Notas iniciais
Ahkascius encontra um velho amigo, e os dois decidem partir juntos. Imprevistos acontecem, e uma nova pessoa aparece. Essa pessoa não parece confiável, mas Ahkascius não tem escolha.

Com o braço enfaixado, uma capa preta e um capuz, eu deixei a velha cabana. Deixei toda a comodidade que tinha, toda a comida, todos os amigos, tudo que gostava.

— Onde pensa que vai, Ahkascius? — sussurrou uma voz conhecida. Assustei-me e dei um pulo, olhando para os lados à procura da origem da voz. Quando finalmente foquei a visão em um arbusto distante, vi meu velho amigo.

— Volte para dentro, Munin — sussurrei de volta, indicando com a cabeça sua cabana, que ficava ao lado da minha. — Se os caçadores te verem de fora à essa hora, eles vão te matar.

— Eles não podem fazer nada comigo. Eu não sou um bruxo — respondeu confiante, saindo dos arbustos.

— Isso não faz diferença para eles, e você sabe — olhei para baixo, e uma vaga memória veio à tona.

Quando eu tinha quatro anos, eles pegaram minha mãe. Ela não era bruxa, mas eles a pegaram assim mesmo. Só queriam o dinheiro que ela conseguiu com sua colheita, e usaram esse fato contra ela. Deixaram ela presa por muito tempo, até que ela morreu de fome. Eu não recebi nenhuma indenização, apenas um pedido de desculpa dos caçadores. Foi aí que tudo começou, e eu virei um bruxo. Eu queria vingança, e eu consegui, mas paguei um preço muito caro.

— Não importa. Eu vou com você, seja lá para onde estiver indo. Estou cansado dessa droga de vilarejo, e dessa droga de “liberdade”. Como podem chamar de liberdade matar tantas pessoas?

— Você vai entrar para a sua casa e continuar vivendo sua vida, Munin — protestei, retirando o athame do bolso, e posicionando-o em meu pulso.

— Eu convivo tempo demais com você para saber que não é assim que as coisas funcionam, Ahkascius — ele caminhava em passos largos até mim, com um sorriso no rosto. — Além disso, não vou deixar você ficar com toda a glória.

Munin começou a rir, e me abraçou. “Meu velho amigo”, sussurrou. Eu sorri, e soltei o athame. Expliquei para ele o que pretendia fazer, mas não o que já havia feito. Não contei do meu braço, nem de Thurisaz. Ele pensava que eu era um bruxo da colheita, e era melhor que ele continuasse pensando assim.

Tudo ocorreu bem, até que chegamos no portão sul. Muitos caçadores nos esperavam lá, e eu finalmente percebi. Thurisaz contou a eles o que fez. Aquele bendito contou a eles que eu planejava fugir, e que eu era um bruxo. Iam me prender, e Munin iria junto. Eles o matariam, e eu não pude deixar que isso acontecesse. Como que por um impulso, fora de mim, peguei o athame e o penetrei em meu ombro direito. Tudo ficou escuro, e eu apaguei. É tudo o que me lembro.

Հայհոյում

Tudo estava vermelho e invertido. Com o tempo, percebi que o que estava invertido era eu. Meus braços estavam separados, e meus pés juntos. Não tardou até que eu percebesse que eu estava pregado a uma cruz, e aquilo queimava. Doía muito. Não tinha fogo, e mesmo assim, eu me queimava. Aquela dor era insuportável, e eu comecei a gritar, e logo eu o vi, em meio à multidão que gritava “justiça”. Thurisaz estava ali, rindo. Gargalhava tão alto, e aquele som penetrava minha cabeça.

Acordei ofegante, e vi Munin caído. Aqui parece ser uma floresta, mas não sei exatamente onde estamos. Estava de noite, e muito frio. Meu ombro tinha um pedaço de pano, e as bandagens em meu braço estavam encharcadas de sangue, queimadas na ponta. Munin se mexeu, e quando me viu, assustou-se.

— Que droga foi aquela, Ahkascius? E por que você me arrastou até aqui?

— Não foi ele quem fez isso, seu imbecil. Fui eu, e você deveria estar me agradecendo — sussurrou uma voz que vinha de todos os lugares, e logo uma fumaça preta se materializou ao meu lado. — E você, seu imprudente, não pode sair queimando todo mundo que vê pela frente.

A fumaça logo tomou uma forma humana, e foi a primeira vez que vi algo do tipo. Sempre pensei que demônios não podiam assumir a forma humana, mas parece que me enganei. Ou essa garota era um tipo diferente de demônio. De qualquer forma, isso não vinha ao caso. Eu tinha de acalmar Munin, ou...

— Seu demônio desgraçado! — esbravejou, tirando sua espada da bainha e apontando-a para o demônio. O crucifixo nela cravado iluminou-se, e ele recuou. Minha cabeça começou a doer, e Munin correu em direção ao demônio, e a dor aumentou.

— Pare com isso, seu idiota. Você não pode me matar — ela sorriu, e olhou para mim com uma expressão de satisfação —, e eu estou aqui para ajudar. Sem contar que seu amiguinho está passando mal.

— Se você se aproximar dele, eu vou te matar — esbravejou, e dirigiu a espada ao demônio, cortando sua cabeça. — Eu vou te tirar daqui, Ahkascius.

À medida em que Munin se aproximou, minha dor de cabeça começou a piorar. Senti algo escorrer pelo meu rosto, e pensei que estava chorando pela dor, mas não. Sangue escorria dos meus olhos, ouvidos e boca. Minha cabeça estava, literalmente, explodindo.

— Pare com isso, idiota! — gritou a cabeça no chão, que se transformou em fumaça e se juntou ao corpo. A espada na mão de Munin foi jogada para longe com o simples movimento da mão do demônio, que foi se aproximando de mim.

A garota posicionou seu pulso em cima de mim, e um corte se abriu sozinho. “Beba”, sibilou. Eu não tive escolha; gotas de sangue pingavam em minha boca, e eu queria mais. Aquele era o melhor remédio do mundo, e eu queria mais. Muito mais. O gosto era maravilhoso, e toda a dor havia passado. Eu precisava de mais.

— Já chega, você já se recuperou — a garota tirou seu pulso da minha frente, e o corte foi envolvido por fumaça. Quando esta se dissipou, eu não acreditaria que alguma vez houve um corte ali se eu não tivesse visto com meus próprios olhos. — Sou Hugin, a propósito.

Munin se levantou, recuando e retirando um crucifixo da mochila. Não demorou para que o objeto se envolvesse em chamas, e se transformasse em cinzas, que foram varridas pelo vento.

— Seus truques antigos não vão funcionar comigo, e eu só quero ajudar. Se você continuar resistindo, eu vou te matar, não importa o quanto Ahkascius proteste — Hugin respondeu e sorriu, e seus olhos brilharam, fazendo com que Munin percebesse que ela não estava mentindo. — Agora sente-se, fique calado e deixe que eu explique.

Munin não obedeceu, e avançou correndo em direção à garota. Eu só fiquei ali sentado; ainda estou tentando processar tudo que está acontecendo.

— Eu disse para se sentar, insolente.

Munin caiu, e começou a tremer. Gemia de dor, e seus olhos começaram a sangrar.

— Vai fazer o que falei? — perguntou o demônio, e Munin fez que não com a cabeça.

— Munin... por favor, deixe-a falar.

Ele parou de tremer e gemer, e ficou imóvel no chão. “Tudo bem”, tentou dizer. Apagou logo em seguida.

— Sou Hugin, sua protetora, Ahkascius. Assim que Thurisaz voltou e disse o que aconteceu, eu tive de vir aqui. Você precisa se apressar. Essa coisa no seu braço vai te consumir à medida que usá-la. Eu posso colocar um selo nela, mas isso vai ter um preço. Se eu usar meu poder em você, estaremos ligados. Um elo de sangue. A partir desse momento, seremos um só. Sentimentos, pensamentos... tudo. Seremos uma pessoa dividida em dois corpos.

— Não — respondi. — Não, eu não quero. E não quero que você seja minha protetora.

— Você não tem escolha sobre a última parte. No momento em que você nasceu, eu fui designada como sua protetora. A maioria de nós, demônios, não somos tão ruins quanto nos fazem parecer. Apenas não levamos os créditos pelas coisas boas.

— Eu não quero você aqui. Você machucou meu amigo; quem me garante que não fará o mesmo comigo?

— Ninguém, mas você terá de confiar em mim.

— Eu não confio em demônios, principalmente depois de Thurisaz.

— Você não tem muita escolha agora. Você bebeu do meu sangue. Já estamos ligados, mas essa ligação ainda não foi concretizada. Se eu sair de perto de você, em poucos dias você irá enlouquecer. É provável até que mate Munin. Eu posso te ajudar a controlar essa coisa, Ahkascius. Não seja tão teimoso. Sua mãe não iria querer...

— Não fale da minha mãe, maldita — esbravejei, e a dor de cabeça voltou.

— Você precisa da minha ajuda, Ahkascius. Vai definhar em poucos dias. Vamos, concretize a ligação.

Eu não queria. Eu não quero ficar preso a um demônio.

— Se vamos nos tornar um só, quer dizer que eu vou virar um demônio também?

— Não, Ahkascius. Você não vai virar um demônio. Você...

— Tudo bem, eu aceito. O que eu preciso fazer?

Hugin estendeu a mão, e um corte se formou ali. O mesmo aconteceu em minha mão, mas eu não senti nada.

— Um aperto de mãos já basta.

Eu o fiz.

Notas finais
E aí, pessoal! Espero que tenham gostado do capítulo! Não deixem de comentar, hein!?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.