A Dama Branca

1 Capítulo 00


—Hum...com licença? – pergunto entrando na não tão pequena sala. Uma mulher, por volta dos quarenta anos, vira a cabeça na minha direção sem muito interesse e faz um sinal para que me sente em uma das cadeiras enquanto espero meu nome ser chamado.

Era estranho estar na diretoria pela primeira vez, é como se os sentimentos de culpa e rebeldia se misturassem de um jeito que fosse impossível deixar o coração parado. Claro, seria mais emocionante se eu estivesse aqui por algum ato de desobediência que pudesse me orgulhar... Mas na realidade, não chega nem perto disso.

Sento ao lado de um garoto, não, de um ser. Um ser sem rosto; que não parecia poder ouvir nada do mundo exterior, pois seus ouvidos foram tomados por uma melodia estrondosa; com os olhos fechados para todos e coberto por um longo manto preto e modéstias calças esfarrapadas, que refletiam os últimos traços de sua humanidade.

—Olá. – falo em uma tentativa estúpida de fazer contato com a criatura, acho que não é dessa vez Charlie. Sento-me a uma cadeira de distância do garoto e pego meu celular na tentativa para passar o tempo.

O problema de se distrair com um celular, é que não dá para se distrair com o celular. Talvez por minha falta de criatividade para baixar aplicativos ou a memória pequena demais para ter algo além de um vídeo ou a chatice de se sentir obrigada a responder mensagens, sejam os motivos para que minhas experiências com celulares não sejam lá as melhores.

Mas sabe como é, tempos difíceis exigem medidas extremas. Se o ditado é esse ou não, não importa, você entendeu o que eu quis dizer. Depois de três tentativas, debloqueio aquela telinha e começo a vasculhar.

Trinta minutos, que mais se pareciam horas, passaram-se e eu já estava cogitando seriamente a ideia de ir dormir e pedir para a senhora que ficava atrás do balcão me acordasse quando fosse a hora, isso é claro se ela já não estivesse dormindo também. Enquanto olhava para a tela do aparelho sem saber o que fazer, alguém toca no meu pulso.

—Pode me emprestar seu celular? – tomo um susto ao perceber que a mão gelada que tocava casualmente meu pulso, pertencia ao ser desconhecido e companheiro de cadeiras.

Fico um tempo analisando a situação, literalmente. Começando pelo garoto, agora que ele tinha tirado o capuz preto e os fones de ouvido, notei que seu cabelo era pintado de brando, fazendo contraste com as suas sobrancelhas negras, e suas orelhas eram enormes, com dois piercings em cada. Seus olhos eram de gato, astutos e ao mesmo tempo em que pareciam entediados era como se estivessem debochando da sua cara, a cor complementava mais ainda esse perfil, um tom âmbar puxado levemente para o verde.

Ele estava esticado sobre a cadeira que nos separava e tocava no meu pulso como se nos conhecêssemos há tempos. Ele tinha uma expressão... indefinida? Não é como se estivesse sério, mas também não estava sorrindo.

—Então a criatura fala... – deixo escapar, de vez em quando isso acontece, juro que não faço a mínima ideia do por que, simplesmente escapa.

—Que?

—Nada. – ele franze a sobrancelha, tenho uma leve impressão de que ele deve estar me achando estranha, não no sentido bom, mas não o culpo, também acharia. Para tentar melhorar a situação, mudo de assunto.

—Então, o que você disse?

—O seu celular, me empresta?

—Agora é minha vez de ficar confusa.

—Acabou a bateria. – ele tira o celular do bolso e me mostra – Não se preocupe, não é como se eu fosse invadir as suas coisas, só quero ouvir música. Qualquer tipo serve.

—Não dá para ficar sem ouvir nada? – não falei isso com a intenção de ser grossa, por causa da minha curiosidade às vezes esqueço que as coisas podem parecer grosseiras. Felizmente ele pareceu não se importar.

—Não. Já viu esse lugar? Não dá para ficar aqui sem fazer nada por muito tempo, se não...

—Se não...

—Você pode acabar ficando assim. – ele aponta para moça do balcão, ela olhava para a tela do computador sem mover um músculo, enquanto uma mosca vagava pelo seu coque.

—Oh não, ela já atingiu esse estado?

—Não, não, você ainda não viu nada. Tem um cara muito pior ai dentro. – ele faz um sinal para a porta da sala do diretor – Ele passou do ponto de ficar como mosca morta olhando fixamente para uma tela, agora ele está no estágio de atormentar os mais jovens com discursos de como desperdiçou a sua adolescência.

—Coitado.

—Não é?

—Você parece conhecer ele muito bem, digo, para conhecer tanto dos sintomas...

—Eu venho aqui frequentemente. Falando nisso, quem é você? Não me lembro de te ver por aqui. E olha que sou o rei desse lugar.

—Uou, quer dizer que estou falando com um delinquente?

—Ahn, talvez. Mas também venho aqui quando não tenho nada para fazer. Você ainda não me respondeu.

—É minha primeira vez aqui.

—Ah, então você é do tipo nerd? Sabe que fica na frente, não entra em confusão, a pessoa que empresta a tarefa quando os outros esquecem.

—Não, não tenho inteligência para ser nerd.

—Então é a deslocada? Não tem amigos, não leva desaforo das populares e se acha a alternativa.

—Também não.

—Então de que tipo você é?

—Do tipo normal.

—Hum... que droga, em?

—Pois é. – levemente ofendida? Sim, mas era verdade.

—Então e quanto ao celular?

—Ah sim, eu não tenho músicas.

—Que?! – ele me olhou espantado, talvez um tanto ofendido.

—Ele não aguenta armazenar nem dois vídeos!

—Foda-se os vídeos, como alguém consegue viver sem ouvir música?!

—Pessoas do tipo normal. – retruco.

—Não, não, não. Pessoas normais escutam música, pessoas legais escrevem músicas, mas só pessoas com um grande vazio no coração não as escutam.

—Posso lhe assegurar que não tenho nenhum vazio e vivo uma vida perfeitamente normal. Até que normal demais. Tão normal que meu nome do meio é normalidade.

—E meu nome do meio é desprezo. Depois dessa todas as expectativas que eu tinha de você ser uma pessoa legal foram por água abaixo. – ele volta para o seu lugar e coloca novamente os fones.

Tá! Eu também não tinha nenhuma expectativa de um cara que classifica as pessoas como “nerds” ou “deslocadas”.— ele me ignora e fecha os olhos, babaca.

Depois de mais alguns minutos, alguém toca no meu ombro me acordando. Era a senhora do balcão.

—Charlie Lambert, o diretor está lhe chamando em sua sala. – sua voz não tinha nenhum sentimento e seus olhos não tinham foco, odiava ter que concordar com o Presidente Babaca, mas era realmente uma “doença” terrível.

—Ok, estou indo. – me levanto e ajeito meu vestido, que por sinal estava todo suado por eu ter ficado tanto tempo sentada.

Dirijo-me até a porta, mas antes de entrar escuto alguém resmungando em uma altura suficiente para que todos que estavam naquela sala escutassem.

—Adeus Chalie Não Escuto Músicas Lambert.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.