A Dama de Opala
1 Único
Viera por algo que em si pulsava. Jotha, um jovem de traços orientais, cabelos curtos, camisa e calça de tons sóbrios e calçado preto, subia pela estrada à floresta da Tijuca. Observado de perto a cada passo por olhos que não se podia ver, o rapaz seguia ao encontro de quem o desafiara. Na verdade, esta seria a primeira, e talvez, única vez que estariam face a face. O misterioso desafiante que a si se dera o nome de Thanatos o convidara para um duelo, mencionado também no bilhete o fato de tê-lo sob sua vigilância. E para que Jotha não se desviasse do traçado de seus planos, Thanatos enviara de si forças e domínios a vigiá-lo e a cercá-lo.
Desta vez, nada dissera a Porcel do desafio ao qual havia sido chamado. Contudo, de alguma forma, em seu amigo havia um mau pressentimento.
Jotha, enfim, de longe, vendo o fim da estrada, adentrou a mata um pouco antes. Andou por uma trilha, conforme o mesmo bilhete lhe dizia. Por um rastro a cintilar de leve andava, enquanto via a mata em redor e se ele mesmo não estava sendo seguido.
Depois de quase meia hora, avistou de longe uma grande rocha, como uma mesa de pedra, e dali se aproximou. Olhando em redor, não havia ninguém.
— Heeeeeei!
Não havendo resposta, ainda mais depois de cinco e seis chamamentos consecutivos, Jotha suspirou.
— So annoying…
Respirou fundo e, encontrando uma pedra, nela sentou. E acabou por cair no sono depois de muito aguardar, deixando sua cabeça se recostar numa das bordas da grande pedra, junto à qual se assentara.
— o O o -
Acordou com um ribombar que quase o exterminara. Acordou Jotha de seu sono, vislumbrando a cena um pouco enevoada. Diante de si, alguém de costas para ele parecia enfrentar a fúria do que, ao longe, percebeu ser uma poderosa dama, vestida com toda a pompa e circunstância.
— O que é que você tem, seu intruso?
— Eu não permitirei que faça mal ao meu caro!
— E quem você pensa que é para vir enfrentar a minha fúria, hein?
— Eu? Haha! Eu não sou nada, sou ninguém nesse mundo. Mas nem por isso eu vou ficar de braços cruzados, enquanto meu amigo sofre em suas mãos. Isso eu não permitirei! Ao Mui Digno!
E, novamente, como naquele dia em que se encontrara com o amigo, Porcel estava com o cajado e o balançara de leve em pequenos círculos, com o cuidado de não fazer a campainha soar. Um redemoinho se fez e o rodeava; as folhas secas que lhe eram próximas ziguezagueavam pelo vento. Já desperto, Jotha passa a observá-lo e reconhece, então, aquele que o amava como a ninguém mais.
— P-porcel?
— Você não acha que eu iria deixá-lo numa hora dessas, não?
— Haha!
Voltando-se à oponente, encarou-a nos olhos e, fechando os seus, fez os guizos tilintarem. Os ventos assumiram uma feição nova, dirigindo-se ferozes à mulher que se encontrava ao longe. Folhas secas que se puseram como lâminas atravessaram no ar a distância e de ela se aproximaram.
— Click… — um som de castanholas, vindo da parte da dama, fez os ventos recuarem na hora, mudando sua direção, pondo-os contra aquele mesmo que os levantara.
— Ah!? E agora?!
Vendo que a tempestade de folhas se avolumava contra si, Porcel usou o sobretudo que trajava para se proteger, e se pôs diante de Jotha como um escudo contra o ataque.
— Hm… Você não é páreo para mim, a Dama de Opala.
— Talvez… — disse Porcel — Mas…
— Espera.
— Hm?
— Deixa essa comigo, meu caro. — disse Jotha ao seu amigo.
E logo deu o passo adiante, e à dama disse:
— Que história é essa de o meu amado não ser páreo pra você, hein?
— Ah?
— Se você não sabe ou não quer saber, escute isso: ele falhou, não porque ele não possa enfrentá-la à altura. Ele apenas usou de misericórdia para com você, algo que não parece ser capaz de reconhecer esse tipo de coisa. Mas comigo, haha! Comigo a história é outra. Eu não vou ter piedade de você! Ne-nhu-ma!
— Hm… — sorrisos comedidos partiam da dama, que disse — Eu aprecio muito essa sua determinação em defender o seu amigo, meu caro! Foi por isso que eu o chamei.
— Hã? — espantou-se Porcel.
— Pois bem — disse Jotha, achegando-se ao chão e tomando de algo — vamos acabar logo com isso.
Estendeu a cana diante de si, fechou os olhos, respirou fundo e zás! Um pequeno impulso num dos pés e ele começou a se mover pela floresta, saltando e pegando impulso de uma forma graciosa e certeira, como se pelo vento ziguezagueasse. Brandia o mastro ao chão para se suster um pouco mais, chegando até a Dama de Opala bem antes do que se podia supor. E passou a investir contra ela, vezes sem conta, enquanto ela se esquivava com igual destreza. Num dado momento, a dama passou a tentar socá-lo; contudo, Jotha se desviava dos ataques e ainda investia contra ela, agora mais intenso. No limite de suas forças, a Dama de Opala invocou uma augura e o lançou para longe de si. Do outro lado, seu amigo corre para acudi-lo.
— Hei! Hei! Você está bem?
— Ah, Ipora… — disse Jotha, ainda com os sentidos extenuados pelo impacto — eu…
— Você devia ter deixado ela comigo, meu caro. — repreendeu-o com brandura, deixando sua mão repousar sobre o ombro do amigo.
— Pois é, — risos — ela é mesmo muito dura.
— E você tem razão, meu caro. Realmente, eu quis poupá-la, mas agora…
E se levantou, dirigindo-se à adversária.
— Você disse que eu não sou páreo para você, não é mesmo?
— Hm — risos comedidos — Acho que eu disse isso sim, não é?
— Pois bem, — disse e, depois, refletiu consigo — eu irei mudar esse jogo.
E, mais uma vez, com o bastão diante de si, o mesmo redemoinho se forma em redor do moço. O vento e suas folhas secas se avolumavam e se intensificavam; na verdade, pareciam ser mais fortes que os de antes. Da mesma forma, Porcel mirou-a e, logo, fechou os olhos. Em seguida, o tilintar despertou a aura dos ventos, que logo puseram toda a sua ferocidade contra a mesma dama que os repelira da outra vez.
— Será que ele vai tentar aquilo de novo? Que ingenuidade… — disse a dama consigo mesma.
Antes que o vento partisse, porém, Porcel, que havia tomado de uma pedra das do chão, deixou-a cair sobre uma parte rochosa do solo, bem próximo de onde apoiara o seu bordão. E a pedrinha, ao bater contra o rochoso solo, soltou uma pequenina fagulha que incendiou as folhas em volta.
— Oh! — admirou-se Jotha daquilo, aguçando a atenção àquela épica luta. — É isso aí, meu caro! Faça-a ver o que é bom! — torcia ele em seu íntimo.
E os ventos, juntamente à labareda, atravessaram o ar, rumo à Dama de Opala, que logo buscou se proteger do ataque com suas defesas de banimento. Porém, elas em nada puderam contra a investida do moço. As chamas, então, envolveram-na. E, embora a dama ainda resistisse ao dano, seus vestidos não o poderiam por mais tempo, pelo que se pôs à fuga logo enquanto podia.
Quando o ataque a atingiu em cheio, ela gritou às chamas em volta de si. Elas a envolviam sem lhe tocar o corpo; todavia, os vestidos não foram poupados, deixando-a numa situação realmente embaraçosa.
— o O o -
— Hahahaha… — ria e se divertia Jotha. — Quer dizer que…
— Pois é isso o que eu fiz, meu caro. — contou-lhe Porcel em detalhes o que fizera.
— E você poderia ter acabado com ela, e não o fez. Muito admirável a sua atitude, amado. Por isso lhe respeito e lhe admiro muito — observou — E sem contar que não teria graça nenhuma se não fosse da forma que aconteceu, não é?
— Pois é! — riu Porcel, lembrando-se da cara de envergonhada que fizera a dama, quando percebera que estava quase desvestida. — Acho melhor que ela viva constrangida pelo resto da vidinha dela, do que simplesmente ser deportada pro outro mundo.
— Tem razão, meu caro!
— E tem um monte de gente por aí que anda merecendo um golpe desses.
— E… no que anda pensando o amado, hein?
— Ah, sei lá… — desconversou Porcel — Mas uma coisa é certa: assim que eu tiver a chance, não a irei desperdiçar.
E, assim, findaram mais um dia, sentados tarde da noite junto ao quiosque da Cacilda, antiga colega de trabalho de Porcel. Sob o céu de estrelas e ao luar aguardavam por uma turminha que havia combinado com eles um luau, naquele dia, naquele mesmo lugar.
Uma sexta-feira plácida dominga.
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