A Dança dos Condenados
5 Epilogo
Notas iniciais
A Rainha recoroada e o demônio sem identidade.
Antes que esse relato chegue ao fim, devo afirmar que Kuro nunca mais retornou ao nosso mundo. Algum de seus mensageiros que acabou por coincidência vindo parar aqui e, por mais sorte ainda, conseguiu retornar, ao ser interpelado alegou que o antigo chefe dos Kurotsuno havia falecido. Em seu lugar, fora colocado no poder seu braço direito, um homem que ela nunca chegou a ter contato direto.
Não que ela se preocupasse muito com isso, mas até mesmo uma Rainha Demoníaca poderia sofrer de curiosidade, certo?
Em suas mãos agora se concentravam os três reinos, mais o que sobrara do seu antigo. Nenhum demônio subordinado de qualquer das espécies conquistadas ousava tentar expulsá-la, afinal apenas um Rei poderia fazê-lo, e todos viram muito bem o que ela fizera ao último que tentara.
Assim, para Raven – afinal, estamos falando de seu mundo agora, então talvez seja mais adequado chamá-la por seu apelido demoníaco – tudo parecia ter se ajeitado. A única coisa que lhe lembrava a traição que sofrera, os anos dormindo e o humano que lhe servira era o chifre direito, eternamente deformado. E, para os subordinados que a observavam todos os dias, parecia que ainda estava esperando por alguma coisa quando via seu reflexo num espelho, embora não houvesse nem remorso nem tristeza em seu olhar.
Eis que, em um certo momento, não se sabe quanto tempo depois da batalha que lhe devolvera a coroa, um demônio foi trazido até ela, vindo dos limites de seu território. Ninguém sabia de onde ele surgira, nem para onde ia. Seus cabelos eram alvos, presos em um rabo de cavalo. Tinha orelhas pontudas, assim como chifres relativamente comuns, que quebravam em um ângulo interno e apontavam para cima, completamente negros. Suas escleras também eram negras, com a íris de um branco perolado. Um casaco longo, quase um sobretudo, de cor escura e penugem na área ao redor do pescoço, cobria as vestes sociais, que pareciam tão estranhas aos outros demônios, com exceção de Raven.
Ela não teria lhe dado a menor atenção, contudo… havia algo entre seus lábios. Um canudo branco, de cuja a ponta subia uma fumaça densa. Um cigarro?
Quando o demônio foi trazido à sua real presença e ela viu aquilo, teve um leve sobressalto. Afinal, demônios não fumavam, não existiam cigarros em seu mundo. De onde aquela criatura estava vindo…?
— De onde vem?
O demônio, calmamente, apagou o cigarro na própria palma da mão e suspirou. Aquele maneirismo parecia-lhe bem familiar. — De outro mundo, suponho.
— Você supõe?
— Exatamente. Eu surgi em outro lugar, mas não sei dizer quem me criou ou com que finalidade. Mesmo assim, eu ainda tenho algumas memórias… de lugares que nunca vi, e pessoas que nunca encontrei.
— Você vem de um mundo onde humanos vivem?
— Humanos… — a palavra foi dita com um certo tom indeciso. — Diria que sim, embora a maior parte deles não notem criaturas como eu.
Raven assentiu por alguns instantes, um sorriso malicioso começando a surgir em seus lábios. Seu convidado permanecia calmo e concentrado, observando-a com atenção. Ela deveria entender melhor que ele a situação. Se houvesse uma palavra para definir o sentimento que demonstrava naquele momento, com toda certeza seria exultação.
— Diga-me, demônio andarilho… você tem um nome?
— Não me foi dado nenhum nome. Nem neste mundo, nem no outro. — As garras negras dele brincavam com o cigarro, passando-o entre os dedos, de um lado para o outro. Ele quase não piscava. — Majestade… sinto que já a vi antes, e também este seu reino.
— Eu imagino o porquê… — ela fez um sinal para que se aproximasse. — Prometa me servir, jure ser meu servo pessoal, e lhe darei um nome digno de ti.
O demônio sem identidade não demonstrou estar confuso ou em dúvida sobre aquelas palavras. Automaticamente, seus pés o levaram até em frente ao trono onde a Rainha estava, e um instinto fez com que se ajoelhasse. Raven pôs-se de pé, descendo do assento e ficando diante dele. Um subordinado entregou-lhe a katana que usara para destruir o Colosso do Norte, e ela segurou-a com delicadeza.
Foi num movimento extremamente rápido que ela, com toda a simplicidade do mundo… arrancou o chifre esquerdo dele.
Exatamente ao mesmo tempo em que ele a agarrava pelo pescoço, pressionando-o a ponto de machucar.
Houve uma balbúrdia a volta dos dois, com os demônios que lhe juraram fidelidade avançando para tentar tirar o invasor de perto dela. Mas Raven, com um gesto da mão livre, forçou-os a manterem-se afastados. Embainhou novamente a espada, com simplicidade, e sorriu-lhe, esperando que o outro a largasse. — Agora estamos quites…
— Não imagino o porquê…
— Bom… talvez não deva saber. — Ela deu de ombros, tocando o toco onde estava o chifre que acabara de cortar. — Eu sabia que seria um bom servo, no fim das contas.
O demônio suspirou, pensativamente. Os dedos ainda agarravam o pescoço dela, sem que ele tivesse vontade de soltá-lo. A Rainha abaixou-se, forçando o corpo para a frente e selando com suavidade seus lábios nos dele. O desconhecido, estranhamente, não se opôs.
E então ela moveu a cabeça em direção as orelhas pontudas do mesmo, dizendo com sua habitual voz soturna: — Um dia, me deste um nome em seu antigo mundo. Agora, te farei o mesmo favor.
Ela murmurou um nome estranho, tanto quanto o dela mesma, difícil de mencionar em palavras humanas. Mas as primeiras sílabas eu posso dizer-lhes, pois sei que ficarão curiosos para saber o título dado ao demônio que um dia fora um contratante.
— Crimson…
A Rainha Demoníaca… poderosa como poucos outros Reis, detentora de um dos maiores territórios de seu mundo, Raven.
Seu servo pessoal e fiel, um demônio sem identidade que vagava entre os mundos, nomeado por ela como Crimson.
Uma tinha o chifre direito deformado. O outro, teve o esquerdo cortado.
A história de reinos profanos e cidades pecaminosas nunca termina. A Dança dos Condenados não terá um fim, pois logo outra melodia começará a tocar. Contudo, não me cabe mais cantá-la. Meu breve relato termina por aqui… e o que espera o servo e sua Rainha, só o destino poderá dizer.
Fim…
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