A Dama do Coração Partido
6 As Investigações Têm Início
— Acalme-se, Watson. – conteve-me Holmes de minha impetuosidade. – Não podemos simplesmente chegar e fazer perguntas, afinal não queremos chamar a atenção, pois creio que lá se encontram nossos inimigos.
— Você acha que alguém do hospital está envolvido na morte do doutor?
— Não tenho dúvidas. Por que mentiriam sobre o ocorrido, se não fosse para encobrir alguma coisa?
— De fato. Então o que devemos fazer?
— Meu caro Watson, esse é um ótimo momento para me utilizar de minhas habilidades de disfarce e você vem comigo, mas não se preocupe porque seu papel nesse nosso teatrinho vai ser bem simples. Acompanhe-me.
Toda vez que Holmes me dizia para não me preocupar eu sentia que deveria fazer exatamente o contrário. Já me arrependendo de querer participar de suas maluquices o segui até o quarto, onde ele me contaria seu plano.
— Venha Watson, sente-se aqui. – e me indicou a cadeira em frente à penteadeira cheia de acessórios para seus disfarces. – Você, querido amigo, será o paciente.
— O quê? Mas se esqueceu de que eu sou o médico?
— Hoje não, hoje você vai ser o amante que apanhou do marido de sua amada. Nada muito grave que exija ser atendido com urgência, mas nada muito discreto que não indique que você está apenas passeando pelo hospital. Um nariz quebrado, um lábio partido, coisa simples. Eu serei o seu acompanhante que não quis deixar o amigo bêbado sozinho até ser atendido.
— Além de tudo eu serei um bêbado?
— Mas é claro, quem em sã consciência iria enfrentar um marido traído de 2 metros e 120 quilos?
— Só você, Holmes!
— Nós entraremos no hospital e deixarei você sentado em algum banco. Finja que está sonolento, mas observe tudo. Depois de um tempo vá até o banheiro e coloque curativos no rosto para acharem que você já foi atendido e está só esperando o amigo buscá-lo.
— Entendi... mas você não acha que podemos simplesmente entrar e observar? Para que eu preciso fingir que estou bêbado e quebrado? Afinal nem todas as doenças têm um sintoma visível. Ninguém acharia que eu não estou doente só porque não estou sangrando ou com as entranhas saindo do corpo, oras bolas! Para uma pessoa tão inteligente, às vezes você tem ideias estapafúrdias.
Ele ficou alguns instantes em silêncio até que admitiu que seu plano mirabolante para uma coisa simples poderia ser um tanto exagerado.
— Então o que você sugere, Watson?
— Que entremos e observemos, afinal um hospital sempre é cheio de gente. Ninguém vai reparar em nós se formos discretos.
— Está certo, faremos do seu jeito, mas digo que você perdeu uma excelente oportunidade de exercitar suas habilidades no disfarce e nós sabemos que você precisa disso.
— Eu não preciso de nada disso! – retruquei indignado – Eu não costumo me fantasiar e sair por aí fingindo ser quem não sou. Você é que é o especialista aqui e eu acho que isso já basta.
— Está bem doutor, se o senhor não quer desenvolver seus talentos para a dramaticidade eu não vou obrigá-lo, embora ainda ache que seja uma habilidade bastante válida no nosso ramo.
— Mas eu sou um médico! O detetive aqui é você.
— Está certo, não vamos discutir. Vamos seguir o seu plano. Você observa a sala de espera enquanto eu farei minha investigação particular. Vou olhar o lugar onde se deu o “acidente” e ver se consigo informações sem levantar muitas suspeitas.
E assim seguimos rumo ao Hospital St. Bartholomew. Era um dia bastante movimentado por lá, como eu previa. Havia várias pessoas na sala de espera e me infiltrei no meio delas. Encontrei um assento vazio num canto e fiquei por lá. Estava frio e aproveitei para me esconder um pouco atrás do cachecol e do chapéu e como eu imaginava, ninguém estranhou minha presença ali.
Assim que me acomodei, Holmes seguiu em frente rumo ao local da morte do Dr. Edwards. Enquanto eu observava, chegou um homem de cerca de 35 anos que pelos trajes sujos aparentava ser um operário de alguma construção próxima. O homem chegou desacordado trazido pelos companheiros de trabalho e sangrava muito. O sangue vinha de um ferimento na cabeça e ele também parecia ter fraturado uma das pernas, provavelmente uma fratura exposta, porque pude observar que também escorria sangue por sua perna esquerda. Tudo indicava que ele tinha sofrido uma bela de uma queda e seu estado exigia cuidados imediatos.
Os amigos estavam desesperados e exigiam que o ferido fosse atendido logo. Eles tinham razão, porém os atendentes pareciam não lhe dar a devida atenção. Apenas trouxeram uma maca e colocaram pobre homem lá e pediram para que eles aguardassem pelo médico. Mais de quinze minutos já haviam se passado e nada. Eu já estava a ponto de desistir de meu disfarce, mas me contive e agi discretamente. Fui até um dos amigos e ofereci meu lenço, sugerindo que ele o usasse para pressionar o ferimento na cabeça. Ele me agradeceu e acatou a sugestão. Voltei ao meu posto e cerca de cinco minutos depois o homem finalmente foi levado para uma sala.
Todos os presentes se indignaram com a demora, afinal aquele era claramente um caso que precisava de atendimento. Ninguém mais ali na sala de espera exigia tal atenção imediata e ninguém se incomodaria que o pobre homem passasse na frente deles. Depois de observar os comentários dos mais revoltados, entendi que aquele era um procedimento comum. Todos que precisavam de um médico tinham que esperar, não importasse seu estado. Infelizmente com a troca da direção, o Hospital St. Bart’s tinha caído muito em eficiência e atendimento desde o tempo em que eu havia feito minha residência lá. Já haviam se passado uns quinze anos desde minha última visita.
Isso confirmava as suspeitas de Holmes de que era muito improvável aquela história de que o marido de nossa cliente tivesse se acidentado enquanto se apressava para atender uma emergência. Aparentemente, ninguém se apressava para nada naquele lugar, nem para salvar uma vida em iminente perigo.
Depois de aguardar por mais ou menos meia hora e ver apenas duas pessoas, além do operário ferido, serem atendidas, percebi que já tinha visto mais do que o suficiente e saí. Não fui atrás de Holmes, pois não sabia onde ele estava, mas decidi esperar que ele aparecesse do lado de fora. Para minha surpresa, quem estava lá me esperando era ele.
— Até que enfim, Watson! Achei que nunca sairia!
— Como assim? Só fiquei meia hora! Você já terminou suas investigações?
— Certamente. Não precisei de muito tempo para confirmar minhas suspeitas. Agora voltemos para Baker Street e vamos confrontar nossas impressões do lugar.
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