A Dama da Névoa

12 A escuridão que me cativou


Ela relaxou a cabeça para trás e gargalhou. Em um ato que me causou frio na espinha, virou o rosto rapidamente para mim e, com os seus olhos assustadoramente arregalados, sussurrou bem perto do meu ouvido.

— Pensou que ia escapar?

Fechei os olhos com toda a força e virei de lado, tentando ignorar sua risada sádica bem perto do meu ouvido. Segurei a camiseta do Rafael e o chacoalhei em um ato desesperado de acordá-lo.

— Lina...? O que foi...?

Mesmo depois de ouvir sua voz sonolenta, não me atrevi a abrir os olhos. Encolhi-me perto dele e usei seu peito para esconder os olhos, tentando encobrir as lágrimas que caíam sem parar e os soluços provindos delas. Eu não disse nada, mas Rafael já havia entendido. Senti seus braços me envolvendo e o queixo apoiando na minha cabeça.

— Não há nada aqui... Ela já foi, só estamos eu e você agora... — sem me soltar dos seus braços, ele mexia no meu cabelo enquanto cantarolava uma música aleatória para me acalmar.

— Desculpa te acordar... É que eu vi-

— Shhh, não fale sobre o que já passou. Não diga seu nome, não a chame. Shhh...

Dizia isso enquanto dava leves tapinhas na minha cabeça, como se estivesse acalmando um bebê em seus braços. Encolhi minhas mãos no peito e me deixei levar pelo abraço mais aconchegante que recebi em toda minha vida. Sentindo o carinho da sua voz em uma canção de ninar, acabei pegando no sono.

Acordei com o sol batendo em meu rosto. Queria continuar dormindo porque estava tão quente e confortável... Em um estalo, lembrei da forma que eu havia dormido. Abri os olhos e vi que Rafael ainda estava com os braços entrelaçados em mim, mas um pouco mais afrouxado. E estava com o rosto apoiado em seu peito, ouvindo seu coração bater.

Ouvi um murmúrio provavelmente vindo da cozinha. Olhei o relógio da parede e marcava duas horas da tarde. Nossa, tão tarde assim?!

— Ei, Rafa, acorde...

Ele apenas resmungou, mas não se mexeu do lugar ou sequer abriu os olhos. Apertei levemente a sua bochecha, repetindo o meu chamado pra que acordasse. Ele novamente resmungou, mas me apertou ainda mais em seus braços. Constrangida com a situação, eu não sabia o que fazer. Será que é melhor fingir que estou dormindo para ele acordar primeiro?

Meus pensamentos foram quebrados quando fitei o seu rosto dorminhoco. Era delicado ao mesmo tempo em que masculino. Delicado pelos seus cílios compridos com olhos redondos e masculino pela sua mandíbula proeminente, com um resquício de barba malfeita.

Enquanto viajava em seus traços, ele acordou, me encontrando com os olhos fixos nele. Senti meu rosto queimar de vergonha e vi o dele ruborizar levemente. Disfarçando, ele sorriu apaixonadamente para mim, acariciando a minha bochecha com as costas do dedo indicador.

— Bom dia, Lina. Dormiu bem?

— Sim, graças a você... Obrigada.

Pareci mais seca do que gostaria. Era impossível controlar isso, mesmo quando eu queria ser amigável.

— Eu espero que não, mas se acontecer de novo, não tenha receio de me acordar, tá? Ficarei triste se souber que hesitou ao me pedir ajuda. — encarou-me com seus olhos cor de verde-mar.

Concordei timidamente, desviando o olhar e tentando mudar de assunto — Vamos levantar, acho que seus avós estão na cozinha... Já passa das duas.

Escapei de seus braços e caminhei até o banheiro, sentindo o olhar de Rafael me acompanhar. Tranquei a porta e, ao olhar despercebidamente para baixo, percebi que uma ponta da barra da minha camiseta estava presa no sutiã, deixando uma parcela da minha barriga à mostra. Morrendo de vergonha de ter sido vista assim, rapidamente abaixei a camiseta e encarei o meu reflexo no espelho, vendo minha cara de idiota. Lavei o rosto, escovei os dentes e saí do banheiro enquanto amarrava meu cabelo emaranhado, dando de cara com Rafael em pé, que sorriu ao me ver.

— Sabia que você fica mais bonita com o cabelo preso? Você têm os olhos de uma cor peculiar, um azul bem escuro... Eles se sobressaíram com seu cabelo assim — brincou com uma mecha solta perto do meu rosto.

Por que ele tem que falar essas coisas? O que eu respondo agora?!

Cocei a cabeça envergonhadamente e desviei o olhar, fitando o chão — Obrigada...

Ele sorriu e fomos para a cozinha, nos encontrando com dona Virgínia e seu Osmar lavando a louça juntos. Havia alguns pratos tampados em cima da mesa.

— Boa tarde, pombinhos. Isso é hora de acordar?! Nós somos velhos, então não pudemos esperar vocês para almoçar, já comemos... Também não quis acordá-los, estavam tão bonitinhos abraçados daquele jeito... — dona Virgínia riu, me deixando com vontade de enfiar a cabeça no chão. Indicou-nos para sentarmos e mostrou nossos respectivos pratos.

Depois de comermos, eu e Rafael lavamos a louça. Dona Virgínia e seu Osmar nos esperávamos para ir à praia enquanto assistiam tevê. Assim que terminamos, troquei de roupa e fomos ver o mar que ficava absurdamente perto de onde estávamos. Obviamente, não coloquei sequer um dedo no mar; o dia estava frio, mas não tanto quanto em Sandbolt. Só sendo louco pra nadar com esses 9ºC.

Sentei na areia gelada e abri um livro que eu trouxe de casa. Quando olho para o mar, vi Rafael correndo em direção à água, junto com os avós. Dei risada pela loucura em família e comecei a leitura, não cogitando a hipótese de me juntar à eles.

Depois de muitas tentativas inúteis de me levar até a água, li mais que a metade do livro quando a família desmiolada resolve voltar para casa. Quando dei às costas para o mar, senti uma sensação estranha. Tive anseio de virar, mas ignorei e continuei andando.

Era por volta das cinco e meia da tarde. Eu, Rafael e a dona Virgínia passamos o final da tarde ora conversando, ora jogando carta, enquanto seu Osmar mexia com suas tralhas de pesca.

Jantamos lá pelas oito horas da noite em um clima amigável que eu não tinha em Sandbolt. Um ar que eu conseguia respirar tranquilamente.

— Pessoal, vou para a praia para pescar. Alguém me acompanha?

No final das contas, fomos todos juntos com seu Osmar. Como a casa se encontrava bem afastada do centro, nós éramos praticamente os únicos na praia. Havia mais uma família, mas eles estavam à, talvez, mais de um quilômetro de distância.

Hoje era uma noite sem lua.

Nos ajeitamos nas cadeiras de praia e seu Osmar armou as tralhas de pesca junto com Rafael e dona Virgínia. Os três amavam pescar.

A praieram a essa hora era assustadoramente bonita. A luz dos postes da calçada eram barradas pelos coqueiros, iluminando parcialmente onde estávamos e não dando pra enxergar quase nada.

O som das ondas se quebrando me cativavam cada vez mais. Aproximei-me do mar, sentindo a água menos gelada² em meus pés. No horizonte, havia montanhas; uma parte delas estava enevoada, outra parte estava completamente escura. A falta de claridade, ou melhor, a total ausência dela, me causava arrepios. Eu sentia uma sensação de que faltava algo. Mas, o mais estranho, é que eu não consegui tirar os olhos do breu naquela parte da montanha.

A escuridão foi tomando parcialmente as poucas nuvens visíveis, como se avançasse até mim. Olhei para o horizonte ao todo e aquela paisagem me dava uma sensação... estranha.

Com os olhos fixos nas montanhas, comecei a caminhar para dentro do mar, sentindo as ondas me puxando conforme voltavam para o oceano.

A água já batia em meu joelho. Um vento passou e mexeu nas folhas dos coqueiros na calçada. O mar completamente negro e opaco se mexia suavemente, dançando ao som do vento, produzindo pequenas ondas que se chocavam em minhas pernas. Eu estava extasiada, fascinada com o mistério que o lugar produzia. Sentia uma vontade imensa de mergulhar nessa imensidão obscura. Fui adentrando cada vez mais, sentindo a elevação da água aumentando em minhas pernas.

— Lina...?

Ouvi alguém chamar meu nome. Onde?

Continuei caminhando para dentro do mar, ainda olhando fixamente para as montanhas. Senti a água tocando minha cintura, em um nível em que não havia mais daquelas pequenas ondas que se formavam no raso. O mar estava completamente plano e calmo.

Senti uma mão puxando meu ombro.

— Lina!

Olhei para trás, era Rafael. Ei, espera... O que eu estava fazendo agora? Dando-me conta e sem entender o meu objetivo, andei de volta para a areia sem olhar diretamente para ele.

— Ei, Lina, espere! O que você estava querendo fazer? É perigoso nadar essa hora!

— Desculpe, eu só...

Eu não sabia o que dizer. Eu não sabia o que eu ia fazer. Momentos atrás, não senti como se fosse eu... O que está acontecendo?

À caminho da areia, com a água já abaixo do joelho, algo agarrou meu pé. Gritei desesperadamente e corri para fora do mar, caindo na areia úmida e dura.

— O que foi, Lina?!

Forçando a vista, percebi que era uma sacola. Suspirei, aliviada, levantando-me.

— Não foi nada... Uma sacola enroscou na minha perna e eu me assustei — ri envergonhadamente — Desculpe te preocupar.

Voltamos para onde os avós dele estavam.

— Minha filha, você está bem? Ouvi um grito do meu neto chamando seu nome...

— Não era nada, dona Virgínia... Eu estava distraída olhando a paisagem e não o escutei chamando, só isso...

Ri e ela pareceu acreditar na minha mentira, sorrindo e depois voltando a atenção para a vara. Sentei na cadeira e enterrei os pés na areia gelada. Olhei para frente e tentei entender o que eu estava prestes a fazer. Senti os olhos preocupados de Rafael repousados em mim, mas fingi não o ver e olhei para o chão, logo brincando com a areia em meus pés.

Passamos um tempo assim e eu não me atrevi a olhar para o mar novamente, apesar de me sentir estranhamente atraída por tal paisagem sombria.

Pouco depois, começou a chover. Recolhemos as coisas rapidamente e voltamos para a casa correndo.

— Ai, ai, no fim não pescamos nada...

— Não fique desapontado, querido, amanhã nós iremos novamente para a praia tentar pescar, tá?

Dona Virgínia batia levemente nas costas do namorado, tentando consolá-lo. Era em torno das 11 horas e não tínhamos mais o que fazer. Dona Virgínia e seu Osmar resolveram dormir, então eu e Rafael também fomos para o quarto. Sem sono por termos acordado tarde, sentamos na cama e, como único passatempo existente lá, jogamos carta até duas horas da manhã.

Até então eu já havia esquecido o incidente daquela hora. Percebendo que Rafael já estava quase caindo de sono, decidimos parar o jogo e dormir.

A maioria das pessoas gostam do barulho da chuva. Eu detesto. Com o vidro da janela tremulando devido ao vento e o barulho da chuva caindo no telhado, não consegui pegar no sono, mas também não me atrevia a ficar de olhos abertos.

Ao ouvir o ronco de Rafael, me aproximei sorrateiramente dele, segurei a sua mão e encostei a testa em suas costas. Cobri a cabeça com o cobertor e, ao me sentir mais segura, finalmente consegui dormir.

.

Acordei com um baita frio nas pernas. Julgando pela claridade, já estava de manhã. Sentei na cama e, quando fui cobrir minhas pernas, percebi que meus pés estavam molhados e cheios de areia.

Notas finais
² à noite, a água do mar é quente por ter absorvido calor ao decorrer do dia. Por ter sido um dia frio, a água ficou apenas menos gelada. Obrigada por ler!