A Dama de Vermelho
2 Manhã Agitada
Notas iniciais
Belmonte, 1890, horas mais cedo.
― Mas vejam só quem aponta no horizonte. ― Um senhor de meia-idade observou uma mulher ao longe que caminhava a passos acelerados. ― Deve estar querendo tirar o pai da forca, não é mesmo, Heitor? ― comentou com o amigo à sua frente.
― É mesmo, Joel! Com essa pressa toda, talvez esteja indo para algum lugar especial ― respondeu com um sorriso travesso no rosto. ― Impressionante que faça sol ou chuva, ela não abandona seu vestido vermelho.
― Aposto que amanhã irá dormir no relento ― uma senhora que varria sua loja sussurrou.
Como o murmúrio da mulher havia sido baixo, os dois homens não a escutaram.
― Pela sua afobação, eu diria que não ― o senhor de meia-idade disse retornando a fala do colega ―, mas tem algo estranho. ― Colocou a mão no queixo, pensativo. ― Não acha ela um pouco perturbada esta manhã?
Eles, então, prestaram mais atenção na dama de vermelho que praticamente corria pela rua a essa altura. Os dois homens a repararam com curiosidade, apesar de todos na cidade já conhecerem seu jeito enigmático por nunca revelar detalhes de sua vida pessoal, os senhores ficaram intrigados com a atitude inusitada da mulher misteriosa. A sensação era de que a moça conversava sozinha, aterrorizada.
― Realmente, parece mais esquisita do que de costume ― Heitor mencionou arqueando a sobrancelha.
― Por acaso, Catarina não aparenta estar vindo da direção do Burlesque? ― O homem de meia-idade a chamou pelo seu nome de ofício ao enrugar a testa.
O colega confirmou com um aceno e logo emendou com um tom de chacota:
― Será que ela roubou o cabaré? Ou melhor, e se a dama de vermelho é uma fora da lei e, por isso, nunca nos revelou nada de sua vida?
― Alguém anda muito interessado no mistério que envolve essa mulher. ― A senhora parou de varrer sua loja, balançou a cabeça e encarou os dois senhores parados na rua. ― Imagina se isso chega até os ouvidos da esposa dele, seu Joel.
― A senhora tem toda razão, dona Rosa. ― O homem de meia-idade respondeu rindo da expressão carrancuda do amigo.
― Por que vocês não vão caçar um serviço? ― retrucou Heitor enfezado. ― Aliás, já está na minha hora.
― Suponho que deixamos ele zangado. ― Joel soltou uma risadinha e em seguida levantou o chapéu em sinal de cumprimento para a senhora. ― Até mais, dona Rosa.
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Em frente à delegacia, as pessoas da pequena Belmonte se aglomeraram para questionarem o xerife Monteiro sobre um acontecimento. Houve uma agitação tão grande e fora do comum que até o centro da cidadezinha ficou menor do que o habitual para tanta gente. O burburinho na rua causou o efeito esperado e, assim que o oficial da lei percebeu a desordem, apareceu para entender a situação.
― Que confusão é essa aqui? ― O homem em torno de seus cinquenta anos observou assustado a quantidade de pessoas diante da sua delegacia.
Como não obteve uma explicação, ele olhou para o sargento Acácio em busca de uma explicação.
― O sargento tem alguma ideia do que se passa nessa cidade? ― Monteiro indagou ao ajudante que também encarava a multidão, ele apenas negou com a cabeça.
Então, o homem tentou mais uma vez chamar a atenção das pessoas, elevou a voz pedindo silêncio e refez sua pergunta.
― Ocorre que o povo é curioso, xerife. Avistamos um amontoado de gente correndo do Burlesque e pensamos que o senhor possuía o motivo da algazarra ― um cidadão respondeu após todos se calarem.
― Não se preocupem, o sargento e eu investigaremos, mas garanto a vocês que tudo está em ordem. ― O homem deu seu melhor sorriso, mesmo compreendendo que aquilo, talvez, não fosse a verdade. ― Vamos até o cabaré averiguar o acontecido, Acácio. E não esqueça do bloco de notas ― seu anúncio saiu baixo, somente para o colega ouvir.
A cidade, definitivamente, havia amanhecido alvoroçada, não lembrava em nada com as manhãs sempre tranquilas. Monteiro buscou apreciar o canto alegre dos passarinhos e o céu azul sem nuvens brancas, entretanto sentiu que em breve uma tempestade cairia sobre suas cabeças, levando embora o resto do sossego da pacata Belmonte.
Ao entrarem no Burlesque, no mesmo instante o xerife e seu ajudante notaram que o ambiente também estava conturbado, porém, tinha uma diferença: os murmúrios se confundiam com o choro das pessoas.
― Meu Deus! Não acredito, morto? ― falou uma das dançarinas com os olhos cheios de lágrimas e um soluço escapou pela sua garganta. ― Há muito sangue naquele escritório. ― Seu semblante abalado não passou despercebido pelos olhos atentos do delegado.
― Quem? Alguém viu o que houve? ― Monteiro questionou.
― Ninguém sabe o que de fato ocorreu, mas o senhor Nogueira foi encontrado todo ensanguentado ― o homem das bebidas comentou no lugar da mulher que chorava sem parar agora.
― Muito estranho ― respondeu Acácio arqueando as sobrancelhas.
― E onde está o corpo? Por acaso o doutor apareceu aqui? ― o xerife indagou o rapaz.
― O doutor? Não, ainda não. ― Gesticulou com a cabeça, para enfatizar. ― Vou acompanhar os senhores até o escritório do patrão.
Monteiro e o sargento Acácio logo seguiram o homem das bebidas até a sala do dono do Burlesque, em completo silêncio. O oficial da lei observou meticuloso tudo e todos à sua volta e, quando chegaram ao local, pediu para que ficassem sozinhos. Necessitavam apurar os fatos sem o pitaco dos funcionários.
Após verificar a pulsação do corpo, o xerife constatou o que já era esperado, o senhor Nogueira havia morrido. Monteiro se impressionou com a tamanha atrocidade com a qual presenciou, pois nunca vira nada desse jeito em toda a sua carreira. Realmente possuía muito sangue espalhado pelo chão e foi quase impossível identificar o dono do Burlesque por causa disso. Os dois homens retornaram para o salão assim que finalizaram as suas anotações.
― Preciso que todos os funcionários compareçam na delegacia. ― O oficial da lei olhou em especial para o rapaz das bebidas, como se clamasse por uma ajuda.
― Agora? ― O xerife confirmou com a cabeça. ― Certo, chamarei as garotas. ― Em seguida, o homem saiu apressado pelo estabelecimento.
A delegacia nunca esteve tão cheia, o espaço que já era pequeno pareceu menor ainda. O xerife analisou cada pessoa na sala, algumas dançarinas choravam em um canto e o resto dos funcionários conversavam baixinho do outro lado do cômodo.
― Começaremos pelas dançarinas, elas se encontram em um número maior. Além de que, tem uma em especial que me saltou os olhos, é a única que não derramou uma lágrima desde que chegou. ― O homem de cinquenta anos encarou o seu companheiro de trabalho.
― Claro xerife, acho que já sei de quem o senhor se refere. ― O Sargento Acácio caminhou até o canto no qual as moças se localizavam.
Após alguns segundos, o homem voltou com um sorriso de ponta a ponta e logo se apressou em explicar:
― Xerife, consegui uma informação melhor ainda. A dançarina em questão encontrou o corpo, poderíamos iniciar com ela. ― Monteiro concordou com um aceno e o seu ajudante espichou ainda mais o sorriso, satisfeito com a sua atuação.
O oficial da lei seguiu até a sua mesa, sem pressa, sentou-se na cadeira e apontou para a outra de madeira à sua frente. Uma mulher de cabelos escuros, olhos castanhos, boca bem rosada e com uma pele tão branca quanto a neve apareceu diante do homem, e sem demora ele a reconheceu, exatamente por quem queria começar. Usando como de costume seu traje habitual, a dama de vermelho obedeceu ao xerife ocupando o assento. Enquanto a moça esperava o homem fazer suas indagações, Monteiro a examinou atentamente e se intrigou mais uma vez pela mulher. Por que raios ela só vestia esse tom de vestimenta? Ele matutou sobre a atitude dela, mas logo deixou isso de lado para focar sua atenção no trabalho.
― Certo, a senhorita poderia explicar sobre o momento em que entrou no escritório, detalhando tudo o que viu?
― Assim que passei pela porta, fiquei assustada com a quantidade de sangue no chão que não reconheci imediatamente a pessoa, porém no instante em que meu choque cessou, ao identificar o senhor Nogueira, corri para chamar alguém.
― E por acaso encontrou com outro funcionário nesse meio tempo?
― Não, apenas com o Israel que avistei no final do corredor, perto do palco. ― Sem esperar por mais uma pergunta, ela complementou. ― Estava muito cedo, geralmente o Burlesque abre mais tarde.
― E quem é esse? ― Ele fixou seus olhos na mulher de vermelho.
― Ele é um garotinho, filho de uma das dançarinas. O senhor Nogueira abrigou os dois quando a moça foi expulsa de casa, o menino sempre anda pelas dependências do estabelecimento.
― Certo, e a senhorita? O que fazia tão cedo ali?
― Ontem à noite o senhor Nogueira me chamou para conversar, mas com o cabaré lotado, ele pediu para passar no seu escritório hoje de manhã.
― A senhorita tem alguma ideia sobre o assunto?
A dama de vermelho pareceu pensar um pouco e, ao responder, o xerife teve a impressão de que ela não estava dizendo toda a verdade.
― Não, senhor. ― Com as mãos cruzadas por cima das pernas, seus dedos bateram ansiosos no vestido.
O oficial da lei balançou a cabeça e escreveu em seu bloco de notas a palavra suspeita com um ponto de interrogação.
― Certo, a senhorita saberia informar se algo estava fora do lugar no cômodo? Ou percebeu a falta de algum objeto? ― O homem segurou o lápis e esperou concentrado pela resposta dela.
― Não me recordo de nada, tudo parecia em ordem.
― E para onde a senhorita foi depois de encontrar o garoto?
― Eu fui atrás do doutor.
― O doutor Almeida? Mas pelo que averiguei, ele não compareceu no cabaré. ― O xerife folheou as suas anotações e em seguida encarou a moça.
― Não consegui avisá-lo, pois ele saiu para atender uma emergência em outra cidade.
Para finalizar o interrogatório, Monteiro fez mais algumas perguntas para a dama de vermelho, uma vez que ele ainda necessitava conversar com o resto dos funcionários e todas as outras dançarinas na intenção de confirmar as informações ditas.
― Antes de liberar a senhorita, gostaria de comunicar que para evitar uma fuga da cidade, enviarei o sargento Acácio para a estação de trem. Até que se prove o contrário, todos são suspeitos, então nenhum de vocês poderá partir enquanto o caso não for resolvido. ― O oficial da lei identificou um espanto na expressão da mulher e novamente considerou suspeita a atitude dela. ― Certo, a senhorita chame a mãe do garoto, por gentileza? Ela será a próxima. ― Em silêncio, a moça balançou a cabeça concordando.
Assim que transmitiu a mesma explicação que deu para a dama de vermelho ao último funcionário, Monteiro refletiu sobre todos os esclarecimentos coletados. Existia algo de muito estranho nessa história, o homem não conseguia achar um motivo para o assassinato do senhor Nogueira. Alguém com certeza não estava falando a verdade e apostaria suas fichas na única que lhe saltou os olhos, entretanto como provaria o fato?
― Que manhã agitada, Sargento! ― O xerife suspirou ao levantar da sua cadeira de madeira. ― Parece que não temos outra escolha, precisamos de uma ajuda extra, esse caso é mais complicado do que eu imaginava.
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