A Decisão
1 A Descoberta
Percy: “Annabeth me olhou furiosa,
como se fosse me dar um soco.
E então fez algo que me surpreendeu
ainda mais. Ela me beijou.”
(Percy Jackson e os Olimpianos, A Batalha do Labirinto)
Estava terminando um exercício na academia quando notei que hoje cometi um dos maiores erros da minha vida. Para vocês entenderem melhor o que aconteceu, vou voltar para o que aconteceu de manhã, no primeiro dia de aula. E ainda mais em um colégio novo. Eu estava sendo levada para conhecer o colégio, quando um menino mais ou menos da minha altura — ou seja, um pouco baixinho já que eu tinha apenas 1,55 metros — esbarrou comigo. Vestia a calça azul e a camisa polo branca com a logo do colégio em azul. Quando ele se afastou e eu olhei para o seu rosto, vi que ele tinha olhos verdes, algumas poucas sardas, as bochechas coradas e um sorriso quase perfeito. Ele me encarou por alguns segundos, o que pareceu um século, então um dos amigos dele o chamou e sem falar nada, o vi desaparecer pelo corredor que levava ao laboratório de ciências. A secretária que estava me acompanhando, simplesmente continuou andando como se nada tivesse acontecido, em seus saltos altos, terno cinza com saia combinando e o cabelo preso em um coque perfeito. Fui junto com ela até a sala de aula. Quando chegamos lá, ela abriu a porta, o sinal tocou e eu ouvi o barulho de todos correndo para chegar às salas. Agradeci rapidamente e sentei em uma banca mais ou menos no meio da primeira fila. Quando todos os alunos sentaram e o professor finalmente chegou em sala, eu dei uma olhada geral no grupo e vi como a turma era grande. Tinha pelo menos 40 alunos naquela 8ª série.
Quando a turma se aquietou o professor começou a falar:
- Eu sou o novo professor de matemática, esse ano vai ser muito importante porque é o fechamento de um ciclo... — e eu não prestei atenção no resto porque notei um rosto conhecido no meio de tantos outros: o de Daniel, o menino que tinha esbarrado comigo hoje mais cedo. Ele fazia parte da equipe de vela na qual eu também estava. A equipe competia pelo Clube de Campo do Rio de Janeiro.
Quando o professor falou “E nesse ano temos uma novata, o nome dela é Luiza Lima e espero que gostem dela. Luiza venha cá, por favor.” Eu me levantei, mas na verdade queria era cavar um buraco no chão e me enfiar dentro. Ele colocou as mãos nos meus ombros e disse algo que realmente me deixou envergonhada, “Ela é da equipe de vela do Clube de Campo” e sussurrou para mim “Pode ir se sentar agora.” Sentei e fiquei lá esperando-o falar sobre outras coisas e desviar a atenção da turma, quando a coordenadora entrou.
Depois dela entregar para o professor alguns papéis e falar alguma coisa, ele se virou para a turma enquanto ela ía embora. “Aqui estão os horários da turma”. Todos comemoraram bem alto. “Luiza, pode distribuí-los para mim, por favor?” Eu me levantei, peguei os papéis e saí distribuindo e também olhando para a cara dos outros. Uma menina até cochichou:
— Eu acho que ela é a nova queridinha do professor. – E parou quando notou que eu estava ouvindo.
Quando eu colocava sobre a banca dos outros às vezes me agradeciam e outras pessoas apenas pegavam para ver ou guardar. Terminei de distribui-los e me sentei. O meu horário era assim:
Hora
Segunda
Terça
Quarta
Quinta
Sexta
7:20/ 8:08
Matemática
Português
Matemática
Matemática
Informática
8:08/8:56
Matemática
Geografia
Português
Matemática
Informática
8:56/9:44
História
Inglês
Português
Matemática
Artes
9:44/10:04
Recreio
Recreio
Recreio
Recreio
Recreio
10:04/10:52
Ciências
Português
Ed. Fís.
História
Artes
10:52/11:39
Ciências
Português
Teatro
História
Ed. Fís.
11:39/12:28
Filosofia
Inglês
Geografia
Ciências
Fps./Mov.
12:28/13:16
Geografia
Ciências
Horário de aulas da 8ª série D
Como eu tinha apenas dois cadernos de doze matérias cada, dividi um deles assim: Matemática 7 matérias, História 2 matérias e Ciências 2 matérias. Português 7 matérias, Geografia 2 matérias e Inglês 2 matérias também no outro. Na segunda, terça e quinta levaria apenas um caderno, na quarta os dois e na sexta nenhum.
Depois de duas longas aulas de matemática (eu quase dormi), veio história e tocou para o recreio. Todos saíram agitados, e eu peguei o meu lanche e sai andando bem devagar.
No início, eu não queria ir para um colégio novo, mas por causa da equipe de vela eu mudei. Todos estudavam nesse colégio, então eu entrei e com isso podemos sair todos daqui direto para o clube velejar e treinar técnicas a tarde toda, além de fazer intensivos.
Quando passei por um grupo de garotas que eu reconheci parei perto delas e falei:
— Oi meninas, como estão?
— Bem, você veio para o Marista, é?- Perguntou Olívia, minha melhor amiga.
Abri a minha maçã bem vermelha, dei uma mordida e concordei com a cabeça. Passei o recreio todo com elas e quando tocou eu fui para a sala D, Olívia foi para a F e as outras se dividiram entre as salas A, C, G e H. Todas nós somos do mesmo ano pelo menos.
Depois da aula de Filosofia, Daniel veio na minha direção sem nenhum amigo por perto. Quando estava do meu lado sussurrou:
— Quer ir para o cinema hoje de noite comigo, Luiza?
— Não sei se vai dar, mas se eu puder te ligo, ok? — Eu já estava saindo porque a minha mãe tinha chegado, quando ouvi a resposta dele.
— Tudo bem.
***
Depois de relembrar tudo aqui na academia eu fui ver que horas eram e como ele disse de noite e eram quatro da tarde ainda dava tempo de ligar para o Daniel, ir para casa (já que eu moro praticamente na mesma rua da academia), tomar um banho e me aprontar.
Disquei o número dele no telefone e depois de um toque ele atendeu:
— Alô, quem fala?
— Daniel, aqui é a Luíza, já está muito tarde para irmos ao cinema hoje no Barra?
— Claro que não — falou ele animado – Vou comprar os ingressos para o filme As Vantagens de Ser Invisível, às sete, tudo bem?
— Claro – me apressei a dizer – Como você mora até perto da minha casa quer vir para cá às seis e juntos vamos para o cinema? — ouviu-se o silencio e ele respondeu – Claro, encontro você na sua casa às seis então?
— Sim, agora eu tenho que ir para casa, tá bom?
— Tudo bem, tchau.
Desliguei, fui para o banheiro, tirei a roupa azul da academia, me enxuguei e coloquei um short jeans azul meio rasgado com uma camisa amarela com a estampa XXXVIII Campeonato Brasileiro de Vela 2010 no Yacht Clube da Bahia. Coloquei na minha mochila a roupa molhada, a toalha, o celular e saí correndo, entregando na saída, a chave do armário que eu uso.
***
Saí da academia e fui correndo pela praça me desviando das pessoas e dos objetos. Parei na frente do prédio, abri o portão, fui para o elevador e apertei o botão do 6º andar. Para mim o elevador demorou uma eternidade, e quando a porta finalmente abre, eu saio correndo com a chave na mão. Coloquei-a na fechadura, girei, entrei em casa, tranquei a porta novamente e sai correndo até o meu quarto; joguei as minhas coisas na cama, entrei no banheiro, liguei o chuveiro e fui pegar o roupão. Depois de terminar o banho, vesti o roupão, com a toalha no cabelo e fui procurar algo para vestir, mas decidi ligar o ar para ficar fresco e eu poder colocar uma calça e não ficar com calor. Vasculhei o meu armário e achei uma camisa de alças meio grossas estampada de borboletas coloridas e um short branco. Mesmo depois de ter vestido a roupa coloquei o roupão por cima para não sujar de maquiagem ou molhar por causa do cabelo. Passei um blush rosa e sombra dourada bem clarinha. Separei um gloss vermelho e guardei-o no bolso para passar só no final. Peguei o secador de cabelo e comecei a pentear o cabelo ao mesmo tempo secando-o.
Quando eu estava lendo depois de estar pronta, o interfone tocou e minha mãe gritou da cozinha:
— Filha, o Daniel está subindo, é melhor se apressar.
— Já estou pronta mãe, vou atender a porta.
Saí correndo para a porta jogando o roupão no cesto que fica na porta do banheiro da minha suíte. Quando chego à porta, abro-a e o elevador estava no 4º andar. Fechei a porta rapidamente para ele não desconfiar. Fui para a varanda e quando a campainha tocou, eu abri a porta e olhei para ele. Estava com uma camisa polo branca e azul, calça jeans azul claro e os cabelos bem arrumados. Os olhos verdes estavam bem realçados com a roupa e fiquei olhando-o até que ele me deu um beijo na bochecha e levei-o até o sofá para conversarmos.
Minha mãe chega na sala e aperta a mão do Daniel. Como já se conheciam, não tinha que apresentá-lo a minha mãe.
— Mãe, vamos para o cinema às seis e meia e voltamos umas nove ok?
— Tudo bem, Luiza, mas às dez você vai para a cama.
— Está bom mãe, tchau.
Olhei para o relógio e eram quinze para seis. Se não nos apressássemos não daria tempo de comer e ir para o cinema.
— Vamos, Daniel? Para dar tempo de escolhermos um lugar e comer alguma coisa.
— Vamos. Você não acha que vai estar frio no shopping para ficar de short e camisa fina?
— Tudo bem, vou pegar um casaco no meu armário e volto já.
Fui andando pela sala, e quando passei pelo escritório, que não dava mais para ver a sala, comecei a correr em direção ao meu quarto. Quando cheguei lá, passei pelo banheiro, abri o guarda-roupa e peguei o casaco do cabide. Fechei a porta do armário e sai correndo para a sala. Quando cheguei lá, minha mãe e o Daniel estavam conversando e pararam quando me viram. Ele levantou e se despediu da minha mãe, ao mesmo tempo em que me levava ao elevador. Parecia um tanto apressado.
***
Como o shopping fica a dois quarteirões da minha casa, começamos a andar de mãos dadas pela rua em direção ao cinema.
Chegando à praça de alimentação, achamos um sushi bar que não tinha muita gente e pedimos um Carioca e um Hot Filadélfia. Quando terminamos de comer, eu ainda estava com um pouco de fome porque o sushi não alivia toda a fome. Fomos para o cinema, compramos os ingressos, uma pipoca grande e uma água.
Sentamos na fileira F e começamos a ver os trailers. Quando o filme começou prestamos a maior atenção por um tempo, mas de repente o Daniel olha para mim, chega perto do meu rosto e... me beija...
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