A noite derramava-se em estrelas cintilantes, enquanto na imensidão morna das campinas a brisa balançava a longa relva. Os vaga-lumes passeavam aqui e ali, deixando um rastro fosforescente de um verde-azulado, o qual combinava com o tom de negro acetinado da vastidão acima. Ali, em meio à solidão daquela paisagem, uma única alma passeava sem pressa sob o silêncio, perturbando a inócua paz que se estabelecia.

Pezinhos mimosos e pálidos pisavam sobre o pasto selvagem, com a graciosidade das aves que bailavam no céu. Ela andava, mas não sabia para onde... Apenas continuava em sua caminhada ritmado, acarinhando o gramado com o toque sutil de sua pele. Um passo, depois outro, como se fosse uma deusa gentil a visitar o mundo material, ela enchia de vida a inércia frígida da natureza.

Seus cabelos loiros caíam em cascata até o seu quadril, dando a impressão de uma beleza angélica ou hialina. Ao reparar sobre o tecido que lhe cobria o corpo, no entanto, vislumbrava-se o fogo de sua alma, a qual incendiava o ambiente com todos os tons de rubro existentes, em uma saia rodada a arrastar por sobre o chão em que andava.

O corpete justo marcava tanto seu peito diminuto como a cintura bem delineada, inspirando luxúria até mesmo na lua que a via. A lua, pois bem... Branca como a pele da garota, mas invejosa do vermelho que sua alma ostentava. Ela a admirava, lua cheia, sedenta da paixão que queimava dentro da jovem, no cálido universo das emoções extasiantes.

Nenhum som no ar, nenhuma nota na brisa insólita, mas dentro da mente da garota uma explosão melódica acontecia, em harmonias impúdicas e arrebatadoras que a faziam arfar pela vontade. Seu corpo se mexia, mesmo que a tal não fosse ordenado, e então a magia irrompeu sob a força de seus quadris, em uma dança atrevida e de extrema sinuosidade.

Seus pés agora estavam em meia-ponta, suas pernas desenhavam círculos pelo ar vertiginoso, o qual acelerava-se mais e mais com a cadência de seu corpo. O que mais impressionava, no entanto, era a delicadeza com que suas mãos ondulavam, movendo o espaço ao seu redor e assim direcionando a energia de seu próprio ser. Ela era todas as emoções que a humanidade possuía, e as externava através do movimento límpido de sua dança.

A lua, que era um ente sagrado, conseguia ver as luzes escarlates que fugiam do corpo da dançarina, enchendo o ar com aquele tom encarnado que parecia trazer o planeta à vida. Relva, brisa e estrelas... Tudo agora parecia ter existência própria, inflando o universo com suas respirações descompassadas. Até mesmo as nuvens pareciam acordar de seu sono secular e, em um bocejo, voltavam seus olhos para a bela dançarina a girar, sentindo pela primeira vez o impacto da sedução humana em seus úmidos âmagos.

Aquilo não parecia certo... Por que tal garota havia de revolucionar o céu e a terra quando nem ao menos a lua conseguira efeito semelhante? Ela era tão pálida quanto o astro celeste, de um brancor puro a impregnar os olhos de quem a visse, mas ainda assim o carmim de sua essência era tão raro que nem mesmo o sol o alcançava quando chegava ao ocidente. A lua estava possuída pela invídia, tão enraivecida que suas belas bochechas albinas começaram a tingir-se com rúbea cor, tornando-a tão corada quanto a alma da humana.

Quando, enfim, o astro divino percebeu a mudança que se efetuou sobre sua superfície, sentiu-se um pouco menos infeliz por estar em tal gélida posição. Um calor imaginário começou a percorrer-lhe as crateras, e até mesmo um início de paixão pôde identificar. Era a magia da dança que a impregnava também, inflando-a com a vida afogeada que emanava da garota. De repente até mesmo o silêncio cessou ao seu redor, e a música espanholada passou também a vibrar em cada pedra de seu ser.

Entusiasmada por aquela harmonia, a lua sorriu ao ver os movimentos da menina, pensando se poderia também ela dançar tal qual a humana o fazia. Ela sacudiu-se de um lado a outro, inquieta sob o ritmo daquela canção, e imaginou estar tão graciosa quanto a garota a qual tentava imitar. Não importava, de fato, se a rudeza de seus gestos não pudesses se equiparar àqueles perpetrados pela dançarina... O que importava é que agora sentia tudo o que quisera sentir por séculos, naquele que era o momento mais intenso de sua eternidade.

De repente a música cessou, o céu esfriou, e a dançarina interrompeu seus passos para retornar à sua casa. Tudo voltaria ao normal, aos tons de verde-azulado que sempre coloriram a paisagem noturna. Nada mais a não ser trilhas de vaga-lumes e estrelas prateadas, em uma imensidão negra com requintes de cetim. Do vermelho passou-se ao magenta, do rosa claro ao branco puro, e no instante em que a lua viu-se pálida novamente ela entendeu que não importava quantas Eras ela ainda viveria em solidão, pois naquele único momento ela conhecera o verdadeiro valor da paixão humana, e tal lição compensaria quaisquer dores que seu peito viesse a sofrer dali por diante.

Notas finais
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