A Dama de Cabelos Brancos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ela acordou tarde. Moveu-se devagar pela cama, aproveitou todo o escuro do quarto. Ainda sonolenta, tentou ficar de pé. Foi quando percebeu o horário e desesperada, entrou no banheiro. Atrasada. Não era grave, mas faria diferença. De todo modo, com a água quente caindo pelo corpo e suaves músicas ecoando pela cabeça, ela não se importava. Saiu de casa tranquila.
Sophia sabia que não chegaria no horário certo. Mesmo assim, andava lentamente. Estava um dia nublado, com ventos fortes, mas era agradável. Principalmente para quem não suportava todo o calor que estava fazendo. O tempo chuvoso era além de prático, bonito. O céu tão pálido contrastava de maneira perfeita com todos os prédios ao redor. Se ela ainda carregasse sua câmera, teria parado para tirar uma foto. Uma leve chuva agora a fazia andar ainda mais devagar. "Um dia bonito, com um tempo bonito, e eu tenho uma câmera bonita guardada numa bolsa bonita dentro da minha bonita casa." Ao perceber que estava quase resmungando, ela se assustou com o quão rabugenta deveria parecer agora: uma moça de cara fechada, aparentando ter dezessete anos, esperando na chuva por um ônibus que já a fazia esperar longos quatro minutos. (E ela ainda teria a cara-de-pau suficiente para dizer que se estava atrasada, a culpa era em sua maioria do transporte lento.)
Os quatro minutos viraram sete, e a impaciência da menina aumentava. A cara fechada estava levemente retorcida e ela se preparava para entrar no primeiro ônibus que aparecesse, quando viu uma figura pequena atravessar a rua. Uma garota baixinha, de cabelos curtos platinados e brilhantes olhos escuros. Era impossível não observá-la, e logo a recém-chegada ganhou a atenção discreta de todos. Sophia estava encantada. De maneira estranha, sentia que precisava falar com a moça logo atrás dela. Sorte ou azar, o ônibus passou bem quando tinha decidido falar algo. Desapontada por não ter falado nada, estava quase subindo quando a viu novamente atrás de si. "Sim, com certeza sorte. O ônibus e a garota de uma vez só."
Foi quando estavam lá dentro, espremidas uma perto da outra, que finalmente se atreveu a falar com ela.
- Hey, para onde está indo agora?
- Oh, Fumec. Eu tenho aulas cedo e já estou atrasada. Sabe, eu acabei de vir do Rio e estou ficando na casa de uma amiga, em Ouro Preto.
- É bastante longe.
- Sim! Eu estou procurando uma casa pra ficar aqui perto. Onde você mora? Se importaria que eu ficasse uns tempos...
- Não sou universitária. Ainda estou no Ensino Médio. Mas se não se importar, posso te ajudar a encontrar uma boa república aqui perto. Tenho um amigo que se mudou pra uma recentemente, talvez goste. Sophia. — No meio de tropeços pela quantidade de gente, ela ofereceu a mão. O sorriso da garota ao apertá-la foi magnífico.
- Cristina.
Ela falava bastante, sem o mínimo filtro do que estava dizendo. Estava super cansada, nunca conseguia chegar a tempo nas aulas morando tão longe. Mas estava procurando uma república e já tinha encontrado duas que encaixavam perfeitamente. Estava indecisa entre elas, embora talvez desse preferência a que ficasse mais perto da faculdade. Cursava Fotografia, e adorava o curso. Acha que vai sair muito bem preparada da Fumec. Gosta de tudo, os professores são amáveis e a escola é incrível. A única coisa que a derrubava era a distância. Estava tão cansada que se sentasse agora era capaz de dormir e perder ainda mais da primeira matéria.
Por fim, ela tinha que descer. Mas pouco antes de sair se virou e perguntou rápida pelo número de celular de Sophia. A mesma que estava encantada demais pra pensar rápido o suficiente. Balbuciou os números, torcendo pra que Cristina entendesse e nem lhe ocorreu pedir o dela. De verdade, ainda estava sob o feitiço da bela dama de cabelos brancos quando chegou ao seu destino. Existe melhor momento para se estar na porta de uma psicóloga do que quando se tem a impressão de ter encontrado alguém especial? Ela conseguia pensar em inúmeros momentos melhores, mas não conseguia aceitar nenhum. Cristina, sim, Cristina.
Depois de dissecar toda a situação num consultório, ela descia a rua a pé. Queria passar em um lugar especial antes de ir pra casa. Com o telefone no ouvido, e sem parar de andar, apenas avisou que estaria passando por ali em minutos. Não era uma pergunta. E pelo tom sério que usava, Felipe nada podia fazer se não concordar.
Cristina, Cristina. Em breve ela estaria na casa de seu melhor amigo apenas para contar sobre a garota bonitinha do ônibus. Ela estava se sentindo apaixonada por uma menina que mal conhecia e não parecia achar nada de errado nisso. Mas afinal, ela não havia dado seu telefone para ela? Não iriam se ver de novo assim que ela ligasse? Soph com certeza estaria esperando, com o celular bem perto. Mesmo se ela não ligasse, sempre poderia passar perto da Fumec de vez em quando (Precisamente, toda Quarta-Feira) e acidentalmente esbarrar nela por acidente. Não deixaria que a futura fotógrafa sumisse tão fácil assim depois de em poucos minutos mudar completamente sua vida. Ansiosa, bateu a campainha. A partir desse momento, ficou claro: "Oficial e perdidamente apaixonada".
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