A Dança

4 No intervalo de um cigarro


Notas iniciais
Tema: #4 praia
Beta: Mudoh Belial
Personagens: Camus, Milo
Censura: PG
Sumário: "Certo. Continuem com esse jogo..."

No intervalo de um cigarro

- Me dá um cigarro.

Shura virou-se para o rapaz que apareceu ao seu lado, sem se fazer anunciar antes. Usava roupas de treino e os cabelos se agitavam com o vento que vinha do mar. Num movimento preguiçoso, pegou o maço do bolso da sua camisa. Puxou um cigarro com a boca e em seguida ofereceu o pacote para o garoto mais novo. Milo pegou um e o pôs na boca, aproximando-se de Shura, até que as pontas dos dois cigarros se encostassem. O espanhol acendeu os dois de uma vez.

Milo tragou e soltou a fumaça, indo sentar-se na areia, a alguns passos dele.

Observou as costas do garoto, enquanto este segurava o cigarro entre os dedos, passando a mão na franja e fitando o mar. Não fazia muito que escurecera e estrelas já pontilhavam o céu limpo, sem nuvens. Shura tragou do seu cigarro, antes de falar com o outro:

- Então, qual o motivo da briga dessa vez?

Milo virou-se e ergueu o rosto para o espanhol, que se sentava em uma pedra. Soltou uma risada não muito convincente e ergueu uma sobrancelha.

- Briga? Que briga? Com quem?

- Quem mais poderia ser? — fez uma pausa para mais um trago — Camus.

O rapaz grego fechou a cara e voltou a olhar para o mar, a mão nervosa corria pelo cabelo volumoso.

- Tão óbvio assim, ahn? — murmurou, pondo o cigarro na boca.

- Se fosse outra pessoa, estaria planejando alguma vingança. Não estaria vadiando por aí com essa cara.

O outro ficou em silêncio. Já havia visto aquela cena antes, qualquer que fosse o motivo das discussões com Camus, ele saía andando pelo Santuário a esmo. Como se para esfriar a cabeça, antes que cometesse alguma besteira. Nada nem ninguém podiam chateá-lo mais. Milo não era de se preocupar demais com os outros, pois devolvia na mesma moeda ou pior.

Milo suspirou e ergueu a mão violentamente, fazendo as cinzas voarem e caírem na areia.

- Porque é tão ruim que eu o convide a vir comigo a uma festa? — soltou, com um tom indignado.

- Talvez porque você continua infernizando-o até que aceite ou exploda. — prontamente respondeu.

O garoto o olhou como se Shura tivesse falado algo absurdo. O rapaz mais velho limitou-se a lhe lançar um olhar de enfado.

- Eu só queria vê-lo se divertir pelo menos uma vez na vida...

- Festa de Dionísio? — Shura perguntou, vendo-o concordar com um movimento de cabeça — Oh, entendo... — disse mais para si mesmo.

- O que? — Milo franziu o cenho.

Então, Milo havia "inocentemente" convidado Camus para a festa de Dionísio. Não podia ser mais óbvio no seu intento. Soltou uma risada, fazendo o outro franzir ainda mais o cenho, olhando-o de esguelha, como se dissesse: "perdeu a cabeça?".

Ignorando sua risada, Milo comentou o quão alterado Camus ficou quando insistiu que deveria ir. Estavam com os demais cavaleiros dourados no salão da deusa, discutindo animados o evento próximo. A inesperada reação do francês fez todos prestarem atenção neles, o que deixou sua pele pálida corar agradavelmente. Mas continuou, tendo que criticar a festa grega que o orgulhava tanto, ofendendo-o.

Se fosse qualquer outro, Milo daria um tapa, ou socaria o pobre coitado até ele voltar atrás no que disse. Shura imaginou que ele havia ouvido tudo em silêncio, mas não sem cerrar os punhos, nem sem esconder a mágoa. Claro que não havia dito nada daquilo para Shura, e nem era preciso para visualizar a cena.

- Porque deixa que ele te trate desse jeito, Milo?

- Como assim? — se fez de desentendido, mas logo suspirou e respondeu: — Porque ele é meu melhor amigo.

- Eu sou seu amigo. No entanto, se eu o destratar, levarei um soco na cara. — parou para tragar do seu cigarro — Não creio que o status de melhor amigo o livraria disso.

- Certo. — respondeu em tom sarcástico — E qual a sua teoria?

- Sejamos sinceros aqui, Milo. – começou, ignorando sua pergunta — Como quer que Camus ache que seu convite é tão inocente como quer aparentar ser?

Shura ergueu uma sobrancelha, vendo Milo passar a língua nos lábios, com uma expressão pensativa.

- Oh, ele não pode ser tão ingênuo! – Shura soltou, com uma risada incrédula.

- Bem, ele pode ser tão ingênuo que você nem acreditaria. – Milo voltou a tragar seu cigarro esquecido momentaneamente, soprando a fumaça na direção do mar.

Não podia crer que Milo acreditasse realmente naquilo!

Podia-se avistá-los estando mais perto um do outro que o normal, seu braço sempre envolvendo a cintura do francês, a mão que se erguia para prender uma mecha de cabelo liso atrás da orelha. Tudo permitido por Camus, como se fossem gestos mais que naturais entre amigos. Ainda havia os olhares e as discussões, o jeito como se machucavam um ao outro.

Impossível que Camus não percebesse aquilo que qualquer um com alguma malícia podia enxergar.

Milo terminou de fumar, apagando a bituca na areia fria. Sob os olhares de Shura, se levantou e espanou sua roupa, virando-se para ir embora.

Chamou-o e Milo voltou, os cabelos se agitavam em volta do rosto bronzeado, com o vento forte vindo do mar. Shura pegou algo do bolso e jogou, o grego pegou no ar. Abriu a mão e viu o que era: uma bala simples de menta.

- Ele não gosta do cheiro de cigarro. – simplesmente disse, puxando outro cigarro do seu maço.

- Não faço a mínima idéia do que está falando. – respondeu com fingida inocência, pondo a bala na boca.

"Certo. Continuem com esse jogo..."