A Dama da Névoa
2 A mulher que apenas eu enxergava
Notas iniciais
Primeira noite
"Eu mal conseguia enxergar. Tudo estava tão escuro e eu sentia como se meus olhos quisessem fechar sozinhos. Uma faixa de luz rasgou a escuridão, parecia uma lanterna. Quando tentei focar a visão, vi duas pessoas vindo em minha direção. Quem são? Estão gritando o meu nome, chorando e me chamando de 'filha'. A mulher puxou meu braço e correu em direção ao único ponto de luz. Mas, estranho... Depois senti como se eu tivesse deitada, no meu quarto, na minha cama. A escuridão permaneceu e não senti mais a presença daquelas duas pessoas. Mas senti um sussurro em meu ouvido, quase como um sopro. Meus olhos não obedeciam... A escuridão era tão grande que parecia que minhas pálpebras estavam costuradas. Senti alguém segurando o meu braço. Meu estômago queimou ao desespero e tentei gritar, mas minha voz não saía, meu corpo não mexia. Esse alguém segurou meu outro braço e a minha perna. Eu sentia como se tivesse acordada, então tentei gritar com o intuito da minha tia ouvir e vir me libertar daquele maldito sonho, mas eu estava muda, apenas sussurros inaudíveis saíam da minha boca. Tentava de qualquer jeito me mexer, me livrar... Até que mais uma mão agarrou meu pescoço e o apertou contra a cama. Uma voz grossa berrou no meu ouvido, gritando ininterruptamente: 'fique quieta, fique quieta, fique quieta!', e continuou apertando a minha garganta. O desespero tomou conta de mim e tentei desesperadamente gritar. Mesmo que a voz não saísse, continuei tentando."
Acordei berrando, suando e sem fôlego. Acendi imediatamente o abajur e sequei a testa. Minha tia entrou no quarto, quase que derrubando a porta.
— Lina?! Você está bem?
— Estou... tia... só tive um... pesadelo — mal conseguia controlar a voz; me faltava ar.
— Você quer que eu faça um chá para te ajudar a dormir? Um pãozinho com manteiga...
— Está tudo bem, tia, obrigada. Já passou — tentei sorrir em meio aos tremores. Parece que ela acreditou, quando assentiu e fechou a porta.
Assim que ela desapareceu atrás da porta, levantei e fiquei rodando pelo quarto, apavorada. Olhei para o relógio que marcava 3:06 da manhã. Sentei na cama e abracei as pernas, balançando o corpo na tentativa de dissipar esse desespero que ainda estava penetrado em meu peito. Após me acalmar um pouco, apaguei a luz e deitei. Estava totalmente escuro, mesmo com a cortina da janela aberta, onde a fraca luz da rua deveria entrar. Ficar de olhos abertos em meio à escuridão me dava arrepios, então os fechei, mas senti uma presença estranha dentro daquele quarto... Havia alguém além de mim. Morri de medo de abrir os olhos, então só me envolvi na coberta e esperei o sono vir e me fazer esquecer tudo isso. Mas ele não veio. Fiquei acordada até às seis e meia, com a mesma impressão de que havia alguém no meu quarto, me observando de um canto da parede.
Cheguei na escola exausta, com olheiras gigantes. Sentei no meu lugar e recostei a cabeça na mesa fria de madeira.
— Lina? Você está bem?
— Estou, só não consegui pregar o olho.
— Quê foi? Medo de escuro, mesmo tendo 16 anos? — Rafa soltou uma risada debochada.
— Medo do que eu não posso ver.
Não olhei para seu rosto, continuei com a cabeça abaixada. Ele apenas se calou e virou para frente. Alguns minutos depois, quem veio me perguntar isso foi a minha melhor amiga, Olivia.
— Lina! Você está horrível! Aconteceu alguma coisa?
Dei risada — Obrigada por esse elogio. E não aconteceu nada, só tive insônia na noite passada. Ah, mudando de assunto, você viu que chegou uma mulher aqui na cidade?
— Mulher? Não vi, não... E faz anos que não vem algum visitante.
— Quê? Teve alguém de fora por aqui? — Rafael se virou de novo para minha mesa, se intrometendo na conversa.
— Vocês não viram? Então ela deve ter ido embora...
— E ela era bonita?
Como sempre, mulherengo. E ainda diz gostar de mim — Bonita até demais, na verdade. Mas tinha algo estranho nela... Seus olhos pareciam pupilas gigantes.
— Ah, mas isso é bem normal — Olivia ajeitou os óculos vermelhos para dar um ar intelectual — Quanto mais melanina tem na íris, mais preta ela é. É raro, mas normalmente são africanos, asiáticos e tal.
Quando eu ia comentar sobre suas roupas inapropriadas para o frio e o sorriso estranho, o professor entrou na sala.
.
Eu estava arrumando minhas coisas para ir para casa, quando Rafael parou diante da minha mesa, segurando a bolsa transversal.
— Vamos, Lina? Podemos subir a montanha, já que tá esse frio lascado que eu sei que gosta.
Sorriu de um jeito tão apaixonante que quase esqueci que ele era um idiota. Como sempre, eu não ia fazer nada a não ser sentar na varanda e observar o movimento igual a uma velha fofoqueira. Concordei e saímos juntos da escola.
Subimos a pequena montanha, que mais parecia um morro e sentamos na grama molhada devido a geada.
— Hoje faz dez anos, não é?
— ...Sim.
Hoje fazia dez anos que nossos pais morreram em um incêndio acidental. Nós tínhamos apenas seis anos. Não sei direito o que aconteceu, minha tia não gosta de falar dessas coisas comigo... Só sei que nossos pais estavam reunidos por serem antigos amigos, até que aconteceu um incêndio que iniciou-se a partir de uma vela, já que a cidade estava sem energia elétrica. Mal contada, mas foi isso que ouvi ao longo destes dez anos.
— Não consigo lembrar do rosto deles. Sonhei com um casal na noite passada, me chamando de "filha", mas eu não sabia quem eram. Não acredito que não os reconheci...
Rafa passou a mão no meu ombro e me trouxe para perto dele. Abraçou-me tão forte que pude sentir o calor do seu corpo. Eu sentia vontade de chorar; meu peito doía e meu nariz ardia. Mas... eu não conseguia. As lágrimas simplesmente não caíam.
Encostei minha cabeça em seu peito. Quando olhei para frente, avistei aquela mulher de ontem.
— Ah, aquela mulher que eu disse!
— Hã? Onde?
— Para de ser cego, ali!
Mesmo eu apontando, ele parecia não enxergá-la. A mulher vagarosamente virou-se e sorriu para mim. Aquele sorriso. Meu estômago se retorceu e comecei a suar frio.
— Lina? O que foi?
Eu apenas pisquei e ela já não estava mais lá.
— Rafa, é melhor eu voltar para casa.
— Mas o que houve? Você está pálida!
— Nada, eu só preciso volt...
Quando levantei, ela estava aqui. Atrás de mim, acariciando meus cabelos e sussurrando algo que não entendi.
Ela estava... Sorrindo.
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