamãe estava chorando sentada na mesa da cozinha. Adelaide, a empregada da família que ajudara a me criar estava ao seu lado, lhe consolando.

– FILHINHA! DÊ UM ABRAÇO NA MAMÃE! AQUI!

E foi o que eu ouvi antes de entrar no banheiro e tomar um banho demorado. Notei como minhas mãos estavam secas, e minhas unhas quebradiças. Afirmei para mim mesma que só precisava de uma boa noite de sono, de um bom hidratante e talvez de um esmalte decente. O vermelho-biscate que eu usava há tempos provavelmente estava viciando minhas unhas e fazendo-as ficarem ruins, assim como a cocaína provavelmente fazia comigo.

Enrolei-me na toalha, coloquei uma roupa simples e saí sem me despedir. Andei até uma praça próxima dali, e liguei para Alejandro. Seu carro preto e luxuoso apareceu em meia hora. Entrei e nos beijamos. Depois fizemos amor, ainda parados no mesmo lugar, e fomos para o meu apartamento. Lá, ainda sem nenhuma troca de palavras, ele me abraçou e disse que precisava ir agora, por questões de negócios. Disse-lhe que o amava e pedi para ele voltar rapidamente para meus braços. Ele sorriu, tocou meu rosto e então foi embora.

Passei a noite sentada na cama, com meu canudo improvisado e os poucos gramas que restava do pozinho encantado. Depois de alguns minutos, comecei a ver os presidentes dos Estados Unidos, Japão, China, Espanha e outros. Em trinta, conversava com eles. Em sessenta, estávamos transando.

Delirei nas últimas horas que restavam para o nascer do dia, e dormi somente após ver o sol se erguendo da janela do meu quarto.

Acordei à tarde, com a respiração ofegante, arritmia e uma enxaqueca terrível. Ouvi vozes vindas da cozinha, e identifiquei pela maçaneta Alejandro, conversando com Fernando e Roberto, seus capangas. Troquei-me e vesti algo que me deixasse visualmente saudável, e fui até eles. Fernando sorriu para mim e me beijou no rosto, dizendo que estava com saudades do seu bebê. Roberto tocou minha cintura e tocou os lábios na minha mão. Sentei-me ao lado de Alejandro e ele me abraçou, continuando normalmente a conversa com os outros dois.

Comemos uma boa pizza de mozzarella e bebemos um bom champagne. Após um tempo, os dois se foram, e fiquei com meu namorado na cama, beijando-o continuamente e fazendo-o chamar meu nome a todo o tempo. À noite, ele foi embora. Deu-me mais um saquinho com mais alguns gramas de droga, pediu para que eu tomasse cuidado para não exagerar. Ri, nos abraçamos e ele se foi novamente.

Senti-me só, e telefonei para minha velha amiga, Starlight, dizendo-lhe que iria para sua casa passar a noite. Peguei algumas roupas e duas garrafas de vodka e tomei o ônibus para lá.

Assistimos um filme de terror, e passamos a noite gritando, bebendo, pulando e nos drogando. Em uma hora depois de chegar, eu já dizia adeus à minha sanidade. Mais tarde, nem lembrava que era dotada de uma.

Cheirava loucamente, tomava seguidamente vários copos de vodka pura. Até que eu caí, desmaiei e não lembro o que houve depois.

Acordei, abri os olhos lentamente, e percebi a pintura branca por todos os lados. Tentei me mover, mas percebi coisas perfurando meu pulso e braços. Não senti minhas pernas, embora pudesse ver a ponta dos pés com um pouco de dificuldade. Estava sedada, em um hospital, terrivelmente mal.

Sem delongas, uma mulher tocou meu rosto. Era mamãe. Ela chorou, disse que achavam que eu iria morrer. O mesmo fez papai.

Pisquei para eles, e vi Satarlight no canto, com os olhos molhados. Sorriu para mim, e o fiz também para ela.

Mais tarde, descobri que tivera uma overdose. Provavelmente, havia usado mais cocaína do que usara em um mês todo, e bebido mais de um litro de álcool. Starlight me pedira desculpas aos prantos e disse que a culpa era dela, falou-me que não saberia o que fazer se algo pior tivesse acontecido por sua causa.

Percebi que meus pais não a olharam com repugno como antes. Provavelmente, acharam que ela me encontrou em meu pior estado e me levou ao hospital por isso. Preferia que eles não soubessem do resto.

Fiquei uma semana me recuperando deitada na mesma maca, no mesmo hospital. Em nenhum dos dias, vi Alejandro, nem Fernando, nem Roberto.

Senti pena de meus pais, e consegui sorrir para eles, durante o tempo que eles se revezavam para cuidar de mim. Lembrei-me de minha infância, quando eu vivia bem e alegre ao lado deles, e desejei voltar a esse tempo.

Senti pena de meu corpo, e percebi o quanto ele estava descuidado. Enojei-me da minha mente tomada pelo vício, e desejei me recuperar.

Depois de receber alta, liguei para Alejandro. Ele disse estar viajando, e iria me ver no final do dia. Esperei-o ansiosamente.

À noite, bateu em minha porta. Abraçou-me, e perguntou se eu estava bem. Disse que havia viajado para outro estado enquanto eu passara mal, e não soubera do que acontecera.

Perdoei-o, e disse-lhe tudo que eu pensara sobre meu vício na última semana.

– Está ficando louca? Que merda está dizendo? Vai terminar comigo e dizer que sou uma má influência agora? – ele riu, virou as costas e foi embora.

Meu peito foi tomado por raiva, descontentamento e tristeza.

Dormi mal. Não recorri a nada para aliviar meu sofrimento, mas ao tardar da noite, Alejandro chamou meu nome pela porta. Deixei-o entrar e perguntei se ele viera me bater, se vingar ou algo assim.

Seus olhos estavam vermelhos. Pediu-me desculpas, falou-me que disse insanidades e que não queria que acabássemos o que tínhamos.

Mas eu somente chorei e lamentei pelo que eu iria dizer, e me despedi.

– Eu sei que somos jovens, e eu sei que você talvez me ame... Mas eu somente não posso continuar com você desse jeito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!