A Dama da Névoa
18 Devolva-me
Acordei por volta das cinco horas da manhã e não consegui dormir mais, fiquei pensando em todas as mortes ocorridas por minha causa. Dona Mercedes, seu Lorenzo, meu tio e quase minha tia. Quatro vítimas de uma mulher espectral que me persegue por motivos que ainda desconheço. E ainda tem Rafael, que me beijou repentinamente na noite anterior.
"Eu te amo."
A cena dele tocando o meu rosto, secando minhas lágrimas flutuou em meus pensamentos. Afundei o rosto no travesseiro e lembrei de sua expressão ridiculamente séria ao proferir essas palavras. Pior que eu não soube reagir, apenas fiquei parada, encarando-o e sabe Deus que expressão eu mostrei pra ele. Só consegui pedir para que saísse do meu quarto. Que tipo de reação foi essa, Lina? Com que cara vou encontrá-lo agora? Eu gosto do Rafael, mas sua atitude me pegou de surpresa.
Por volta das 11 horas da manhã, ouvi passos no corredor na direção do meu quarto, vindo do quarto da minha prima. Em uma atitude impensada e infantil, fingi que estava dormindo.
— Lina? — ouvi a voz do Rafael do outro lado da porta. Não respondi e ouvi a porta abrir vagarosamente. Seus passos vieram até mim e, pela direção de sua voz, estava de joelhos diante da minha cama — Desculpa por ontem. A gente se vê mais tarde.
Me deu um beijo leve na bochecha e saiu do meu quarto, deixando a porta entreaberta. Ouvi-o falar com a sua vó, dizendo que eu ainda estava dormindo, que seria melhor não me acordar até que eu mesma levante.
Fiquei deitada por mais algum tempo e resolvi levantar. Lavei o rosto com a esperança inútil de que eu iria acordar e tudo não passava de um sonho horrível. Olhei-me no espelho ainda com o rosto molhado e senti raiva da vida. Finalmente sequei o rosto e fui ver como estava minha tia, já que ontem ela passou o dia deitada, sem comer e sem falar nada.
— Tia? — bati na porta com os nós dos dedos — Posso falar com a senhora?
Não obtive respostas. Entrei mesmo assim e ajoelhei ao lado de sua cama. Ela estava deitada de lado, com um vestido branco de mangas compridas; seus olhos não largaram o vazio. Posicionei-me em direção àqueles, mas não me enxergavam. Acariciei seu rosto e me surpreendeu com um tapa em minha mão, afastando-me. Fiquei encarando-a, mas ao menos alterou sua expressão... Encostei a cabeça na cama e chorei. Chorei como pedido de desculpas, chorei pedindo para que tudo isso acabasse de uma vez e que ninguém mais se machucasse por minha causa.
Fiquei longos minutos molhando o travesseiro quando senti um afago em minha cabeça. Levantei o rosto e encontrei minha tia com os olhos vivos, porém cansados, e mirados em mim.
— Não... chore... Lina — disse pausadamente, com dificuldade.
— Tia! — abracei-a cuidadosamente.
— Eu estou bem agora... fique tranquila...
— Desculpa! Desculpa! — encharquei seu ombro com minhas lágrimas.
— Não se desculpe, minha querida... Não é... sua culpa. Não é sua culpa sobre nada... nem a morte... daquela garotinha...
Levantei a cabeça para olha-la, mas já estava com os olhos fechados, dormindo como alguém que não descansava há dias... E em paz.
Deixei o quarto silenciosamente e fui para o meu. "Garotinha?", perguntava à mim mesma enquanto deitava na cama.
Permaneci até à noite com pensamentos fora do lugar. De tanto pensar no assunto, meu subconsciente apagou. Acompanhei o escurecer da noite com olhos pregados ao nada, com a mente vazia e cheia de buracos.
Cansada de ficar deitada, resolvi descer. Nem troquei de roupa e desci lentamente a escada, incomodada e perplexa. Dona Virgínia estava sentada no sofá, assistindo televisão.
— Boa noite, dona Virgínia. Desculpa mais uma vez pelo trabalho... — disse enquanto descia degrau por degrau.
— Não se preocupe com isso. Se preocupe em comer, não comeu o dia inteiro. Vou fazer seu prato.
Sentei-me à mesa sem relutar, sem fome e sem proferir sequer uma palavra durante o jantar inteiro. Eu estava tão cansada.
— Você está bem, filha? Mal comeu, só ficou remexendo a comida...
— Minha tia acordou, dona Virgínia... Até falou comigo...
— Ora, mas isso é ótimo! Por que está assim, então?
Sem respondê-la, peguei um prato fundo, coloquei um pouco de sopa que dona Virgínia havia preparado especialmente para minha tia e enchi uma xícara com seu chá favorito.
— Irei levar para ela.
Subi sem esperar dona Virgínia falar algo. Bati na porta com os nós dos dedos e, como canção que deleitou os meus ouvidos, ela respondeu para que eu entrasse. Sentei ao seu lado na cama; estava com as costas apoiadas na cabeceira e as mãos pousadas no colo. De colherada em colherada, dei toda a sopa e agora estava tomando seu chá como se fosse a coisa mais deliciosa do mundo.
— Ah, que delícia! Obrigada — sorriu delicadamente.
— Tia... sobre antes... De que garotinha estava falando?
Mudou de expressão na mesma hora.
— Garotinha? Do que está falando?
— Hã? Mais cedo você disse algo sobre eu não ser culpada pela morte da garotinha...
Ela pôs a mão na frente da boca, pensativa.
— Eu falei isso mesmo? Não me lembro... — desviou o olhar enquanto deixava a xícara no criado-mudo.
Fiquei me perguntando se ela de fato não se lembrava ou se havia se arrependido de ter dito isso. Dei de ombros e levei a louça para cozinha; sorri e disse para que esquecesse essa história, que talvez eu tenha escutado errado.
Ao invés de ligar, preferi ir até a casa de Rafael. Pelo impulso de querer conversar, esqueci daquele ocorrido na noite anterior.
No caminho, acabei passando na frente da casa de Camila e esta estava na porta, regando as flores do canteiro. Assim que me viu, acenou e sorriu. Acenei como resposta, indo até ela.
— E aí... Tudo bem? — disse, receosa como se estivesse com medo da resposta.
— Na medida do possível.
— Que bom que a sombra não está mais ao seu redor... Desculpe não poder fazer nada... — olhou para o chão, envergonhada.
— Nem tinha como você fazer alguma coisa, então não se preocupe — sorri.
— Bom, pelo menos era uma sombra branca...
— Uma sombra branca?
— Perdão, eu não havia te contado isso no dia? Era um espírito bom, tenha certeza disso.
— Então minhas suspeitas estavam certas... Provavelmente era Beatriz tentando me avisar que algo aconteceria...
— Beatriz?
Ao dizer e ouvir esse nome, foi como se minha mente tivesse acordado em um estalo. Despedi-me apressadamente, prometendo contar tudo depois.
Corri até a casa de Rafael.
— Oi, Lina, ele não está... Disse que ia dar uma volta perto do lago. — seu Osmar atendeu a porta com o cabelo bagunçado e um bocejo na boca.
— Mas à essa hora, seu Osmar? É perigoso ir para o lago de noite.
— Na verdade, ele foi de tarde e ainda não voltou... Agora fiquei preocupado, vamos até lá.
Fomos até o lago, na outra extremidade de Sandbolt. Andamos toda a beira e não tivemos sucesso. O pior começou a aparecer na minha cabeça.
— Será que... — não dando tempo de completar minha frase, encontrei Rafael dormindo, encostado em uma pedra. Gritei seu nome e corri até ele e o abracei, fazendo com que acordasse assustado.
— Lina?! O que houve? — retribuiu o abraço mesmo sem entender o motivo.
— Como pôde sumir assim, seu idiota...
— Mas eu só vim descansar um pouco e-
— Não se afaste mais, por favor. Você sabe que pode acontecer alguma coisa com você... — cochichei, tomando cuidado para que seu Osmar não ouvisse.
Ele afagou minha cabeça — Ok, desculpa ter te preocupado...
Fomos juntos para casa. Seu Osmar seguiu para a dele e Rafael me acompanhou até a minha. No caminho, contei sobre o que havia acontecido em relação à minha tia e Camila.
— Então você quer dizer que a sombra era de fato Beatriz?
— Na verdade, continua sendo uma hipótese, mas tenho certeza que ela é uma alma boa. E provavelmente essa garotinha a qual minha tia se referiu é...
— Beatriz. Mas qual seria a relação da morte dela com você?
— Não sei, não faço ideia... É isso que eu preciso descobrir, só não sei como.
Fomos até minha casa pensando no assunto. Ao chegarmos, paramos em frente e nos encaramos.
— Sabe, Lina... Sobre o que aconteceu ontem a noite...
Calei-o com um beijo breve — Boa noite, Rafael. Obrigada por me acompanhar até aqui.
Dei as costas antes que ele pudesse reagir e corri para o meu quarto, enterrando a cabeça no travesseiro para abafar meu grito de vergonha.
Acabei dormindo e acordei sem noção da hora.
— Dormi antes de tomar banho... — senti o melaço do corpo, que me arrepiou em repúdio e olhei para o relógio, marcando 3:21.
Separei uma muda de roupa, peguei a toalha e segui para o banheiro. Fui com a ponta dos pés no chão congelado, só ouvindo o ranger do velho assoalho de madeira. Abri a porta do banheiro e um frio percorreu a espinha. Eu não havia acendido a luz ainda, mas a que vinha de fora pela lua projetou uma silhueta de um corpo suspenso por um fio invisível no teto, com a cabeça relaxada para o lado.
Dei dois passos para trás e continuei encarando a silhueta que balançava sob o fio. Ergui-me para acender a luz e tentar, o máximo possível, não entrar no banheiro. Não havia nada ali. Apaguei novamente a luz e lá estava o corpo pendurado, balançando como um pêndulo de relógio antigo. Em um instante, sua cabeça se ergueu assustadoramente rápido, como se estivesse olhando pra mim. Paralisei; não consegui reagir. Até que aquela risada preencheu o silêncio sinistro que se acumulava ao meu redor. O corpo começou a balançar com mais força; movimentava a cabeça ininterruptamente em vários sentidos, fazendo barulhos estranhos e horrendos. Queria acender a luz, mas o medo de chegar perto era tão grande que senti raízes cravando meus pés ao chão.
De repente, o corpo parou de balançar, relaxando novamente a cabeça para o lado. Um silêncio ocupou o lugar. Fui acender a luz, quando a silhueta se desprendeu do fio e caiu no chão, fazendo um barulho grudento. Desesperadamente, acendi a luz com os olhos fechados. Os abri e me deparei com o corpo de uma mulher nua, com cabelos negros e opacos no chão sangrento. Dei um passo para trás quando a mulher me ergueu o rosto coberto pelo cabelo. Mostrou-me dentes sujos em um sorriso largo demais para ser normal, e gargalhou, me ensurdecendo. Corri pelo corredor e ela veio até mim com mãos e pés no chão; seu corpo estava ao contrário em relação sua cabeça, que girava 360° enquanto corria atrás de mim ao descer as escadas. No último degrau, tropecei na barra da minha calça e caí no chão. A mulher subiu sobre o meu corpo e grudou seu rosto ao meu; olhos arregalados, sorrindo assustadoramente com o cabelo ainda molhado e grudado em seu rosto. Olhava-me fixamente, sem piscar sequer uma vez.
Sussurrou meu nome.
— Lina. Lina, devolva-me. Devolva-me, devolva-me.
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