A Dama de Gelo
1 Dançando no Gelo

A Dama de Gelo
Às vezes, acontecem coisas com as pessoas. Coisas com as quais elas não estão preparadas para lidar.
Suzanne Collins
Cardiff (País de Gales) — 1772
O poema de criança foi recitado cantado e com uma inocência conhecida para Elyah. A Dama de Gelo encarava-a com expectativa, ansiando por uma resposta. A jovem sorriu, colocando uma mecha escura para trás. E aceitou brincar, seria a última oportunidade, afinal, faria quinze em breve, e esta era a idade mais adequada para realizar uma união.
Elyah colocou suas mãos enluvadas sobre as mãos pálidas e frias da Dama. E ambas correram pelo gramado encoberto pela macia manta branca. Livres como pássaros, brincaram com bonecos de neve, deitadas fizeram anjos. Falsa liberdade, logo Elyah teria de partir e se despedir da sua amiga de inverno.
Dama perguntou quando poderia vê-la novamente, esperando que fosse no próximo inverno, como todos os anos. A resposta fez seu interior ruir. Anos, levariam anos para vê-la novamente. Prometeu esperar, naquele mesmo parque, todos os invernos. Ansiava para brincar novamente, tocar sua pele macia e encarar os olhos azuis como o céu mais limpo.
A Dama de Gelo fitou o horizonte, enquanto via sua amiga desaparecer junto da luz. Após ter certeza da partida de ambas, voltou para sua moradia. No ano seguinte voltou ao parque e esperou. O mesmo aconteceu nos três que decorreram, contudo o último foi diferente.
Foi na noite da grande nevasca, a noite que marcava seu nascimento, que teve certeza de que a jovem branca como a neve não voltaria. Lágrimas correram por seu rosto, seus olhos se fecharam, enquanto sentia a neve tocar sua pele, congelando-a. Pensou no poema que sua amada Elyah sentia prazer ao ouvir, um poema suave, delicado, como a brisa de inverno e o cair da neve. Elas o criaram aos cinco anos de idade, quando se conheceram. Ninguém mais saberia como acorda-la, apenas aquele que tivesse a chave de seu gélido coração.
Sua respiração formava uma leve fumaça, cada vez mais fraca, conforme seu corpo enfraquecia, e seu sangue congelava. Tombou a cabeça no banco e relaxou, pela primeira vez em anos.
Cardiff (País de Gales) — 1876
Olhe para mim, e me veja de verdade. Você consegue fazer isso?
Cassie Clare
Hayley fitou seu reflexo por um momento, era apenas uma garota pequena usando um vestido branco que se ajustava com perfeição em seu corpo. Não tinha nenhum atrativo, e ainda tinha o corpo de criança, ao menos era assim que se via. Parecia ter apenas quinze anos, por um lado, isso agradaria um futuro pretendente, por outro, seria menosprezada. Com dezenove anos, solteira e sem pretendente, levava seu pai a loucura.
Gostaria de ser notada. Ter uma aura poderosa, fazer com que não fosse apenas um objeto. Seu irmão era o único que sabia destes desejos obscuros, era errado, uma mulher não podia ter ideias, não poderia ser alguém. Os senhores são os únicos que tem o poder, a autoridade, nenhuma mulher pode ser igual, são todas fracas e manipuláveis.
Seus olhos azuis fecharam por um momento, Hayley queria se distanciar do mundo, e o único modo de satisfazer este desejo, era dançando.
Ao mesmo tempo do crepitar do fogo da lareira, a jovem balançou levemente, fazendo o tecido roçar em seus joelhos descobertos. Girou, e a saia rodopiou consigo. Um sorriso mínimo se formou nos lábios rosados, transformando seu rosto. Deu alguns passos na ponta de seus pés, sem fazer barulho. Moveu os braços com graciosidade abaixava-se para pegar as estrelas do mar, e elevando a mão para o céu colocava-as lá. A dança era uma arte, a sua arte, a ela dedicava sua vida e criava sua poesia.
Seu irmão menor a chamava de princesa da neve, dizia que a suavidade de seus movimentos junta a palidez do vestido o fazia lembrar o cair dos flocos brancos.
Deu seu último giro e fez um reverência, ouvindo as palmas a seguir. Levantou os olhos e encontrou os de seu irmão.
Mais um dos motivos pelo qual sentia-se apagada da família. Sua mãe com seus cabelos negros como obsidiana, e olhos claros, azuis cinzentos, como o céu de inverno durante o dia. Seu pai tinha os cabelos loiros, como um campo de trigo sob a luz do raiar do dia, não dourados como o próprio sol, contudo, seus olhos eram tão azuis quanto o céu noturno límpido, quase violetas.
Hayley tinha traços de boneca, pequena, graciosa, com os olhos da mãe e cabelos do pai, sua mãe a chamava de 'anjinho' por conta disso. Quando observava seu irmão, pensava como seria se tivessem a mesma aparência. Cabelos negros e olhos da noite, esse pensamento a fez sorrir verdadeiramente. Aproximou-se do irmão, e ele estendeu as mãos enluvadas para segurar as dela, foi assim que percebeu que ele tinha acabado de voltar de um passeio.
Sendo a mais velha dos três irmãos sentia-se protetora com eles, ainda mais com o primeiro a nascer, de quem era mais próxima. Apreciava sua companhia mais do que qualquer outra. Elliot era o único quem a ouvia, e a entendia. Hayley se lembrou de quando participaram de um encontro, um baile e os convidados pensaram que eram um casal, a menina riu discretamente após ouvir o comentário, e seu irmão logo tratou de desmentir o fato.
Como estava próximo da maioridade, o jovem deveria começar a busca por uma companheira, apesar de ter mais tempo que a irmã.
Ela entrelaçou seus dedos nos dele, e, sem nenhum som escapar de seus lábios, perguntou onde esteve. E arregalou os olhos conforme a explicação se desenrolava. O encontro entre famílias, a discussão sobre a idade da jovem, sua aparência, suas habilidades e qualidades, motivos variados para que o herdeiro da família Arwel não recusasse o noivado proposto.
Estupefata, deu um passo para trás, a fim de recuperar o equilíbrio. Seus pensamentos giravam, velozes. O jovem a fez sentar no banco do piano, quando suas pernas fraquejaram. Sua liberdade seria tirada, para sempre. Falsa liberdade, forçou o pensamento, apenas adiava o inevitável. Esta noite conheceria seu noivo, o homem com quem passaria o resto da vida.
Fechou os olhos, ela não desejava isso. Balançava a cabeça devagar negando, contudo tentava convencer a si mesma. Jamais conseguiria, após casar acordaria em um pesadelo. Desejava liberdade, a liberdade eterna.
Seu irmão não terminara de falar, entretanto, a jovem não estava disposta a ouvir. Apenas tempos depois quando ouviu ele citar a Inglaterra, e pediu para que repetisse. As notícias estavam apenas piorando, além do casamento, ela teria de se mudar, pelo menos por uma década.
― Você tem de se aprontar. ― o garoto beijou sua bochecha e saiu do cômodo.
Hayley continuou parada por alguns minutos, e após isso, seus movimentos foram quase inconscientes. Lembrava-se de correr, dos servos gritando seu nome e o olhar desesperado de seu irmão.
Sentia que seu corpo desabaria a qualquer momento, sua visão estava enevoada, e a cabeça latejava. Colocou a mãos sobre os joelhos, apoiando-se para recuperar o fôlego e sentiu a brisa gélida tocar seu corpo desprotegido. Estando apenas com o vestido que cobria apenas parcialmente sua pele. Levantou os olhos procurando por algo familiar, e lembrou-se vagamente de onde estava.
O parque de inverno, um local, fruto de sua imaginação infantil. Faziam apenas alguns dias que contara a história das amigas glaciais para Neirin, seu pequeno irmão, e a descrição que dera fazia jus ao que via no momento.
As folhas prateadas belas como as rendas que decoram um vestido de casamento, o sol escondido brilhava como o interior de uma ostra, a neve presa ao chão era uma manta congelada, macia e perigosa. A neve coloria e descoloria o mundo, bela a sua maneira. 'Sem cor, sem cor...' A menina repetiu em pensamento, lembrando da música infantil que cantava junto dos irmãos quando os primeiros flocos caíam.
Seu olhar pousou na figura encurvada no banco, sem ter conhecimento do que poderia ser, aproximou-se.
A dormência se apossava dos pés descalços, e alastrava-se por suas pernas. O poste de luz iluminava levemente o banco que encontrava-se logo abaixo. A figura que Hayley não distinguiu por causa da distância era uma senhora. Que curvava sobre si mesma, apertando o metal curvo do banco com força, tanta que não havia cor em suas articulações.
A menina sentou-se um pouco afastada, não tinha qualquer pista sobre quem seria a mulher ao seu lado, porém sentia conforto e segurança ao postar-se ao seu lado.
Fechou os olhos, deixando sua mente vagar. Quantas pessoas viriam no paraíso deserto procurá-la? Esperava que nenhuma.
Seus pensamentos estavam cada vez mais distantes, passeando por memórias inexistentes, o sorriso de um bebê em seus braços debilitados, sentindo seu coração se tornar um eco suave em um corpo quase sem vida.
Seus olhos se abriram em um susto, não era a primeira vez que tinha este tipo de visão. Todavia, parecia que com o passar do tempo mais frequentes elas ficavam, pareciam cenas de uma vida passada, acreditava nas palavras de seu subconsciente, e Elliot ouvia atentamente com um sorriso nos lábios, sem julgá-la.
Ao olhar o céu percebeu que a escuridão já o tomava por completo. Uma pérola no profundo oceano, era assim que a menina via a lua nesta noite. Pequenos cristais caíam do céu pouco a pouco, e a brisa fazia parecer que fadas voavam agitadas pela noite. Inclinou a cabeça, suas mechas roçaram em seu ombro.
Olhou para o lado e notou que não havia mais uma senhora ao seu lado, apenas uma jovem, aproximadamente com sua idade. Estava na mesma posição da antecessora, apesar de não se encurvar tanto, e a semelhança entre ambas era gigantesca.
A menina variava entre branco e cinza, os cabelos eram tão claros que quase se confundiam com os flocos que caíam, a pele possuía um tom ainda mais claro, o vestido xadrez de boneca tinha alguns laços brancos, contudo o tecido predominante era cinza.
Hayley levantou, indo para a frente da garota desconhecida e analisou a face desprovida de sentimentos, apenas a expressão vazia e gélida. Os olhos tinham a cor do lago congelado as suas costas, tão perigosos quanto, um azul tão fraco que nem poderia confirmar sua existência por cima do cinza.
Sua boca tremia, foi o que Hayley pensou, ao ver que o vestido era apenas de alças, assim como o seu próprio. Neve e gelo, sorriu ao pensar. Franziu as sobrancelhas, percebendo que não era um simples tremor, eram palavras sussurradas.
'A neve, ela prometeu, não voltou, onde está, por favor...'
Sem sentido, assim poderia ser descrita a ordem das palavras proferidas. Surpreendentemente, Hayley entendeu o significado, como se fosse uma lembrança, até mesmo algo que apenas as duas saberiam.
― A neve está caindo. ― apesar de ser um murmúrio na solidão, soou tão alto quanto um grito entre as montanhas.
Ecoou, atingindo todas as células adormecidas da menina no banco. Aquela frase, tão familiar quanto o vento que acariciava-lhe os cabelos.
Hayley repetiu a frase no mesmo tom, continuando a recitar o poema. As palavras vertiam de seus lábios como um rio, e cada uma libertava o gelo de seu pesadelo, trazendo o brilho da vida aos seus olhos.
Sorriram ao mesmo tempo, e seus olhos se encontraram. Azul e cinza, a neve e o gelo. Os dedos alvos tocaram a loira, que fechou os olhos em deleite, tão macios quanto uma pétala, dos olhos de prata transbordava amor e saudade.
― Qual o seu nome? ― quando Hayley respondeu, a outra jovem sacudiu a cabeça levemente, murmurando como ela não mudara nada.
Apenas alguns toques, era o necessário para ambas sorrirem de prazer. Correr os dedos pela pele desnuda do braço, ou pelo rosto, o contorno dos lábios azulados pelo frio.
Eternidade, elas desejavam este tempo infinito para si.
Dançavam, felizes com a liberdade, e por terem encontrado uma a outra depois de um século separadas.
A Dama de Gelo, cantarolava enquanto deslizavam os pés pelo gelo.
Você quer brincar na neve?
Um boneco quer fazer?
Não era apenas um poema, era sua vida resumida nas palavras. Na amizade, a música não passava de um convite cantado para as brincadeiras, um convite de crianças, inocentes, que apenas reconheceram o amor quando foram privadas dele. Na inocência, amigas de coração, depois da separação descobriram ser uma única alma.
A Dama sorria ao lembrar como Elyah amava o nome, as letras que o formavam, e que jamais o trocaria. Hayley e Elyah, tão parecidas no coração, e diferentes na aparência, apesar de possuírem os mesmos olhos, azuis como o céu límpido de inverno, brilhantes como flocos de neve.
Você quer brincar na neve?
Não tem que ser com um boneco
A respiração débil, os membros congelados, o sangue que parecia se tornar sólido em suas veias. Hayley estava sofrendo, aos olhos alheios. Para si, os tremores involuntários, a falta de controle em seus próprios movimentos, não era nada além de seu desejo.
Suas pernas fraquejaram, fazendo com que caísse semi consciente nos braços da Dama de Gelo.
― Gwenhwyfar. ― sussurrou o nome da amada antes de desfalecer.
― Até logo, Dama de Neve.
Você quer brincar na neve?
De alguma coisa que eu não sei
Faz tempo que eu não vejo mais ninguém...
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